NFJ#280 ūüćā Precisamos um do outro mais do que nunca: participe do nosso evento

Sleeping Giants e o jornalismo, 8 anos da LAI e a falta de transpar√™ncia em meio √† Covid-19, a escalada de demiss√Ķes, coronav√≠rus tamb√©m √© uma crise de comunica√ß√£o

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Oi, gente! Tudo bem por aí?

Lívia tocando a news de hoje, com edição e colaboração do Moreno.

Mais uma semana que começa, com previsão de friozinho em várias cidades do país. Não contei pra vocês ainda: estou de mudança para Salvador, passei no concurso para professora adjunta da Faculdade de Comunicação da UFBA. Um novo e enorme desafio pela frente. Conforme eu for me inteirando da realidade do jornalismo no nordeste, a ideia é trazer pra news mais diversidade, novos olhares e iniciativas para além do eixo sul-sudeste (embora a gente sempre se preocupe com isso na curadoria).

Vai ser massa!

Antes de come√ßarmos, mais uma novidade. Na segunda que vem, dia 1¬ļ de junho, √†s 20h, Farol Jornalismo, Grupo Matinal Jornalismo e Afonte Jornalismo de Dados v√£o promover um evento online para debater os desafios da cobertura local da pandemia no Brasil. O evento √© gratuito e tem vagas limitadas. Voc√™s, assinantes do Farol Jornalismo, est√£o sabendo em primeira m√£o (a divulga√ß√£o para o p√ļblico em geral vai come√ßar ainda nesta segunda, mais tarde). Para se inscrever, √© s√≥ preencher este formul√°rio e aguardar a confirma√ß√£o. Enviaremos aos inscritos, por ordem de preenchimento do formul√°rio, o link para a videochamada.

O papo ter√° a participa√ß√£o de Ela√≠ze Farias (Amaz√īnia Real/AM), Thays Lavor (Freelancer/CE), Melissa Cannabrava (Voz das Comunidades/RJ), Gabriela S√° Pessoa (UOL/SP) e Hyury Potter (Freelancer/SC), com media√ß√£o de Marcela Donini (Grupo Matinal Jornalismo/Farol Jornalismo) e Ta√≠s Seibt (Afonte Jornalismo de Dados).

Inscrevam-se e divulguem o nosso card nas redes!

Esperamos vocês no evento!


Bora pra news, ent√£o? Respirem que hoje tem muita coisa.

ūüćā Com mais de 200 mil seguidores no Twitter em uma semana, a vers√£o brasileira do norte-americano Sleeping Giants nasceu para alertar empresas de que seus an√ļncios aparecem em sites pouco confi√°veis, associados a desinforma√ß√£o, por meio da publicidade digital do Google. E que sites s√£o esses? O Aos Fatos elencou pelo menos sete, que lucraram ao publicar informa√ß√Ķes falsas sobre a pandemia. Em uma das postagens, o Sleeping Giants alertou o Banco do Brasil de que seus an√ļncios apareciam no Jornal da Cidade Online, que j√° foi condenado pela Justi√ßa por publicar fake news. Ap√≥s afirmar que pararia de anunciar no site, o banco foi criticado pelo secret√°rio de Comunica√ß√£o do governo, Fabio Wajngarten, que disse que o site fazia ‚Äújornalismo independente‚ÄĚ e que iria contornar a situa√ß√£o. Carlos Bolsonaro tamb√©m reclamou. Com isso, o Banco do Brasil voltou atr√°s e manteve a publicidade no site. O MPF v√™ poss√≠vel direcionamento ideol√≥gico de verba do governo federal e solicitou investiga√ß√£o. O jornalista Pedro Burgos pondera, a partir do que aconteceu nos EUA, que um efeito poss√≠vel de tamanha exposi√ß√£o negativa √© as marcas evitarem qualquer risco e pararem, inclusive, de anunciarem em sites jornal√≠sticos confi√°veis. O neg√≥cio √© t√£o complicado que at√© a Folha de S. Paulo tinha um an√ļncio da Cole√ß√£o Folha exibido no Jornal da Cidade Online (eles suspenderam a veicula√ß√£o e a ombudsman comentou). E a Secom n√£o parou por a√≠: na quinta, veiculou um post com a falsa informa√ß√£o de que uma pesquisa teria garantido a efic√°cia da cloroquina no tratamento da Covid-19. Fato ou Fake e Aos Fatos desmentiram e, na sexta, a Secom deletou a postagem. A rela√ß√£o do governo federal com a desinforma√ß√£o √© t√£o grande que Mark Zuckerberg citou exclus√£o de post de Bolsonaro como exemplo de que o Facebook age contra informa√ß√Ķes falsas. E no s√°bado, Silvio Santos cancelou a exibi√ß√£o do ‚ÄúSBT Brasil‚ÄĚ, principal telejornal da emissora, no ar desde 2005. Segundo Maur√≠cio Stycer, a motiva√ß√£o foi pol√≠tica - a edi√ß√£o de sexta teria desagradado o governo. Grave demais.


