NFJ#275 🍂 As redações distribuídas chegaram para ficar

Oi, gente, como estão? Lívia por aqui.

MUITA COISA ACONTECENDO, não é mesmo? O caps lock estilo Mônica Bergamo no Twitter é pra enfatizar a loucura desses dias que estamos vivendo. Abre comércio, não abre comércio, não demite ministro, demite ministro. Dá um cansaço enorme. Mas seguimos tentando encontrar alguma normalidade nessa rotina de isolamento que pode durar até 2022, de maneira intermitente.

Por tudo isso, não dá pra fugir da crise do coronavírus na news de hoje. Mas aviso que, quem chegar até o final terá indicações de leitura e outros links úteis.

Bora?

🍂 Como pessoas de seis países acessam e avaliam notícias sobre o coronavírus? O Reuters Institute ouviu argentinos, alemães, sul coreanos, espanhóis, ingleses e norte-americanos e fez descobertas que enfatizam a importância do jornalismo (leia esta thread). Entre os resultados: consumo de notícias está em alta, com prevalência para o meio online, seguido de TV, redes sociais, rádio e jornais; organizações de notícias são a principal fonte de informação, à frente de governos, cientistas e políticos; buscas, vídeo e plataformas sociais são largamente utilizados para acessar informações, enquanto grupos privados e aplicativos de mensagens servem para discussão; cientistas e especialistas são mais confiáveis que a imprensa, mas esta detém bom nível de confiança da maioria da amostra; no geral, grande parte dos entrevistados acha que a mídia os ajuda a entender a crise e explica como podem responder a ela. Aqui no Brasil, pesquisa da Agência Morya e do Instituto Amostra, investigou a comportamento dos gaúchos durante a pandemia: a grande maioria se considera bem informada sobre o coronavírus; a TV é a principal fonte de informação, seguida por redes sociais, sites de notícia, rádio e jornais; sendo que esses dois últimos têm mais credibilidade para os participantes.

🍂 Essa busca por informações tem feito a audiência dos sites jornalísticos crescer muito durante a crise, como mostramos nas últimas semanas aqui na news. Há poucos dias, Vera Magalhães disse que as assinaturas do Estadão deram um salto, assim como o engajamento nas redes sociais. No entanto, de acordo com este texto do Nieman Lab, o tráfego para sites de notícias estabilizou e a fadiga por informações sobre o coronavírus começa a ganhar força. Tanto que as pessoas estão buscando desesperadamente por boas notícias, como mostram New York Times e Folha de S. Paulo. Vejam este gráfico do Google Trends. Fica cada vez mais perceptível a crise (do jornalismo) dentro da crise (da Covid-19): apesar desse aumento de audiência, a receita de publicidade tem caído drasticamente (este texto do Nieman Lab fala que a do Los Angeles Times foi quase eliminada) e as demissões têm aumentado. Levantamento do New York Times apontou um número assustador: aproximadamente 28.000 profissionais de veículos jornalísticos dos EUA foram demitidos. O Clases de Periodismo repercutiu, em espanhol. Aqui no Brasil, o grupo ND, de Santa Catarina, demitiu 12 jornalistas e estuda redução de jornada nos próximos três meses. No RS, o jornal Boca de Rua está circulando somente na internet durante a crise e pede contribuições dos leitores. Percebendo essa situação, o Google lançou o Fundo de Auxílio Emergencial ao Jornalismo, direcionado a pequenas e médias organizações que tenham presença digital e produzam conteúdos voltados para suas comunidades. As inscrições, abertas também para o Brasil, devem ser feitas em inglês até o próximo dia 29.

🍂 O isolamento social mexeu com a rotina de pessoas e empresas. Com o jornalismo não poderia ser diferente. Embora seja uma atividade essencial que não parou, a produção jornalística nas redações está bem longe da normalidade. Esta matéria do Knight Center conta que a pandemia fez jornais latino-americanos suspenderem edições impressas. Já esta matéria do UOL informa que ao menos 120 jornalistas esportivos foram cobrir a pandemia em canais abertos (Globo, Record e Band). Já este artigo da Folha conta que 5% dos jornalistas estão indo fisicamente à redação e que, “sem o zum-zum-zum das conversas, dá para ouvir até o latido dos cães da vizinhança”. O Laboratório de Periodismo conta como estão funcionando as redações remotas na América Latina. De acordo com o consultor Tom Trewinnard, as redações que sobreviverão e que vão prosperar no mundo pós-Covid-19 serão as que abraçarem a mudança para equipes distribuídas. “Elas aperfeiçoarão fluxos de trabalho, processos e estruturas distribuídos. Trabalharão para instalar uma cultura organizacional online nos espaços digitais”. O Journalism.co.uk mostra como montar uma redação distribuída. E o Poynter dá dicas para (tentar) trabalhar com crianças em casa. E o GIJN, como investigar sem sair de casa. Vocês já perguntaram para seus subordinados "se eles estão bem"?

