Colaboração radical: o caminho possível para o jornalismo em 2026 exige soluções coletivas
O avanço da IA desequilibra ainda mais a relação entre publishers e plataformas e impõe ao jornalismo a construção de soluções compartilhadas para encontrar novas formas de financiamento
A crise econômica do jornalismo não é novidade. O que parece permanecer pouco compreendido, porém, é que essa crise não será resolvida com estratégias empresariais de sobrevivência isoladas. A transformação digital, que desestabilizou os modelos tradicionais de financiamento do jornalismo, fragmentando audiências, migrando receitas publicitárias para empresas de tecnologia e subordinando decisões editoriais a métricas de plataformas e mecanismos de busca, mudou a forma como o sistema informacional está estruturado e criou um cenário em que a cooperação deixou de ser meramente desejável para se tornar condição de existência.
Em 2026, o jornalismo brasileiro precisará construir soluções compartilhadas entre redações, academia, sociedade civil e formuladores de políticas públicas para reequilibrar o seu sistema de financiamento. Isso significa, entre outras coisas, estabelecer instrumentos de cooperação que fortaleçam o jornalismo de interesse público, negociar novas formas de remuneração com as big techs, investir em inovação que não dependa exclusivamente das lógicas das plataformas e, sobretudo, organizar-se como setor para atuar coletivamente na defesa de condições mínimas de sustentabilidade.
Um episódio desconcertante
Desde 2024, a Momentum - Journalism and Tech Task Force tem, entre seus temas de trabalho, a regulação jurídica e econômica das big techs como uma das medidas a serem consideradas ao pensarmos na sustentabilidade do jornalismo que se coloca a serviço da democracia. Durante esses dois anos, mostramos que uma regulação econômica do setor digital poderia compensar os desequilíbrios causados pelas assimetrias de mercado geradas pelas empresas de tecnologia. O diagnóstico que embasa essa afirmação é que a transformação das bases econômicas do jornalismo criou um cenário em que a informação confiável se torna cada vez mais escassa e economicamente insustentável.
Este ano, buscamos aprofundar esse entendimento. Planejamos uma pesquisa para mapear o impacto concreto do AI Overview do Google na perda de tráfego dos principais veículos brasileiros. Os dados coletados poderiam fortalecer negociações futuras, reforçar a urgência regulatória e embasar políticas compensatórias. A participação seria benéfica para todos os envolvidos. Mas, ao final, apenas poucos veículos aceitaram colaborar e compartilhar conosco seus dados sobre a queda, ou não, do tráfego após a implementação da ferramenta do Google. A maioria preferiu proteger seus segredos de negócio a apostar na cooperação. Esse episódio revela uma das barreiras da cooperação.
O que os dados nos contam sobre o novo ecossistema informacional?
A pesquisa “Vetores e Implicações da Desordem Informacional na América Latina“, produzida pelo InternetLab e pela Rede Conhecimento Social neste ano, mostra que o consumo de notícias não ocorre mais apenas em formatos tradicionais, como os portais e os sites de veículos. As pessoas acessam o que entendem por notícias por meio de diferentes plataformas, cada uma em um contexto específico. O Google continua sendo a principal porta de entrada para quem busca notícias no Brasil: 64% das pessoas usam o mecanismo de busca para isso. Se o fluxo de informação mudou, o fluxo de valor também mudou.
Outro dado relevante: as pessoas compartilham notícias sobretudo em ambientes digitais privados, como o WhatsApp, priorizando grupos em que há confiança, intimidade e pertencimento. A consequência é que as notícias circulam em microcircuitos e a lógica de relevância é definida por afetos e proximidade, não necessariamente pela qualidade do material ou pela verificação de fatos. Nesse cenário, quando o compartilhamento de notícias migra para ambientes privados, mediados por vínculos de confiança, a relevância deixa de ser definida por critérios editoriais e passa a seguir lógicas afetivas, o que reforça a necessidade de estratégias coletivas para compreender essa nova lógica e tentar reconstruir o senso de valor nesse ecossistema.
E é nesse contexto complexo que, nos últimos anos, a ferramenta de busca do Google e os chatbots de IA tornaram-se os principais gargalos do ecossistema informacional. Eles são, ao mesmo tempo, a porta de entrada para a maior parte das buscas por notícias, como demonstra a pesquisa do InternetLab e Redes Cordiais citada, e seus produtos são os principais destinos do investimento em publicidade digital. O conteúdo jornalístico alimenta motores de busca, suas respostas – formuladas com inteligência artificial – e seus produtos. Do outro lado, os veículos se veem cada vez mais dependentes de um fluxo de tráfego que não controlam e de um modelo de distribuição que não remunera adequadamente o trabalho que sustenta as próprias plataformas.
