NFJ#290 ❄️ "É trabalho da mídia questionar a sensatez da prática esportiva durante a pandemia"

Jornalismo de dados ajuda a enxergar os efeitos da pandemia, um guia para uma cobertura ética da Covid-19, como o "racismo à brasileira" se reflete na mídia, um resumo das newsletters sobre jornalismo

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Buenas, moçada!

Moreno aqui abrindo a edição 290 da Newsletter Farol Jornalismo.

Firmes aí? Por aqui, firmes e saudáveis.

Mais uma sexta-feira em nossas vidas. Mais uma sexta-feira de isolamento. Aqui no sul, sol, frio e céu azul, uma combinação que nos enche de alegria e de esperança. Pelo menos de que a roupa seque. Em Salvador, onde, vocês sabem, está a Lívia, a chuva cessou, o tempo abriu e segue fazendo aqueles 25 graus de sempre.

Embalando o fechamento da news e o início do fíndi, o álbum Divino Maravilhoso, da Gal cantando Caetano. Especialmente a linda versão de “Você não entende nada”. Deem play e venham embora com a gente, tocar foto nesse apartamento.

Nesta edição vocês vão encontrar uma novidade. Dedicamos um tópico a um resumo de algumas das principais newsletters sobre jornalismo que acompanhamos. Com a multiplicação de boletins, achamos que pode ficar difícil seguir o que cada um está dizendo. Então a gente decidiu fazer isso pra vocês! O que acham? Massa, não?

Então que tal nos apoiar para que a gente possa seguir criando coisas para acompanhar os movimentos do jornalismo, no Brasil e no mundo? :)

Esta edição tem texto meu e da Lívia e curadoria de ambos.

Foi!


❄️ Começamos com uma rodada sobre jornalismo em meio à pandemia. Matéria do Nieman Lab destaca uma pesquisa da Federação Internacional de Jornalistas que mostra como a pandemia está afetando mulheres de maneira desproporcional. Foram ouvidas 558 jornalistas mulheres em 52 países: 55% disseram que vivenciaram aumento na desigualdade de gênero devido à Covid-19 e 59% relataram que a pandemia afetou sua saúde. Os maiores problemas estão relacionados ao sono. Também no Nieman Lab, também outra repercussão de pesquisa: o Reuters Institute consolidou levantamentos sistemáticos sobre o consumo de notícias no Reino Unido durante a pandemia. O resultado demonstra uma queda "lenta e consistente". O declínio é mais acentuado especialmente entre mulheres e jovens. No Poynter, uma discussão relevante a respeito da retomada de esportes profissionais durante a pandemia, no caso, dos EUA. E também sobre o papel da mídia esportiva. Escreve Tom Jones: "é trabalho da mídia noticiar os fatos e questionar a sensatez da prática esportiva durante uma pandemia mortal. Isso não significa que aqueles que cobrem o noticiário esportivo querem a suspensão dos esportes". No Journalism.co.uk, dicas para jovens jornalistas ganharem experiência durante a pandemia. No The Conversation, um artigo da professora da Universidad Carlos III Eva Herrero sobre o compromisso do jornalismo de apresentar boas fontes de informação, especialmente durante momentos de crise. "A qualidade de um meio é medida pela qualidade de suas fontes", escreveu. Artigo do Nieman Lab sobre como a desinformação afeta a tomada de decisão das pessoas na vida real.


❄️ Vocês devem ter visto. Se não viram, deem uma boa olhada no especial No epicentro, desenvolvido pela agência Lupa em parceria com o Google News Initiative. É um ótimo uso de jornalismo de dados para ajudar a entender o número de brasileiros mortos pela Covid-19. Ao informar a sua localização, o usuário é convidado a visualizar como seria se todos os mais de 90 mil que já se foram em função da doença fossem seus vizinhos, oferecendo uma dimensão visual do tamanho da tragédia. Saiba mais sobre a ferramenta lendo esta matéria. Neste texto em contam como o projeto surgiu, Rodrigo Menegat, Tiago Maranhão e Vinicius Sueiro disseram que No epicentro tenta responder a seguinte pergunta: como fazer para que as pessoas enxerguem os mortos pela Covid-19? Confiram também a metodologia. O Guardian fez algo parecido, mostrando em um mapa se o número de casos está aumentando ou diminuindo em cada região do Reino Unido. Lembra um pouco a ideia de apresentar os movimentos da pandemia no estilo do noticiário da previsão do tempo. Voltando ao Brasil, o site da Global Investigative Journalism Network fez uma matéria sobre o jornalista Marcelo Soares e o Lagom Data. E o NYT fez um ótimo trabalho de visualização para contar como pandemia vem afetando a região da Amazônia brasileira. Prestem atenção na utilização da rolagem como um elemento narrativo, especialmente quando a matéria mostra o vírus se espalhando ao longo do Amazonas, fazendo o leitor viajar rio acima, destacando a alta taxa de mortalidade das principais cidades ribeirinhas do Estado. A reportagem foi capa da edição impressa do último domingo. Complementem a experiência do impacto da pandemia no Norte lendo esta matéria da Amazônia Real. Pra fechar o tópico DDJ, deem uma olhada em duas threads. Primeiro, Marco Túlio Pires fala sobre o Flourish. Depois, Álvaro Justen fala sobre um banco de dados do Brasil.io que contém dados cadastrais das empresas brasileiras, incluindo sócios.


