NFJ#277¬†ūüćā¬† Como o jornalismo impacta a sociedade em tempos de Covid-19

Oi, gente, como estão? Lívia escrevendo, com a colaboração do Moreno. Mais um feriado estranho, no meio de um distanciamento social forçado e essencial. Mais uma semana de noticiário político efervescente, o que nos leva a uma movimentação grande no jornalismo também.

Entre outras coisas, hoje vamos falar sobre liberdade de imprensa e repercutir algumas pesquisas bem interessantes que têm mostrado confiança da audiência nos veículos jornalísticos profissionais em diferentes países do mundo. Esses dados contrastam com a queda sucessiva de confiança na mídia identificada pelo estudo global do Digital News Report (Universidade de Oxford), lembram? Parece que, em momentos de risco e incerteza, as pessoas levam o jornalismo mais em conta. Não deixa de ser uma boa notícia.

Bora ent√£o?

ūüćā Entidades defensoras do jornalismo no Mercosul divulgaram nota em favor da democracia no Brasil. A Abraji, o Foro de Periodistas Paraguayos (Fopep), o Centro de Archivos y Acceso a la Informaci√≥n P√ļblica (CAinfo) do Uruguai, e o Foro de Periodismo Argentino (Fopea) mostraram preocupa√ß√£o com o recrudescimento da persegui√ß√£o a jornalistas e o cerceamento da liberdade de imprensa no Brasil. ‚ÄúNos √ļltimos meses, a hostilidade durante coberturas noticiosas, o ass√©dio virtual, o ass√©dio judicial e agress√Ķes verbais por parte de autoridades, em especial o presidente da Rep√ļblica, v√™m se tornando cada vez mais frequentes‚ÄĚ, diz a nota. Liberdade de imprensa √© fundamental para que sejam publicadas reportagens como a do Intercept Brasil, que denunciou a compra de 200 respiradores mec√Ęnicos pelo governo de Santa Catarina de uma empresa sem tradi√ß√£o na √°rea e com valores bem acima aos praticados no mercado. Em artigo para o Objethos, o professor Rog√©rio Christofoletti destaca o impacto imediato da investiga√ß√£o, que mobilizou os tr√™s poderes da Rep√ļblica e culminou com a demiss√£o do secret√°rio de Sa√ļde de Santa Catarina, Helton Zeferino. Para Christofoletti, ‚Äúo epis√≥dio demonstra o quanto o jornalismo s√©rio e respons√°vel tem lugar cativo na agenda da sociedade. Ele pode prestar servi√ßos, trazendo √† tona malfeitos e distor√ß√Ķes sociais; pode aumentar o n√≠vel de transpar√™ncia p√ļblica que impede crimes e abusos; e pode ajudar a frear medidas que causem preju√≠zos concretos √† vida humana‚ÄĚ. De maneira mais ampla, o rec√©m-lan√ßado ‚ÄúObservat√≥rio de Direitos Humanos ‚Äď Crise e Covid-19‚ÄĚ √© resultado da mobiliza√ß√£o de diferentes entidades e busca a garantia e defesa dos direitos humanos diante da emerg√™ncia de sa√ļde p√ļblica que se estabeleceu no Brasil e no mundo. O primeiro debate online aconteceu esta semana.

ūüćā Uma hashtag com erro de grafia - #fechadocomBolsolnaro - que ficou nos trending topics esta semana, levantou suspeitas sobre o uso de rob√īs forjando apoio ao presidente na crise com Moro. As suspeitas aumentam quando vemos hashtags brasileiras no topo das inaut√™nticas, em levantamentos feitos pela Bot Sentinel. A de hoje (sexta), que estava entre as top3, era #DireitaRaiz√©Bolsonaro. Diante da ina√ß√£o do Twitter para coibir esses desvios, fica cada vez mais dif√≠cil confiar nos Trending Topics, n√©? E √© justamente com um exemplo de desinforma√ß√£o no Twitter que come√ßa o ‚ÄúVerification Handbook for Disinformation and Media Manipulation‚ÄĚ, nova edi√ß√£o online e gratuita lan√ßada pelo European Journalism Centre. S√©rgio Ludtke assina um dos casos do e-book, que descreve a investiga√ß√£o sobre um √°udio que viralizou no epis√≥dio da facada a Bolsonaro. O Nieman Lab repercutiu. E para tentar coibir a desinforma√ß√£o, a International Fact-Checking Network (IFCN) criou o Fact-Checking Development Grant, programa para ajudar financeiramente as ag√™ncias de fact-checking. Parte da verba vir√° do suporte que a IFCN recebeu do YouTube - US$1 milh√£o.

