NFJ#289 ❄️ Quer saber como foi o ISOJ 2020? A gente conta

Nesta edição especial sobre o ISOJ, destacamos o papel das plataformas na desinformação, ataque de líderes populistas a jornalistas, racismo e diversidade no jornalismo, estratégias de financiamento

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Oi, gente!

Como vocês estão? Espero que estejam em segurança e bem, na medida do possível :-)

Hoje a news é especialmente dedicada ao International Symposium on Online Journalism (ISOJ 2020), um dos simpósios mais importantes sobre jornalismo online do mundo, que começou na terça e termina hoje. Pela primeira vez, o evento, que tradicionalmente acontece em Austin, no Texas, está sendo realizado inteiramente online, gratuito e com recorde de palestrantes.

O que eu mais gosto do ISOJ é a mistura entre profissionais do mercado e acadêmicos e este ano não foi diferente. Além de ser organizado pelo professor brasileiro Rosental Alves (Knight Center), o evento teve a participação de Cristina Tardáguila (Agência Lupa e Poynter), Sérgio Dávila (Folha de S. Paulo) e Alvaro Pereira Jr (TV Globo) como palestrantes. Massa demais, né?

Vejam aqui a programação completa, de repente ainda dá pra participar de algum painel hoje. No Twitter, a hashtag #ISOJ2020 tem muitos comentários bacanas, vale acompanhar. Embora eu tenha assistido a alguns painéis, me baseei bastante na cobertura feita pelo próprio evento (os textos estão todos linkados).

Antes de irmos para a news, dois recadinhos.

Primeiro, criamos uma nova forma de agradecer aos nossos apoiadores +R$10. Agora, quem contribui conosco a partir de $10 têm a possibilidade de colocar um link ativo nos seus nomes ao fim de cada edição. A ideia é valorizar os nossos apoiadores, de maneira que toda a nossa audiência tenha a chance de conhecer um pouco do trabalho de quem permite que a Newsletter Farol Jornalismo siga existindo. Destacaremos links de caráter profissional e diretamente ligados a cada indivíduo, por exemplo, currículo (Lattes, LinkedIn), portfólio, site pessoal / empresarial. O que acham? Apoiadores, se gostaram da ideia, para inserir um link no seu nome, basta preencher este formulário. Querem ter o nome de vocês na newsletter? Apoiem o Farol Jornalismo!

Segundo, criamos uma lista no Twitter com jornalistas brasileiros. Entendemos que é uma boa alternativa não só para ficarmos ligados no noticiário, mas para entender como os nossos colegas de profissão estão refletindo sobre a sua prática. A lista está com pouco mais de 130 nomes, mas trabalharemos para ampliá-la e qualificá-la. Esperamos que seja útil. Contamos com vocês para melhorá-la. E para divulgá-la!

Agora sim. Bora?


❄️ Maria Ressa foi a primeira keynote do ISOJ 2020. Os assíduos na news sabem bem quem é ela, né? Há tempos acompanhamos a luta da fundadora da Rappler, uma das principais organizações de notícias online das Filipinas, para se defender dos ataques do presidente do país, Rodrigo Duterte, e de seus apoiadores. Como repercutimos na NFJ #284, Ressa e seu colega Reynaldo Santos Jr. foram condenados por ciber-difamação por meio de uma lei que ainda nem havia sido promulgada. Embora ambos tenham pagado a fiança, eles podem ser presos se o caso não for revogado em recurso. Impossível não se sensibilizar com o relato de Maria Ressa das ameaças que vem recebendo nas redes sociais. “O papel das empresas de plataforma não pode ser ignorado, pois é lá que o incitamento ao ódio e a criação de redes de desinformação começam”, disse. Jornalistas como alvo de líderes populistas foi justamente o tema do painel com Kathleen Kingsbury (NYT), Sérgio Dávila (Folha), Peter Erdelyi (444.hu), Anna Gielewska (Reporters Foundation) e Juan Pardinas (Reforma). Embora as práticas e estratégias sejam diferentes nos países, os resultados são semelhantes: os líderes querem evitar ser responsabilizados por seus atos. Para lidar com os ataques de Bolsonaro, Sérgio Dávila disse que a Folha adotou algumas medidas incomuns para uma organização de notícias. Uma delas foi ter permitido que a repórter Patricia Campos Melo processasse o presidente. “Faz parte da nossa cultura como jornalistas lidar com ataques de presidentes, ministros, governadores, congressistas e empresários. O presidente Jair Bolsonaro, no entanto, elevou a intensidade, a frequência e até a ferocidade de tais ataques”, explicou.