ūüćā Viol√™ncia contra jornalistas: levantamento da Abraji mostra que o Brasil est√° em segundo lugar no ranking de viola√ß√Ķes contra a liberdade de imprensa na Am√©rica Latina (s√≥ perde para a Venezuela). Agress√Ķes a profissionais da imprensa, discursos estigmatizantes e ass√©dios virtuais s√£o alguns exemplos dessas viola√ß√Ķes. Mauricio Stycer tamb√©m destacou a escalada de viol√™ncia, lembrando que, de acordo com a Fenaj, foram 208 agress√Ķes a jornalistas em 2019 contra 135 em 2018. ‚ÄúCr√≠ticas a jornalistas e a ve√≠culos de m√≠dia sempre ocorreram. O que assusta atualmente √© o tom e a repeti√ß√£o das cr√≠ticas e ataques. A viol√™ncia f√≠sica √© uma consequ√™ncia deste clima. E infelizmente esses n√ļmeros s√≥ crescem: no √ļltimo dia 13, o jornalista Leonardo Pinheiro foi morto durante uma entrevista no munic√≠pio de Araruama, no Rio de Janeiro. A Lei de Acesso √† Informa√ß√£o completa 8 anos no Brasil e organiza√ß√Ķes apontam urg√™ncia de ampliar a transpar√™ncia p√ļblica na pandemia. Abraji, ARTIGO 19, F√≥rum de Acesso a Informa√ß√Ķes P√ļblicas, Instituto Ethos, Open Knowledge Brasil, entre outros, destacam que s√≥ √© poss√≠vel responder √† crise com acesso √† informa√ß√£o p√ļblica e alertam que a pandemia n√£o pode ser usada como pretexto para o poder p√ļblico diminuir a transpar√™ncia justamente quando ela √© mais necess√°ria.


ūüćā Mais n√ļmeros que n√£o gostar√≠amos de dar: The Atlantic, ve√≠culo que tem se destacado na cobertura da pandemia e chegou a ver o n√ļmero de assinantes dar um salto, demitiu cerca de 20% de seu quadro de profissionais. O Poynter informa que a crise do coronav√≠rus j√° fechou mais de 30 reda√ß√Ķes locais nos EUA. Na Austr√°lia, mais de 150 reda√ß√Ķes fecharam (temporariamente ou pra sempre) desde janeiro de 2019. O BuzzFeed foi uma delas, lembram? Esta mat√©ria do Washington Post destaca que at√© os nativos digitais mais experientes est√£o sofrendo, apesar do aumento da audi√™ncia durante a pandemia. A queda da receita de publicidade √© apontada como vil√£, mas a reportagem lembra que esse problema n√£o √© novo e se agrava porque grande parte desta receita √© capturada por dois players: Facebook e Google. Emily Bell espera que as demiss√Ķes sirvam de alerta: organiza√ß√Ķes de not√≠cia precisam de pol√≠ticas que as apoiem. E depois de o Twitter afirmar que parte de seus funcion√°rios pode trabalhar de casa pra sempre, o Facebook anunciou home office permanente para alguns profissionais. Neste texto, Frederic Filloux afirma que quem trabalha com tecnologia pode at√© voltar ao trabalho, mas jamais como era antes, cinco dias por semana.


