NFJ#291 oferecida por Science Pulse ❄️ Desinformação avança e emprega recursos do jornalismo declaratório

Sites são hackeados para plantar notícias falsas, tentativa de regulação do fact-checking na Espanha, mais de 200 fontes de financiamento para jornalismo, trabalho remoto em redações pode prosperar

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Buenas, moçada!

Firmes?

Moreno abrindo mais uma edição da Newsletter Farol Jornalismo. Em Porto Alegre, onde o tempo é cinza, da janela vejo ipês que floresceram após uma semana de calor em pleno agosto. Em Salvador, onde está a Lívia, calorzinho voltou depois de uma semana de frio de 20 graus (?). Antes de iniciar, queria contar uma coisa massa.

Vocês notaram que a news tá diferente. O nosso logo ganhou companhia no banner e o laranja-Farol dos links deu lugar a esse rosa lindão. É porque a Newsletter Farol Jornalismo está recebendo o apoio do Science Pulse, uma ferramenta que mapeia e destaca informações compartilhadas no Twitter pela comunidade científica.

Quem acompanha a news já conhece o Pulse. Ele foi assunto da NFJ#288. Mas agora deixem eu contar um pouco mais sobre essa iniciativa do Volt Data Lab e que tem a colaboração do International Center for Journalists (ICFJ) e da Agência Bori.

A pandemia tensionou a relação entre cientistas e jornalistas. Mais do que nunca estamos atentos ao conhecimento produzido nos laboratórios, mas sem saber transmitir as incertezas que a ciência apresenta. Essa demanda jogou no nosso colo o desafio de ler, interpretar e divulgar o que os cientistas fazem. Estamos aprendendo na marra que a ciência é um trabalho coletivo que avança no seu próprio ritmo. Às vezes precisa dar alguns passos atrás. Resultados e descobertas podem mudar rapidamente.

Por isso seria legal jornalistas e cientistas estarem atentos às conversas uns dos outros. Do nosso lado, podemos nos beneficiar muito sabendo o que especialistas estão compartilhando nas redes sociais. Mas vamos combinar que é difícil ficar ligado em tudo o que tá rolando. É muita gente, muita mensagem, muito ruído. 

É aí que entra o Science Pulse

O Pulse faz social listening da conversação de cientistas. A ferramenta tem um algoritmo que escuta o que determinados atores estão falando nas redes, destacando o conhecimento e filtrando o ruído. Ela dá espaço para pessoas com ideias brilhantes em seus campos de atuação, mas que talvez não tenham milhares de seguidores. 

É um baita atalho para melhoramos o nosso entendimento sobre a ciência e, consequentemente, a nossa cobertura - especialmente sobre a Covid-19.

Os assinantes mais antigos vão lembrar dos textos e discursos da Emily Bell que muitas vezes destacamos na news. Lá em 2015 ela dizia mais ou menos assim, a respeito da relação entre jornalismo e as grandes plataformas: o nosso desafio (como jornalistas) "é desenvolver novas ferramentas e plataformas para notícias que não dependam apenas das empresas do Vale do Silício".

É isso que o Science Pulse está fazendo.

Bueno, bora pra news?

A NFJ#291 tem curadoria minha e da Lívia. O texto é quase todo dela, com alguns pitacos meus. Eu fechei mais uma news em nossas vidas ao som deste álbum da banda Bande à part. Ouçam especialmentem esta versão Where is my mind. Bora.


❄️ A engrenagem da desinformação está ficando mais sofisticada. Neste artigo, a diretora do Aos Fatos, Tai Nalon, afirma que o formato de agora “não se resume apenas à existência de sites que emulam a estética do jornalismo tradicional (...).. Emprega, na verdade, o formato do jornalismo declaratório: reproduz uma falsidade patente, põe na boca de uma fonte e não qualifica a informação”. Já esta reportagem da Wired mostra que sites de notícia de países do leste europeu como Polônia e Lituânia estão sendo invadidos. A estratégia é hackear os publicadores desses sites, colocar no ar notícias falsas e depois amplificá-las às pressas nas mídias sociais antes de serem derrubadas. Talvez seja hora de repensar as métricas de engajamento, sugere este estudo da Harvard Kennedy School após descobrir que quando as pessoas percebem que um conteúdo questionável foi curtido e compartilhado várias vezes, é mais provável o compartilhem. O Nieman Lab dá mais detalhes da pesquisa. O Pew Research Center também divulgou resultado de um estudo sobre desinformação: norte-americanos que recebem notícias principalmente pelas mídias sociais têm menos probabilidade de saber sobre coronavírus e política e mais chances de dar atenção a alegações não comprovadas. O First Draft mostrou percepções iniciais de uma investigação muito interessante sobre a forma como as pessoas buscam por informação, neste texto para o Nieman Lab. Segundo eles, quem tem contato com a desinformação está, muitas vezes, procurando pela verdade. Vejam um exemplo: no Google, as buscas por “coronavirus facts” (fatos sobre o coronavírus) resultam em uma série de estatísticas oficiais. Já quem busca por “coronavirus truth” (a verdade sobre o coronavírus) encontra resultados como “a China tem perguntas a responder sobre o laboratório Wuhan” - uma das principais teorias da conspiração sobre a origem do vírus. A Lívia fez uma investigação parecida para o site do GJOL com o termo “coronavírus” e descobriu que, por priorizar resultados oficiais do Ministério da Saúde, o Google mostra, por exemplo, conteúdo impreciso sobre o uso da cloroquina - o que pode levar à desinformação. Pra fechar o bloco, mais um estudo relacionado a buscas, desta vez do Oxford Internet Institute: os pesquisadores mostram que sites que publicam “junk news”, incluindo histórias relacionadas à Covid-19, têm estratégias profissionais de SEO, alto nível de autoridade de domínio, e por isso seus conteúdos são bem ranqueados nos resultados de pesquisa de palavras-chave populares.


