NFJ#286 ❄️ Boicote levanta questões de ética na relação entre jornalismo e plataformas

Pandemia reverte afirmação de que "notícia boa não é notícia", a demissão de Carlos Decotelli e o jornalismo antirracista, TikTok pela alfabetização midiática, Mark Deuze e os vários "jornalismos"

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Oi, gente! Tudo bem por aí?

Eu falo do calor da Bahia, que parece não ligar pra esse tal de inverno. Enquanto isso, no outro extremo do país, Moreno e Marcela amanheceram com sol e 5 graus, fechando uma semana que teve chuva, ciclone e umidade nível “nem a louça seca!”. Entre aulas online, pesquisas e reuniões, estamos conseguindo manter o envio da newsletter na sexta de manhã, pra vocês terem tempo de ler com calma, desligar o computador e curtir o fim de semana. PRECISAMOS, né?

O conteúdo de hoje tem texto meu, colaboração e edição do Moreno. Bora então?


❄️ Esta foi uma semana tensa na relação de veículos jornalísticos, anunciantes e políticos com as plataformas. O Reddit baniu a maior comunidade de apoio a Trump, como parte de sua política contra discursos de ódio; e o Youtube fez o mesmo com um grupo de criadores de conteúdo de extrema-direita norte-americanos, pelo mesmo motivo. O New York Times decidiu sair do Apple News e cravou: “é hora de reexaminar todas as nossas relações com as grandes plataformas”. De acordo com esta matéria de Ken Doctor para o Nieman Lab, três perguntas vão guiar as decisões do Times a partir de agora: “Qual o papel da empresa em ajudar a levar audiência para o Times? Como escalar o relacionamento direto com as pessoas e levá-las a construir um hábito e a pagar? Qual é a equação de valor, reconhecendo que essas companhias obtêm valor a partir do nosso investimento em jornalismo original?”. O Times acrescentou que o Apple News não se alinha com sua estratégia de construir relacionamento direto com os leitores pagantes. E uma lista crescente de empresas decidiu retirar publicidade das plataformas comandadas pelo Facebook. O UOL informa que o boicote faz parte da campanha “Stop Hate For Profit”, que exige que a empresa de Mark tome medidas mais rígidas contra a disseminação do ódio e de conteúdos racistas. Dos veículos jornalísticos brasileiras, o The Intercept Brasil anunciou que durante o mês de julho vai congelar a sua verba de anúncios no Facebook e no Instagram, para “forçar a empresa a enfrentar de uma forma responsável o discurso de ódio e as mentiras que são propagadas livremente em suas plataformas e que arruínam a democracia no mundo”.


❄️ Mark sentiu a pressão. Anunciou que começará a marcar postagens com discurso político que violem suas regras e tomará outras medidas para proteger minorias contra abusos. Diante disso tudo, Emily Bell levanta uma questão importante: “Anunciantes estão boicotando o Facebook por causa dos lucros com discursos de ódio, mas um número crescente de organizações de notícias e universidades estão recebendo sua ajuda financeira. Também precisamos de um exame mais aprofundado da ética desses relacionamentos, certo?”. Aqui no Brasil, mais de uma dezenas de veículos grandes e pequenos acabaram de ganhar apoio do Facebook como parte do programa de subsídios para notícias da América Latina na Covid-19. O Google também tem investido financeiramente no jornalismo (semana passada falamos sobre o anúncio de pagar por notícias), mas, de acordo com Joshua Benton, isso tem mais a ver com marketing das plataformas do que com as necessidades das organizações de notícias. “Google e Facebook têm prazer de pagar por notícias, desde que seja de acordo com seus termos”.


❄️ Jornalismo e coronavírus. Neste texto para o Jornal da USP, a professora Cremilda Medina analisa os relatos, narrativas e comentários nas mídias em relação à Covid-19. Segundo ela, a tragédia reverteu a clássica afirmação de que ‘notícia boa não é notícia’ e solicitou histórias de protagonistas exemplares e coletivos solidários. Medina coloca algumas questões para comentaristas e jovens jornalistas: “Como ensaiar a decifração de uma realidade cifrada, que escapa das lógicas pré-estabelecidas para diagnósticos e de prognósticos? Como motivar a reversão de atitudes egocêntricas na prevenção, sem o tom arrogante de quem sabe das coisas? Como se deixar impregnar, pelos cinco sentidos, da experiência inquieta de perguntas sem respostas, da esperança e da dor no cotidiano dilacerado?”. | Aqueles que Perdemos é o especial da Folha com histórias das vítimas do novo coronavírus. | Pesquisa do Pew Research Center apontou que, à medida que os casos de Covid-19 aumentam, menos norte-americanos acompanham as notícias (esse fenômeno de ‘news avoidance’ também apareceu no estudo do Reuters Institute que repercutimos na NFJ#280).| E este novo estudo também do Reuters Institute identificou que os britânicos usaram menos as mídias sociais para notícias sobre a Covid-19 entre abril e junho, quando a pandemia já não era mais uma novidade. Apesar disso, o uso geral continua bastante consistente, com Facebook e Twitter entre as redes preferidas. | Estudo da Ofcom afirma que TikTok e Zoom podem ser boas ferramentas para alcançar novas audiências após a Covid-19. | O Comitê para Proteção dos Jornalistas atualizou seu guia com recomendações de segurança durante a cobertura do novo coronavírus (em português). | Na GIJN: Dicas sobre onde obter dados de coronavírus - e as ferramentas para analisá-los. E como investigar gastos públicos relacionados à Covid-19. | No Nieman Lab: faltam mulheres experts na cobertura da pandemia. | E vejam este guia do QUEST Project com princípios para melhorar a divulgação científica.


