NFJ#287 ❄️ Cansaço, insegurança, medo e longas jornadas estressam jornalistas na pandemia

E mais: o papel da precisão contra a desinformação, o esforço extra de jornalistas negros nas redações, BBC e a defesa da imparcialidade, a criação da Associação de Jornalistas Trans

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Oi, gente! Tudo bem com vocês?

Mais uma sexta-feira dessa quarentena interminável - pelo menos para quem, como eu (em Salvador) e o Moreno (em Porto Alegre), segue em casa. Fácil não é, mas surreal mesmo é ver galera toda na rua sem máscara, dando carteirada de engenheiro civil (?!).

Que ano.

A pandemia, claro, é assunto hoje, mas não só. Tem bastante coisa sobre diversidade, representatividade no jornalismo e desinformação também. Não que vocês tenham perguntado, mas a edição final da news aconteceu ao som do álbum A Brand New Me, da Aretha Franklin com a The Royal Philarmonic Orchestra. Achei que vocês seria legal compartilhar com vocês um pouco do clima da nossa manhã de sexta.

Botem pra tocar aí. Iniciem com Respect, pra elevar a moral. Bora, então?

A news 287 tem texto meu, edição e colaboração do Moreno. A curadoria é de ambos.


❄️ Começamos com a notícia que ganhou destaque mundial nesta semana: Jair Bolsonaro disse que testou positivo para a Covid-19. Ao fazer o anúncio para três emissoras de TV (o presidente segue escolhendo veículos com os quais tem mais afinidade e, por consequência, ignorando outros tantos), Bolsonaro tirou a máscara, expondo os repórteres ao risco, segundo apontou o G1. EBC, CNN Brasil e Record decidiram afastar os jornalistas de suas atividades por medida de segurança. Tenso. Esta pesquisa liderada pela professora da USP Roseli Figaro investigou justamente as condições de trabalho dos comunicadores durante a pandemia. Os resultados do questionário respondido por 557 profissionais apontam para aumento das jornadas de trabalho; intensificação da atividade laboral, com uso de equipamentos próprios, cujos custos oneram o comunicador; e intensificação do uso das plataformas e aplicativos no processo produtivo. “Os profissionais se sentem mais cansados, inseguros com o futuro, temem o contágio, pela vida dos familiares, a situação de colapso do sistema de saúde, mas preocupam-se com o trabalho: perder o emprego, ter redução de salário, perder contratos etc. são preocupações que atormentam e tornam as jornadas mais estressantes. Mesmo com todos esses problemas, há um grande engajamento para a realização do trabalho”, diz o artigo. A revista Marie Claire destacou, inclusive, as jornalistas mulheres que estão engajadas no front desta cobertura. E uma dica para os jornalistas que estão de olho no mundo pós-Covid: a Deepnews.ai, de Frederic Filloux, incluiu 5 novos tópicos em sua lista de newsletters de curadoria: recuperação econômica, educação, cidades, viagens, e da Geração Z aos Boomers.


❄️ Pesquisa do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (LAUT), INCT.DD e Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (Cepedisa) analisou o uso do YouTube para a disseminação de desinformação sobre a Covid-19 na internet. Os pesquisadores identificaram redes que propagam teorias conspiratórias de cunho geopolítico e religioso, tentativa de monetização de conteúdo sensacionalista pela rede médica, e presença de vídeos dos meios de comunicação tradicionais, “que constituem um reduto de informação importante em meio a um complexo ecossistema de desinformação”. A Unesco lançou dois relatórios sobre o que chamou de Desinfodemia: decifrando a desinformação sobre a Covid-19 e dissecando respostas à desinformação. Esta outra pesquisa liderada pelo professor Gordon Pennycook descobriu que a desatenção com que as pessoas navegam pelas redes sociais pode contribuir para o compartilhamento de informações falsas. "Induzir as pessoas a pensar sobre precisão [accuracy] é uma maneira simples de melhorar as escolhas sobre o que compartilhar nas mídias sociais”, destaca este texto do Nieman Lab. Para o Reuters Institute, Joey D'Urso escreve sobre como o coronavírus está mudando as mídias sociais, tão propícias à desinformação. A agência de checagem Aos Fatos completou 5 anos e quer jogar na liga dos grandes. Neste artigo, Tai Nalon destaca que um dos grandes desafios é tornar-se parte consistente de um ambiente de comunicação de massa. Em comemoração, Fátima, a robô checadora do Aos Fatos, ampliou seu repertório e agora tira dúvidas gerais pelo WhatsApp. E por meio dessas ilustrações, ela também responde perguntas sobre os cinco anos da agência. Para fechar o bloco sobre desinformação, registros que vocês devem estar acompanhando: Facebook derrubou rede de 73 contas ligadas ao clã Bolsonaro e deputados do PSL por uso de contas falsas, envio de spam ou adoção de ferramentas artificiais para ampliar a presença online (leiam aqui o anúncio oficial, em inglês). E o WhatsApp barrou contas do PT por disparos em massa, em processo que envolveu denúncias de spam político.


