NFJ#278 🍂 "Haverá redações dignas de tal nome no futuro?"

A reação aos ataques no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, fact-checking no WhatsApp, a importância do jornalismo de ciência e o conselho do Facebook

Buenas, moçada!

Moreno aqui, abrindo a Newsletter Farol Jornalismo 278, pra compartilhar uma novidade: estamos de casa nova! Depois de quase seis anos, migramos do MailChimp para o Substack. Há tempos pensava nessa mudança, inclusive incentivado por alguns de nossos apoiadores. Mas acabava desistindo porque o MailChimp é uma ferramenta mais completa, com mais funcionalidades. Só que agora, com o dólar batendo nos SEIS REAIS, abracei a mudança. E não me arrependi - ao menos até agora.

O melhor da troca é que conseguimos disponibilizar o ARQUIVO INTEIRO da newsletter. Agora é mais fácil navegar e fazer buscas nas edições anteriores. Disponibilizamos inclusive os cinco episódios do nosso podcast, que foi ao ar em 2016 - os mais antigos vão lembrar - e todas as edições da Brazilian Journalism Observatory, nossa newsletter em inglês que circulou até meados do ano passado.

COISA LINDA.

Outra coisa: decidimos testar um novo dia de envio. A partir da semana que vem, vocês receberão a NFJ na segunda-feira. No mais, seguimos com a nossa temporada de outono. E com banner novo, foto cortesia da amiga e colega Ana K. Ávila.

Certo?

Agora, vamos à news. Hoje com curadoria da Lívia Vieira e minha. O texto é da Lívia.

Bora.

🍂 Vocês viram. No Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, comemorado domingo passado, jornalistas foram agredidos em manifestação pró-Bolsonaro. Segundo a Abraji, “tais acontecimentos evidenciam o risco cada vez maior ao qual o discurso belicoso e ultrajante do presidente da República expõe os repórteres brasileiros”. Autoridades de todo o país rechaçaram os ataques, como mostrou o Estadão. Menos o presidente, claro, que na terça já mandava os jornalistas calarem a boca. #Calabocajámorreu, presidente. Na quarta, a Associação Brasileira de Imprensa pediu o impeachment de Bolsonaro, alegando prática de crimes de responsabilidade e atentados à saúde pública no combate ao novo coronavírus. De acordo com o diretor da Repórteres Sem Fronteiras, Emmanuel Colombié, o ‘cala a boca’ do presidente a jornalistas é o ‘sistema Bolsonaro’ para descredibilizar a imprensa. Fato é que os ataques à imprensa durante uma das crises mais graves da história não se limitam ao Brasil. A ONU pediu aos governos que, na luta contra o coronavírus, não atentem contra a liberdade de imprensa. “A informação livre é essencial para fazer frente à crise, entendê-la, refletir sobre ela e superá-la”, disse a UNESCO em nota. Este e-book para download gratuito da FOPEA diz que, quando aumentam as necessidades são ainda mais importantes as liberdades. Este mapa do Index on Censorship, que tem monitorado ataques a jornalistas relacionados à cobertura da COVID-19, mostra que a erosão da liberdade de imprensa está acontecendo em todo o mundo. “Jornalistas estão escrevendo o primeiro rascunho da história desta crise, e os governos usam isso como uma oportunidade para reprimir a imprensa”, diz este texto do Reuters Institute. Em entrevista ao ObjETHOS, o professor Silvio Waisbord afirma que, “à medida em que a crise sanitária avança no país e o debate político se acirra em torno de pautas antidemocráticas, ataques contra jornalistas se proliferam com agressões físicas, verbais e agravam a violência digital contra os profissionais da mídia”. Para o Instituto Palavra Aberta, liberdade de imprensa deve ser debatida na escola. E para auxiliar nessa empreitada, lançaram o projeto “Jornalismo: Conhecer para Defender”, websérie que explica como funciona o processo jornalístico, abrindo caminhos para o aperfeiçoamento da análise e leitura crítica da mídia.


