Feminismo de dados nas eleições de 2026: o que o jornalismo brasileiro não está percebendo
Em 2026, não bastará ao jornalismo retratar candidaturas, mapear alianças e checar discursos – será preciso por dados centro da cobertura política a partir de um perspectiva de gênero
As eleições gerais de 2026 colocam o jornalismo brasileiro diante de um novo ponto de inflexão. Teremos eleições federais num ecossistema digital completamente reorganizado pelas grandes plataformas: a Meta, que controla Instagram, Facebook e WhatsApp, encerrou ferramentas de acesso a dados; o X reduziu drasticamente o acesso à sua API; novas tecnologias generativas se popularizaram e a disputa eleitoral é um caminho aberto para fluxos de desinformação absolutamente imprevistos.
Nesse cenário, persiste a precariedade histórica de dados sobre gênero e raça no Brasil, ao tempo em que mulheres, sobretudo negras, indígenas, trans e periféricas, seguem as mais atacadas no debate público. O jornalismo que chega às eleições de 2026 com as mesmas ferramentas de 2022 já entra em campo desatualizado. É nesse vazio que o feminismo de dados oferece não só um método, mas uma ética de investigação e cuidado.
Dados e poder
O feminismo de dados, conceito proposto por Catherine D’Ignazio e Lauren Klein, parte da premissa de que nenhum dado é neutro e de que toda coleta, classificação e interpretação carrega marcas de poder. No Brasil, essa abordagem ganhou contornos próprios a partir do mergulho de jornalistas e pesquisadoras em bases públicas, reconhecendo o padrão global de reprodução de desigualdades.
As estatísticas oficiais sobre feminicídio, por exemplo, permanecem fragmentadas, mal classificadas e subnotificadas, como mostram iniciativas analisadas no relatório internacional “Ativismo de Dados Contra o Feminicídio”, de Isadora Cruxên e Alessandra Jung. O mesmo ocorre com dados sobre aborto legal, violência sexual, participação política e violência política de gênero. Em todos esses campos, o jornalismo ainda atua com informações incompletas, comprometendo não apenas a apuração, mas também a capacidade de explicar o país.
Democracia em disputa
Chegamos a 2026 com um quadro simultaneamente preocupante e persistente: mulheres são a maioria do eleitorado (52,65% em 2022), mas seguem espremidas na política institucional. Em abril de 2025, o Brasil estava na 133ª posição do ranking mundial de representação parlamentar de mulheres, com apenas 18,1% das cadeiras na Câmara dos Deputados ocupadas por mulheres (93) e 19,8% no Senado Federal (16). A média das Américas era de 35,4% no mesmo período. Nas eleições municipais de 2024, as mulheres obtiveram menos de 18% dos eleitos no primeiro turno. Neste ritmo, o Brasil precisaria de cerca de 70 anos para alcançar a paridade de gênero nas cadeiras do Congresso Nacional e 80 anos nos municípios brasileiros.
Essa é uma estimativa com base nos avanços dos dois últimos pleitos, e não uma previsão oficial, pressupondo que o ritmo de crescimento permaneça estável. Mas muitos elementos podem acelerar ou frear o processo, como mudanças nas cotas de gênero, redistribuição de recursos partidários, evolução dos mecanismos de combate à violência política de gênero e raça, ou, por outro lado, as resistências da extrema-direita, o antifeminismo e o crescimento do movimento antidireitos.
Considerando levantamentos recentes, o segundo cenário parece mais factível. Em 2022, levantamento do Instituto Marielle Franco sobre candidatas negras mostrou que 98% relataram ao menos um episódio de violência política, e esse percentual aumentava entre mulheres negras LBT. Em 2024, monitoramentos realizados por Terra de Direitos e Justiça Global apontaram o crescimento da violência política de gênero e raça fora dos períodos eleitorais em câmaras municipais e assembleias legislativas, reforçando o lugar estrutural da violência política de gênero no Brasil e traçando perspectivas pouco animadoras de equidade.
Colocando em perspectiva a elevação da cláusula de barreira em 2026, que tende a reduzir o espaço político para candidaturas femininas, negras e de outros grupos minorizados, o encolhimento da transparência digital, o crescimento da violência política e a sub-representação persistente de mulheres, fica nítida, no próximo ano, a demanda por um jornalismo cada vez mais atento às questões de gênero, e melhor preparado para interpretar o Brasil.
