NFJ#288 ❄️ "É sempre mais fácil parecer objetivo se a norma é feita por brancos"

Mais: racismo e a imprensa brasileira, a relação cientistas-jornalistas, a resistência dos jornalistas para cuidar da saúde mental, "jornalismo é apenas metade do produto", dicas para professores

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Buenas, moçada.

Moreno abrindo a news em companhia da Lívia. Companhia virtual, evidentemente. Não só porque o isolamento segue. Mas também porque ela está em Salvador, onde mais uma vez chove. E eu, vocês sabem, estou em Porto Alegre, onde já choveu e reina a umidade. Embalando nossa manhã de sexta, uma playlist feita pelo avô do Santiago em homenagem ao neto. Mas calma, é uma playlist livre de Balão Mágico. São 43 clássicos e pérolas do cancioneiro latino-americano. Indico especialmente Gracias a la vida, na voz de Violeta Parra. É ou não é uma trilha sonora adequada para uma sexta?

Deem play aí e bora celebrar a vida, apesar de tudo. E ler a news ;)

Na edição de hoje divido o texto e a curadoria com a Lívia.


❄️ Para construir confiança durante a cobertura do coronavírus, as organizações de notícia precisam de conteúdo de qualidade, entendimento sobre a audiência e plataformas certas. Neste texto para o Poynter, David Cohn diz que esse processo envolve um jornalismo mais transparente e participativo. As redes sociais podem ser as plataformas certas para isso? De acordo com esta nova pesquisa do Reuters Institute, muitas das conversas nestes ambientes se tornaram tóxicas. Os autores coletaram 222 milhões de tuítes relacionados à Covid-19 e à Organização Mundial da Saúde entre janeiro e abril e descobriram que 21% das mensagens sobre o papel da OMS na crise continham comentários rudes, desrespeitosos e irracionais. Outro ponto importante nesta crise é a relação do jornalismo com os cientistas. Neste texto, os professores da área de epidemiologia Bill Hanage e Marc Lipsitch pedem uma cobertura responsável - com fontes diversificadas e mais calma ao reportar evidências - e provocam: “o vírus não segue o ritmo das notícias e não se importa com o Twitter”. Lipsitch vai ainda mais longe e defende, nesta thread, que cientistas que assinam artigos nos jornais possam escolher ou ao menos aprovar os títulos e subtítulos, de modo a evitar malentendidos. Polêmico, né? O que vocês acham disso? Em entrevista ao ObjEthos, o professor da UFRGS Luiz Ferrareto acrescenta mais um aspecto: a opinião de âncoras e do próprio público substituiu parcialmente o uso de fontes especializadas em programas de radiojornalismo. Segundo ele, o perigo é confundir essas opiniões com uma informação factual. Ferrareto e Fernando Morgado, professor da FACHA, criaram um guia prático para a mídia no combate à Covid-19. Outra iniciativa que pode contribuir para a melhora da cobertura - especialmente em seus aspectos científicos - é o Science Pulse, criado pelo Volt Data Lab em parceria com a Agência Bori para ser uma ponte entre cientistas e jornalistas. O IJNet resumiu o webinar de lançamento, que rolou na última terça. No evento, Sérgio Spaguolo e Ana Paula Morales explicaram que o tipo de ferramenta proposta pelo Pulse "se chama de social listening e pretende 'escutar' o que determinados atores estão falando nas redes sociais". Em outro webinar, agora do ICFJ, o assunto foi saúde dos jornalistas. Mais especificamente, como gerenciar o estresse e a sobrecarga digital. Para o Nieman Reports, Ricki Morell foi preciso: “Em uma indústria sobrecarregada, com falta de pessoal e difamada por ambos os lados da política, a ética jornalística de seguir com entusiasmo para cobrir o caos colidiu com esgotamento e trauma”. Segundo ela, jornalistas são resistentes a cuidar da saúde mental porque veem seu trabalho como um “chamado” e preferem esquecer os problemas em um bar do que tratá-los no consultório de um terapeuta. A boa notícia é que, de acordo com Morell, uma nova geração de jornalistas está pensando diferente. Mostrar os impactos escondidos na vida dos jornalistas que estão no front da cobertura do coronavírus é o objetivo deste projeto de Giedrė Peseckytė. Depoimentos de jornalistas mostram saúde mental frágil e a dor de estarem separados das famílias. Leiam mais no Journalism.co.uk.


