Como recuperar o valor do jornalismo para uma sociedade que perdeu o respeito pela profissão
Diante de um problema complexo, Estado, organizações da sociedade civil, veículos e plataformas precisam agir para frear a violência contra jornalistas e garantir a liberdade de imprensa em 2026
A violência observada contra jornalistas e meios de comunicação não é um fenômeno novo, muito menos exclusivo do cenário brasileiro. Desde a ascensão da internet em meados dos anos 90, o jornalismo vem sofrendo com a crise de seu modelo de negócio e também com a crise de confiança provocada pela multiplicidade de fontes de informação, muitas de conteúdo duvidoso, e pela fragmentação da audiência. O que é novo é a escala dos ataques proporcionada pelo ambiente online e impulsionada pela polarização política. Nesse contexto, atacar jornalistas virou moeda corrente, como se a sociedade tivesse perdido o respeito pela profissão, que um dia foi considerada o quarto poder.
Governos de direita e de esquerda deslegitimam o jornalismo profissional, enquanto buscam o controle da narrativa. Não à toa, apesar de seu aparente desprezo por jornalistas e meios de comunicação, líderes populistas de direita como Viktor Orbán na Hungria ou de esquerda como Daniel Ortega e Rosario Murillo na Nicarágua, tão logo assumem o poder, correm para destruir a imprensa independente e adquirir meios que lhes sejam favoráveis. No Brasil de Jair Bolsonaro (2019-2022), não se chegou a tanto, embora tenha havido um forte movimento de avanço sobre a TV pública EBC na tentativa de transformá-la em porta-voz do governo. Também se assistiu ao alinhamento de meios ao governo, caso da Jovem Pan, e o surgimento de canais de desinformação travestidos de veículos jornalísticos, como o Jornal da Cidade Online.
Sob os anos Bolsonaro, uma linha perigosa foi cruzada no relacionamento entre poder e imprensa. Nunca se atacou tanto o jornalismo. Monitoramento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) mostra que 2022 foi o ano recorde em número de ataques (557). Também foi o ano em que foi assassinado o jornalista britânico Dom Phillips, ao lado do indigenista Bruno Pereira, durante viagem de pesquisa ao vale do Javari (AM) para seu livro Como salvar a Amazônia, finalizado e lançado em 2025 com a ajuda de amigos jornalistas. Após três anos, o crime segue impune.
O contexto eleitoral polarizado de 2022, seguido da frustrada tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, contribuiu para o aumento de ataques contra a imprensa. Levantamento entregue ao governo federal, realizado por dez organizações de defesa da liberdade de imprensa entre os dias 8 e 11 de janeiro de 2023, registrou 45 casos de agressão física, ameaças, confisco de material de trabalho, roubos e ofensas para impedir o trabalho da imprensa na cobertura dos atos golpistas.
Com o retorno à normalidade de relações entre poder e imprensa a partir de 2023, os números de casos despencaram. A Abraji registrou queda de 41% naquele ano (330 ataques) e de 36,4% em 2024 (210 ataques). A Federação Nacional dos Jornalistas, que compila os casos de violência contra jornalistas desde a década de 1990, anotou 144 ataques em 2024, o menor número comparado aos seis anos anteriores. No entanto, a entidade ressaltou em seu mais recente relatório que o assédio judicial (16% dos casos em 2024) e os ataques contra mulheres jornalistas seguem como tendências preocupantes.
Ataques físicos também foram comuns em 2024. Houve situações graves como a de um jornalista de São Paulo ameaçado por um vereador que carregava uma arma na cintura e a de uma equipe da TV Record, no Rio de Janeiro, que teve seu carro atingido por disparos. A isso se soma a violência durante o polarizado contexto das eleições municipais de 2024, com políticos, assessores e apoiadores aparecendo como os maiores agressores. A Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), da qual o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) faz parte junto com outras dez organizações, monitorou os ataques virtuais, com dados divulgados periodicamente durante o período eleitoral.
Ao longo de 2025, foram frequentes os casos de uso da justiça para intimidar o exercício jornalístico e censurar conteúdos. Em outubro, por exemplo, a InfoAmazonia teve uma publicação, que mencionava uma reportagem envolvendo o secretário ambiental de Rondônia, removida de seu Instagram por ordem da Justiça estadual. É comum entre autoridades processar jornalistas que fazem denúncias contra eles em suas investigações, como é o caso do governador do Mato Grosso, Mauro Mendes.
Outra tendência alarmante é o cerceamento da cobertura jornalística de atos de interesse público, como a desocupação, em maio, da Favela do Moinho, em São Paulo. Na ocasião, segundo a Fenaj, a polícia impediu a entrada de repórteres de alguns veículos, como Ponte Jornalismo e Brasil de Fato, na comunidade, em claro desrespeito à Constituição. Agressões físicas como a que sofreu o jornalista Guga Noblat, do ICL Notícias, agarrado pelo pescoço pelo deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP) em um dos corredores da Câmara Federal, seguem ocorrendo.
