NFJ#293 oferecida por Science Pulse ❄️ "A verdade é paga, mas as mentiras são gratuitas"

Saiba interagir com pacientes da Covid-19, como manchetes podem acionar o viés de confirmação, conheça o método “truth sandwich” de reportagem, investigação no TikTok, 231 fluxos de receita

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Buenas, moçada!

Moreno aqui mais uma vez pedindo desculpas pelo atraso no envio da news. Hoje pude dormir um pouco mais, o que atrasou o fechamento. Sono é uma das prioridades nesse período de isolamento e trabalho e filho em casa. Vocês entendem.

Antes de começar, deem uma olhada neste tuíte do matemático e epidemiologista Adam Kucharski, da London School of Hygiene & Tropical Medicine. Ele faz uma crítica à utilização de paywalls em meio à pandemia, em especial quando há notícias importantes. A publicação foi destaque no Science Pulse durante a semana.

Vocês já conhecem o Pulse, projeto do ICFJ Knight Fellow Sérgio Spagnuolo, em colaboração com Volt Data Lab e apoio do International Center for Journalists (ICFJ) e da Agência Bori. O social listening feito pelo Pulse é um baita atalho para conhecermos e conversarmos com cientistas e para melhoramos o nosso entendimento sobre a ciência e, consequentemente, a nossa cobertura - especialmente sobre a Covid-19.

Vocês leram o título deste email. Ele faz referência ao que o jornalista Nathan J. Robinson disse neste texto, um dos destaques desta edição. Nesse momento, ter de pagar pela verdade pode ser uma questão de vida ou morte. É o que está implícito na crítica do cientista Kucharski quando ele diz que “anunciar grandes mudanças organizacionais na saúde pública” em jornais sob paywall não é a melhor das ideias.

Sabemos que o jornalismo como negócio também não anda muito bem de saúde. Mas essa discussão sobre a livre circulação de conteúdos jornalísticos responsáveis e verdadeiros sobre a pandemia de Covid-19 (e também sobre outros assuntos) não é nova, mas está mais relevante do que nunca. Talvez os cientistas tenham algo a dizer sobre isso. E uma boa maneira de começar uma conversa é ouvindo. É aí que o Science Pulse pode ajudar. A ferramenta tem um algoritmo que escuta o que cientistas estão falando nas redes, destacando o conhecimento e filtrando o ruído.

Deem uma olhada lá.

Agora vamos nessa. A NFJ#293 foi fechada ao som de Christian McBride Trio no álbum Live at the Village Vanguard, cortesia dos amigos do 42formas, em sua última newsletter. Em seguida rolou um Vitor Ramil, trilha sonora obrigatória nos dias de frio em Porto Alegre. E terminamos ouvindo o nigeriano Burna Boy.

A news tem curadoria minha e da Lívia Vieira. O texto é quase todo dela.

Foi!


❄️ Um dos aspectos terríveis do caso da menina de 10 anos estuprada no ES foi a divulgação de seus dados nas redes sociais. Embora com pouco efeito prático (já que o conteúdo feito por Sara Winter ficou no ar durante dias), a Justiça determinou que Facebook, Twitter e Google retirem as postagens do ar. Sobre esse assunto que marcou a semana, vale muito ler o artigo do Nós mulheres da periferia, que traz dados estarrecedores: a cada hora, quatro meninas com menos de 13 anos são estupradas no país; e a reportagem do Núcleo Jornalismo, em parceria com a Revista AzMina, sobre os mais de mil casamentos de meninas menores de 15 anos no Brasil entre 2014 e 2018. Sigam com o editorial da newsletter da Pública de hoje e com a carta da editora do Grupo Matinal, também de hoje. Por fim, assistam a esse doc da Plan International sobre casamento infantil. Viram que o site da Ponte Jornalismo saiu do ar ontem (quinta), após sucessivos ataques cibernéticos? Não tá fácil fazer reportagem investigativa no Brasil de hoje, por isso, apoiem a Ponte. A Agência Lupa também está sofrendo ataques nas redes sociais, com informações falsas sobre a empresa, de teor homofóbico (leiam aqui a nota de esclarecimento). Levantamento da Rede de Observatórios da Segurança em cinco estados mostra que, em 7 mil notícias sobre ações policiais, apenas uma cita a palavra “negro”. De acordo com esta matéria do Projeto Colabora, mídias e debate público silenciam sobre relação entre violência e racismo. No ObjETHOS, o professor Rogério Christofoletti questiona: quanto custará ao jornalismo brasileiro aceitar o dinheiro de Google e Facebook? Segundo o professor, a complicada relação das plataformas com a desinformação (e o ganho financeiro que têm a partir disso), além do papel que desempenham na crise do próprio jornalismo são algumas das razões para que as organizações de notícia olhem com mais desconfiança para esses apoios.


