NFJ#273¬†ūüćā¬†O coronav√≠rus vai mudar (tamb√©m) o jornalismo

Oi, gente, como est√£o?

L√≠via tocando a news hoje, com a colabora√ß√£o do Moreno :-) Ambos em quarentena, assim como a maioria de voc√™s, certo? E embora eu esteja na Inglaterra, as cenas que vejo s√£o bem parecidas com as do Brasil: ruas vazias, mais pessoas com m√°scaras pela cidade, um clima pesado no supermercado. N√£o t√° f√°cil, a cada semana que passa aumenta a incerteza sobre como ser√° o mundo daqui pra frente. E sobre como ser√° o jornalismo tamb√©m, por que n√£o. Hoje vamos falar um pouco sobre essas proje√ß√Ķes e j√° adianto que n√£o s√£o muito boas, infelizmente. Nas palavras de Rasmus Nielsen, ‚Äúbad things will happen‚ÄĚ.

Mas calma. A hora √© mesmo de respirar e viver um dia de cada vez. Antes de abrir o vinho e curtir um ‚Äėsextou‚Äô em casa, vamos ent√£o √† news? Bora.

ūüćā Um resum√£o da crise esta semana no Brasil: no domingo, pela primeira vez, o Twitter removeu posts de Bolsonaro que mostravam v√≠deos do passeio presidencial por Bras√≠lia, no qual ele voltou a se posicionar contra o isolamento social. Facebook e Instagram fizeram o mesmo. Para Jo√£o Brant, do Intervozes, a decis√£o foi abusiva. Segundo ele, embora sejam empresas privadas, as plataformas s√≥ deveriam fazer isso ‚Äúsob crit√©rios definidos de forma p√ļblica, alinhados com os padr√Ķes internacionais e supervisionadas por ag√™ncias independentes‚ÄĚ. Tai Nalon, do Aos Fatos, afirma que iniciar um debate sobre essa censura √© necess√°rio ‚Äúsobretudo porque o conte√ļdo banido n√£o desaparece: ele migra para outras plataformas, com pol√≠ticas mais ou menos flex√≠veis‚ÄĚ. O Axios lembrou que o Twitter apagou tamb√©m post de Rudy Giuliani elogiando a hidroxicloroquina como uma cura para o coronav√≠rus. Na segunda, o ministro da Sa√ļde, Luiz Henrique Mandetta, pediu desculpas pelas cr√≠ticas que fez √† cobertura da imprensa no √ļltimo s√°bado. ‚ÄúEu acho que a gente quando erra, a gente erra", disse. Na ter√ßa, jornalistas que acompanhavam uma fala de Bolsonaro na sa√≠da do Pal√°cio da Alvorada deixaram o local da entrevista ap√≥s o presidente mais uma vez estimular seus apoiadores a hostilizarem e xingarem os rep√≥rteres. A semana ainda teve o bi√≥logo Atila Iamarino quebrando recorde de audi√™ncia no Roda Viva, a ponto de o programa ganhar mais 10 minutos de dura√ß√£o (quem n√£o viu ainda, veja!).

ūüćā Dois de abril foi o International Fact-Checking Day, que celebra aqueles que trabalham para fornecer informa√ß√Ķes confi√°veis mundo afora. Neste texto, Cristina Tard√°guila compilou algumas ferramentas e recursos √ļteis para os checadores. O Journalism.co.uk fez o mesmo. E no mesmo dia, o Google doou US$ 6,5 milh√Ķes para organiza√ß√Ķes em todo o mundo que enfrentam a desinforma√ß√£o, com foco imediato na pandemia de Covid-19. Falando nisso, querem dicas para combater a desinforma√ß√£o sobre o coronav√≠rus? Vejam esta mat√©ria da The Atlantic e este v√≠deo divulgado pelo Poynter. Para finalizar o bloco sobre fact-checking, a ag√™ncia Lupa renovou o selo de qualidade junto √† International Fact-Checking Network pelo quarto ano seguido. E Aos Fatos preparou sete respostas para as desinforma√ß√Ķes mais compartilhadas sobre o novo coronav√≠rus.