❄️ Questões raciais e de gênero tiveram destaque no ISOJ 2020. O painel com Amanda Zamora e Emily Ramshaw (The 19th), mediado por Matt Thompson (Center for Investigative Reporting), mostrou como uma redação sem fins lucrativos como a The 19th quer ficar longe das “notícias commodity” e construir uma cultura que seja exemplo para a indústria em termos de diversidade e equidade. Previsto para ser lançado daqui a alguns meses, o veículo tem esse nome em referência à 19ª Emenda, que concede às mulheres o direito de voto nos Estados Unidos. Ramshaw explicou que incluíram um asterisco na logo, porque elas estavam conscientes de que a emenda apenas beneficiava as brancas e excluiu mulheres negras desse direito por décadas. Ela disse que o conceito do asterisco é abordar essas desigualdades e, ao pensar nas pautas, sempre se questionam: Qual é o asterisco nesta história? Superinteressante, né? “Não é uma reportagem só por ter mulheres envolvidas, ou por apresentar uma mulher ou porque uma mulher é citada. Nós sempre pensamos no asterisco. Qual é a discrepância, quais são as disparidades? Nosso ponto de entrada para uma história é o asterisco do The 19th, que é essa lente de gênero”, afirmou Ramshaw. No Twitter, Federica Cherubini (Reuters Institute) destacou a fala de Amanda Zamora sobre a estratégia de audiência: “Pensamos em nosso público em dois segmentos: um principal, de mulheres com maior probabilidade de lerem as notícias e estarem conectadas. Precisamos que essas leitoras sejam fiéis e sustentáveis. Se fizermos um bom trabalho no crescimento deste público-alvo principal, poderemos ir além, onde o jornalismo nos exige, de modo que falemos com mulheres de todas as origens, construindo parcerias, trabalhando nessas comunidades. Esse segundo tipo de público-alvo leva tempo e custa recursos”. Conheçam aqui mais sobre o The 19th.


❄️ O painel sobre desinformação teve presença de profissionais do mercado e acadêmicos: Talia Stroud (Universidade do Texas), Don Heider (Markkula Center), Cristina Tardáguila (Poynter’s International Fact-Checking Network) e Craig Silverman (BuzzFeed ). Um dos aspectos mais discutidos foi como ir além do fact-checking. Para Craig Silverman, é necessário investigar e expor os atores das informações falsas, a plataforma e o ecossistema que permitem que elas existam. “Não é mais suficiente verificar se uma afirmação é verdadeira, também é preciso reportar a verdade sobre a mentira”, disse. Cristina Tardáguila destacou a importância da colaboração entre diferentes organizações, citando como exemplo a CoronaVirusFacts Alliance, que atualmente tem a participação de 99 veículos de fact-checking e mais de sete mil verificações de sobre o vírus. “Isso significa que estamos cobrindo mais de 70 países no mundo. Estamos verificando o conteúdo em mais de 40 idiomas diferentes. A gente não ia conseguir verificar essa quantidade de conteúdo sozinhos, sem trabalhar juntos”, afirmou. Como jornalistas podem usar o TikTok para monitorar a desinformação foi o tema do painel com Laura Garcia (First Draft). Ela disse o TikTok está ganhando muita popularidade e “jornalistas devem ir para onde as pessoas estão indo”. Na pandemia, Garcia explicou muitas teorias da conspiração começaram a se espalhar pelo aplicativo, principalmente entre os adolescentes, público majoritário do TikTok. Segundo ela, um trabalho importante para os jornalistas é acompanhar o que está circulando (ela mostrou como fazer isso de forma prática) e trabalhar para desmentir as informações falsas.


