NFJ#285 ❄️ "Não existiria racismo estrutural se não houvesse reprodução de estereótipos sobre negros nos meios de comunicação"

A fala de Silvio Almeida no Roda Viva, jornalismo antirracista e a discussão sobre objetividade; o discurso e a narrativa na cobertura da pandemia; uma aposta na investigação participativa

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Buenas, moçada! Lívia e Moreno na news de hoje.

Mais a Lívia do que o Moreno, na verdade. Mas eu, Moreno o/, também colaborei um pouco com texto, além da seleção de links, que também tem pitacos da Marcela.

Enfim, aquele bastidor clássico para vocês terem uma ideia de como a news ACONTECE. ;)

Mais uma semana chegando ao fim e já estamos na metade deste ano caótico. Entramos na temporada de inverno da Newsletter Farol Jornalismo. Em Porto Alegre, o frio deu as caras, depois de a estação estrear com temperaturas batendo nos 30°. Agora, 10° e tempo seco. Enquanto isso, em Salvador, nova casa da Lívia, 26° e chuva.

Tanto em Porto Alegre quanto em Salvador, sobrevivência segue sendo nossa palavra de ordem. E a manutenção da saúde mental, uma obrigação. Hoje a news tem discussões sobre objetividade, jornalismo antirracista, noticiário da crise de Covid-19 (claro) e uma conversa com a Agência Pública sobre investigação participativa.

Bora?


❄️ Jornalistas negros estão liderando um acerto de contas sobre a objetividade e pressionando por uma mudança de paradigma, no qual o que a mídia mainstream considera verdade objetiva é decidido por repórteres brancos e seus chefes também brancos. Esse é o argumento do jornalista Wesley Lowery em artigo para o NYTimes, que repercutiu bastante durante a semana. Segundo ele, a objetividade neutra insiste em usar eufemismos como "oficiais envolvidos em tiros". Ao invés disso, ele propõe a clareza moral, que exige o uso de palavras mais precisas: "a polícia matou alguém". Lowery enfatiza que o atual presidente e seu partido político estão abrigando a retórica da supremacia branca, e os gatekeepers do jornalismo estão preocupados em parecer equilibrados. Enquanto isso, os negros estão em perigo. Alguns acadêmicos comentaram o artigo com ótimos pontos: leiam as threads de Tom Rosenstiel, Mindy McAdams e Jeff Jarvis. Nesta entrevista para a CJR, a professora Danielle Kilgo reforça que os jornalistas têm um imenso poder na maneira pela qual o público percebe os protestos antirracistas. Para ela, as manifestações anti-Trump e a Marcha das Mulheres tiveram uma cobertura mais justa, explorando suas queixas; enquanto as contra o racismo “receberam uma cobertura menos legitimadora, com os manifestantes mais frequentemente vistos como violentos". NYTimes e Washington Post anunciaram mudanças para mais diversidade em suas redações. Aqui no Brasil, o jurista e professor Silvio Almeida protagonizou um Roda Viva histórico e destacou o papel da mídia na naturalização da figura do negro como marginal. “Não existiria um racismo estrutural e sistêmico se não houvesse, diuturnamente, reprodução, nos meios de comunicação, de estereótipos sobre pessoas negras, se não houvesse programas de televisão que naturalizam o assassinato, a morte e a condição do negro como bandido”. A repórter Lola Ferreira elogiou a bancada majoritariamente composta por pessoas negras, mas enfatizou que “isso tem que ser uma constante”.