❄️ Títulos mal construídos podem acionar vieses cognitivos e ajudar a confirmar visões distorcidas de mundo, diz Natália Mazotte ao comentar este post do Correio Braziliense com o título “Bolsonaro: ‘Não vi no mundo quem enfrentou melhor a pandemia do que nós’”. Já Cristina Tardáguila chama atenção para outro destaque, desta vez de O Globo: “Bolsonaro diz que eficácia de máscaras é ‘quase nula’”. Segundo ela, a luta contra a desinformação no Brasil está em estágios muito básicos. Para solucionar casos como esses, Jay Rosen propõe o método “truth sandwich” de reportagem: primeiro diga o que é verdadeiro, depois introduza a declaração falsa, e feche com outra declaração verdadeira. Citando crítica de Maurício Stycer à CNN Brasil, Tai Nalon afirma no Aos Fatos que, ao dar espaço em sua grade a retóricas negacionistas sobre a pandemia, o jornalismo televisivo ajuda a nutrir a indústria da desinformação. Em Santa Catarina, o Grupo ND defendeu em editorial a “liberdade de tratamento” da Covid-19, apesar da falta de eficácia comprovada. Para Rogério Christofoletti, “sob o pretexto de defender uma liberdade, o conglomerado simplesmente renunciou à responsabilidade dos meios que abriga: informar com precisão e atrelado aos fatos”. O jornalista Nathan J. Robinson levanta outra questão importante: “a verdade é paga, mas as mentiras são gratuitas”, referindo-se aos paywalls dos sites de notícia. Segundo ele, há uma contradição que coloca em condições desiguais de competição a produção de conhecimento verdadeiro e a disseminação de mentiras na internet. Leiam mais, na Folha. Terminamos este bloco com dois casos de sucesso na África: o “What’s crap on WhatsApp” é um podcast da Africa Check que resume os rumores sobre a pandemia quinzenalmente para os mais de 5.500 assinantes, diz o Poynter; e o WAN-IFRA diz que o The Continent está distribuindo, também pelo WhatsApp, um PDF com as principais notícias do continente africano, que pode ser facilmente lido e compartilhado em smartphones.


❄️ Social vídeos são o futuro das notícias online? Segundo este texto do Journalism.co.uk, com o lançamento do Instagram Reels e o aumento de popularidade do TikTok, publishers estão experimentando vídeos curtos para atrair jovens com menos de 25 anos. Falando em TikTok, deem uma olhada neste guia preparado por Bellingcat para o GIJN sobre como investigar na plataforma. No Laboratorio de Periodismo, nova tendência, que já é realidade em veículos como BBC, WPost e NYT: notícias lidas pelos próprios autores, mirando o público sem tempo ou sem vontade de ler. Mais detalhes neste fio do Jornalismo Novo. Na semana passada, falamos sobre soluções criativas para pacotes de assinaturas, citando a parceria da Bloomberg com The Athletic. Neste fio, o professor Miguel Carvajal afirma que esses acordos entre publishers são tendência e indicam complementaridade (mais do que competição), preços mais baixos e promoções cruzadas. Aqui no Brasil, isso já está acontecendo: na NFJ#288 citamos a parceria de assinaturas da Folha com o Público e a do Nexo com o NYT. O trabalho remoto por causa da pandemia fez o The Daily News fechar permanentemente sua redação em Manhattan, segundo informa Marc Tracy neste texto no NYT. Mas o que se perde quando isso acontece? É o que Elahe Izadi discute, no WPost: “a onda de fechamentos físicos de redações coincide com um momento decisivo na mídia, quando jornalistas começam a debater questões raciais. Agora, mais do que nunca, é importante que as pessoas estejam em um espaço onde possam realmente conversar sobre o que deveriam ou não cobrir. Isso é muito mais difícil de fazer quando não se está no mesmo espaço físico”. O NYT acaba de anunciar a criação de uma unidade para investigar problemas globais econômicos, sociais, sanitários e ambientais. O Headway terá de 10 a 12 projetos por ano, será visualmente ambicioso e rico em dados, segundo informa este texto do Clases de Periodismo. E agora uma oportunidade para jornalistas e editores de meios independentes na América Latina: a Fundação Gabo, em parceria com o Google News Initiative, aceita inscrições até o próximo dia 24 na oficina “Inovação para jornalistas”, com Mario Tascón. Serão quatro encontros virtuais em setembro, além de mentorias.