ūüćā falamos bastante sobre as recentes demiss√Ķes e redu√ß√Ķes de sal√°rios nas empresas jornal√≠sticas. Aqui tem um √≥timo resumo feito pelo Knight Center. O ICIJ destacou reportagens que denunciaram o descaso de empresas com seus empregados. Apesar dessa triste realidade, ve√≠culos jornal√≠sticos em todo o mundo t√™m se esfor√ßado para fazer uma cobertura de qualidade sobre a pandemia. Press Gazette elencou as melhores reportagens exclusivas da pandemia at√© agora, muitas delas mostrando a realidade dentro dos hospitais. O Knight Center conta como ve√≠culos do Brasil e do Peru est√£o dando espa√ßo a vozes de trabalhadores na linha de frente e de pessoas em quarentena durante a pandemia. Visibilizar essas pessoas √©, inclusive, o que pede o rep√≥rter Yan Boechat em entrevista ao Objethos. Consenso entre acad√™micos e especialistas, a cobertura da The Atlantic tem sido um ‚Äúmust-read‚ÄĚ. Neste texto, o Nieman Lab conta que a revista ganhou milhares de novos assinantes desde o in√≠cio da crise. Como tenho lido muitos elogios √† The Atlantic, comecei a acompanhar e noto que eles investem em reportagens de f√īlego, anal√≠ticas, como essa que prev√™ como a pandemia ir√° terminar.

ūüćā Aproximadamente 7 em 10 adultos norte-americanos dizem que precisam descansar das not√≠cias sobre a COVID-19. O novo estudo do Pew Research Center descobriu ainda que mais da metade do p√ļblico (56%) afirma que os ve√≠culos de not√≠cias nacionais s√£o uma fonte importante, e 51% dizem isso das organiza√ß√Ķes e autoridades de sa√ļde p√ļblica. O Reuters Institute observou realidade semelhante no Reino Unido: mais de um ter√ßo (37%) afirmam que a m√≠dia est√° fazendo um bom trabalho durante a pandemia, mas as melhores avalia√ß√Ķes foram para o sistema de sa√ļde NHS (92%) e para o governo ingl√™s (54%). Aqui no Brasil, os resultados preliminares da pesquisa que fiz (ainda n√£o publicada) tamb√©m indicam confian√ßa nos meios de comunica√ß√£o de refer√™ncia durante momentos de crise como o que estamos vivendo: 29,74% dos 306 participantes avaliam como excelente a qualidade da cobertura jornal√≠stica brasileira, 42,48% como boa, 18,95% como regular e 8,82% como ruim. Outro spoiler interessante: 38,9% dos respondentes dizem obter informa√ß√Ķes majoritariamente pelos sites de not√≠cia, 35% pela TV, 23,5% pelas redes sociais, 2% pelo r√°dio e menos de 1% por jornais impressos e revistas. Quando perguntamos especificamente sobre a internet, quase a metade indicou os sites de not√≠cia como fonte de refer√™ncia, seguido de Twitter (10%), canais de influenciadores (10%), Facebook (8%) e Instagram (8%). WhatsApp ficou em pen√ļltimo, com 3%, seguido por podcasts, com 2%.

ūüćā Um giro sobre o jornalismo e a COVID-19 pelo mundo: Mia Malan, editora-chefe da startup sul africana Bhekisisa Centre for Health Journalism, conta como os jornalistas est√£o adaptando a cobertura aos problemas do Sul Global. Isso est√° fazendo com que ve√≠culos da √Āfrica ganhem popularidade entre leitores ‚Äúcom as quais editores n√£o poderiam sonhar h√° alguns meses‚ÄĚ. Mas a situa√ß√£o dos impressos √© dram√°tica. No Chile, ve√≠culos est√£o mudando suas formas de organiza√ß√£o por causa do trabalho de casa. E o Observat√≥rio de Jornalismo Europeu publicou mais dois artigos sobre coronav√≠rus e a m√≠dia na Arg√©lia e na Jord√Ęnia.

ūüćā Dicas de seguran√ßa m√©dica para jornalistas que est√£o cobrindo a pandemia: evite entrevistas pessoais n√£o essenciais em √°reas de alto risco; n√£o descuide em regi√Ķes ou pa√≠ses com taxas de infec√ß√£o supostamente baixas; use microfones direcionais em vez de microfones de lapela e minimize a quantidade e a complexidade do equipamento que voc√™ leva para campo; verifique se seus dispositivos est√£o totalmente carregados para evitar contamina√ß√£o nos pontos de carregamento. Algumas ferramentas √ļteis (incluindo alternativas ao Zoom). Conselhos para informar sobre o coronav√≠rus de maneira correta. Mais ferramentas para jornalismo investigativo. E como reda√ß√Ķes podem come√ßar a tomar decis√Ķes sobre memberships baseadas em dados.

ūüćā Para finalizar: depois de meses de gesta√ß√£o, o Headline √© o novo ve√≠culo jornal√≠stico independente dedicado a reportagens investigativas no Brasil. A fase de pr√©-lan√ßamento inclui v√≠deos curtos sobre os diversos aspectos da crise com fontes especializadas. Veja uma lista com as melhores narrativas interativas de 2019, elaborada pelo professor Jose Avil√©s. E apesar de o coronav√≠rus apontar para tempos dif√≠ceis nos neg√≥cios jornal√≠sticos, o Guardian registrou um aumento substancial de assinantes: agora s√£o 821 mil, um quarto a mais do que em 2019.

√Č isso, gente. Bom restinho de feriado, um √≥timo fim de semana e at√© sexta que vem.

Lívia Vieira e Moreno Osório