NFJ#294 oferecida por Science Pulse ❄️ Mães jornalistas estão esgotadas

O bolsonarismo e a saúde mental dos jornalistas, gerencie seu estresse, dicas para realizar entrevistas remotamente, o papel da repetição na desinformação, newsletters são a esperança do jornalismo

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E aí, gente!

Moreno aqui, abrindo o último final de semana de agosto. Hoje a news foi editada no silêncio possível do centro de Porto Alegre, onde há sempre obras, carros passando, cachorros latindo e - e aí é bom - o sino da Matriz anunciando que já é meio-dia.

Antes de começar, me deixem perguntar se vocês leram a notícia do caso de reinfecção de coronavírus em Hong Kong. Se não leram a matéria, imagino que tenham cruzado ao menos pelo título. Se foi esse o caso, imagino que tenha dado um desânimo, não?

Bueno, agora deem uma olhada nesta thread do jornalista de ciência e biólogo molecular Kai Kupferschmidt. Ela foi destaque do Science Pulse nesta semana.

Na sequência de tweets, Kupferschmidt usa a história de Hong Kong para demonstrar como pensar como um setorista de ciência ao privilegiar duas coisas: contexto e ressalvas. A história parece simples, ele diz: um homem, duas infecções.

Mas há toneladas de jornalismo científico a ser feito, e é quase puro contexto e ressalvas”, escreveu, para em seguida listar algumas de suas ponderações.

Não vou adiante no raciocínio dele porque não é a ideia aqui. Deem uma olhada vocês mesmos. Mas o resultado vai ao encontro do que diz a virologista de Columbia Angela Rasmussen em uma thread que culmina neste tuíte, que também apareceu no Pulse: “Cientistas e jornalistas cobrindo histórias como essa precisam ter a responsabilidade de não divulgar resultados como esse de uma maneira sensacionalista”.

A pandemia tá impondo uma revisão na maneira como nós abordamos determinados eventos (já era hora!). No caso de como noticiar ciência, o Science Pulse é um bom lugar para aprendermos a como fazer isso. O Pulse é um projeto do ICFJ Knight Fellow Sérgio Spagnuolo, em colaboração com Volt Data Lab e apoio do International Center for Journalists (ICFJ) e da Agência Bori. O social listening do Pulse nos ajuda a conhecer e conversar com cientistas e a melhorar o nosso entendimento sobre a ciência e, consequentemente, a nossa cobertura - especialmente sobre a Covid-19.

Deem uma olhada lá.

Agora, vamos nessa. A edição de hoje tem texto quase todo da Lívia, edição final minha e curadoria de ambos.


❄️ O bolsonarismo desponta como importante estopim nas agressões contra a imprensa brasileira. “São violências que afetam principalmente a saúde mental dos jornalistas, que estão permanentemente apreensivos e sob estresse”, analisa a presidente da Fenaj, Maria José Braga, nesta entrevista para o ObjETHOS. Os episódios desta semana são a comprovação disso. Bolsonaro ameaçou agredir um repórter de O Globo e, para além das notas de repúdio, houve uma forte reação nas redes sociais. A pergunta "presidente, por que sua esposa, Michelle, recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz?" foi replicada mil vezes a cada 40 segundos só no Twitter, segundo levantamento do professor Fabio Malini mostrado nesta matéria da BBC News Brasil. O Extra estampou a pergunta na capa e o Guardian também repercutiu. E como a mentira parece ser o método deste governo, Bolsonaro publicou em seu canal no YouTube um vídeo que manipula o contexto do ataque para criar sua própria narrativa, como observou a Folha. Poucos dias depois, o presidente voltou a atacar imprensa, chamando outro repórter de “otário” - mas continuou sem responder a pergunta (mais no Estadão). Segundo o Voces del Sur, foram mais de 600 violações à liberdade de imprensa na América Latina só no primeiro semestre. A Fenaj também divulgou levantamento preocupante: mães jornalistas são mulheres esgotadas pela sobrecarga de trabalho na pandemia. Respondida por 629 jornalistas de todos os estados do Brasil, a pesquisa revela que, ainda que compartilhem cuidados, “estas mulheres se sentem sobrecarregadas com aulas on-line, alimentação e cuidados da casa, ao mesmo tempo que precisam conciliar o trabalho home office ou presencial”.