🍂 Há espaço para inovação no meio da crise. O Núcleo Jornalismo lançou esta semana o Monitor Nuclear, aplicação que mostra tendências de engajamento em perfis dos políticos mais relevantes no Twitter. Segundo Sérgio Spagnuolo, os dados que podem indicar tanto o humor do momento quanto a mobilização de bases de apoio. Em entrevista ao Storybench, Spagnuolo afirma que os dados do Twitter são relevantes para o cenário político e que, por isso, decidiu construir uma ferramenta para ver como os políticos engajam com seus públicos. Já a International Fact-Checking Network (IFCN) lançou um chatbot no WhatsApp para conectar usuários com o trabalho de mais de 80 organizações de fact-checking em todo o mundo. “Ao usar o chatbot, os cidadãos podem verificar facilmente se determinado conteúdo sobre a COVID-19 já foi classificado como falso por verificadores profissionais”, diz este texto do Poynter. Aqui você aprende como usar o chatbot. Esta matéria do Techcrunch informa que o serviço está atualmente disponível em inglês, mas em breve haverá versões em Português e Espanhol. E hoje a IFCN abriu uma chamada para propostas de pesquisa, convidando acadêmicos a estudar o banco de dados que reuniu mais de 5.300 boatos desmentidos sobre o novo coronavírus - em 74 países e em 43 idiomas diferentes. As propostas podem ser submetidas até 29 de maio. 


🍂 O New York Times atingiu recorde de assinaturas digitais (foram 587 mil novos assinantes no último trimestre, totalizando 6 milhões) e está contratando jornalistas, vejam vocês. Em contrapartida, a receita de anunciantes caiu 15% no mesmo período. Ao analisar o feito, o Poynter destacou a recente campanha do Times - “A verdade é essencial” -, uma indireta às inverdades ditas por Trump durante a crise do coronavírus. É também do Times um memorando que informa que a redação não voltará ao seu funcionamento normal pelo menos até setembro e que estão começando a desenhar “uma visão a longo prazo para o trabalho remoto”. Para o professor Ramón Salaverría, a pandemia vai mudar muitas coisas no jornalismo e uma delas será redefinir o conceito de redação. “Haverá redações dignas de tal nome no futuro ou equipes de jornalistas trabalhando remotamente com uma mínima infraestrutura central? Aponto para esta última”. Ele lembra que a implosão das redações começou anos atrás com a conversão de muitos jornalistas em “falsos autônomos”. “Receio que esta tendência seja uma nova reviravolta nesse processo. É bom que um jornalista esteja na rua. Mas não como certos gerentes entendem isso”, diz. Este texto do European Journalism Centre destaca outros desafios para as redações pós-pandemia, que incluem declínio de confiança, aumento da ansiedade e foco em saúde. Para eles, as organizações de notícias precisam se adaptar ao novo normal.


🍂 A pandemia tem escancarado nossas desigualdades. Nesta entrevista para o Committee to Protect Journalists, repórteres comunitários das favelas da Maré e do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, relatam as dificuldades diárias para informar moradores de favelas sobre a COVID-19. “O grande desafio é o enfrentamento às fake news e ter estratégias de comunicação para as pessoas entenderem a gravidade do que está acontecendo no país, diz o jornalista Raull Santiago. Outra frente importante nesta crise é a comunicação científica. Nesta entrevista para o ObjETHOS, Paula Morales e Sabine Righetti explicam o trabalho da Agência Bori, criada no início deste ano com o objetivo de aumentar a presença da ciência e dos estudos brasileiros em diversas editorias da mídia nacional. Vejam como a agência funciona: primeiro, estudos brasileiros que acabaram de ser publicados ou que estão em vias de publicação são levantados em bases de periódicos acadêmicos. Em seguida, aqueles de interesse social são escolhidos para divulgação na Bori, que produz um release e prepara os cientistas interessados na divulgação para atender à imprensa. Mas diante do contexto atual, as jornalistas destacam que estão trabalhando muito sob demanda.


