NFJ#274¬†ūüćā¬†"Autoridades, parem de distorcer os fatos"

Oi, gente! Lívia na edição de hoje. Mais uma semana que passa voando, vocês também tiveram essa sensação? Mesmo em isolamento social, a gente vai se adaptando à nova rotina.

Antes de come√ßar a news, que teve a valiosa colabora√ß√£o do Moreno, queria indicar pra voc√™s dois textos publicados em raz√£o do Dia Nacional do Jornalista, que foi na √ļltima ter√ßa. Em tempos t√£o desafiadores - voc√™s v√£o ver pela quantidade de links que indicamos hoje em 10 mil caracteres - vale lembrar a import√Ęncia da nossa profiss√£o. O Artigo 19 enfatiza que a atividade da imprensa foi definida como essencial durante a pandemia e que, para venc√™-la, precisamos de informa√ß√£o de uma imprensa livre. E o professor Marcelo Tr√§sel reflete neste texto sobre como o jornalismo √© essencial na democracia.

D√° um √Ęnimo, n√©? Bora ent√£o pra news.

ūüćā ‚ÄúAutoridades, parem de distorcer fatos‚ÄĚ, diz o t√≠tulo claro e objetivo do artigo assinado esta semana por Aos Fatos, Ag√™ncia Lupa, Boatos.org, E-farsas, Estad√£o Verifica e International Fact-Checking Network. O Poynter repercutiu. De acordo com os principais checadores do pa√≠s, duas batalhas est√£o sendo travadas no Brasil ao mesmo tempo: uma, na medicina, contra a expans√£o do coronav√≠rus, e outra contra a desinforma√ß√£o produzida por ele. ‚ÄúSem o apoio expl√≠cito e o comprometimento das autoridades com a verdade, o pa√≠s corre o risco de perder a guerra contra os boatos sobre a Covid-19‚ÄĚ, alertam. E n√£o √© pra menos: s√£o mais de tr√™s informa√ß√Ķes falsas espalhadas por dia. Osmar Terra que o diga. Sobre isso, leiam a carta da Editora-chefe do Grupo Matinal, Marcela Donini. De acordo com esta reportagem da Ag√™ncia P√ļblica, trata-se de uma epidemia de fake news, em sua maioria sobre receitas milagrosas e teorias da conspira√ß√£o. Aos Fatos e N√ļcleo acrescentam que a base de apoio virtual de Bolsonaro est√° disseminando desinforma√ß√£o para defender a pol√≠tica de isolamento vertical, anunciar a efic√°cia ainda n√£o comprovada da hidroxicloroquina e criticar o Congresso e os governadores. No entanto, a an√°lise tamb√©m identifica que essa base ‚Äúfoi soterrada nas √ļltimas duas semanas por uma avalanche de cr√≠ticas a Bolsonaro ou aos seus filhos, e √† sua postura em rela√ß√£o √† pandemia do novo coronav√≠rus no Brasil‚ÄĚ. Uma das solu√ß√Ķes, al√©m da checagem, √© produzir dados confi√°veis e contextualizados sobre a pandemia, como tem feito o jornalista Marcelo Soares no Lagom Data. Ou criar conte√ļdos que alertem a popula√ß√£o sobre os riscos da desinforma√ß√£o, como o Coronav√≠rus em Xeque, projeto da UFPE.

ūüćā Diante desse problem√£o, a desinforma√ß√£o na pandemia surge como tend√™ncia de investiga√ß√£o nas pesquisas em comunica√ß√£o em todo o mundo (fica a dica para os cientistas brasileiros). Esta semana o Reuters Institute identificou alguns formatos, fontes e respostas quanto √† desinforma√ß√£o, ap√≥s an√°lise de 225 checagens feitas pelo First Draft. Uma das descobertas que mais me chamou aten√ß√£o, e que tem semelhan√ßa com o cen√°rio brasileiro: "Desinforma√ß√£o de pol√≠ticos, celebridades e outras figuras p√ļblicas s√£o apenas 20% em nossa amostra. Mas representam 69% do engajamento das m√≠dias sociais". Isso explica por que essas fontes de fake news s√£o t√£o danosas: porque espalham a desinforma√ß√£o rapidamente. Para ler mais sobre a pesquisa, vejam este texto do Nieman Lab. E o Tow Center, outro centro importante de pesquisa, anunciou o in√≠cio de um estudo global feito em parceria com o International Center for Journalists sobre os efeitos do coronav√≠rus no jornalismo.

