NFJ#295 oferecida por Science Pulse ❄️ Canal Reload quer mostrar a inteligência de uma juventude que não se vê representada nas notícias

Saiba o que é o "movement journalism", 99 jornalistas essenciais no Twitter, os últimos ataques à liberdade de imprensa, fellowship no Reuters Institute, o fim do BuzzFeed News Brasil

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E aí, moçada! Firmes?

Moreno aqui.

Por aqui tudo em ordem. Fechando mais uma semana, agosto se foi, o inverno tá se indo. Aos poucos, começo a olhar para o verão, tentando entender como vai ser circular de máscara nos agradáveis 37 graus de Porto Alegre.

Bueno. Antes de começar, me deixem dizer duas coisas.

A primeira é um pedido de desculpas por um erro que cometemos na edição passada. Fizemos referência a este texto da Lupa como sendo do Aos Fatos. Cagada. Foi mal.

A outra é chamar a atenção para a diferença que uma ferramenta como o Science Pulse pode fazer para discussão sobre vacinas, que deve ganhar força nas próximas semanas à medida que os resultados da vacina para a Covid-19 forem aparecendo.

Confiram, por exemplo, os tuítes de Luiza Caires, editora de Ciências do Jornal da USP, a respeito do posicionamento de Bolsonaro dar combustível para grupos antivacina, de Atila Iamarino sobre os resultados promissores da vacina russa Sputnik V, e de Laurie Garrett sobre uma carta aberta pedindo que dados referentes às vacinas para a Covid-19 sejam divulgados de forma responsável por governos e cientistas.

Os três tuítes apresentam narrativas diferentes e nos ajudam a navegar em uma discussão complexa e cujo potencial para a desinformação é imenso. Por isso, é preciso ouvir com atenção o que a comunidade científica está falando. É o que Pulse faz.

O Pulse é um projeto do ICFJ Knight Fellow Sérgio Spagnuolo, em colaboração com Volt Data Lab e apoio do International Center for Journalists (ICFJ) e da Agência Bori. O social listening do Pulse nos ajuda a conhecer e conversar com cientistas e a melhorar o nosso entendimento sobre a ciência e, consequentemente, a nossa cobertura - especialmente sobre a Covid-19.

Deem uma olhada lá. Ah, e mandem este tuíte sobre o efeito Dunning-Kruger para o grupo da família. Vocês podem dizer que ele foi assunto entre cientistas nessa semana.

;)

Beleza. Agora vamos nessa! A NFJ#294 tem texto meu e da Lívia Vieira, curadoria de ambos e edição final minha. Bora.


❄️ Vocês já deram uma olhada no Reload? Se ainda não, corram lá. Reload é um canal de notícias em vídeo voltado para o público de 18 a 28 anos, resultado de uma parceria envolvendo 10 redações de veículos independentes brasileiros: Pública, Lupa, Amazônia Real, Projeto #Colabora, Marco Zero, Ponte, Congresso em Foco, Énois, Repórter Brasil e ((o))eco. Assistam ao vídeo que explica o projeto. A ideia é descomplicar as notícias para jovens, um público imerso em informação, mas que não vem sendo privilegiado pelo jornalismo nos últimos tempos, como lembrou Rodrigo Alves no episódio especial sobre o Reload do podcast Vida de Jornalista. Como o Reload quer fazer isso? Deixando de lado o preconceito que envolve a forma como a moçada se informa e abraçando a linguagem deles, disse pra gente a Natália Viana, coordenadora geral do Reload e codiretora da Pública. "Tem talento, tem vivacidade, tem inteligência nessa juventude que não se vê representada nas notícias", nos falou a Natália. Deem uma olhada no primeiro vídeo pra vocês terem uma ideia do que ela está falando. Larissa Venturini recupera o que vem rolando no MEC no governo Bolsonaro e nos ajuda a ligar as pontas sobre a situação da educação no Brasil. O conteúdo lembra o AJ+, uma das inspirações do Reload, e afirma o potencial do jornalismo explicativo de funcionar como postos de hidratação em meio à maratona que é acompanhar o noticiário diário. Como escreveu Matheus Pichonelli neste texto sobre o Reload, "as notícias estão por aí, aos montes, esperando um anzol da curadoria para ganharem contexto e força". Larissa é uma das 12 apresentadoras e apresentadores de diversas partes do Brasil que vão trabalhar junto dos jornalistas dos 10 veículos, reempacotando o conteúdo produzido pelas redações. O vídeo sobre o MEC foi produzido a partir de uma matéria do Congresso em Foco, por exemplo. Nesta matéria de Leonardo Araujo, do Propmark, Natália Viana explica como é o fluxo de produção. A preferência por conteúdo em vídeo não vem por acaso. Uma pesquisa quantitativa e qualitativa conduzida pela Énois ajudou a embasar o projeto (deem uma olhada nas recomendações, no fim do documento). Querem saber um dos principais resultados? 70% dos respondentes consomem notícias pelo Instagram. O Reload também está no YouTube, Twitter, Facebook e WhatsApp. O conteúdo vai ser produzido especialmente para esses canais, o que sublinha a importância da discussão sobre a relação entre jornalismo e plataformas - cujo capítulo mais recente vocês podem ler no tópico logo aqui embaixo. Mas o foco do Reload é outro. "Tenho certeza de que essas plataformas são transitórias. O que falta é a gente criar uma comunicação com os jovens. O jornalismo precisa agir no agora", nos disse Natália.


