NFJ#282 🍂 Jornalismo (de dados) não deixará nossa democracia morrer na escuridão

O discurso jornalístico e a cobertura dos protestos antirracistas, (ainda) o problema da falsa equivalência, veículos e listas de jornalistas e intelectuais negros para seguir e entrevistar

Share

Buenas, moçada! Moreno aqui abrindo mais uma Newsletter Farol Jornalismo.

Espero que esteja tudo bem com vocês.

Por aqui, mais uma semana de confinamento iniciando. Enquanto a Lívia enfrenta a chuva em terras soteropolitanas, onde o frio tá longe de dar as caras, a segunda-feira em Porto Alegre começou fria e com uma densa neblina que esconde inclusive os prédios mais próximos. O legal de dias com cerração é que os navios navegando no Guaíba capricham na buzina. Em tempos mais quietos, como os que vivemos, é possível ouvi-las a uma boa distância do rio. Além disso, ela combina bem com o som de Lucio Yanel dos meus fones. Pois Aunque Vengan Degollando estaremos prontos.

E vocês, estão prontos? Como sempre, MUITA COISA ACONTECENDO.

Ah, uma informação relevante antes de começarmos: voltaremos a enviar a newsletter na sexta. Isso significa que teremos NFJ em dose dupla nessa semana. \o/

A news de hoje tem texto da Lívia com alguns pitacos meus e curadoria dos três integrantes do Farol Jornalismo: Lívia, Moreno e Marcela.

Bora?


🍂 As coberturas dos protestos antirracistas nos EUA e no Brasil levantaram questões sobre o racismo dentro da própria profissão. Se lá as manifestações seguem marcadas por violência contra jornalistas, aqui, elas se unem às marchas pela democracia, que ganham força a cada semana. Eugene Scott conta, ao TikTok do Washington Post, como é emocionalmente difícil ser um repórter negro cobrindo violência contra negros. “A realidade é que eu não consigo separar minha identidade como homem negro do meu trabalho” (parêntese: leiam este texto que analisa o potencial do TikTok no registro dos protestos). Matheus Moreira, da Folha, diz neste artigo que ser repórter negro é contrariar a estatística pela defesa da equidade racial. “É difícil detalhar o que sinto ao ver a morte de Floyd e de João Pedro e a prisão de Jimenez (...). Não há como esquecer. Não há como desver. Morreu mais um, e eu sigo aqui. Pergunto-me por que nunca me deram um tiro. Onde foi que acertei e que eles erraram? Foi sorte? Destino? Deus? Não tenho resposta”. O assunto está tão na ordem do dia que motivou uma mudança prática. Após sofrer críticas nas redes sociais por debater racismo apenas com repórteres brancos, o programa Em Pauta, da Globo News, admitiu o erro e escalou uma bancada só com jornalistas negros para comentar o tema. Acabou se tornando histórico, ainda que muito tarde, né? Doris Truong, diretora de diversidade do Poynter, diz neste texto que os jornalistas negros sempre estiveram em agonia e que “este é o momento em que merecem poder dizer a verdade. Para eles, Ahmaud Arbery, Breonna Taylor e George Floyd não são apenas rostos nas notícias. Eles lembram os riscos que cônjuges, filhos e os próprios jornalistas enfrentam todos os dias”. Neste texto, Flavia Lima, ombudsman da Folha, recupera os eventos recentes para dizer: “Os episódios revelaram despreparo para lidar com a falta de diversidade nas equipes e com o próprio racismo—pela primeira vez vi jornalistas (brancos) sem saber direito o que fazer com o monopólio de opinião e de imagem que sempre detiveram.” Por fim, Luiza Bodenmüller chama a atenção para reportagem do Fantástico que explicou o que é fascismo, ligando “a academia ao público, sem menosprezar ambos os lados”.


🍂 Sigam veículos com foco nas periferias e/ou protagonizados por negros: Voz das comunidades | Site Mundo Negro | PerifaCon | Ponte Jornalismo | Perifa Connection | Agência Mural | Énois | Alma Preta | Rede Brasileira de Jornalistas Negros | Favela em Pauta | Coletivo Papo Reto | Notícia Preta. Salvem listas de jornalistas e intelectuais negros para seguir e entrevistar: Negros(as) com doutorado que podem estar na sua bancada de TV, por Thiago Amparo | Bancos de contatos de especialistas e profissionais negros para entrevistar, por Thais Folego | Uma lista de 365 dias de consciência negra, por Cecília Oliveira, no TIB |  Catálogo Intelectuais Negras Visíveis, do Grupo de Estudos Intelectuais Negras, da UFRJ | Jornalistas Negrxs, por Nina Weingrill | Jornalistas Negros tts, por Rede Brasileira de Jornalistas Negros. E vejam também este Guia de Fontes para um jornalismo antirracista, por Marília Marasciulo e Luísa Martins.