❄️ A Agência Pública acaba de lançar o “Histórias que Contam”, projeto que vai usar relatos de leitores através de um questionário para investigar diferentes aspectos das mortes por Covid-19 no Brasil. A gente conversou com Giulia Afiune, editora de Audiências da Pública para entender melhor a ideia. Ela explicou que, ao receber histórias de pessoas individualmente, pode ser possível identificar relatos de problemas que se repetem. “O que a gente quer elucidar é esses contextos, esses problemas sistêmicos, que quando você olha casos individuais não consegue enxergar. Queremos entender que fatores estão contribuindo para que as pessoas morram e se de alguma forma essas mortes poderiam ter sido evitadas”, diz. Para ela, os relatos são como peças de um quebra-cabeça, que será concluído com apuração e com técnicas de jornalismo investigativo, de modo a preencher as lacunas e entender o que todas as partes querem dizer. Este é o primeiro projeto de engagement reporting da Pública, traduzido como investigação participativa. Afiune explica que veículos como a ProPublica e o Texas Tribune já utilizam bastante esse recurso e, como ela e a repórter Anna Beatriz Anjos passaram um tempo nessas redações, perceberam o quanto as pessoas sentem necessidade de compartilhar o que está acontecendo em momentos de dificuldade. “Uma etapa muito importante na investigação participativa é manter contato com as pessoas. A nossa ideia é criar uma verdadeira comunidade, estimulando esse ciclo de compartilhamento de informações, inclusive sobre assuntos que a gente nem imagina”, conclui. Leiam mais sobre a investigação participativa e vejam esta reportagem da ProPublica que utilizou engagement reporting.


❄️ “Um vírus e duas guerras” é uma parceria colaborativa entre as mídias independentes Amazônia Real, Agência Eco Nordeste, #Colabora, Portal Catarinas e Ponte Jornalismo. A série de reportagens monitora os casos de feminicídios e de violência doméstica durante a pandemia. O que os jornalistas podem aprender a partir de seus erros durante a pandemia? É o que Dorothy Byrne perguntou a diferentes profissionais. A demora em dar a devida atenção à doença, a falta de compreensão sobre dados e a prevalência de homens brancos em entrevistas são alguns pontos abordados. E este texto do Poynter chama atenção para o fato de as estimativas do impacto da Covid-19 no jornalismo não incluírem os freelancers, cujos meios de subsistência desapareceram da noite para o dia. Janara Nicoletti analisa, neste artigo para o Objethos, a cobertura jornalística das 50 mil mortes por Covid-19 no Brasil. Falando em cobertura jornalística, esta live da SBPJor com os professores Marcia Benetti (UFRGS) e Fernando Resende (UFF) é fundamental compreender a atuação do jornalismo nesse cenário complexo a partir do discurso e da narrativa. Para Benetti, os movimentos discursivos feitos pelo jornalismo ao se debruçar sobre a crise imposta pelo coronavírus passam por dois lugares principais. Primeiro, pela autorreferência. Ao falar de si, o jornalismo busca reafirmar seu ethos. Segundo, pela sua dimensão universal - embora sua prática esteja assentada no singular. Essa dimensão universal aparece na narrativa da morte. Já Resende defende que não é possível pensar o jornalismo sem partir da premissa de que o jornalismo é uma instituição colonialista e assentada no racismo estrutural. Trata-se de uma condição de natureza epistêmica, mas que também está no “próprio gesto”, “é um problema de fazer”. A partir daí, Resende pensa de que maneira essa premissa aparece narrativamente na cobertura da pandemia - um problema que não é apenas sanitário, mas também social e político.


❄️ A votação da PL das fake news no Senado ficou para a semana que vem. Os senadores querem um tempinho a mais para se "debruçar sobre o relatório", segundo Eduardo Braga (MDB-AM). Nós também ganhamos tempo para nos informarmos melhor. Neste texto, Marcelo Träsel traça um histórico das discussões e examina aspectos importantes do texto. Tai Nalon também analisa o PL nesta thread. Já neste artigo, a cofundadora do Aos Fatos afirma que, em meio aos “textos anacrônicos, autoritários ou minimalistas” apresentados por deputados e senadores, “fica difícil analisar o que de fato está em jogo na internet brasileira senão a tentativa de legislar em causa própria”. Vejam ainda esta outra thread do InternetLab para entender por que essa discussão é fundamental. E deem uma olhada no site da Coalizão Direitos na Rede dedicado a explicar (os problemas d)o projeto de lei. Indo adiante. Levantamentos de Guilherme Felitti, da Novelo Data; e do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP, identificaram que canais bolsonaristas retiraram cerca de 2 mil vídeos do Youtube, na esteira do inquérito das fake news. A BBC Brasil reproduziu o que dizem 10 dos vídeos apagados com mais visualizações. Já este levantamento da Folha mostrou que a gestão Bolsonaro acumula ao menos 13 medidas para reduzir a transparência oficial, chegando a tentar mudar duas vezes a Lei de Acesso à Informação. Cristina Tardáguila chama atenção para sites de partidos políticos que estão fazendo fact-checking. Citando o caso do PT, que não informa metodologia, ela defende que “checagem de fatos e política jamais serão a mesma coisa”. O Google Imagens agora mostra um selo de “fact check” em fotos que passaram por verificação. Este texto do Poynter mostra que posts sobre vacinas para a Covid-19 estão trazendo uma overdose de desinformação. Essa foi uma das descobertas da #CoronaVirusFacts Alliance, rede global de mais de 100 pesquisadores e jornalistas. Este outro texto do Reuters Institute explica mais sobre a rede. E este artigo de Gabriel Snyder na CJR discute, a partir de exemplos do NYTimes, como a correção de erros factuais e controvérsias pode ser complexa.