❄️ Nosso amigo Mark anunciou parceria com pesquisadores em um projeto que quer entender o impacto do Facebook e Instagram nas atitudes e comportamentos das pessoas durante as eleições dos EUA deste ano. Os professores Talia Stroud (Universidade do Texas) e Joshua Tucker (Universidade de Nova York) lideram a iniciativa, que tem mais 15 pesquisadores. Na Austrália, a discussão está intensa em torno de uma lei para fazer as plataformas digitais pagarem pelo conteúdo de notícias. Esta semana, o Facebook disse que vai impedir que os australianos compartilhem notícias se o plano se tornar lei. O Google também tem adotado uma abordagem agressiva à legislação iminente, embora não tenha dito que bloquearia as funções de busca no país. Especialistas defendem que a lei inclua também as emissoras públicas da Austrália. Neste caso, o dinheiro arrecadado das plataformas deve ser usado para criar um fundo independente de jornalismo de interesse público, de acordo com esta matéria do Guardian. Além dos embates econômicos, este artigo de David Cohn para o Poynter argumenta que a batalha entre jornalismo e Vale do Silício se dá em torno de valores. Segundo ele, jornalistas afirmam que, por meio de algoritmos opacos e agindo como péssimos gatekeepers, as plataformas têm piorado o ecossistema de informações. Por outro lado, o Vale do Silício vê a mídia tradicional apegada ao pouco poder que lhe resta e considera a cobertura da mídia excessivamente moralizante. “A questão é: a quais valores culturais e tradições nos apegaremos e o que estamos dispostos a deixar passar? Tudo está em jogo, desde a pirâmide invertida e a objetividade até a estrutura organizacional. Não se trata apenas de como ganhamos dinheiro ou se trabalhamos em redações abertas, mas como a sociedade se comunica através da mídia”, afirma.


❄️ A semana teve mais ataques à liberdade de imprensa no Brasil, vocês certamente viram. A TV Globo revelou um esquema montado por funcionários da prefeitura do Rio para atrapalhar reportagens e impedir que a população denuncie problemas na área da Saúde. A Abraji destacou que a criação de grupos organizados com o objetivo de sabotar o trabalho da imprensa é inaceitável em democracias, sendo típica de regimes autoritários. Em nota, a ANJ afirmou que os responsáveis devem ser punidos para que não haja mais esse tipo de cerceamento da livre atividade jornalística e do direito de expressão de todos os indivíduos. Uma decisão controversa da Justiça do Rio determinou que o site GGN retire do ar 11 reportagens, assinadas por Luis Nassif e Patrícia Faermann, sobre o banco BTG Pactual e a compra de bancos de dados públicos. Segundo a decisão, o conteúdo deve ser removido porque pode causar prejuízo financeiro aos acionistas do banco. Preocupante, né? Assim como esta matéria de Chico Felitti para o BuzzFeed, que ouviu 27 pessoas relatando assédio e humilhações na Vogue Brasil. Outra queixa é que colaboradores tinham de assumir funções profissionais que fugiam aos seus contratos sem receber nada por isso. Segundo a reportagem, a empresa não negou nem confirmou as alegações de abuso. A situação também não está nada boa na Bielorrússia, onde jornalistas independentes estão sofrendo ameaças do governo. Segundo Volha Siakhovich na EJO, há anos os profissionais têm de trabalhar em condições difíceis, com acesso limitado à informação e restrição da liberdade de expressão. “Mas este ano, a liberdade da mídia se deteriorou drasticamente quando as autoridades lançaram uma violenta repressão para desencorajar os jornalistas de fazerem reportagens sobre protestos eleitorais”. Os primeiros resultados do levantamento do Tow Center sobre cortes nas redações devido à pandemia sinalizam uma segunda ou terceira rodada de demissões mais profundas em empresas que já haviam cortado profissionais. “A crise está longe de terminar”, avalia Lauren Harris neste artigo para a CJR.