🍂 Este levantamento feito pelo Guardian e Bellingcat identificou 148 prisões ou ataques a jornalistas cobrindo os protestos contra a morte de George Floyd entre 26 de maio e 2 de junho. A Global Investigative Journalism Network e o comitê do Prêmio Pulitzer condenaram a violência contra os profissionais de imprensa. O Lenfest Institute criou um guia para cobertura segura de protestos. Segundo este texto do Poynter,  os ataques à mídia que cobre os protestos estão simplesmente seguindo a retórica de Trump, que há anos chama a imprensa de “inimiga do povo”. Esta matéria do Guardian ouviu a repórter Molly Hannessy-Fiske, que levou tiros de bala de borracha. Com experiência em conflitos dentro e fora dos EUA ela afirma que, embora compreenda os riscos dessa cobertura, nunca esperou ser atacada diretamente pela polícia. "Isso nunca aconteceu antes - mesmo quando cobria protestos em zonas de guerra no Afeganistão e no Iraque", diz. No meio desse contexto tão violento, este artigo de opinião publicado no NYT gerou questionamentos sobre a responsabilidade da imprensa na circulação de discursos extremistas e antidemocráticos. O senador republicano Tom Cotton pediu intervenção militar para coibir os protestos e disse que é preciso “restaurar a ordem”. Após reação de leitores e até de repórteres do jornal, o editor de Opinião James Bennet admitiu o erro. "Um apressado processo editorial levou à publicação de um artigo que não cumpre nossos padrões. Como resultado, estamos planejando mudanças a curto e longo prazo para incluir mais checagem e redução do número de artigos publicados". Letícia Duarte destacou nesta ótima thread a análise da Columbia Journalism Review sobre o caso: "o problema da ideia de que o jornal é um fórum aberto a todas as correntes - não importa o quão abominável - é virar plataforma para os que são hostis aos seus valores centrais e em desacordo direto com a missão de 'buscar a verdade e ajudar as pessoas a entender o mundo'". Ontem, o NYT comunicou que Bennet deixou o cargo.


🍂 Motim ou resistência? A maneira como a mídia cobre as manifestações (em Minneapolis) moldará a visão do público sobre os protestos. Esta é a questão central deste texto do Nieman Lab, que dá bem a dimensão do desafio posto aos jornalistas norte-americanos - mas que se aplica a contextos como o nosso. “Pode-se enfatizar a interrupção que os protestos causam ou ecoar a voz de políticos que classificam os manifestantes como ‘bandidos’. Mas os jornalistas também podem lembrar ao público que, no centro dos protestos, está a morte injusta de outra pessoa negra. Isso tiraria a ênfase na destruição dos protestos e levaria a questões como impunidade policial e os efeitos do racismo em suas diversas formas”, diz a professora Danielle Kilgo. Trata-se de uma guerra linguística, afirma Mike Laws para a CJR, em que cada palavra guarda em si um sentido. Por exemplo, usar “dispersão” para se referir à ação dos policiais e dizer que os manifestantes “atiraram pedras” contra eles. “Quando as autoridades retaliam, fazendo uso de balas de borracha e gás lacrimogêneo, são tratadas com palavras atenuantes, como se estivessem apenas se defendendo, mesmo que isso nem sempre tenha acontecido”, afirma Laws. Este texto do Poynter também chama atenção para a linguagem, citando exemplos de títulos do NYT: “Manifestantes atingiram jornalista com seu próprio microfone” e “Fotógrafo foi baleado no olho”. No primeiro, a agência está clara (dos manifestantes) e a voz é ativa; no segundo, omite-se a agência (da polícia) e usa-se a voz passiva. Diferença perceptível, mesmo que não-intencional.


🍂 Aqui no Brasil, a falta transparência do governo federal na divulgação dos números da pandemia é cada vez mais escandalosa. Primeiro, acabaram as coletivas diárias. Depois, os boletins com os números consolidados passou a ser divulgado cada vez mais tarde - Bolsonaro chegou a dizer “acabou matéria no Jornal Nacional” (na sexta de noite, por volta das 22h, a Globo deu o trocro: quem assistia à emissora ouviu a musiquinha do plantão e viu Bonner informar os números atualizados). Só que, também desde sexta, os boletins contém apenas os números do dia, sem o consolidado. O portal do governo acompanhou as mudanças e, após ficar fora do ar, retornou no sábado reformulado e com dados ínfimos, segundo informa esta matéria do G1. Repercutiu lá fora, claro. Em nota, a Abraji “repudia o abuso de autoridade por parte do alto escalão do governo federal e condena tentativa de impor obstáculos às atividades jornalísticas através da ocultação de informações de interesse público”. Nesses momentos, fica ainda mais clara a importância da coleta independente de dados, que tem sido feita por jornalistas em iniciativas como o Brasil.io, comandado por Álvaro Justen, e Lagom Data, de Marcelo Soares. Logo após o apagão dos dados, Justen e seus voluntários fizeram uma força-tarefa para consolidar os dados a nível nacional. Já Soares apresenta os dados em vários tipos de visualização, em especial a dispersão dos casos e das mortes por município. Em outra frente, Apolinario Passos criou uma extensão pro Chrome que devolve ao site do governo federal os casos acumulados e fornece um link para download dos dados desagregados. E ontem entrou no ar o site Dados Transparentes, cujo objetivo é atualizar os dados sobre a pandemia de hora em hora. Este relatório da ARTIGO 19 confirma o que estamos vendo: há dificuldades em obter respostas satisfatórias do poder público em temas centrais no enfrentamento ao novo coronavírus. Ontem à noite, o Ministério da Saúde publicou uma nota anunciando um “novo modelo de divulgação de informações sobre a Covid-19” que privilegia a publicidade dos dados em plataforma interativa. Hoje pela manhã, Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha e Uol anunciaram parceria para “coletar nas secretairas de Saúde e divulgar, em conjunto, número sobre mortes e contaminados, em razão das limitações impostas pelo Ministério da Saúde”. Se depender do jornalismo (de dados), nossa democracia não vai morrer na escuridão.


