NFJ#276¬†ūüćā¬†Jornalismo em tempos de COVID-19: relev√Ęncia, precariza√ß√£o e passaralhos

Buenas, moçada! Moreno aqui.

Em primeiro lugar, desculpem atraso. √Č a primeira vez que um atraso desse tamanho acontece em seis anos de newsletter. Sexta tava tudo ok (com a news, n√©, porque nada tava ok na sexta), eu apertei o SEND e fui para o Zoom dar aula. A√≠, mais pro fim da noite, quando fui abrir o report, vi que algo tava errado. O MailChimp havia barrado o envio porque o robozinho deles teria detectado alguma viola√ß√£o nos termos de servi√ßo.

AFF.

Imediatamente entrei em contato, mas eles trabalham de segunda a sexta, das 9h às 17h. Hoje eles me retornaram dizendo que tudo bem, não foi nada, e que não deve voltar a acontecer. E liberaram a conta do Farol.

Até agora não sei o que houve. Mas tenho uma suspeita: a expressão PASSARALHO no título. Bobinho e pudico, o robozinho do MailChimp deve ter entendido errado. No Twitter, nos oferecemos para explicar a eles o significado de passaralho. Eles não quiseram. Talvez melhor nem saber.

Enfim. O que conseguimos fazer no final de semana foi publicar a edição no nosso site e avisar nas nossas redes - que não são muito ativas, é verdade. Mas imagino que muitos de vocês não devam ter visto. Portanto, aqui vai a Newsletter Farol Jornalismo 276.

Antes de começar, um aviso. Lá com começo da quarentena, até o dia 17. Infelizmente, teremos de prorrogar a suspensão. Provavelmente, teremos de manter assim até o fim (ou flexibilização) do confinamento. Avisamos vocês.

Vamos à news, então?

ūüćā Com o notici√°rio pol√≠tico pegando fogo - em pouco mais de uma semana os ministros Mandetta e Moro deixaram o governo - e cemit√©rios abrindo valas comuns para enterrar as v√≠timas do coronav√≠rus, fica dif√≠cil dar not√≠cias boas, como pediu o general Ramos esta semana. Surpreendentemente, a cr√≠tica √† ‚Äúcobertura maci√ßa de fatos negativos‚ÄĚ vem de um ministro que tem sob seu comando a Secom. E ele √© tamb√©m um militar, o que fez com que Bernardo Mello Franco relembrasse, em sua coluna n‚ÄôO Globo, um fato dos tempos da ditadura: ‚ÄúNos idos de 1967, o marechal Costa e Silva fez uma reclama√ß√£o √† condessa Pereira Carneiro, ent√£o propriet√°ria do Jornal do Brasil. ‚ÄėO seu jornal tem tratado muito mal a mim e ao meu governo‚Äô, queixou-se. Em tom diplom√°tico, a senhora respondeu que o di√°rio buscava publicar cr√≠ticas construtivas. O ditador reagiu com franqueza: ‚ÄėEu gosto mesmo √© de elogio‚Äô‚ÄĚ. O N√ļcleo Jornalismo fez uma an√°lise dos tweets ap√≥s a demiss√£o de Mandetta e viu a negatividade das postagens disparar, o que ‚Äúindica uma potencial contrariedade com o afastamento for√ßado do ministro pelo presidente‚ÄĚ. Hoje n√£o ser√° diferente, com o pedido de demiss√£o de Moro.

