NFJ#284 🍂 Digital News Report 2020: notícias locais ganham confiança dos brasileiros

Também subiu o número de brasileiros que pagam por notícias, e as redes sociais ultrapassaram a TV como fonte de notícias no país; no mundo, a tendência é de queda na confiança na imprensa

Share

Oi, gente, como estão? Lívia aqui.

A NFJ 283 deixa um pouco o caos de lado para uma edição especial.

Como já é tradição, preparamos uma news (quase) inteirinha sobre o Digital News Report 2020, pesquisa global feita pelo Reuters Institute, da Universidade de Oxford. Foram mais de 80 mil entrevistados em 40 países e 6 continentes. Nic Newman, coordenador do estudo, destaca que a maioria dos dados foi coletada antes da crise de Covid-19, o que fez com que repetissem partes do questionário em 6 países (Reino Unido, EUA, Alemanha, Espanha, Coréia do Sul e Argentina) em abril. Pela primeira vez, o relatório foi traduzido para espanhol e convertido também em um podcast.

Os mais antigos vão lembrar que desde 2015 repercutimos o Digital News Report, e seguimos em 2016, 2017 e 2018. Em 2019, além dos highlights na newsletter, analisamos a fundo os dados sobre o Brasil para nossos apoiadores R$+15 (conteúdo exclusivo para nossos apoiadores R$ +15). Revisitar os resultados da pesquisa nos últimos seis anos pode ser uma boa para pesquisadores de jornalismo e pra quem quer ter uma perspectiva das mudanças pelas quais a profissão tem passado. Sirvam-se :-)

Bora então? No último bloco, compilamos links sortidos da semana.


🍂 BRASIL: começamos com os resultados que mais nos interessam. Assinado por Rodrigo Carro, ex-fellow do Reuters Institute, o texto lembra que as tensões entre Jair Bolsonaro e a imprensa continuam altas depois de mais de um ano no cargo. Pela primeira vez, redes sociais são mais citadas que TV como fonte de notícias, destaca o Poder 360 (há a ressalva de que os dados são de indivíduos de áreas mais urbanas e conectadas). E ainda assim a vantagem é apertada: são 67% os que dizem usar as redes sociais para se informar e 66% os que citam a televisão. O consumo de notícias por smartphone segue estável em 76%, enquanto o uso de computadores tem caído ao longo dos anos. O relatório traz uma boa notícia para a indústria: aumento de 5 pontos percentuais no número de pessoas que pagam por notícias online (agora são 27%). Com relação à confiança nas notícias, destacamos, com ajuda de Luiza Bodenmuller: houve um aumento de 3% em relação a 2019, o que coloca o Brasil entre as 5 médias mais altas nos 40 países pesquisados; jornais locais têm maior grau de confiança do que grandes players como Estadão e UOL (chama atenção que quase 3/4 dos brasileiros - 73% - dizem que estão interessados em notícias locais, bem acima da média geral de 47%); veículos do Grupo Globo e revista Veja se destacam pelo alto percentual de desconfiança. Com relação ao alcance das notícias online, O Antagonista aparece na frente (22%) de marcas como Folha (21%) e Estadão (15%). A pesquisa também mostra que ainda não podemos subestimar o Facebook: entre redes sociais e aplicativos de mensagem, ele aparece em primeiro lugar como fonte de notícias, com 54%, seguido por Whatsapp (48%), YouTube (45%) e Instagram (30%) - esses dois últimos em tendência de crescimento. Juliano Nóbrega destaca que o Brasil segue tendo maior nível global de “preocupação com o que é real e o que é falso” na internet - 84% dos entrevistados. “A aflição é principalmente com o WhatsApp (35%), na comparação (não totalmente adequada, a meu ver) com Facebook, Youtube e Twitter. Entre as fontes que mais causam preocupação com informações falsas, políticos vêm em primeiro lugar”.