A introdução de respostas automatizadas por IA, que sintetizam notícias sem necessariamente direcionar o usuário às fontes originais, evidencia um desequilíbrio estrutural: a informação profissional financia o sistema, mas o valor gerado deixa de circular de volta para quem a produz. Não se trata de questionar a inovação, e sim de reconhecer que um setor inteiro não pode ser reconstruído “no residual” de plataformas que capturam a maior parte do valor econômico.
Os processos iniciados nesse ano por veículos contra empresas de tecnologia, como a ação da Folha de S.Paulo contra a OpenAI pelo uso de conteúdos jornalísticos sem autorização ou remuneração, revelam que o setor já começou a reagir a esse desequilíbrio. Esses processos desempenham um papel importante ao explicitar a extração de valor não compensada, mas têm alcance limitado. Eles reforçam a urgência de uma resposta coordenada do setor, capaz de transformar casos individuais em parâmetros coletivos que orientem políticas públicas, acordos setoriais e modelos de remuneração mais justos pelo uso do jornalismo.
O futuro do jornalismo, em 2026 e nos anos seguintes, não depende apenas de criar novos produtos ou de buscar novos assinantes. Depende de enfrentar, com clareza, o desequilíbrio criado por intermediários que concentram a audiência, a receita e o poder de definir os fluxos de informação.
Tratamento como bem público exige ação como setor
Na abertura da Global Investigative Journalism Conference (GIJC2025), a jornalista Maria Ressa, laureada com o Prêmio Nobel, foi precisa ao invocar a “colaboração radical”. Não a colaboração pontual, nem a protocolar. A provocação é direta: o jornalismo só será reconhecido como bem público se for capaz de atuar como um campo estruturado para tanto. Não há compensação econômica individual quando o problema é estrutural. Não há negociação forte quando cada veículo tenta negociar sozinho com gigantes globais. Não existe política pública efetiva quando atores fundamentais têm receio de compartilhar dados básicos de operação entre si.
A desestabilização econômica do jornalismo não reflete apenas uma crise empresarial – é a ruptura na infraestrutura que sustenta os fluxos democráticos de informação. Quando o jornalismo de qualidade carece de financiamento sustentável, quando escolhas editoriais são cada vez mais orientadas por métricas de plataformas, e quando produzir informação de interesse público se torna economicamente inviável, o resultado não é meramente uma crise de negócios, mas o colapso das estruturas que sustentam a circulação democrática da informação, afetando os direitos de acesso à informação e liberdade de expressão.
No próximo ano, a disputa por regulação econômica, seja sobre IA, mecanismos de compensação ou transparência algorítmica, exigirá dados compartilhados e estratégias conjuntas. E também coragem para sair da lógica de sobrevivência isolada. No Brasil, iniciativas como o PL 2338/2023, que introduz mecanismos de remuneração pelo uso de material jornalístico no treinamento de sistemas de IA, e o PL 4.675/2025, que atualiza a lei de defesa da concorrência para lidar com o poder de mercado das Big Techs, ilustram caminhos possíveis para o jornalismo.
O trabalho das associações de coordenação setorial na busca por regulação tem sido muito relevante nesse sentido, mas sem uma mudança de mentalidade na administração dos veículos ela será insuficiente. Se o jornalismo quiser reivindicar seu papel de infraestrutura democrática – ou, em outros termos, de bem público – a colaboração em disputas políticas, na produção de pautas relevantes e na conexão com a audiência não é mais uma opção. É a única forma de negociar com plataformas, de lidar com os impactos da IA, de redesenhar fluxos de valor e de reconstruir a confiança do público num ecossistema cada vez mais fragmentado.
Um ecossistema informacional mais justo e plural deve repousar sobre princípios fundamentais: diversidade de vozes e perspectivas; sustentabilidade econômica que preserve independência editorial; acesso democrático à informação de qualidade; inovação contínua em formatos e metodologias; e transparência tanto no financiamento quanto nos processos de produção. Ao que tudo indica, 2026 vai exigir colaboração radical entre veículos, pesquisadores e comunidade. Ou não haverá jornalismo suficiente para compensar, nem para proteger.
Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2026. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.