ūüćā Se por um lado o jornalismo tem se mostrado extremamente relevante em tempos de crise (pol√≠tica e de sa√ļde), por outro est√° sendo duramente atingido. O Grupo Estado fez uma reuni√£o com seus mais de 250 jornalistas para anunciar uma redu√ß√£o de sal√°rio de 25% pelos pr√≥ximos tr√™s meses, diz esta mat√©ria do Brazil Journal, informando ainda que a RedeTV vai fazer o mesmo, s√≥ que com corte ainda maior - 50% dos sal√°rios. De acordo com o Comunique-se, nos jornais cariocas O Dia e Meia Hora a redu√ß√£o ser√° de 25%, e os funcion√°rios reclamam tamb√©m do n√£o pagamento do vale-alimenta√ß√£o. A RBS/Ga√ļcha ZH demitiu hoje no m√≠nimo duas dezenas de profissionais. O site Clases de Periodismo repercutiu as perdas na imprensa brasileira. O Intercept Brasil disse, em sua newsletter, que as reda√ß√Ķes est√£o sob o ataque do coronav√≠rus e informa: BuzzFeed Brasil pode fechar as portas por falta de dinheiro; r√°dio Bandeirantes SP suspendeu o contrato de seus comentaristas; e a Abril, que j√° estava em grave crise, projeta que a pandemia ir√° dificultar a sa√≠da do atoleiro. A situa√ß√£o tamb√©m n√£o √© boa para os fotojornalistas, que precisam sair de casa para trabalhar, aumentando os riscos de contrair a Covid-19. Em entrevista ao Objethos, o pesquisador Thales Lelo chama aten√ß√£o para outro problema trazido pela pandemia: a precariza√ß√£o do trabalho dos jornalistas, ‚Äúque passam a viver dispon√≠veis 24 horas para a cobertura, que agora √© feita de dentro de casa. Acredito que a experi√™ncia de trabalho remoto pode ser interessante para empresas inclinadas a sobrecarregar ainda mais seus trabalhadores sob a justificativa de que a cobertura da pandemia √© prioridade sobre qualquer outra esfera da vida‚ÄĚ, diz. Percebendo o momento delicado, a Abraji transmite lives semanais sobre o trabalho de jornalistas em meio √† pandemia (a pr√≥xima ser√° dia 28, √†s 21h, no Insta). L√° fora, Financial Times e Guardian v√£o reduzir sal√°rios dos cargos mais altos. Para ter for√ßa de luta contra os cortes, profissionais da Wired resolveram se organizar em uma associa√ß√£o editorial. Enquanto isso, ca√≠mos duas posi√ß√Ķes no Ranking de Liberdade de Imprensa da RSF. Pra fechar esse bloco com uma boa not√≠cia, a Fenaj comemorou a volta da obrigatoriedade do registro profissional de jornalistas.

ūüćā Uma sele√ß√£o de artigos, publicados esta semana, que analisam os desafios que o jornalismo tem diante de si sob diversos aspectos: artigo da Wired afirma que a fadiga de not√≠cias sobre o coronav√≠rus j√° √© realidade. ‚ÄúH√° tr√™s raz√Ķes para esse mal-estar geral: as not√≠cias deixam as pessoas deprimidas; tamb√©m as faz se sentir impotentes; e as pessoas simplesmente n√£o confiam nas not√≠cias - elas as veem como superficial, sensacionalista e imprecisa‚ÄĚ. Mathew Ingram conta na CJR que a procura por boas not√≠cias tem crescido muito - o que pode ser necess√°rio diante de uma crise sem precedentes - mas tamb√©m pode significar um escapismo ilus√≥rio.O Nieman Lab analisa que as constantes mudan√ßas da pandemia podem tornar os jornalistas mais confort√°veis ao expressarem incertezas e lidarem com informa√ß√Ķes provis√≥rias. A GJIN elenca formas de adaptar modelos de membership e eventos durante a pandemia: fa√ßa apelos a assinaturas, transforme eventos presenciais em online; atue em conex√£o com as comunidades; melhore e incremente as redes de especialistas. An√°lise do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2020: ‚Äúestamos entrando numa d√©cada decisiva para o jornalismo, e o coronav√≠rus √© um fator multiplicador". E apontam cinco crises desta d√©cada: geopol√≠tica (agressividade dos modelos autorit√°rios), tecnol√≥gica (falta de garantias democr√°ticas), democr√°tica (polariza√ß√£o, pol√≠ticas repressivas), de confian√ßa (suspeita e √≥dio direcionado aos meios de comunica√ß√£o), e econ√īmica (precariza√ß√£o do jornalismo de qualidade).