O que o feminismo de dados já faz no Brasil
Antes de falar em “o que fazer”, vale olhar para experiências que já estão, de fato, aplicando princípios feministas ao trabalho com dados no Brasil — ainda que nem sempre usem esse rótulo.
Algumas organizações brasileiras já desenvolvem ações apoiadas no feminismo de dados, como a Gênero e Número, mídia orientada por dados que produz reportagens, visualizações e pesquisas sobre gênero, raça e sexualidade. Apesar da sofisticação metodológica e visual, seu foco é a escolha de olhar o que as estatísticas oficiais deixam de lado, como no levantamento que mostrou que, em Roraima, entre 2018 e 2021, para cada menina de 10 a 13 anos que teve acesso ao aborto legal, 31 vítimas de estupro deram à luz.
No campo eleitoral, desde 2019 o Instituto AzMina constrói um ecossistema de monitoramento legislativo que se tornou referência no país. O Elas no Congresso acompanha diariamente a atuação de parlamentares federais em temas relacionados a gênero e sexualidade a partir de raspagem de dados públicos e classificação qualitativa, totalizando 2.413 proposições avaliadas com apoio de mais 25 organizações da sociedade civil. Em 2025, o projeto deu um salto com o lançamento da QuitérIA, inteligência artificial feminista treinada para automatizar etapas sem dispensar a curadoria humana.
Na seara dos direitos reprodutivos, AzMina criou a plataforma AbortoNoBrasil.info, que reúne dados oficiais sobre internações por aborto, gastos hospitalares, número de mortes, perfil sociodemográfico das pessoas atendidas e estatísticas sobre a oferta de aborto legal no SUS. Em um debate marcado por moralismo e desinformação, o esforço de consolidar e contextualizar dados permite uma disputa mais justa pela narrativa. Aqui, o feminismo de dados se manifesta tanto na escolha do tema quanto na decisão de oferecer uma base aberta com metodologia transparente.
Esses exemplos se somam a iniciativas de transparência ativa via Lei de Acesso à Informação, conduzidas por organizações como Fiquem Sabendo, que trabalha sistematicamente com dados sobre violência de gênero, feminicídios, políticas de proteção e protocolos de atendimento. Também se conectam ao trabalho de coletivos como o Nós, Mulheres da Periferia, que produz contrapeso simbólico e estatístico ao sistema político que trata grupos inteiros como exceções.
Desafios e possibilidades para 2026
Como eu dizia no início, chega atrasado a 2026 o jornalismo que resume cobertura eleitoral a retratar candidaturas, mapear alianças e checar discursos, sempre a partir do lugar de poder político, que segue patriarcal e racista. Como disse a própria Catherine D’Ignazio em algumas entrevistas, o feminismo de dados vai muito além de um conceito operacional voltado a beneficiar as mulheres. É sobre o quanto “questões de poder são determinantes e não desaparecem magicamente só porque você está usando dados”. Não seria ótimo que nós, jornalistas, tomássemos os dados não apenas como fonte, mas também como novas ferramentas para reaprender a ler?
Embora já tenhamos um conjunto de experiências relevantes nesse campo, boa parte das redações ainda trata gênero e raça como temas laterais, restritos a editorias específicas ou a datas simbólicas. No próximo ano, o feminismo de dados aponta para a possibilidade de integrar essas dimensões ao centro da cobertura política, econômica e eleitoral. Na prática, isso implica que matérias sobre reforma tributária considerem seu impacto na vida de trabalhadoras informais; que reportagens sobre segurança pública mostrem que mulheres negras sofrem mais feminicídio no Brasil; e que a cobertura eleitoral vá além de citar o número de candidatas, mas investigue quantas têm financiamento robusto, tempo de TV e quantas enfrentaram violência política no caminho.
O feminismo de dados, ao insistir em olhar para o que parece invisível, oferece ao campo do jornalismo uma oportunidade de reconstruir sua própria relevância social em tempos de baixa confiança. Ele nos lembra do básico: não existe dado sem contexto, nem estatística sem corpo e nenhum dado é neutro. Aceitar esse desafio pode fazer de 2026 mais do que um ano de medo e desinformação.
Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2025. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.