ūüćā N√£o √© de hoje que as redes sociais s√£o canais de desinforma√ß√£o. Por isso, as plataformas est√£o tentando minimizar o problema diante de uma das maiores crises de nosso tempo. WhatsApp vai limitar o reenvio de mensagens a um destinat√°rio por vez; Google News criou um centro de not√≠cias sobre a Covid-19, com filtros por regi√£o; e Facebook anunciou que at√© pol√≠ticos e celebridades n√£o s√£o exce√ß√Ķes √† sua pol√≠tica contra a desinforma√ß√£o sobre o coronav√≠rus. Neste texto para a Columbia Journalism Review, Mathew Ingram reproduz an√°lises de especialistas que afirmam que o debate de pol√≠ticas contra a desinforma√ß√£o est√° falsamente dividido entre permitir que plataformas ou governos censurem. Assim, eles prop√Ķem a cria√ß√£o de uma estrutura de financiamento e distribui√ß√£o para o jornalismo digital - uma entidade que poderia ser mantida por um imposto sobre as receitas de publicidade do Facebook e Google.

ūüćā E vejam como a desinforma√ß√£o se mostra nas sutilezas. Assim como aconteceu com a divulga√ß√£o daquele v√≠deo antigo de Drauzio Varella, alguns grupos do Facebook na Ucr√Ęnia, R√ļssia e Quirguist√£o est√£o compartilhando artigos obsoletos sobre a Covid-19. Inclusive ve√≠culos jornal√≠sticos profissionais t√™m se deparado com esse desafio. O USA Today, por exemplo, tem uma entrevista de fevereiro em que um especialista dizia que o risco para os EUA era min√ļsculo; e a Vox deletou uma mat√©ria de janeiro que afirmava n√£o se tratar de uma pandemia mortal (leia mais).

ūüćā Na , comentamos sobre o desafio de cobrir a crise nas periferias, lembram? Neste artigo, Vagner de Alencar, da Ag√™ncia Mural de Jornalismo das Periferias, destaca que as favelas nunca receberam tanta aten√ß√£o do notici√°rio. Mas ele teme que elas sejam ‚Äúisca f√°cil pela audi√™ncia de uma trag√©dia anunciada‚ÄĚ. E acrescenta: ‚Äú√© fato que a demanda de informa√ß√Ķes sobre e para as periferias √© urgente e que o coronav√≠rus (pelo menos espero) esteja fazendo com que a imprensa possa enxergar o tamanho do buraco de uma cobertura at√© ent√£o viesada, negligenciada e estereotipada‚ÄĚ. J√° neste texto para a IJNET, Tha√≠s Cavalcante conta como jornalistas comunit√°rios est√£o trabalhando nas favelas da Mar√©, Complexo do Alem√£o e Rocinha, principalmente na preven√ß√£o ao coronav√≠rus. Divulga√ß√£o em carros de som, conte√ļdo informativo em podcasts e materiais de comunica√ß√£o fora da internet est√£o entre as a√ß√Ķes. H√° ainda outras iniciativas, como a radionovela sobre o coronav√≠rus lan√ßada pela Fiocruz e pela organiza√ß√£o Redes da Mar√©.