❄️ A discussão sobre um jornalismo antirracista trouxe consigo novas reflexões sobre a objetividade no jornalismo. Temos falado bastante sobre isso aqui na NFJ (vejam, por exemplo, as edições #286 e #285). De maneira geral, tanto acadêmicos quanto profissionais do mercado têm alertado para o perigo do falso equilíbrio, que acaba reforçando discursos historicamente dominantes. Mas alguns veículos tradicionais, como a BBC, continuam defendendo a imparcialidade. Nesta entrevista a Rick Edmonds, a diretora editorial da BBC Global News, Mary Wilkinson, afirmou que “objetividade, neutralidade, justiça - chame como quiser - embasa todos os relatórios desde que a BBC foi criada, em 1922”. Embora tenham flexibilizado esse entendimento em alguns temas como o da mudança climática (“os negadores não recebem mais espaço”), ela diz que a BBC não endossa nenhuma campanha, como a Black Lives Matter. Em painel da CJR, Lewis Raven Wallace defende que a mídia pense sobre a relação entre jornalismo, identidade, comunidade e verdade. “O foco nesse relacionamento pode oferecer um caminho que reconstrói a confiança do público, que se perdeu após décadas de suposta objetividade”, diz. Mathew Ingram escreveu aqui sobre outro painel promovido pela CJR para que jornalistas negros compartilhassem suas "experiências com o racismo sistêmico existente na indústria". Um tópico atravessou muitas discussões, segundo Ingram: o esforço extra que jornalistas negros muitas vezes precisam assumir nas redações: enfrentar o trauma que eventualmente resulta de cobertura de histórias de violência contra pessoas negras, aconselhar reportagens escritas por repórteres não negros e educar seus colegas sobre o racismo e seus efeitos. Neste artigo, Kathleen Newman-Bremang reflete sobre o que significa ser uma jornalista negra na indústria. "O que eles não dizem, especialmente se seus professores são brancos, é que, para as mulheres negras, a carreira será repleta de esperanças destruídas e repleta de fragmentos de sonhos estilhaçados". Neste webinar do Journalism Crisis Project, o assunto foi como construir a liberdade de imprensa que precisamos para o futuro? Criar uma conexão com a comunidade e encontrar um modelo de negócios viável são alguns dos caminhos. A cobertura de protestos também traz desafios sobre a objetividade. Este artigo científico de César Jiménez-Martínez divulgado na newsletter RQ1 argumenta que a atenção que a mídia dá à violência pode reforçar o discurso das autoridades, mas também pode ser usada para questionar o status quo e apoiar a legitimidade dos manifestantes. Analisando as jornadas de junho de 2013, ele identificou que a violência policial mostrada na cobertura da mídia acabou por elevar os protestos. Rolou nessa semana a última live do Ciclo de Debates sobre Jornalismo Antirracista, promovido pelo curso de jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria, campus Frederico Westphalen. A jornalista e professora Sátira Machado conversou com Helaine Martins e Karol Gomes, do projeto Entreviste um Negro. Deem uma olhada também nos episódios anteriores: 1, 2 e 3.