❄️ À medida que se aproxima a eleição presidencial nos EUA, o trabalho dos checadores se intensifica. Segundo a CNN, a primeira noite da convenção republicana teve mais alegações enganosas ou falsas do que as quatro noites da convenção democrata. Aqui no Brasil, a Lupa destaca a circulação de desinformação envolvendo celebridades durante a pandemia, muitas vezes com tom político. De acordo com o novo livro “The Psychology of Fake News” (disponível em inglês para download gratuito), a repetição tem papel fundamental na crença em conteúdos falsos. O ponto de vista psicológico é interessante porque a coleção de artigos editada por Rainer Greifeneder, Mariela Jaffe, Eryn Newman e Norbert Schwarz se interessa pelo que faz uma mensagem parecer verdadeira para uma pessoa, mesmo antes de qualquer consideração sobre seu conteúdo. O Nieman Lab explica mais detalhes. No Poynter, vejam exemplos de verificação de fatos automatizada, que pode detectar afirmações que passam despercebidas por verificadores humanos. Falando em automatização, o Healthy Internet Project é uma extensão de navegador que permite a qualquer pessoa denunciar conteúdo on-line abusivo. Além disso, ajuda a construir um banco de dados colaborativo que será disponibilizado para jornalistas, organizações da sociedade civil e empresas de tecnologia. De acordo com o IJNet, o lançamento acontece primeiro no Brasil, como um experimento para outras localidades. O Estadão é parceiro do projeto. Pra fechar o bloco, dois casos bastante controversos: para Pablo Ortellado, é grave a decisão do STJ que obrigou o Google a entregar dados de quem pesquisou por Marielle Franco entre 10 e 14 de março de 2018. “Dados só deveriam ser entregues de suspeitos individuais e nunca de maneira genérica. Abre precedente perigoso para identificar, por exemplo, quem pesquisou por protesto”, afirma. Outra ação da Justiça obrigou o Twitter a fornecer dados cadastrais dos perfis Sleeping Giants Brasil e Sleeping Giants Rio Grande do Sul, que alertam empresas sobre anúncios em sites acusados de propagar desinformação. Chama atenção o fato de que a liminar foi concedida mesmo após a magistrada admitir que as contas não cometeram nenhuma irregularidade, como mostra esta matéria do UOL.


❄️ Monique Nunes reúne, neste texto, 10 projetos de jornalismo nas periferias do Brasil, que mostram a realidade das comunidades através de jornalistas que moram nessas zonas periféricas.“Sim, nós lemos os comentários”, diz este artigo dos editores do Wirecutter, site de tecnologia do NYT. Solicitação de reviews, diferentes tipos de feedback, conselhos para situações específicas e aviso de erros são alguns exemplos de contribuições úteis dos leitores. A criação de comunidades começa com escuta e esse é o segredo do membership bem-sucedido do Santa Cruz Local (EUA). Segundo informa o Local News Lab, o jornal ganhou 500 assinantes em um ano. Ryan Nakashima analisa, neste texto para o Poynter, os resultados da parceria com o Google News Initiative para aumentar a receita e impulsionar o engajamento do público em 13 sites de notícias locais nos EUA. “Milhares de assinantes estão pagando mais pela opção premium, o engajamento está aumentando por meio de alertas de notícias com reconhecimento de localização e participação em eventos virtuais ao vivo”, diz. Após sair da vice-presidência do grupo Gannett, Amy Duncan começou a reportar de maneira informal em suas próprias redes sociais. Ao perceber que “sim, mas pessoas se importam com notícias”, ela decidiu criar o próprio veículo, dedicado à cidade norte-americana de Indianola, com 16 mil habitantes. O The Independent Advocate teve mais de 700 assinantes em menos de um ano, e em 2020 esse número subiu para 1.200, diz este texto da NewStart's. Brick House é uma cooperativa de notícias que vai oferecer assinaturas para nove publicações por US$ 75 por ano. Segundo Ben Smith, colunista de mídia do NYT, a cooperativa será controlada por seus jornalistas e financiada pelos assinantes. Este texto da GIJN explica questões técnicas para implementar um programa de membership, como uso de softwares e de ferramentas.