🍂 Mais um lançamento desta semana: o Facebook’s Oversight Board, conselho independente criado pela gigante de tecnologia para tomar decisões sobre permissão ou remoção de conteúdos do Facebook e Instagram. Este texto da Olhar Digital explica que o grupo supervisionará as ações da empresa e terá o poder de reverter decisões tomadas por Mark Zuckerberg. Entre os 20 escolhidos está o brasileiro Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro. Segundo a BBC, todas as decisões desta “suprema corte” serão públicas. O El País informa que os 10 homens e 10 mulheres não serão empregados do Facebook e nem poderão ser demitidos por Mark. São acadêmicos, advogados, jornalistas e defensores dos direitos humanos, de acordo com a Bloomberg. Em artigo para o NY Times, quatro dos conselheiros afirmam que vêm de diferentes backgrounds - religioso, cultural, político e acadêmico - e que muitos se manifestaram publicamente críticos ao Facebook. “Mas todos nós temos treinamento e experiência que podem ajudar o conselho a tomar decisões de conteúdo que as comunidades online precisam”. Alan Rusbridger, ex-editor-chefe do Guardian, explica neste texto por que decidiu se juntar ao grupo e defende que a empresa precisa de supervisão externa independente. Julia Carrie Wong, repórter de Tecnologia do Guardian, questiona: trata-se de uma mudança radical ou um escudo de reputação para o Facebook? Segundo ela, o conselho tem o potencial de introduzir uma nova era de governança das mídias sociais. O jornalista Josh Young é mais cético: “as credenciais tradicionais superlativas de seus membros permitirão convencer o mundo do que os que trabalham com moderação (e que têm baixo status) sabem há muito tempo: moderação consistente e rápida em escala é impossível”. A professora Emily Bell criticou a falta de transparência quanto à remuneração dos membros, que não será divulgada pelo Facebook. E para a especialista em Tecnologia Rebecca MacKinnon, o conselho pode acabar aumentando o poder de Zuckerberg, ao invés de restringi-lo. “Se funcionar conforme o previsto, pode dar aos processos de moderação de conteúdo do Facebook validação e legitimidade externas de que a empresa precisa muito”, pondera.


🍂 Viram a lista de ganhadores do Prêmio Pulitzer 2020? Este ano, a homenageada foi Ida B. Wells, pioneira do jornalismo investigativo e dos direitos civis nos EUA. O New York Times ganhou em três categorias, entre elas Reportagem de Investigação, por seu trabalho sobre a exploração de taxistas imigrantes em Nova York. A jornalista Letícia Ferreira destacou o reconhecimento ao trabalho de Nikole Hannah-Jones, repórter responsável pelo 1619 Project, que recontou a história dos EUA a partir da chegada do primeiro navio negreiro. Vejam também a reportagem fotográfica ganhadora, um trabalho da Associated Press sobre a região da Cachemira. O Poynter destacou que os seis prêmios dados a veículos locais (num total de 15) mostram que o jornalismo local importa, não somente em períodos de crise. Entre os premiados está O Courier-Journal, de Kentucky, com a rápida cobertura sobre a falta de transparência e violação de normas legais do governo local. Joe Sonka, um dos responsáveis pela cobertura, fez um desabafo no Twitter: “Ganhei um prêmio Pulitzer hoje e estou na minha segunda semana de licença não paga a partir da próxima segunda-feira. Assine o jornal e apoie nosso trabalho”. Por falar em prêmio, estão abertas as inscrições para o Online Journalism Awards. Mais detalhes nesta thread. Para os acadêmicos, é hora de se inscrever no Prêmio Adelmo Genro Filho, promovido pela SBPJor, nas categorias TCC, mestrado, doutorado ou pesquisa aplicada.


🍂 Para finalizar: a London School of Economics, em parceria com o Google, criou um curso online gratuito para jornalistas interessados em machine learning. Segundo eles, feito por jornalistas e para jornalistas. E deem uma olhada nessas capas de revistas pelo mundo, que refletem diferentes aspectos da pandemia.


É isso, gente. Feliz Dia das Mães e até segunda, dia 18.

Lívia Vieira e Moreno Osório


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, , Ana Paula Rocha, Anderson José da Costa Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carlos Dominguez, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, FêCris Vasconcellos, Felipe Benício da Costa Dias, Felipe Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriel Jacobsen, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Isaque Criscuolo, Itevaldo Costa Junior, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Kaluan Bernardo, Leticia Monteiro, Lucia Monteiro Mesquita, Luiz Denis Graça Soares, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rose Angélica do Nascimento, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Tatiane de Assis, Vinicius Batista de Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.