🍂 JORNALISMO E CORONAVÍRUS: a crise de Covid-19 aumentou substancialmente o consumo de notícias da mídia mainstream antes e depois da pandemia (nos seis países consultados), com destaque para um impulso temporário à TV após anos de declínio. O consumo de jornais impressos diminuiu à medida que os bloqueios prejudicam a distribuição física, acelerando a mudança para um futuro totalmente digital, aponta o relatório. Ao mesmo tempo, o uso das mídias online e social aumentou na maioria dos países: WhatsApp teve o maior crescimento; e mais da metade dos entrevistados (51%) disse usar algum tipo de grupo online aberto ou fechado para acessar ou compartilhar notícias. Em abril, a confiança na cobertura da mídia sobre a Covid-19 era relativamente alta e representava mais do que o dobro da confiança depositada em informações que circulam nas redes sociais, plataformas de vídeo ou serviços de mensagens. Em resumo, a crise do coronavírus lembrou as pessoas do valor das fontes de notícias tradicionais.


🍂 PAGAMENTO DE NOTÍCIAS: houve aumentos significativos em vários países (como EUA, Brasil e Noruega), mas em todos os mercados a maioria das pessoas ainda não está pagando por notícias online, mesmo que alguns publishers tenham relatado um "coronavírus bump". O fator mais importante para quem assina é ​​a distinção e a qualidade do conteúdo. No entanto, um grande número de pessoas está satisfeita com as notícias que podem acessar gratuitamente - há uma proporção muito alta de não assinantes (40% nos EUA e 50% no Reino Unido) que dizem que nada poderia convencê-los a pagar. Em países com níveis de pagamento mais altos (por exemplo, EUA e Noruega), entre um terço e metade das assinaturas vão para apenas grandes marcas, mas uma minoria significativa agora está contratando mais de uma assinatura (geralmente uma publicação local ou especializada). Vitor Conceição, CEO do Canal Meio, destaca que conveniência e preço justo são fatores primordiais para persuadir não-pagantes a fazer uma assinatura. Ele ainda enfatiza que “só uma minoria dos usuários tenta burlar os paywalls. Ou seja, se encontram uma dificuldade para ler uma matéria, a imensa maioria desiste e vai se informar em outros lugares”. Na análise de Nic Newman, "as pessoas estão se acostumando a pagar por mais coisas online e os publishers podem se beneficiar disso. Mas estamos enfrentando uma recessão global e isso pode ser um problema nos próximos meses". Charlie Beckett diz que tirar conclusões simples deste relatório com base em modelos de confiança ou de negócios seria um erro. A mídia tradicional está prosperando na atenção dos leitores, mas ao mesmo tempo luta por receita e confiança do público”. Vejam também este texto do Nieman Lab, que destaca que mais norte-americanos estão pagando por notícias online - e aqueles que dizem isso não pretendem parar.


🍂 DESINFORMAÇÃO E CONFIANÇA: as preocupações globais com desinformação continuam altas. Mesmo antes da crise do coronavírus, mais da metade da amostra global disse estar preocupada com o que é verdadeiro ou falso na internet quando se trata de notícias. Políticos são a fonte de desinformação mais frequentemente citada, embora em alguns países pessoas que se identifiquem como de direita tenham mais probabilidade de culpar a mídia. A maioria das pessoas (52%) prefere que a imprensa relate com destaque declarações falsas dos políticos, em vez de não enfatizá-las (29%). Há maior desconforto ​​com anúncios políticos em mecanismos de pesquisa e mídias sociais do que na TV. A confiança na mídia continua a cair globalmente - 38% disseram que confiam na maioria das notícias na maioria das vezes - uma queda de quatro pontos percentuais em relação a 2019. Menos da metade (46%) disse que confiam nas notícias que usam. Apesar disso, a pesquisa mostra que a maioria (60%) ainda prefere notícias que não têm um ponto de vista específico e que apenas 28% prefere notícias que compartilham ou reforçam suas opiniões. Rasmus Nielsen pondera esse dado: “Quando as pessoas dizem que preferem notícias sem ponto de vista, algumas querem dizer notícias com seu ponto de vista”. Ainda de acordo com o diretor do Reuters Institute, “a crise será o momento da verdade para o negócio de notícias e vai acelerar o declínio do impresso”.