❄️ “Newsletters podem ser a próxima (e única) esperança de salvar a mídia”, diz esta matéria da Wired. Oliver Franklin-Wallis explica que, à medida que a indústria do jornalismo entra em crise, jornalistas estão recorrendo às newsletters para ganhar dinheiro e até lançar publicações inteiras por e-mail. Iniciativas independentes como essas estão ganhando força na famosa vida de frila, mas há muitos desafios. A The Cohort, newsletter do Poynter para mulheres na mídia, fez uma pesquisa sobre quebras de planejamento e a maioria das respondentes mencionou fatores como novas prioridades, demissões, oportunidades perdidas, tristeza, ansiedade e depressão. Também no Poynter, mais de 30 fontes de conteúdo para freelancers, incluindo newsletters, treinamentos, artigos e bases de dados. E antes que o estresse da pandemia se transforme em burn-out, conheçam o The Self-Investigation, programa gratuito de gerenciamento de estresse criado pela jornalista Mar Cabra, em parceria com outras colegas de profissão. De acordo com o Journalism.co.uk, os objetivos são aumentar a conscientização sobre saúde mental na redação; fornecer aos jornalistas ferramentas para controlar o estresse; e criar uma comunidade de suporte contínuo para profissionais de mídia.


❄️ Agora aquela espiada no que rolou em algumas das principais newsletters de jornalismo enviadas na última semana. O boletim da First Draft que circulou na sexta passada explicou como o filme "Plandemic", com teorias da conspiração a respeito da pandemia, foi visto por milhões de pessoas, mesmo com restrições impostas pelas plataformas. A news quinzenal Don't LAI to me, do Fiquem Sabendo, trouxe dicas para investigar publicidade do poder público na internet. Um dos destaques da newsletter do IJNet foi esta matéria com dicas para realizar entrevistas remotamente. A última edição do Weekly Training Digest, do Poynter, está bem focada nas eleições dos EUA. Voltando ao Brasil, a news da Pública, que circula hoje, fala sobre jornalismo a partir dos últimos ataques de Bolsonaro à imprensa. E falando em Brasil, a última edição da Checklist fala sobre como dados do país estão ajudando o Facebook a traçar estratégias para conter a desinformação no WhatsApp.


❄️ Links SORTIDOS. É cedo para estabelecer definições sobre a relação entre jornalismo e TikTok [ObjETHOS]. Por que precisamos de um jornalismo público, explica Magda Konieczna em resenha sobre o novo livro de Victor Pickard [Boston Review]. Tedros Adhanom, diretor da OMS, destacou o curso on-line do Centro Knight 'Jornalismo na pandemia' em coletiva de imprensa esta semana [Knight Center]. Será na próxima segunda, dia 31, às 18h, o lançamento do “Minimanual para cobertura jornalística de mudanças climáticas”, organizado pelo Grupo de Pesquisa Estudos de Jornalismo da UFSM, em parceria com o Grupo de Investigación Mediación Dialéctica de la Comunicación Social da Universidad Complutense de Madrid. O evento virtual terá a presença da jornalista Sônia Bridi. [Coletiva.net]. Racismo dentro e fora das redações é o tema de uma das palestras do 15º Congresso da Abraji. Será no dia 12 de setembro, com Flávia Lima, ombudsman da Folha; Ida Bae Wells, repórter especial do NYT; e Yasmin Santos, repórter da revista piauí. Inscreva-se! [Abraji]. Assinem a newsletter do Observatório Covid-19 BR, site com códigos de fonte aberta criado por pesquisadores para contribuir para a disseminação de informação de qualidade baseada em dados atualizados e análises científicas [Covid-19 BR]. A Escola de Dados lançou o curso Jornalismo de dados para coberturas locais. E conheçam também esses seis aplicativos de edição de fotos para iPhone [Mashable].


É isso, gente!
Bom final de semana e até sexta que vem.

Lívia Vieira e Moreno Osório


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adri Brum, Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Alexandra Zanela, Ana Claudia Gruszynski, Ana Paula Rocha, Anderson Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Beatriz de Arruda, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carina Seles dos Santos, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Dias, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Gabriela Silva, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lucia Monteiro Mesquita, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Noites Gregas, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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