❄️ É urgente uma nova agenda comum entre os meios de comunicação latino-americanos. É o que propõe o relatório do Voces del Sur, após contabilizar 630 ataques contra jornalistas entre janeiro e junho de 2020. Os dados, coletados em 11 países, mostram que 708 profissionais e veículos de imprensa foram alvo de agressões de agentes públicos; ataques físicos e verbais; restrições virtuais (incluindo assédio on-line), entre outros. Não descuidar da segurança digital e atuar de forma colaborativa são algumas das orientações do “Guia de cobertura ética da Covid-19”, que o ObjETHOS acaba de lançar. Além desses cuidados que os jornalistas devem ter com si próprios, o guia ainda recomenda atenção com as informações, com as fontes e com o público. Nos EUA, um juiz de Seattle abriu um precedente problemático. Este texto do Poynter diz que cinco veículos jornalísticos terão que entregar fotos e vídeos de um protesto de maio à polícia local, sob a alegação de que as imagens ajudariam a identificar um homem que teria ateado fogo em carros da polícia. Associações de jornalismo são contra a decisão, pois “ela coloca a imprensa livre contra o público e a força a ajudar o governo - que deve, na verdade, ser fiscalizado por meio de suas reportagens". Em Portland, jornalistas têm reportado ataques de policiais em manifestações antirracistas. Este texto da CJR destaca entrevista de dois repórteres freelancers a uma emissora pública local, na qual lembram como é arriscado o trabalho dos que não têm uma organização jornalística para protegê-los. Ainda sobre questões éticas, agora na relação com a tecnologia: este guia da Online News Association reflete sobre como contar histórias eticamente usando mídias imersivas (AR, VR, vídeo em 360°, etc). Chama a atenção o fato de que a percepção do imersivo e de seus impactos psicológicos ainda está sendo descoberta. No Nieman Lab, dois professores da Duke University defendem que o jornalismo automatizado ainda precisa muito dos humanos. Um exemplo: eles costumavam mandar um e-mail automático para jornalistas com a seleção algorítmica de discursos passíveis de checagem, mas notaram que poucos abriam o boletim. Então decidiram incluir o elemento humano para dar personalidade e contexto ao e-mail, que passou a se chamar “Best of the Bot” e teve ótimos resultados.


❄️ Uma face do racismo brasileiro é fingir que ele não existe, e isso se reflete na cobertura da mídia, de acordo com estudo da Rede de Observatórios da Segurança. Os pesquisadores Bruna Sotero e Pedro Paulo da Silva identificaram que, de 12.559 notícias sobre segurança pública e violência, apenas 0,4% se refere a racismo ou injúria racial. Este texto da Gênero e Número destaca: “Levando-se em conta que a população negra é a mais afetada por mortes violentas no Brasil, a falta de problematização das dinâmicas raciais nas coberturas jornalísticas chamou a atenção. (...) É o racismo à brasileira, para usar o termo da Lélia Gonzalez, que se reproduz por não aparecer”. Em artigo para o UOL, Pedro Borges afirma que “o jornalismo só será de verdade quando pretos e pretas participarem dele”. Com base em sete estudos, o jornalista Clark Merrefield afirma, neste texto para o Nieman Lab, que o jornalismo tem um problema de raça. Uma das pesquisas descobriu, por exemplo, que três quartos dos empregados em redações norte-americanas são brancos e cerca da metade são homens brancos. Nieman Lab também destaca o Black Media Initiative, projeto da CUNY que quer fortalecer a imprensa negra, ajudando os veículos a crescer, inovar e ser sustentáveis (mais sobre isso na NFJ#288). Ainda sobre representatividade na mídia, vejam essa live do GJOL sobre como o jornalismo inclui (ou não) as pessoas com deficiência. Para a jornalista Claudia Werneck, não se trata só de uma questão de acesso à informação, “essas pessoas têm o direito de se expressar e de fazer perguntas”. E vocês viram como o NYT cobriu o discurso da congressista Alexandria Ocasio-Cortez, que viralizou esta semana? Ao invés de relatar sua fala na luta contra o sexismo, o jornal disse que ela infringiu regras (porque reproduziu o xingamento que sofreu do parlamentar Ted Yoho) para “ampliar sua marca pessoal”. Este texto de Dan Froomkin para o Press Watch diz que o NYT tem um problema de misoginia. No ponto.