❄️ O próximo estágio da cobertura da pandemia exige que o jornalismo encontre novas maneiras de manter as pessoas informadas, para ajudá-las a tomar decisões sobre suas vidas. A análise é de Jill Nicholson, do Chartbeat, após identificar um declínio no tráfego de leitura após o pico de março (mais no site da WAN-IFRA). Neste texto para a CJR, Fiona Lowenstein, que teve a Covid-19, compartilha insights sobre como jornalistas devem cobrir e interagir com os pacientes. “A mídia mainstream ainda ignora questões importantes como saúde mental dos pacientes, preconceito médico e recaída de sintomas”, diz. Cientistas não gostam de falar com jornalistas, brasileiros não se interessam por ciência, meios de comunicação não dão espaço para matérias científicas. Neste artigo no OI, Luisa Massarani compartilha estudos que refutam todas essas “anedotas” e mostram que a relação entre jornalistas, cientistas e públicos é bem mais complexa. Neste texto para o Nieman Lab, Jenna Hand afirma que alguns países estão usando a pandemia como desculpa para reprimir o jornalismo, criminalizando fake news, expandindo penalidades existentes e aumentando a vigilância. “Observadores dos direitos humanos e da mídia alertam que tais remédios são piores do que o problema que procuram aliviar e que a liberdade de expressão, a privacidade e o direito de protestar estão se desintegrando sob o pretexto de salvaguardar a saúde pública”, afirma. A Covid-19 agravou a crise das organizações jornalísticas (assim como da cobertura internacional, como mostra o Poynter; e dos publishers de viagem, como informa o Digiday). Neste texto no IJNet, Patrick White dá seis soluções em potencial, entre elas a diversificação de produtos e o investimento em jornalismo de investigação, de soluções e baseado em dados. Mariana Cianelli dá dicas práticas sobre como investigar durante o confinamento, neste artigo no GIJN. No NYT, newsletter com informações e dicas para pais e estudantes sobre a volta às aulas. E aqui no Brasil, as pesquisadoras Ana Marta Flores e Ana Cecília Bisso Nunes estão buscando produtos ou processos inovadores em jornalismo que tenham surgido durante a pandemia. Sabem de algum (ou de vários)? Digam aqui.


❄️ Vamos passar os olhos por algumas das principais newsletters de jornalismo que chegaram durante a semana? A Weekly Briefing do First Draft chama a atenção para a cobertura crescente das ações dos conspiracionistas da QAnon. Como cobrir sem dar oxigênio pra maluquices? A última edição da news do IJNet destaca 12 aplicativos para gravar entrevistas remotas. A Weekly Training Digest, do Poynter, chama a atenção para o lançamento do curso Survive and Thrive in Freelance and Remote Work, voltado para frilas que querem construir redes de apoio. Um dos destaques do boletim do Tow Center é a crise do jornalismo local nos EUA: nos últimos 15 anos, mais de 1/4 dos jornais norte-americanos desapareceram. Já a newsletter da Global Investigative Journalism Network destaca 231 fluxos de receita para publishers. A mais recente edição da Checklist conta como autoridades egípcias estão perseguindo adolescentes no TikTok por "violar valores da família". Uma das análises do boletim quinzenal do Bellingcat é sobre as explosões de Beirute. Aqui no Brasil, o boletim quinzenal do ObjETHOS destaca uma doença que ainda acomete o jornalismo brasileiro, o "doisladismo". Na De olho nos dados, Eduardo Goulart de Andrade traz quatro bases de dados para achar pesquisas e tratamentos relacionados à COVID-19.


❄️ "Nós da Imprensa" é o podcast dos jornalistas Cecilia Olliveira e Raphael Prado para discutir a profissão e seus desafios. O episódio mais recente é uma conversa com Patrícia Campos Mello sobre mecanismos de desinformação nas redes sociais. Aliás, a repórter da Folha dará um curso sobre populismo e fake news, de 22 a 24 de setembro. | Novo MOOC do Knight Center (em espanhol) vai ajudar jornalistas a entender o fenômeno migratório e melhorar a cobertura, evitando estereótipos. | O SembraMedia, em parceria com o Google News Initiative, está selecionando professores para um curso online sobre jornalismo empreendedor. Inscrições até 1 de setembro. | Começa também em setembro a nova série de eventos online do GIJN, vejam aqui os temas. | Baixem gratuitamente o novo ebook da Coleção Cibercultura (EDUFBA) “Pesquisando plataformas online: conceitos e métodos”, de Carlos d’Andréa. | Para quem se interessa por história da mídia e do jornalismo, vale assistir a este vídeo de Jeff Jarvis (em inglês). | The Wall Street Journal vai dar um curso sobre finanças pessoais em uma série de seis newsletters. Para receber, assinem aqui.


É isso, gente!
Bom final de semana e até sexta que vem!

Moreno Osório e Lívia Vieira


Nosso agredecimento de <3 vai para:

Adri Brum, Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Alexandra Zanela, Ana Claudia Gruszynski, Ana Paula Rocha, Anderson Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Beatriz de Arruda, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carina Seles dos Santos, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moares, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Dias, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Gabriela Silva, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lucia Monteiro Mesquita, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tai Nalon, Tais Seibt, Tatiane de Assis, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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