❄️ Como será o jornalismo pós-coronavírus? Segundo Andrew Tarantola, editor do Engadget, será online e independente. Ele afirma que, na esteira da crise sanitária e das manifestações antirracistas está surgindo uma nova geração de jornalistas independentes, baseados na Internet, “que levam as vozes das pessoas nas ruas aos olhos e ouvidos do público, tudo sem paywalls”. Ele cita o exemplo de Abner Hague, fundador do Left Coast Right Watch, que se define como “uma equipe de um homem só”, embora esteja começando a trabalhar com alguns jornalistas e colaboradores. Já para o professor da LSE Charlie Beckett, o jornalismo pós-Covid-19 será mais orientado por dados e mais alimentado por algoritmos. “Portanto, é vital para os jornalistas conhecerem essas tendências. Mas eles não podem mais fazer isso sozinhos, precisam de apoio para proteger os valores do jornalismo e inovar”. A pesquisa em jornalismo também está em transformação. Neste ensaio para a Digital Journalism, o professor Seth Lewis aponta algumas áreas emergentes, como o negócio de notícias, a proposta de valor do consumo de notícias e oportunidades para uma voz pública mais efetiva em assuntos em que a experiência acadêmica deve ser importante. E para entender as perdas no jornalismo e o cenário de desaceleração, a CJR e o Tow Center lançaram o The Journalism Crisis Project, com uma newsletter semanal de análises e divulgação dos resultados da pesquisa.


❄️ O Google anunciou que, até o fim deste ano, vai começar a pagar aos veículos de jornalismo pelo uso de notícias. De acordo com esta matéria da Folha, os países confirmados são Alemanha, Austrália e Brasil. Aqui, já estão fechados acordo com o jornal Estado de Minas e A Gazeta (do Espírito Santo). | No Journalism.co.uk: Como usar o design thinking para resolver problemas jornalísticos. | O NYTimes está contratando seu primeiro editor social para crianças. | Subly é uma ferramenta gratuita para transcrever vídeos automaticamente e inserir legendas. | O GJOL, grupo de pesquisa em jornalismo online da UFBA, estreia série de entrevistas: a primeira será hoje (sexta), às 18h, sobre racismo estrutural na cobertura jornalística. | Foi lançado nesta semana o Pulse, uma ferramenta desenvolvida pelo Volt Data Lab que vai buscar o que cientistas estão compartilhando em suas redes sociais para ajudar o jornalismo a contar histórias melhores. Dá para assinar a newsletter deles aqui. | As incrições estão abertas a segunda edição do curso Jornalismo Local Sustentável, da Abraji. É grátis.


É isso, pessoal. Talvez seja meio cedo para abrir uma cerveja. Ou um vinho. Eu, Moreno, vou num mate, por ora. E a Lívia tá no chá, por enquanto. Ambos embalados pelo mestre Gilberto Gil, que completou 78 anos hoje e está em ótima companhia.

Andemos todos com fé e até sexta que vem!

Lívia Vieira e Moreno Osório


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, Ana Paula Rocha, Anderson José da Costa Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Benício da Costa Dias, Felipe Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriel Jacobsen, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Isaque Criscuolo, Itevaldo Costa Junior, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lucia Monteiro Mesquita, Luiz Denis Graça Soares, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Tatiane de Assis, Vinicius Batista de Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.