❄️ Nenhum milagre vai salvar as notícias locais. Por isso, redações digitais e tradicionais estão utilizando diferentes estratégias editoriais e de negócios para sobreviver. Este foi o tema principal do painel com Jennifer Preston (Knight Foundation), Sara Lomax-Reese (WURD Radio), Alison Go (Chalkbeat), Mandy Jenkins (The Compass Experiment), Fraser Nelson (Salt Lake Tribune) e Chris Sopher (WhereBy.us). Alison Go falou bastante sobre as vantagens de um veículo especializado como o Chalkbeat, que cobre educação. Eles criaram uma rede de repórteres e se direcionam ao público de professores e pais, o que é valorizado por patrocinadores, anunciantes e filantropos. “Existem pessoas apaixonadas por assuntos como educação, justiça criminal, mudança climática. Onde há paixão, geralmente há dinheiro”, afirmou. Já o Salt Lake Tribune está mudando para um modelo sem fins lucrativos, cujo financiamento local é crucial. Fraser Nelson contou que, por causa da queda de receita durante a pandemia, o Tribune pediu aos assinantes para pagarem quase duas vezes mais por praticamente o mesmo conteúdo, e 60% aceitou fazer isso. Em outro painel, Catherine Kim (NBC News & MSNBC) falou sobre como 2020 mudou profundamente as redações e o jornalismo como o conhecemos. Ela disse que o caos inicial dos bastidores de um canal de TV com profissionais trabalhando de casa foi, aos poucos, substituído por soluções criativas. A equipe descobriu novas maneiras de desenvolver e criar widgets editoriais, como a Covid Chronicles, histórias em quadrinhos que contam a rotina de profissionais de saúde na linha de frente. “Acho que este é um momento extraordinário para ser um jornalista. Esse tipo de esforço realmente reflete o quão importante é para todos nós, individualmente, estar reportando sobre essa história e testemunhar esse tempo”, disse.


❄️ O ISOJ 2020 teve também alguns workshops mais práticos. O sobre inteligência Artificial e machine learning nas redações foi ministrado por Michael Grant (Google News Lab), que defendeu que esses conhecimentos podem ajudar os veículos jornalísticos a funcionar melhor e fazer avançar os objetivos de suas equipes. E Grant deu alguns exemplos de uso de machine learning: segundo ele, a Reuters tem uma ferramenta para pesquisar tweets, com o objetivo de detectar cenários de notícias de última hora; a Vice usa um sistema de tradução do Google para disponibilizar algumas de suas histórias em vários idiomas; e a ProPublica usa machine learning para rastrear crimes de ódio nos Estados Unidos, visando criar um sistema central de rastreamento que não existia anteriormente. No outro workshop sobre jornalismo de dados, Vera Chan (Microsoft News Lab), Cathleen Crowley (Albany Times Union) e Verah Okeyo (Daily Nation) apresentaram o Power BI, ferramenta para criação de infográficos interativos que dispensa a utilização de códigos. Verah Okeyo contou que passou entender o valor de contar histórias com ferramentas de dados quando estava investigando os números de mortalidade no Quênia. Ela começou a ver padrões que nunca haviam sido abordados em reportagens antes, e construiu a história com uma combinação de recursos visuais do Power BI e habilidades tradicionais de reportagem.


❄️ Para finalizar, links sortidos para ler com calma: Organizadores do boicote ao Facebook dizem que a campanha vai continuar (CJR). | Com diversidade e notícias esperançosas, o veículo norueguês NRK está reinventando seu jornalismo (WAN-IFRA). | Relatório da Challenger, Gray & Christmas aponta recorde de demissões nas redações norte-americanas em junho. | Aqui no Brasil, levantamento da Fenaj mostra que mais de 4 mil jornalistas tiveram impactos salariais durante a pandemia. | Dicas para freelancers: como começar, mesmo se sua carreira estiver no início (Poynter); e como ser um freelancer de sucesso (Journalism.co.uk). | E para os professores, orientações para criar boas aulas online (Poynter).


É isso, gente! Bom fim de semana e até sexta que vem.

Lívia Vieira e Moreno Osório


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Alexandra Zanela, Ana Claudia Gryszynski, Ana Paula Rocha, Anderson José da Costa Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Isaque Criscuolo, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lucia Monteiro Mesquita, Luiz Denis Graça Soares, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Tatiane de Assis, Vinicius Batista de Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.