ūüćā Colabora√ß√£o pode ser uma sa√≠da na adapta√ß√£o √† realidade p√≥s-pandemia. Para Jordy Mel√©ndez Y√ļdico, diretor da organiza√ß√£o mexicana Factual_MX, ‚Äúprecisamos construir redes e alian√ßas porque a m√≠dia e os jornalistas precisam um do outro mais do que nunca‚ÄĚ. Tr√™s iniciativas querem preencher essa lacuna: o ‚ÄúObservat√≥rio para a transforma√ß√£o do jornalismo local‚ÄĚ, dedicado a dar consultoria e mentoria a ve√≠culos locais e regionais da Espanha. A consultoria Next Idea Media est√° liderando o projeto, cujo objetivo √© criar uma associa√ß√£o sem fins de lucro. O primeiro produto pode interessar a qualquer reda√ß√£o: o dossi√™ ‚ÄúDesafios editoriais da imprensa local em um mundo p√≥s-coronav√≠rus‚ÄĚ, que destaca o jornalismo de solu√ß√Ķes e colaborativo para melhor servir as comunidades. A outra iniciativa √© a rede Hostwriter, que em parceria com o European Journalism Centre, lan√ßou a COVID-19 Collaboration Wire, ferramenta que auxiliar editores a comissionar jornalistas em diferentes pa√≠ses, facilitando o processo. E neste texto, Priscila Pacheco cita o Radar, projeto que est√° reunindo exemplos de respostas e solu√ß√Ķes para a pandemia em todo o mundo, para ajudar jornalistas a aprender uns com os outros. Estamos falando, novamente, de jornalismo de solu√ß√Ķes. ‚ÄúEm um momento em que somos confrontados com tantas not√≠cias tristes sobre a Covid-19, √© importante mostrar aos nossos leitores o que foi feito em todo o mundo para enfrentar a pandemia‚ÄĚ, escreveu.


ūüćā Uma sele√ß√£o de links sobre jornalismo e coronav√≠rus: em dois meses, a newsletter do Washington Post sobre a pandemia tornou-se a mais popular entre as mais de 60 que o ve√≠culo oferece aos leitores. Podcasters de Brasil, Chile, El Salvador e Estados Unidos est√£o adotando diferentes abordagens para personalizar conte√ļdos em √°udio sobre a Covid-19 e explicar a pandemia de uma maneira que seja mais f√°cil para o p√ļblico entender. Paul Bradshaw elenca tr√™s maneiras pelas quais jornalistas precisam lidar com a incerteza durante a pandemia. Como est√£o sendo feitas as capas de jornal mais impactantes das √ļltimas semanas? Profissionais dos jornais Extra e Estado de Minas contam, no podcast Vida de Jornalista. E a capa do NYT de ontem, hein? A primeira em mais de 40 anos sem nenhuma imagem, segundo este texto que conta os bastidores. S√£o nomes que representam as 100 mil mortes pela Covid-19, n√ļmero que ser√° atingido nos EUA nos pr√≥ximos dias. A vers√£o interativa ficou muito impactante.


ūüćā Nos est√°gios iniciais da crise do coronav√≠rus, pesquisa do Reuters Institute identificou que o consumo de not√≠cias estava em alta, assim como a confian√ßa nos ve√≠culos jornal√≠sticos (falamos sobre ela na NFJ #275). Agora, os pesquisadores descobriram um aumento significativo de pessoas evitando as not√≠cias (news avoidance) no Reino Unido. Preocupa√ß√£o com o efeito que as not√≠cias t√™m no humor, excesso de informa√ß√£o e impossibilidade de fazer algo s√£o algumas das causas apontadas para este comportamento. Por falar em pesquisa, leiam este texto de Rasmus Nielsen, para quem o coronav√≠rus √© tamb√©m uma crise de comunica√ß√£o. ‚ÄúAcredito que a pesquisa em comunica√ß√£o tem muito a oferecer para informar a tomada de decis√Ķes p√ļblicas e pol√≠ticas nesta crise. Mas a relev√Ęncia do nosso trabalho coletivo raramente √© reconhecida. Estamos relativamente ausentes de muitos desses debates e n√£o tenho certeza de que estamos fazendo o poss√≠vel para mudar isso‚ÄĚ. Nesta que √© ainda uma crise de desinforma√ß√£o, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Navarra e do Barcelona Supercomputing analisou a tipologia das fraudes (piadas, exageros, descontextualiza√ß√Ķes e enganos) espalhadas na Espanha durante o primeiro m√™s da pandemia. Entre as descobertas: as 292 fraudes analisadas foram disseminadas por v√°rias plataformas, embora a grande maioria (89,1%) tenha circulado nas redes sociais; em rela√ß√£o √†s fontes, as mais frequentes foram suplantadas (38,4%) e an√īnimas (36,0%); as fraudes s√£o mais graves quanto maior o n√≠vel de falsidade e voluntariedade em sua divulga√ß√£o.