🍂 CONSUMO: Na maioria dos países, sites de jornais locais continuam sendo a principal fonte de notícias sobre uma cidade ou região, alcançando quatro em cada dez pessoas (44%) por semana. Mas a pesquisa identificou também que Facebook e outros grupos de mídia social agora são usados ​​em média por 31% para notícias locais, pressionando ainda mais as empresas e seus modelos de negócios. O acesso às notícias continua se tornando mais distribuído: em todos os países, pouco mais de um quarto (28%) prefere acessar notícias por site ou aplicativo. Aqueles entre 18 e 24 anos (Geração Z) têm duas vezes mais chances de preferir receber notícias pelas mídias sociais. Em todas as faixas etárias, o uso do Instagram para notícias dobrou desde 2018, o que indica uma tendência de consumo audiovisual. Para fidelizar leitores, publishers têm investido em newsletters, notificações push e podcasts. Nos EUA, 21% acessa uma newsletter semanalmente e para quase metade, esta é a principal maneira de obter notícias. Nic Newman destaca que "newsletters podem criar um senso real de conexão e a questão é como criar esse tipo de relacionamento e estender essa conexão para além do email". A proporção de podcasts cresceu significativamente em relação a 2019. Em todos os países, metade dos entrevistados afirma que podcasts fornecem mais profundidade e entendimento do que outros tipos de mídia. Spotify é o destino número um para podcasts em vários mercados, ultrapassando o aplicativo de podcast da Apple. Para o Nieman Lab, Nic Newman explicou que as newsletters estão atingindo principalmente os mais velhos e mais interessados ​​em notícias; e os podcasts são mais propensos a atrair audiências jovens. Os alto-falantes inteligentes ativados por voz, como o Amazon Echo e o Google Home, continuam a crescer rapidamente (por exemplo, de 14% para 19% no Reino Unido), mas seu uso para notícias ainda permanece baixo em todos os mercados.


🍂 Para finalizar, uma seleção de links sobre assuntos variados: Repórter do UOL teve celular quebrado por PM em manifestação em SP e foi intimidado em delegacia. Reportagem da RBS TV está sob censura prévia. Ministro da Justiça pediu abertura de inquérito para investigar charge de Renato Aroeira reproduzida por Ricardo Noblat e chargistas reagem. Nas Filipinas, jornalistas Maria Ressa e Reynaldo Santos, do Rappler, foram condenados pela Justiça por ‘difamação cibernética’ e alegam perseguição política do presidente do país. | George Black, motorista da Folha querido por todos, morreu por Covid-19. | Levantamento do Poder 360 mostra uma inescapável coincidência: à medida que a curva de mortes por Covid-19 acelerou no Brasil, os ministros de Estado quase desapareceram das entrevistas diárias do governo sobre a pandemia. | Revista Azmina lançou o Elas no Congresso, site que mostra quem são as deputadas (os) e senadoras (es) que trabalham a favor e contra os direitos das mulheres no legislativo. | Conheçam o Observatório da Extrema Direita, grupo de pesquisa que observa e analisa a extrema direita global. | Hendryo André analisa no Objethos a série documental Condenados pela Mídia, recém-lançada pela Netflix. | Estão abertas as chamadas para o 7º Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo e a apresentação de trabalhos de conclusão de curso (TCCs), eventos que antecedem o 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, realizado pela Abraji. Em razão da pandemia, o congresso deste ano será virtual, em 11 e 12 de setembro. | Conheçam também este projeto do ITS e Redes Cordiais, apoiado pelo Facebook Journalism Project, que vai promover cursos online, manual de boas práticas para redações e rede de apoio para jornalistas. O primeiro curso, “Mídias sociais e jornalismo: reduzindo riscos e engajando a audiência”, começará no dia 14/07. As inscrições já estão abertas.


É isso então, pessoal. Um ótimo fim de semana pra vocês e até sexta que vem.

Lívia Vieira


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, Ana Paula Rocha, Anderson José da Costa Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Benício da Costa Dias, Felipe Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriel Jacobsen, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Isaque Criscuolo, Itevaldo Costa Junior, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lucia Monteiro Mesquita, Luiz Denis Graça Soares, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Tatiane de Assis, Vinicius Batista de Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.