❄️ A demissão do ministro da Educação Carlos Decotelli por inconsistências no currículo ocupou o noticiário da semana e reacendeu o debate sobre racismo, inclusive na cobertura jornalística do caso. Leonardo Sakamoto questionou: “por que justamente com o ministro negro, apesar de suas práticas não destoarem de uma parte da Esplanada dos Ministérios?” No Twitter, João Paulo Charleaux perguntou: “num mundo acadêmico e jornalístico esmagadoramente branco, quem terá a credencial exigida para seguir criticando Decotelli a partir do momento em que ele traz a questão racial para o primeiro plano desse escândalo? Quem pode? E quem diz quem pode?”. Para Luiza Bodenmuller, “é sintomático que o empenho da imprensa em desqualificar cada vez mais o currículo e o não-currículo do ex-ministro Decotelli aconteça justamente na esteira das discussões para que se tenha uma imprensa antirracista". Lá fora, a discussão sobre jornalismo e racismo continua quente. Neste texto para o Poynter, Amanda Zamora afirma que a superação do racismo sistêmico começa nas próprias redações. Sob o ponto de vista da Educação, Aiyana Ishmael lembra que estudantes de jornalismo negros enfrentam contratempos devido à impossibilidade de acesso a oportunidades. “Para muitos deles, aceitar um estágio não-remunerado é completamente inviável’. A Craig Newmark School of Journalism fez uma guia para jornalistas negros, com uma compilação de recursos para quem deseja melhorar a carreira e a própria redação onde trabalha.


❄️ Um bloco com análises sobre inovação e o negócio do jornalismo: Anna Shipman, editora de Produto e Tecnologia do Financial Times, conta como e por que mudou o trabalho de equipes baseadas em projetos para equipes duráveis (durable teams). Entre as vantagens: mais propriedade e conhecimento em cada time, não há mais gasto de esforço criando e acabando com equipes a todo momento, e equipes duráveis facilitam para as pessoas de fora saberem com quem conversar sobre uma parte específica do produto. | Este texto do Laboratorio de Periodismo destaca e analisa um dos resultados do Digital News Report 2020 (falamos sobre ela na NFJ #284): a afinidade com um jornalista em particular é uma das principais razões para assinar um veículo jornalístico. | Jornalistas estão usando o TikTok para alcançar novas audiências, encontrar histórias e praticar a alfabetização midiática, analisa este texto do Poynter, a partir de exemplos da CNN e do Washington Post. | Em seu último artigo como ombudsman do The Star, Kathy English afirma que o jornalismo confiável é um serviço essencial que importa mais do que nunca e, entre as 13 lições de seus 13 anos no cargo, ela destaca: “a objetividade não é possível no jornalismo e não deve ser nosso ideal. Justiça é o nosso maior objetivo. A justiça exige que, sejam quais forem nossas crenças pessoais, nos esforçamos para relatar com precisão os fatos multifacetados e as verdades que eles revelam. Justiça não exige falso equilíbrio”.


❄️ A greve dos entregadores de app mobilizou mais de 600 mil tweets. Levantamento do professor Fábio Malini fez uma descoberta interessante: é uma rede sem divisão, resistente ao clichê de que “tudo é polarização”. Rafael Grohmann, que pesquisa o tema, entrevistou um dos líderes do movimento. | PL das Fake News foi aprovado no Senado. Pablo Ortellado considera que a última versão do relatório tem pontos capazes de aperfeiçoar o uso das redes sociais; enquanto Cristina Tardáguila aponta problemas, com base em exemplos de outros países. | Sembra Media dá cinco ideias de como sobreviver à docência virtual. | No Clases de Periodismo, dicas sobre a nova função de voz no Twitter. | A MIT Technology Review estreou seu site em português, com equipe brasileira. | Estadão lançou plataforma que dará acesso digital gratuito para estudantes de graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado. | Mais um lançamento: Nexo Políticas Públicas traz a produção de alguns dos principais centros de pesquisa do Brasil e do mundo em linguagem clara e com acesso livre. | Teorizadah é o canal de entrevistas com pesquisadores da Comunicação, feito por acadêmicos da pós da Unisinos. Em uma da entrevistas, Mark Deuze se diz “empolgado com a emergência de incontáveis (velhos e novos) jornalismos”. | Estão abertas até 19 de julho as inscrições para o “Lab 99 + Folha de Jornalismo”, uma oficina gratuita de treinamento focada na cobertura de mobilidade urbana. | Inscreva-se no novo MOOC do Knight Center, em espanhol: “Jornalismo digital e tecnologia: como cobrir seus impactos além dos gadgets”. | O ISOJ 2020 será online, de 20 a 24 de julho. Vejam a programação. | É daqui a pouco (3/7), às 16h, o ciclo de debates da SBPJor sobre o impacto da pandemia nos jornais impressos, com Beatriz Dornelles e Rosental Calmon Alves.


É isso, gente. Um ótimo fim de semana pra vocês e até sexta que vem!

Lívia Vieira e Moreno Osório


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, Ana Paula Rocha, Anderson José da Costa Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Isaque Criscuolo, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lucia Monteiro Mesquita, Luiz Denis Graça Soares, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Tatiane de Assis, Vinicius Batista de Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.