❄️ “Finalmente estamos nos sentindo empoderadas para falar sobre racismo nas redações”, afirma a jornalista Soledad O’Brien neste artigo no New York Times. Segundo ela, muitos profissionais negros foram às redes sociais fazer denúncias porque eles não são suficientemente representativos nas redações - muito menos em cargos de chefia - para promover mudanças efetivas. Nesse sentido, vale ler o memorando do editor do Boston Globe com diretrizes para diversidade na redação. Este texto do Poynter ressalta o esforço dos veículos de incluir a questão racial em seus guias, mas pondera que muitas vezes as orientações são vagas demais. Olhando para a realidade brasileira, Ana Claudia Mielke chama atenção para o acesso à informação, neste artigo no Le Monde Diplomatique: “Se por um lado o controle dos meios é absolutamente marcado pela ausência de negros em seus quadros dirigentes ou societários, por outro o acesso às novas tecnologias de informação e comunicação e à internet está longe de promover o direito à comunicação a essa camada da população”. Ainda sobre representatividade: Selymar Colón pede uma maior representação latina no jornalismo norte-americano, neste artigo para o Nieman Reports. Este webinar da WAN-IFRA discutiu como ampliar as vozes das mulheres nas redações em um mundo pós-Covid. Ataques do governo Bolsonaro a mulheres jornalistas são denunciados à ONU. E vejam que massa: acaba de ser criada a Associação de Jornalistas Trans, para apoiar profissionais em seus locais de trabalho e em suas carreiras. Leiam o guia de estilo, com orientações para cobertura trans, além de termos e frases a evitar.


❄️ “Quem lê tanta notícia?”, perguntava Caetano em sua canção numa era pré-internet. Imaginem agora. Este texto do Nieman Lab elenca uma série de notícias recentes, dando uma clara ideia de que há notícias demais, e afirma que é mais difícil que nunca separar o trivial do urgente. Essa avalanche de informação está levando as pessoas a evitar as notícias, fenômeno no qual deveríamos prestar mais atenção, segundo defende Thomas Baekdal no Journalism.co.uk. Após ficar um mês longe do noticiário (ele conta a experiência neste livro), ele destaca três pontos. Primeiro, sentiu FOMO (medo de perder as notícias); depois, sentiu JOMO (alegria por ficar de fora do noticiário). Segundo, as notícias não chegaram até ele, como se costuma pensar. E, por fim, um mês depois, quase nenhuma notícia permanecia relevante. Pra pensar, né? Seguimos com notícias da indústria: Wall Street Journal lançou Noted, uma revista no Instagram para o público jovem; a Reuters planeja colocar muitas de suas notícias em paywall; a PressGazette fez uma cronologia dos 10 anos de paywall do The Times; vejam como o Substack gerou uma nova classe de empreendedores de newsletters.


❄️ Pra terminar, um bloco com links sortidos: Como construir equipes para um projeto cross-border. | Como melhorar a comunicação de equipes em tempos de trabalho remoto? | Para quem ainda não viu o novo Verification Handbook, aqui vai mais um motivo: o conteúdo sobre desinformação e manipulação. | Professor Jose Avilés indica 10 livros sobre jornalismo, comunicação e inovação. | Margaret Sullivan, colunista de mídia do WPost, faz um resumo de seu novo livro sobre jornalismo local nos EUA. | O ITS Rio acaba de lançar o curso gratuito “Mídias sociais e jornalismo: reduzindo riscos e engajando audiência”. As inscrições vão até 14 de julho. | E a Agência Pública lançou a 12ª edição do concurso de microbolsas, desta vez sobre mineração. Serão distribuídas quatro bolsas de R$ 7 mil para as melhores pautas sobre o tema. As inscrições vão até 7 de agosto. | A agência Fiquem Sabendo, em parceria com o ICFJ, entrevistou Michael Morisy, da MuckRock, organização sem fins lucrativos em defesa a legislação americana de acesso à informação. Para ele, governos devem construir sistemas que preservem dados privados e tornem as informações públicas de forma ativa. | Assistam à live do Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-Line, da UFBA, sobre jornalismo na dados na durante a pandemia. | Por fim, na próxima terça, 11h, será lançada versão beta da ferramenta Science Pulse, projeto do Volt Data Lab para ajudar jornalistas a explorarem conteúdo científico nas redes sociais. As inscrições para o webinar pode ser feitas aqui.


É isso, pessoal. Bora abrir caminho pra chegada do fim de semana com Let It Be.
Até sexta que vem!

Lívia Vieira e Moreno Osório


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, Ana Paula Rocha, Anderson José da Costa Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Isaque Criscuolo, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lucia Monteiro Mesquita, Luiz Denis Graça Soares, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto, Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Tatiane de Assis, Vinicius Batista de Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.