❄️ Aprovada pelo Senado em junho, a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet (conhecida como “PL das Fake News”) aguarda análise pela Câmara e segue gerando debates. Na Folha, Diego Canabarro e Paulo Rená listam 10 razões para rejeitar o artigo 10 do projeto, que trata da rastreabilidade de mensagens encaminhadas em aplicativos como o WhatsApp ou Telegram. O argumento dos especialistas é que o PL, que pretende combater as fake news, vai na verdade possibilitar a vigilância em massa em apps de mensagem. Na Espanha, o partido de extrema-direita Vox apresentou um projeto de lei para regulamentar as agências de fact-checking, com itens que sugerem um perigoso controle. Apesar de ser improvável que o projeto avance, de acordo com este texto do International Press Institute, “trata-se de mais uma tentativa de conter a independência do jornalismo na Espanha”. Nos EUA, além de serem denunciados por atacar jornalistas nas manifestações antirracistas (falamos sobre isso na NFJ #290), agora a polícia local está fazendo um relatório sobre o trabalho de jornalistas que cobrem os protestos e que vazaram documentos do Departamento de Inteligência (leiam a matéria do Washington Post). Mais uma ameaça à liberdade do trabalho da imprensa, como a que sofreu a jornalista Patrícia Campos Mello. Nesta entrevista a Tallys Braga no Observatório da Imprensa, a repórter da Folha fala sobre seu novo livro e destaca: “Deslegitimar a imprensa crítica e os repórteres é parte da estratégia populista. Esses líderes querem emplacar as suas narrativas nas redes sociais e em veículos de mídia amigos”.


❄️ O primeiro relatório demográfico público do Washington Post revela que a porcentagem de profissionais negros está caindo. Este texto do Nieman Lab mostra que o que estava ruim ficou ainda pior. Os brancos representam 57% dos empregados (mesmo percentual de 2015), mas a porcentagem de negros caiu de 27% para 20%. “Ainda há muito a trabalho a ser feito”, disse o jornal. Esta semana foi lançado o The 19th*, veículo de notícias sobre gênero e política feito por mulheres e para mulheres (na NFJ #289 explicamos o porquê deste nome). Sem fins lucrativos, o The 19th* é financiado por uma combinação de filantropia, membership e patrocínio corporativo (corporate underwriting). O Poynter destaca, a partir de entrevistas com as editoras, que a ideia é publicar duas ou três matérias por dia e que tem sido um grande desafio iniciar a empreitada remotamente. Além do site, dos próximos dias 10 a 14 será realizado o The 19th* Represents Virtual Summit, evento on-line gratuito de conversas com mulheres proeminentes na política, no engajamento cívico, jornalismo e nas artes. Já que o assunto é diversidade, O Journalism.co.uk fez uma lista com 124 especialistas em jornalismo negros, para ampliar as vozes nos eventos da área. Infelizmente não há brasileiros entre os nomes, mas a lista do Farol Jornalismo no Twitter tem alguns jornalistas negros - e precisa ser ampliada (para mais listas, confira a NFJ#282). Sugira pra gente novos nomes! E para os pesquisadores, o Journalist’s Resource fez uma lista com sete estudos sobre raça e jornalismo.