ūüćā ‚ÄúVoc√™ se tornou o ‚Äėpersonal fact-checker‚Äô de seus amigos e fam√≠lia?‚ÄĚ, pergunta Cristina Tard√°guila, em artigo para o Poynter, em que conta algumas de suas experi√™ncias desde o in√≠cio da pandemia. E √© claro que tudo isso tem um fator psicol√≥gico. ‚ÄúA sensa√ß√£o de medo √© uma emo√ß√£o que nos leva a tomar m√°s decis√Ķes. Diante de uma not√≠cia que nos gera medo, √© mais f√°cil que se tome a decis√£o de compartilhar rapidamente, o que, mesmo com boa inten√ß√£o, pode nos converter em difusores de desinforma√ß√£o ‚ÄĚ, afirma Alexandre L√≥pez-Borrull, professor da Universidade Aberta da Catalunha, em entrevista ao Clases de Periodismo. Este texto da Forbes repercute pesquisa da Graphika, que identificou que vozes conservadoras e de direita desempenham um papel importante na divulga√ß√£o online de desinforma√ß√£o sobre o coronav√≠rus em todo o mundo. Pesquisadores da √°rea de Sa√ļde da USP criaram o COVID Verificado, site que responde d√ļvidas mais comuns indicando refer√™ncias cient√≠ficas e re√ļne novas pesquisas sobre o tema. Agora pasmem com essa reportagem da The Markup: embora tenha dito que est√° disposto a combater a desinforma√ß√£o sobre o coronav√≠rus, Mark Zuckerberg estava permitindo que anunciantes lucrassem com an√ļncios direcionados a pessoas supostamente interessadas em "pseudoci√™ncia" (mais de 78 milh√Ķes). Os jornalistas fizeram o teste e pagaram por um an√ļncio inclu√≠do nesta categoria, que foi imediatamente aprovado. Ap√≥s muito insistir por uma resposta, o porta-voz do Facebook respondeu por email que a empresa havia eliminado a categoria ‚Äúpseudoci√™ncia‚ÄĚ. Grave, n√©?

ūüćā Agora, algumas dicas √ļteis: veja os semin√°rios online da Funda√ß√£o Gabo para jornalistas. Como organizar sua reda√ß√£o para o teletrabalho, segundo o diretor adjunto do Eldiario.es. ‚ÄúCobrindo o COVID-19 agora e no futuro‚ÄĚ √© o novo curso online gratuito promovido pelo Knight Center, Unesco e OMS. Colabore com o ‚ÄúInumer√°veis‚ÄĚ, memorial dedicado √† hist√≥ria das v√≠timas do coronav√≠rus no Brasil. Mande sua hist√≥ria para a jornalista Alana Rizzo pelo email inumeraveis@gmail.com com assunto "Quero ajudar‚ÄĚ. O Lab404, do Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Comunica√ß√£o da UFBA, criou o ‚ÄúIn Vitro: Dossi√™ Covid-19‚ÄĚ, com artigos para pensar a pandemia e suas rela√ß√Ķes com as tecnologias digitais.

ūüćā Para al√©m do coronav√≠rus: um ano depois de criar um algoritmo para tornar mais vis√≠vel a data das mat√©rias compartilhadas no site e nas redes sociais, o Guardian expandiu essa funcionalidade para incluir os artigos de opini√£o. Foi prorrogada at√© 31 de maio a inscri√ß√£o para o Pr√™mio Roche de Sa√ļde, que prestigia produ√ß√Ķes jornal√≠sticas que cobrem a √°rea. Fa√ßa download gratuito do relat√≥rio da WAN-IFRA sobre Media Labs, que faz parte de uma cole√ß√£o sobre tend√™ncias nas reda√ß√Ķes.

√Č isso ent√£o, pessoal. Boa semana e at√© sexta que vem.
Lívia Vieira e Moreno Osório