A exposição de dados pessoais na internet, conhecida como doxing, tornou-se comum, expondo jornalistas e, muitas vezes, seus familiares a ataques nas redes sociais. Thiago Herdy, colunista do UOL, teve fotos e informações pessoais vazadas em um site hospedado na plataforma Wix, após a publicação de uma série de reportagens investigativas sobre supostas irregularidades em contratos de obras emergenciais da prefeitura de São Paulo.
Embora o Brasil tenha subido no ranking mundial da liberdade de imprensa da Repórteres sem Fronteiras (RSF) – passando da 110ª colocação em 2022 para a 63ª em 2025 –, isso não se traduz em um ambiente livre de ataques. A impunidade colabora para esse cenário, já que dificilmente os autores são responsabilizados, incluindo os mandantes e executores de assassinatos. Segundo o Índice da Impunidade de 2024 do CPJ, o Brasil figura na lista há 15 anos com oito assassinatos não resolvidos nos últimos dez anos.
Mas o que pode ser feito para mitigar os ataques a jornalistas em 2026, sobretudo levando-se em conta a provável violência durante o período eleitoral? Como governo, sociedade civil, veículos e plataformas podem agir em busca de soluções para um problema tão complexo, garantindo o acesso da população a informações de interesse público? Como reconquistar a confiança da sociedade no jornalismo livre, plural e independente?
Não há bala de prata. Para um problema complexo, é preciso múltiplas respostas. Desde 2023, o governo tem mostrado abertura para tratar o tema, tanto que o Ministério da Justiça e Segurança Pública criou, após a frustrada tentativa de golpe de 8 de janeiro, o Observatório da Violência contra Jornalistas e Comunicadores Sociais com a participação de órgãos governamentais e organizações da sociedade civil, como CPJ, Abraji, Fenaj e RSF, entre outras. O objetivo é adotar um protocolo para receber e tratar casos, além de definir claramente os tipos de ataques mais comuns, como assédio judicial e on-line, e como lidar com eles.
Em 14 de junho de 2023, foi instalado no âmbito do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania o Grupo Técnico de Trabalho Sales Pimenta, com a missão de criar um Plano Nacional de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos (que inclui comunicadores), entregue em dezembro de 2024 e instituído por decreto presidencial em 6 de novembro de 2025. É um avanço reivindicado há mais de 20 anos pela sociedade civil. No entanto, ainda falta a aprovação do projeto de lei que institui a Política Nacional de Proteção a Defensores de Direitos Humanos que inclui o plano, o atual Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas e o Sistema Nacional de Proteção.
A mesa de trabalho conjunta com representantes do Estado, indígenas do vale do Javari e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), criada após o assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira, também foi um ponto positivo e seu objetivo é implementar as medidas cautelares da CIDH que preveem a criação de um plano de ação para proteger defensores de direitos humanos na região.
Organizações de defesa e proteção e jornalistas nacionais e internacionais, como o CPJ, trabalham na documentação dos ataques e atuam para que as violações não fiquem impunes, incluindo levar alguns desses casos ao sistema interamericano, como a CIDH e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Também oferecem apoio emergencial em casos de alto risco, apoio legal e psicossocial, além de treinamentos em segurança física e digital.
Os meios de comunicação também precisam fazer a sua parte e não apenas oferecer equipamentos de proteção individual a seus funcionários. É preciso treiná-los para planejar as pautas, prever os riscos de coberturas perigosas e ter planos de contenção e mitigação de danos. É necessário ainda apoiá-los em caso de demandas judiciais usadas para silenciar e que podem exaurir o profissional financeira e emocionalmente.
As plataformas de redes sociais precisam desenvolver e implementar políticas de combate à violência online, implementar mecanismos de prevenção a ataques digitais contra jornalistas, com canais específicos e ágeis para tratar esses casos, e responsabilizar os agressores, incluindo bloqueio de monetização e impulsionamento, suspensão temporária da conta do infrator, exclusão do usuário infrator, notificação das demais plataformas digitais sobre o ataque digital e comunicação às autoridades competentes.
Todos os atores anteriores devem trabalhar para que a sociedade recupere a confiança no jornalismo e no seu valor para a manutenção da democracia. Sem acesso a informações confiáveis, os cidadãos não podem formar sua própria opinião sobre os fatos que afetam o seu dia a dia. Uma imprensa livre, plural e independente é um direito de todos e todas garantido pela Constituição. É o desafio que está posto ao jornalismo hoje e nos próximos anos.
Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2025. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.