🍂 A transparência pública na divulgação e no acesso aos dados sobre o coronavírus foi um dos temas abordados pelos painelistas do evento que organizamos em parceria com Afonte Jornalismo de Dados e Matinal Jornalismo, na segunda passada. Thays Lavor, freelancer e diretora da Abraji, destacou o IntegraSUS, do governo do Ceará, mas disse que os dados ainda vêm sem padronização. Gabriela Sá Pessoa, do UOL, conta que recebe os dados de São Paulo em um PDF enviado por WhatsApp, o que dificulta a extração dos dados. Melissa Cannabrava, do Voz das Comunidades, está monitorando os números da doença em 13 comunidades do Rio de Janeiro e de 10 de abril a 1 de junho foram 298 mortes e mais de 1.100 casos de Covid-19 nessas favelas cariocas. Elaíze Farias, da Amazônia Real, explicou que o foco da cobertura está nos grupos muito afetados pela pandemia, principalmente os indígenas. E Hyury Potter contou os bastidores da reportagem que fez para o Intercept Brasil, sobre fraudes em compra de respiradores em Santa Catarina. Leiam um pouco mais sobre o evento nesta thread. Em breve vamos disponibilizar o vídeo do evento na íntegra.


🍂 Mais sobre jornalismo e coronavírus: o Poynter está fazendo um levantamento dos jornalistas mortos pela Covid-19 em todo o mundo. O Salud con Lupa está escrevendo perfis das vítimas do coronavírus na América Latina: o In Memorian é um projeto semelhante ao brasileiro Inumeráveis. Baixe o guia “Informar e proteger a infância para não alarmar”, feito pela Unicef e ONG Ação pelas Crianças. Leiam esta entrevista com o professor Vitor Pickard sobre a construção de um sistema de mídia pública mais forte nos EUA, aproveitando os desafios trazidos pela pandemia de Covid-19.


🍂 O Aos Fatos lançou uma série de vídeos semanais com análises sobre desinformação para serem exibidos em reportagens, plataformas sociais e aplicativos de mensagens. | Começa no próximo dia 22 a conferência Global Fact 7, que vai discutir o presente e o futuro do fact-checking. Há alguns painéis online abertos ao público. | Após muita mobilização (falamos sobre isso na NFJ # 281), foi adiada a votação do PL 2630/2020, que trata sobre fake news. Nesta entrevista para a Agência Pública, Cristina Tardáguila afirma que o projeto “coloca o checador numa berlinda”. | Vejam ferramentas que são mais seguras para jornalistas do que WhatsApp, Gmail e Zoom. | O professor Pedro Aguiar criou um ótimo calendário no Google Agenda de lives públicas sobre assuntos de jornalismo e mídia. | Orientações sobre como configurar uma redação distribuída, com espaços digitais. | E para finalizar, duas notícias da empresa do nosso amigo Mark: funcionários do Facebook protestaram contra a falta de ação de Zuckerberg com relação aos posts de Trump. Por outro lado, a empresa anunciou que vai agir colocando etiquetas nos meios de comunicação que estão "total ou parcialmente sob o controle editorial de seu governo". | Em quarentena, podcast da Agência Mural com diários do confinamento, já está no 47º episódio.


Por hoje é isso, pessoal. Até sexta-feira!

Lívia Vieira e Moreno Osório


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, Ana Paula Rocha, Anderson José da Costa Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Benício da Costa Dias, Felipe Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriel Jacobsen, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Isaque Criscuolo, Itevaldo Costa Junior, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Kaluan Bernardo, Leticia Monteiro, Luiz Denis Graça Soares, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rose Angélica do Nascimento, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Tatiane de Assis, Vinicius Batista de Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.