🍂 falamos sobre o perigo dos artigos desatualizados sobre a Covid-19 que continuam circulando, muitos escritos quando o vírus ainda não era um problema mundial. Dan Gillmor e Kristy Roschke afirmam que há uma falha na maneira como as notícias online funcionam: “com muita freqüência, notícias de última hora carecem de contexto. E links algorítmicos automatizados para criar contexto podem confundir mais a audiência do que esclarecê-la”. Segundo eles, uma das soluções para não linkar conteúdos desatualizados é manter um printscreen com a informação antiga, incluindo uma explicação sobre sua exclusão. Em entrevista ao Objethos, a professora Raquel Recuero afirmou que um dos grandes problemas da desinformação é que ela circula em espaços diferentes dos desmentidos. “Assim, se temos uma teoria da conspiração explicitando que o coronavírus foi criado pela China para acabar com a economia mundial, esse discurso vai circular em um espaço onde o discurso científico – que prova que esse vírus não foi criado em laboratório – não vai andar”. E há quem não canse de espalhar fake news: este levantamento do Aos Fatos mostrou que Osmar Terra é o congressista que mais publicou informações falsas sobre Covid-19 no Twitter. Neste texto, Taís Seibt elenca 7 cuidados contra desinformação sobre coronavírus. E para tentar conter a confusão digital informativa, o Facebook anunciou que vai notificar usuários que interagirem com fake news e levá-los às informações da Organização Mundial de Saúde. Passo importante. Tem ainda esta matéria do Knight Center sobre a atuação do Comprova no combate à desinformação durante a pandemia.

🍂 Breno Costa compilou todas as medidas normativas tomadas pelo governo Bolsonaro durante a crise do coronavírus, com atualização diária. Hackers liberaram no Reddit aproximadamente 50 mil artigos sobre o coronavírus "escondidos" por trás de paywalls. E para fechar os links sobre a crise, indico 4 reportagens para leitura: NYT fez o diário de um médico de emergência, que contou o que tem visto nos hospitais. “Nenhum de nós jamais será o mesmo”, diz. Em uma iniciativa que busca traduzir o que anda dizendo a ciência sobre o coronavírus, o jornalista e também estudante de Medicina Felipe Franke explicou, no Matinal News, como ocorre a infecção e como o corpo reage à Covid-19 (aliás, a Lupa lançou uma iniciativa parecida, o "Lupa na Ciência"). O Nexo Jornal investigou quanto vale uma vida, mostrando estudos que tentam calcular o valor produtivo e estatístico que se perde quando alguém morre. E a Repórteres Sem Fronteiras lançou uma série de publicações trimestrais sobre liberdade de imprensa no Brasil em 2020. A primeira analisa a estratégia de Jair Bolsonaro para desacreditar jornalistas e meios de comunicação.

🍂 IJNet promove, no próximo dia 21, às 14h, uma live sobre segurança digital para jornalistas com Sérgio Spagnuolo (Volt Data Lab) e Rajan Kapoor (Dropbox). Centro Knight, em parceria com a International Women's Media Foundation, oferece curso online em espanhol sobre cobertura jornalística com perspectiva de gênero. Vocês conhecem o CIP, um festival de jornalismo ao vivo no Instagram? A associação Investigative Reporters & Editors disponibilizou, por um ano, 60 vídeos de sua biblioteca sobre estratégias para trabalhar com dados. E para os acadêmicos: leiam a newsletter mensal da revista Digital Journalism e o número recém-lançado do periódico Media and Communication, que foi editado pelo professor Ramón Salaverría e traz artigos sobre tendências e desafios dos veículos nativos digitais.

É isso, gente. Bom fim de semana e até sexta que vem.
Lívia Vieira e Moreno Osório