❄️ Redações podem prosperar com trabalho remoto, mas precisam fazer ajustes primeiro, sugere este novo relatório da International News Media Association (INMA). Investimentos em tecnologia para garantir acesso aos jornalistas e, mais importante, uma mudança de cultura, são essenciais. Ao repercutir o estudo, o Nieman Lab destaca que apoio emocional e a empatia serão necessários de maneiras que normalmente não faziam parte do ambiente de mídia. Deve haver um reconhecimento de que os profissionais estão sofrendo trauma e estresse sem precedentes. Mais sobre inovação e futuro do jornalismo: no site do The Lenfest Institute, como três jornais locais tiveram sucesso com seus programas de doação de leitores. | Adrian Ma, professor da Ryerson School of Journalism, analisa exemplos de inovação na cobertura da pandemia com jornalismo explicativo, uso de drones e de realidade virtual. | Damian Radcliffe elenca impressionantes 231 fontes de financiamento para o jornalismo, no WNIP. | Ana Beatriz Tuma escreve no Observatório da Imprensa sobre alternativas de financiamento para o jornalismo local. | Neste vídeo do Reynolds Journalism Institute, profissionais falam sobre como ter sucesso como um jornalista independente, destacando cuidados com a saúde, como construir uma base de clientes, como fazer contratos. | George Ziogas orienta sobre como entrar em contato com repórteres das maneiras certas para falar sobre sua empresa. As dicas podem ser úteis para os assessores de imprensa. | E para os professores, vale ler essas recomendações sobre como ensinar melhor jornalismo, debatidas na jornada de ética da Fundação Gabo.


❄️ 📥 Vamos ver o que foi destaque em 11 newsletters de jornalismo na semana que passou? A última edição da news do ObjETHOS destaca o fantasma que representa o assédio moral nas redações, a partir do caso de uma ex-jornalista da Rede Globo em Roraima. | Uma das análises do boletim do Tow Center enviado na terça fala sobre o surgimento de uma rede de sites de "notícias locais" cujo propósito parece ser "promover discussões que abraçam determinados pontos de vista e coletar dados dos usuários". | O email semanal do Poynter traz dicas para realizar uma boa entrevista. | Já o do IJNet oferece 8 oportunidades de jornalismo para concorrer em agosto. | O weekly briefing do First Draft destaca uma investigação sobre a desinformação relacionada a questões médicas nos EUA. | A news do European Journalism Centre traz uma oportunidade legal: um curso grátis sobre bem estar para jornalistas (em inglês). | A newsletter da Transparência Brasil vem com um relatório mostrando "que o uso de justificativas controversas pelo Executivo federal para negar atendimento a pedidos feitos via Lei de Acesso a Informação aumentou em até 4 vezes no governo Bolsonaro". | A última edição da Checklist resume o que rolou durante a semana na plataforma learnaboutcovid19.org. | Já a do Reuters Institute destaca um estudo produzido na casa que investigou grupos no Facebook e também Subreddits para saber "se comunidades on-line podem se beneficiar de conteúdo jornalístico". | Na RQ1, Mark Coddington e Seth Lewis falam, entre outras coisas, sobre como melhorar a cobertura de pessoas em situação de rua. | Por fim, a news quinzenal do Bellingcat traz sugestões de leituras e de podcasts para o verão (no hemisfério norte). |


❄️ Pra fechar, links DIVERSOS. No Poynter, lista de newsletters independentes sobre jornalismo. | Foi lançada nesta semana a Periódica, uma newsletter com curadoria de publicações acadêmicas que ajudam a refletir sobre a prática jornalística. | No Twitter do Favela em Pauta, oportunidade para fotojornalistas que estejam registrando a pandemia nas periferias do Brasil. | No ObjETHOS, um texto sobre o jornalismo feito por moradores de realidades populares na pandemia da Covid-19. | O Malofiej, o Pulitzer dos infográficos, divulgou o resultado da 28º edição do seu prêmio. |  A IFCN lançou a versão em português do seu chatbot. Vocês podem acessá-lo aqui. Divulguem no grupo da família! | O ÉNois lançou nesta semana um projeto muito legal, o programa Diversidade nas Redações, em parceria com a Google News Initiative. A iniciativa vai selecionar 10 redações pelo Brasil (com exceção das capitais de SP e RJ) que já tenham ações práticas de diversidade. Os veículos vão receber um repórter selecionado e pago pelo programa por um ano para diversificar a cobertura em geral, inclusive a das eleições. Inscrevam suas organizações até o dia 28 de agosto. | Outra iniciativa legal vem do jornal Correio, da Bahia. É a segunda edição do prêmio Correio de Futuro, que vai selecionar propostas de melhorias no acesso ou na análise de dados públicos referentes à Bahia. O concurso é voltado para estudantes de qualquer curso de nível superior de qualquer universidade do Brasil. As inscrições vão até domingo, dia 9. | E o ProJor lançou nesta semana, em parceria com o Insper, o Manual Grande Pequena Imprensa (GPI) Eleições 2020. A ideia é que ele seja um guia básico destinado a todo mundo que esteja interessado em temas relativos às eleições municipais. |


É isso, moçada.
Logo, almoço.
Depois, final de semana. Por aqui, aquele clássico pizza e vinho.
E um This is Us pra relaxar.
E por aí?

Bom final de semana e até sexta que vem.
Cuidem-se!

Moreno Osório e Lívia Vieira


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Alexandra Zanela, Ana Claudia Gruszynski, Ana Paula Rocha, Anderson José da Costa Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Beatriz de Arruda, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Dias, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lucia Monteiro Mesquita, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tais Seibt, Tatiane de Assis, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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