ūüćā Uma sele√ß√£o de tr√™s textos anal√≠ticos que nos ajudam a entender os desafios atuais do jornalismo. 1) O problema do jornalismo como mercado de ideias, de Dairan Paul: ‚ÄúIdeais como equil√≠brio ou objetividade acabam orientando aquilo que se entende por jornalismo √©tico, correto ou, indo al√©m, como o √ļnico poss√≠vel. Prescri√ß√Ķes como essa colocam no mesmo bojo de ideias da pr√°tica jornal√≠stica um debate entre dois supostos extremos, sob o pretexto de representar a polariza√ß√£o da sociedade, sem distin√ß√£o de pesos. Em s√≠ntese: s√£o um palanque gratuito para fontes negacionistas‚ÄĚ. 2) Em busca de novidade na cobertura de coronav√≠rus, jornalistas acabam sensacionalizando o trivial e o falso, de Michael Socolow:  ‚ÄúQuando a novidade substitui o contexto, o resultado ir√īnico √© um p√ļblico menos informado, mas mais atualizado‚ÄĚ. 3) Isto voc√™ n√£o ver√° nos meios de comunica√ß√£o, de Mario Tasc√≥n: ‚ÄúSe queremos lutar por uma imprensa melhor, temos que nos concentrar em uma cobertura honesta, transparente e precisamos facilitar a educa√ß√£o da m√≠dia para a sociedade. Sem uma sociedade preparada, nossos esfor√ßos ser√£o de pouca utilidade e a democracia sofrer√°‚ÄĚ.


ūüćā Leiam o Relat√≥rio de Diversidade e Inclus√£o 2019 do NYT. Cinco plataformas para ajudar a encontrar um trabalho no jornalismo. Ainda d√° tempo de se inscrever no curso online do Knight Center sobre a cobertura da pandemia. Nesta ter√ßa tem live da Abraji com Tai Nalon sobre o trabalho dos checadores de not√≠cias. Uma lista de organiza√ß√Ķes de jornalismo que est√£o produzindo materiais e informa√ß√Ķes sobre a Covid-19. S√©rgio Spagnuolo aceita colabora√ß√Ķes para seu mapeamento de cientistas e institui√ß√Ķes acad√™micas no Twitter. Est√° agora dispon√≠vel em ingl√™s o material do Programa Tim Lopes, que busca combater a viol√™ncia contra jornalistas e a impunidade dos respons√°veis. Um guia para usar o Zoom para engajamento da comunidade. O GIJN promove, no pr√≥ximo dia 28, webinar sobre pesquisa online com o especialista em investiga√ß√£o em c√≥digo aberto, Paul Myers. Para finalizar, grandes eventos online est√£o por vir: o Newsrewired, que vai abordar inova√ß√£o no digital durante a crise da Covid-19 (29 de junho a 2 de julho), e o ONA20, de 1 a 16 de outubro.


√Č isso, gente! At√© semana que vem :-)
Lívia Vieira e Moreno Osório


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, Ana Paula Rocha, Anderson Jos√© da Costa Coelho, Anderson Meneses, Andr√© Caramante, Andr√© Schr√∂der, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Os√≥rio, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cec√≠lia Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, F√™Cris Vasconcellos, Felipe Ben√≠cio da Costa Dias, Felipe Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriel Jacobsen, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Isaque Criscuolo, Itevaldo Costa Junior, Jana√≠na Kalsing, Jo√£o Vicente Ribas, Jonas Gon√ßalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Kaluan Bernardo, Leticia Monteiro, Luiz Denis Gra√ßa Soares, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco T√ļlio Pires, Margot Pavan, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Nat√°lia Levien Leal, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Os√≥rio, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rose Ang√©lica do Nascimento, S√©rgio L√ľdtke, S√©rgio Spagnuolo, Silvio Sodr√©, Tatiane de Assis, Vinicius Batista de Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington Jos√© de Souza Filho.