ūüćā Duas entrevistas e um artigo: o Objethos estreou uma s√©rie de entrevistas sobre jornalismo e coronav√≠rus. Na primeira delas, a professora M√°rcia Amaral, que estuda coberturas jornal√≠sticas de desastres desde 2011, enfatiza que tem√°ticas antes negligenciadas pela grande imprensa emergem nas manchetes de jornais e s√£o destacadas nas escaladas de programas noticiosos em hor√°rio nobre da TV brasileira: o papel do Estado na crise, desemprego, trabalho informal, falta de √°gua e de saneamento. ‚ÄúA desigualdade social saltou na cara do jornalismo tradicional‚ÄĚ, diz. Em entrevista √† Ag√™ncia P√ļblica, o fil√≥sofo Vladimir Safatle observa que ‚Äúa imprensa subiu dois tons contra o governo porque eles perceberam o car√°ter suicida do governo. E um cara totalmente autorit√°rio que se volta inclusive contra a pr√≥pria imprensa (...). Eu penso que, aos poucos, a imprensa brasileira tenta um pouco dramatizar, no bom sentido, dar uma narrativa na forma de drama para que as pessoas possam sentir e se atentar para a realidade do processo. Ela est√° aprendendo a fazer isso porque ela nunca fez‚ÄĚ. E neste artigo, Rubens Valente lembra que a rela√ß√£o da imprensa com presidentes nunca foi ‚Äúum passeio no parque‚ÄĚ, mas a atual situa√ß√£o √© in√©dita em volume e m√©todo. ‚ÄúA desqualifica√ß√£o da imprensa, as bananas aos jornalistas, as gracinhas levianas, as patadas em entrevistas coletivas s√£o atitudes de um presidente jamais vistas no Brasil desde a redemocratiza√ß√£o, em 1985, e indicam a tentativa da destrui√ß√£o do jornalismo como intermedi√°rio cr√≠vel entre o fato e o p√ļblico‚ÄĚ.

ūüćā Alguns desafios para a ind√ļstria jornal√≠stica: nos EUA, o n√ļmero de downloads de podcasts caiu no m√™s de mar√ßo, mostrando que h√° um impacto percept√≠vel em meio √† crise do coronav√≠rus e √†s mudan√ßas comportamentais que ela provocou. Na avalia√ß√£o de Nicholas Quah, que assina uma newsletter sobre o assunto no Nieman Lab, as pessoas est√£o buscando canais j√° estabelecidos e por isso o momento √© dif√≠cil para podcasts com apelo casual ou que est√£o come√ßando. Neste artigo para o Poynter, o jornalista Howard Saltz afirma que remover o paywall na cobertura do coronav√≠rus √© nobre, mas n√£o faz sentido. ‚ÄúA ind√ļstria jornal√≠stica parece pensar que servi√ßo p√ļblico n√£o pode coexistir com receita. Isso √© um erro - no momento em que a ind√ļstria n√£o pode se dar ao luxo de cometer um. Fornecemos um servi√ßo p√ļblico importante, mas por que uma empresa de servi√ßos p√ļblicos n√£o pode pensar nos neg√≥cios?‚ÄĚ. Provocativo, n√©? Leiam todo o argumento dele aqui. Elisabeth Ribbans, editora do Guardian, afirma que os leitores est√£o cumprindo um papel vital na cobertura da crise, apontando erros, pedindo mais informa√ß√Ķes contextualizadas e tamb√©m hist√≥rias de esperan√ßa.

ūüćā Finalizamos com dicas pr√°ticas, oportunidades e recursos para a cobertura da pandemia. Ferramentas gratuitas e conte√ļdos para ajudar no trabalho dos jornalistas. Newsletters gratuitas sobre a Covid-19. Novo canal no Slack ajuda jornalistas freelancers. Getty Images disponibiliza imagens gratuitas sobre isolamento social. New York Times ser√° gratuito nos pr√≥ximos tr√™s ‚Äúansiosos meses‚ÄĚ para alunos do ensino m√©dio. Muito interessante o Microloans for Journalists, uma iniciativa de rep√≥rteres da ProPublica e da OpenNews em que jornalistas que precisam de grana se cadastram para receber 500 d√≥lares dos jornalistas que se inscreveram para emprestar dinheiro. A ONA disponibilizou os materiais utilizados no webinar ‚ÄúCuidando dos jornalistas e do jornalismo‚ÄĚ. Uma lista de dashboards, bases de dados e fontes √ļteis. The Focus √© um site rec√©m-lan√ßado que pretende apoiar o bem-estar mental dos jornalistas desempregados durante a crise, oferecendo espa√ßo para publica√ß√£o de mat√©rias. E a Funda√ß√£o Internacional de M√≠dia Feminina criou um fundo de ajuda para mulheres jornalistas que perderam o emprego recentemente ou que precisam de ajuda para resolver problemas urgentes.

√Č isso, gente, at√© sexta que vem. Aproveitem a P√°scoa em casa :-)
Lívia Vieira e Moreno Osório