❄️ Na Piauí, Flavia Lima reflete sobre o racismo e a imprensa brasileira. A ombudsman da Folha traça paralelos entre os movimentos realizados recentemente por aqui com os do jornalismo norte-americano, chamando a atenção para a "timidez alarmante" com que se movem as redações brasileiras - em relação a autocrítica e ações antirracistas - quando comparadas ao que acontece nos EUA. Um exemplo do que acontece lá: leiam este relato da jornalista Priska Neely, no Poynter: "No momento em que as redações lidam com sua brancura opressiva e procuram atrair mais vozes negras e pardas, quero deixar uma coisa bem clara: nós não somos os seus unicórnios. Somos mais do que números para preencher uma cota ou para consertar superficialmente o problema de longa data de diversidade na sua redação. Nossas habilidades são únicas e nossas." Aqui, Nafari Vanaski conta por que abandonou o jornalismo em 2016 e dá sequência à discussão sobre a objetividade jornalística. "Qualquer tentativa de apontar falhas em um sistema racista, especialmente por um repórter negro, é, em geral, freada por uma lição, muitas vezes vinda de um editor branco, sobre a importância de repórteres se manterem neutros." Neste outro depoimento, publicado no canadense The Star, Radiyah Chowdhury diz: "É sempre mais fácil parecer objetivo se a norma é branca e as pessoas fazendo o trabalho são brancas". Já esta reportagem do NYT aborda os desafios psicológicos enfrentados atualmente por jornalistas negros nos EUA, bem como as alternativas encontradas por esses profissionais para seguir em frente. No HuffPost US, Taryn Finley relata as dificuldades financeiras e emocionais trazidas pela pandemia para diversos repórteres e editores negros. No Nieman Reports, um especial sobre a emergência de uma nova "imprensa negra" nos EUA e uma linha do tempo que mostra a sua importância ao longo da história, a começar pelo primeiro jornal comandado por um negro, Freedom’s Journal, em 1827.


❄️ Aquele bloco clássico sobre desinformação com foco em dicas e recursos, sejam eles instrumentais ou conceituais. Alfred Hermida disponibilizou o capítulo que ele assina com Oscar Westlund a ser publicado no livro Handbook on Media Misinformation and Populism. O texto trata sobre "como padrões diferentes de cobertura da Covid-19 fazem com que o jornalismo de dados confunda o público”. Falando em confundir, artigo do Nieman Lab chama a atenção para centenas de sites tendenciosos ou hiperpartidários (hyperpartisan) disfarçados como jornalismo local nos EUA. Vejam o mapa. No site do IJNet, um resumo da participação de Tai Nalon, do Aos Fatos, no quinto webinar do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde. A diretora executiva do Aos Fatos assina o artigo "Como derrubar uma rede de desinformação sem culpabilizar desinformado", em que analisa a recente retirada do ar - pelo Facebook - de uma rede bolsonarista de desinformação. Ela observa que não foi só por "fake news" que isso aconteceu, e sim em função de uma estratégia complexa de desinformação envolvendo inclusive a publicação de informações factualmente corretas. É uma boa reflexão para entender o relatório Information Disorder. Agora, dois tweets com dicas. Neste, o #AgoraÉQueSãoElas chama para o episódio do podcast Novo normal sobre fake news. Já neste, Marcel Hartmann fala de dicas da BBC para verificar se conteúdo digital é verdadeiro ou não.


❄️ Há duas semanas, na NFJ #286, levantamos uma questão que não tem resposta fácil, a partir de um comentário da professora Emily Bell: é preciso discutir a ética dos relacionamentos de organizações de notícias e universidades que recebem ajuda financeira de empresas como Facebook e Google. Pois bem, agora, o repórter do NYT Noam Scheiber questiona: quão confiáveis são as descobertas de pesquisas feitas em colaboração com empresas de tecnologia? A pergunta partiu do resultado de uma pesquisa que mostrou que motoristas de Uber e Lyft são mais bem remunerados do que se pensava. O detalhe é que o estudo foi feito com base em dados fornecidos pelas duas empresas, e a pedido delas. “Como o estudo era difícil de ser conduzido sem esses dados, o corpo de pesquisa pode ter sido sutilmente enviesado”. Ainda sobre plataformas, esta semana ocorreu o maior roubo de contas da história do Twitter. Casey Newton chamou de catástrofe. O Baixa Cultura resumiu, neste post: um grupo de pessoas convenceu um funcionário do Twitter a lhes abrir acesso a contas de alta visibilidade para aplicar um golpe financeiro. Elon Musk, Barack Obama e outras personalidades tiveram suas contas invadidas na aparente fraude com bitcoins. Pra fechar esse bloco, links com análises sobre dois desafios para o jornalismo: (1) Como distinguir opinião, notícia e editorial? Os leitores muitas vezes não conseguem saber a diferença. De acordo com o professor Damon Kiesow, é preciso pensar para além das etiquetas. “Jornalismo é apenas metade do produto, a experiência do usuário e a jornada são a outra metade”, afirma, no Poynter. (2) O que faz as pessoas evitarem as notícias? De acordo com este estudo de Benjamin Toff e Antonis Kalogeropoulos, os motivos giram em torno de confiança, idade, tendências políticas e também de o quanto a imprensa do país é livre. Leiam este ótimo resumo do Nieman Lab.