❄️ 📥 Querem saber o que foi destaque nas mais recentes edições de newsletters sobre jornalismo? A gente conta pra vocês. No boletim da Global Investigative Journalism Network, fotógrafos compartilham estratégias para registrar imagens da pandemia. Na news do Tow Center, destacamos uma análise de Emily Bell sobre a relação entre jornalismo e TikTok, especialmente em função das relações da empresa com a China. O último email da Checklist também deu espaço para o TikTok, destacando o problema de desinformação na rede, em uma matéria da Fast Company. O TikTok também apareceu na newsletter da First Draft enviada na sexta, dia 24. Mas a abordagem foi mais ampla, com uma reflexão sobre as recentes  "políticas intervencionistas" adotadas pelas plataformas sociais para tentar conter a desinformação. Já a edição do boletim semanal do Poynter destacou a iniciativa do MediaWise em ensinar eleitores de primeira viagem nos EUA a encontrar informações confiáveis sobre as eleições. "Desinformação como estratégia de governo intensifica crise de COVID-19" no Brasil é a manchete da newsletter do IJNet. A última edição da Latam Journalism Review destaca a morte de jornalistas no Brasil e no México e podcasts que educam o público sobre a Covid-19. Por fim, a news do Reuters Institute traz a pesquisa sobre news avoidance que falamos no primeiro tópico desta edição.


❄️ Para terminar, um bloco de links DIVERSOS. O NYT está se transformando em uma empresa de tecnologia. De acordo com a nova CEO, Meredith Levien, "engenharia agora é a segunda maior área no NYT, somente atrás do jornalismo, e de longe a maior função no lado comercial/de negócios" (leia a entrevista a Ken Doctor, no Newsonomics). Em uma carta aberta a Levien, Joshua Benton, diretor do Nieman Lab, afirma que o NYT precisa fazer mais para ajudar a salvar o jornalismo local dos EUA. | No Poynter, vejam como o coletivo de mídia Are We Europe lançou um programa de membership durante o lockdown. (Poynter) | Max Siegelbaum, fundador do Documented, conta como o veículo tem se relacionado com a audiência pelo WhatsApp. (RJI) | Startups digitais são a esperança ou o desapontamento para o jornalismo local nos EUA? Estudo mostrou que, desde 2018, mais de 80 sites de notícia foram lançados, mas número igual fechou as portas. (Poynter) | O que as novas newsletters podem aprender com o início dos blogs? (Adam Tinworth) | Um número crescente de jornalistas tem reduzido o uso ou abandonado o Twitter, por ataques online. (Poynter) | “Por que em vez de correr para aprovar uma lei incapaz de dar conta da desinformação, o Brasil não monta um projeto colaborativo para as eleições?”, provoca Cristina Tardáguila. (Poynter) | Jornalismo de dados e investigativo é o tema da última fase do FactCheckLab, programa da Agência Lupa que está promovendo o desenvolvimento de 93 jornalistas do país. | Sérgio Spagnuolo elenca algumas convenções que, segundo ele, atrasam o jornalismo brasileiro. | O Science Pulse ganhou a aba Covid-19, para monitorar palavras-chave sobre a pandemia. | A Pública anunciou que chegou a 1.500 apoiadores do seu programa Aliados. | O The Intercept Brasil passou dos R$ 300 mil em apoios mensais em sua campanha de assinaturas. | É logo mais, às 19h, a última edição do ciclo de debates online da SBPJor, que vai abordar “Questões de gênero e interseccionalidades na cobertura jornalística da pandemia”. Cláudia Lago (USP) e Márcia Veiga (Unisinos) são as debatedoras.


É isso, gente. Moreno encerrando.

Terminem a news e comecem o final de semana escutando Divino Maravilhoso.

Atenção ao dobrar uma esquina
Uma alegria, atenção menina
Você vem, quantos anos você tem?
Atenção, precisa ter olhos firmes
Pra este sol, para esta escuridão
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso

Atento à escuridão, vou ali colocar minha cara no sol. Tomar um chá.

Bom final de semana a todos e todas. E até sexta que vem.
Moreno Osório, de Porto Alegre.
E Lívia Vieira, de Salvador.


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Alexandra Zanela, Ana Claudia GRuszynski, Ana Paula Rocha, Anderson José da Costa Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai,vFabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lucia Monteiro Mesquita, Luiz Denis Graça Soares, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tatiane de Assis, Vinicius Batista de Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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