ūüćā Falamos aqui na news que produtos jornal√≠sticos em todas as m√≠dias t√™m ganhado audi√™ncia durante a cobertura do coronav√≠rus. Esta semana Folha e UOL bateram recordes. Segundo levantamento da RankMyAPP para o N√ļcleo, instala√ß√Ķes dos principais aplicativos de not√≠cias cresceram 68% do come√ßo de mar√ßo at√© dia 22. No entanto, o professor Philip Napoli pontuou, neste artigo para a Wired, que o fato de o p√ļblico ler muito sobre a Covid-19 n√£o vai salvar a m√≠dia, porque n√£o h√° capacidade de monetizar toda essa audi√™ncia. Segundo ele, √© hora de os formuladores de pol√≠ticas agirem para construir um sistema de m√≠dia p√ļblica mais robusto e menos suscet√≠vel a falhas de mercado do que a m√≠dia comercial. At√© porque ve√≠culos jornal√≠sticos j√° come√ßam a cortar sal√°rios e benef√≠cios. Para tentar mensurar isso, o Tow Center est√° coletando informa√ß√Ķes sobre demiss√Ķes e cortes nas reda√ß√Ķes durante o per√≠odo da pandemia. Rasmus Nielsen, do Reuters Institute, prev√™ que, no curto prazo, ocorram grandes quedas nas receitas de publicidade, de assinaturas e em muitos outros fluxos de receita. Para ele, ve√≠culos que desejam prosperar num cen√°rio de recess√£o precisam se concentrar no desenvolvimento dos neg√≥cios que desejam no futuro, e n√£o tentar restaurar o tinham no passado. ‚ÄúPassado √© passado. E se n√£o percebermos isso, os cortes de curto prazo ser√£o apenas a primeira de muitas rodadas subsequentes de demiss√Ķes‚ÄĚ, diz. Segundo o presidente da WAN-IFRA, Fernando L√≥pez-Madrazo, ‚Äúnessas circunst√Ęncias, nossa responsabilidade como editores e jornalistas √© mais importante do que nunca. √Č provavelmente o maior desafio que enfrentamos nos √ļltimos 100 anos‚ÄĚ. J√° Shazna Nessa, presidente da ONA, √© bem mais otimista e lista algumas a√ß√Ķes tomadas pela organiza√ß√£o, entre as quais a cria√ß√£o do Community Circles, pequenos grupos virtuais que permitem conhecer novos colegas, discutir desafios e poss√≠veis solu√ß√Ķes.

ūüćā Saiu hoje estudo da UFRJ e FespSP que analisou 1,2 milh√£o de tu√≠tes a favor de Bolsonaro e descobriu que 55% de publica√ß√Ķes pr√≥-presidente s√£o feitas por rob√īs. Rose Marie Santini e Isabela Kalil monitoraram a express√£o #BolsonaroDay, usada para homenagear o presidente nos atos de 15 de mar√ßo. J√° esta pesquisa da Edelman em 10 pa√≠ses (incluindo o Brasil) mostrou que as pessoas est√£o se informando bastante pela imprensa, mas confiam mais nas informa√ß√Ķes de seus empregadores (leiam tamb√©m esta an√°lise do Nieman Lab sobre o estudo). E o Pew Research Center descobriu que os cidad√£os norte-americanos avaliam muito bem a cobertura da imprensa sobre o coronav√≠rus (70% da amostra), mas ao mesmo tempo acham que a m√≠dia exagera nos riscos.

ūüćā Mais links sobre m√≠dia e Covid-19: Denise Becker analisa, no Objethos, que o jornalismo brasileiro, em sua maioria, tem atuado com vigil√Ęncia responsabilidade na crise. Ag√™ncia Mural lan√ßou podcast para informar periferias sobre o coronav√≠rus. O International Center for Journalists lan√ßou um f√≥rum global para apoiar e conectar jornalistas que cobrem a pandemia, com webinars e discuss√Ķes. Esta mat√©ria do Knight Center destaca os jornais brasileiros que est√£o lan√ßando produtos criativos para ajudar leitores a lidar com o isolamento. Rep√≥rteres sem Fronteiras criou o Tracker 19, site que documenta o impacto do coronav√≠rus na liberdade de imprensa, tais como como censura e desinforma√ß√£o. O professor Jose Garc√≠a Avil√©s compilou as melhores visualiza√ß√Ķes sobre a Covid-19. O Tow Center vai falar s√≥ sobre a pandemia em suas newsletters semanais (qualquer semelhan√ßa com a gente √© mera coincid√™ncia, rs). E este texto do New York Times conta como os jornalistas est√£o reorganizando suas rotinas, reuni√Ķes e projetos em grupo durante o trabalho de casa.

ūüćā O Instituto Lenfest e o Poynter elencaram oportunidades de financiamento, manuais e treinamentos para jornalistas. Leia aqui e aqui dicas e ideias para trabalhar melhor em casa. Pra finalizar, mais dois links do Poynter: lista de ferramentas virtuais gratuitas para professores universit√°rios, estudantes e jornalistas; e diversos cursos online est√£o agora abertos e gratuitos por tempo limitado. Tem muita coisa bacana.

√Č isso, gente!
Bom final de semana e até sexta que vem.
Lívia Vieira e Moreno Osório