❄️ Notícias de veículos jornalísticos no Brasil e no mundo: Leiam no IJNet esta entrevista com os fundadores da Agência Tatu, focada em jornalismo de dados no Nordeste. | O ZAP Matinal, boletim diário de notícias em áudio via Whatsapp, vai expandir o serviço para a cidade de Porto Alegre (antes era destinado somente aos moradores de uma comunidade). | A Folha lançou parceria de assinaturas com o jornal português Público, o que, de acordo com Mathias Alencastro, pode começar a reescrever a história lusófona. Há alguns meses, o Nexo também começou a oferecer assinaturas casadas com o NYT. | Felipe Neto levou a linguagem do YouTube para a editoria de Opinião do NY Times em vídeo que chama Bolsonaro de pior presidente do mundo na Covid-19. | Bari Weiss, uma das editoras da seção de Opinião do NYT, se demitiu esta semana criticando a empresa por não protegê-la do "bullying" constante dos colegas e por "ter o Twitter como seu editor definitivo". Recentemente, ela criticou a decisão do jornal sobre o artigo do senador Tom Cotton (falamos sobre isso na NFJ#283)  e disse que havia uma “guerra civil” entre liberais e conservadores na redação. | Mais uma do Times, que está parecendo mais com um estúdio de Hollywood do que com um jornal tradicional: segundo o Axios, há 10 projetos de programas de TV em desenvolvimento, além de três documentários para este ano. | The Atlantic mostra seus métodos para conhecer a audiência (aqui um resumo em espanhol). | Guardian anunciou plano para demitir 180 profissionais, após queda de receita por causa da crise; BBC também vai demitir 450, num processo que começou no início do ano, pausou por causa da pandemia e agora será retomado. | Pra fechar o bloco, um assunto que a gente adora: newsletters. Texto do Reynolds Journalism Institute analisa que a pandemia - mas não só ela, já que a tendência já existia - aumentou a relevância das newsletters. “O acontecimento é urgente, mas contínuo, e a natureza da informação exige curadoria cuidadosa”.


❄️ Muitos e muitos links SORTIDOS hoje. Bora? Estão abertas as inscrições para o prêmio Vladimir Herzog deste ano. Também estão abertas as inscrições para o 43º Intercom. | No site do Reynolds Journalism Institute, 5 dicas para uso jornalístico do Instagram. Ainda sobre Instagram, ferramentas para criar stories legais. | Edição imperdível da newsletter Try This com a participação de Jeremy Caplan, que nos presenteia com uma lista de ferramentas para testarmos durante o verão (no hemisfério norte). | No Mashable, backgrounds divertidos para usar no Zoom. | Craig Silverman contou ao GIJN quais são suas ferramentas favoritas. | No site da Ponte Jornalismo, dicas para filmar a polícia com segurança. | Essa é pra sala de aula: no Sembra Media tem um espaço para professores se especializarem em jornalismo empreendedor. | Mais dicas para professores no Poynter. | Ainda sobre sala de aula, mas para ler e refletir com calma: no Canadá, escolas de jornalismo subestimam habilidades ligadas ao jornalismo de dados desejadas nas redações. | Vagas no Poder 360. | Repórteres sem Fronteiras lançou um programa de apoio ao jornalismo independente no Brasil, com contribuição do Farol Jornalismo! | Programa de mentoria do Clube de Realizadores para jornalistas recém formados que não passaram por redações. | A Lívia cobriu no Twitter a live do GJOL com Elias Machado e Marcos Palacios. Só uma frase do Elias Machado pra vocês: "O jornalismo não é o que as teorias querem, é o que as práticas o fazem". | Na próxima terça, dia 21, o pessoal da Fiquem Sabendo vai falar sobre como utilizar a LAI durante a pandemia.


É isso, gente. Fiquem firmes aí e tenham todos e todas um bom final de semana.
E até sexta que vem!

Moreno Osório e Lívia Vieira


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Alexandra Zanela, Ana ClaudiaGruszynski, Ana Paula Rocha, Anderson José da Costa Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Isaque Criscuolo, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lucia Monteiro Mesquita, Luiz Denis Graça Soares, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Tatiane de Assis, Vinicius Batista de Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.