❄️ O BuzzFeed encerrou sua operação de notícias no Brasil. Graciliano Rocha, que chefiava a área, explica que a decisão foi tomada ao longo do ano e é um efeito direto da crise econômica desencadeada pela pandemia. E A Gazeta do Povo, que interrompeu a circulação do jornal impresso diário em 2017, anunciou que também não irá mais editar o impresso semanal, que saía aos domingos. O único produto impresso da marca será uma revista mensal, informa Guilherme Amado, na Época. Tim Davie, novo diretor-geral da BBC britânica, disse em comunicado interno que a prioridade é que a empresa “represente todas as partes deste país”. De acordo com esta matéria do Guardian, a BBC é criticada por ser muito centrada em Londres e também por ser anti-Brexit. Diante deste cenário de crise, as faculdades de jornalismo desempenham um papel fundamental, afirmam Minette Drumwright, Kathleen McElroy e Carolyn Supple no Poynter. “Não podemos esperar. Nós, educadores, devemos treinar futuros jornalistas para prosperar nas redações e se tornarem líderes eficazes. Para se tornar uma competência central da indústria, liderança e gestão éticas devem ser ensinadas e não apenas assumidas”, defendem. Jornalismo de movimento e jornalismo de serviço são também maneiras de repensar a profissão para os novos tempos. Neste artigo para o Nieman Reports, Tina Vasquez explica que o movement journalism é o que atende às necessidades de comunidades diretamente afetadas pela injustiça. “Há vários objetivos, entre eles priorizar histórias que ampliem o poder das pessoas e produzir notícias baseadas nas experiências e identidades de pessoas oprimidas”, diz. Já o jornalismo de serviço, a partir do contexto da pandemia, não pode ser mais considerado algo “à parte”, defende Rachel del Valle, neste artigo para o Nieman Lab. Segundo ela, trata-se de uma mudança em direção à reportagem que ajuda as pessoas não apenas a aprender, mas a fazer algo. “Neste momento em que há muitas dúvidas, o jornalismo de serviço fornece as respostas. Em sua essência, ele ajuda as pessoas a viver melhor”.


❄️ Pesquisa do Pew Research Center mostra que menos da metade dos norte-americanos acredita que jornalistas agem em favor do interesse público. Apesar desse ceticismo, quase dois terços dos entrevistados acreditam que alguma cautela com relação à mídia é boa para a sociedade e 75% disseram que é possível melhorar seu nível de confiança na mídia. De acordo com este texto do Poynter, o estudo sugere que cabe aos jornalistas ser mais transparentes, fazer correções quando necessário e formar conexões mais profundas com o público. No ObjETHOS, a professora Roseli Figaro dá mais detalhes da pesquisa sobre como trabalham os comunicadores durante a pandemia (falamos sobre isso na NFJ#287). O estudo aponta que a desigualdade de gênero entre jornalistas se tornou mais aguda e merece maior destaque nos estudos acadêmicos. “Parece que temos vergonha de falar que a jornalista sofre demandas – gestão do lar, filhos, família – de uma sociedade ainda bastante atrasada”, afirma a professora. No Nieman Reports, Marc Lacey, editor do NYT, afirma que jornalistas não podem presumir que seus leitores são brancos. Tanto é assim que há sempre marcas no texto quando alguém ou algo foge à norma branca. “O jornalista nos lembra que o prefeito é negro. Um bairro é descrito como predominantemente hispânico, mas outra área não tem nenhum identificador racial”. Para ele, à medida que as redações se tornam mais multiculturais, precisam desaparecer as dicas sutis de que uma determinada matéria é destinada a leitores brancos. Para fechar o bloco com reflexões sobre jornalismo: Jason Alcorn, do American Journalism Project, sugere que líderes de organizações sem fins lucrativos pensem grande. “Em cada vez mais lugares, esses veículos logo serão a principal fonte de reportagem original, se já não o são”.


❄️ Agora, aquela seleção esperta com links variados. A revista Bula fez uma lista com 99 jornalistas essenciais do Twitter no Brasil em 2020. | Estão abertas até 20 de setembro as inscrições para a terceira edição do Prêmio 99 de Jornalismo, voltado para conteúdos sobre mobilidade urbana. | No Novo em Folha, informações sobre o curso virtual “Jornalismo infantojuvenil: história, importância e caminhos”, promovido pelo jornal Joca e ESPM. Inscrições abertas até 6 de setembro. | A Ponte Jornalismo lançou seu programa de membros, o Tamo Junto. Leitores que aderirem ao programa farão parte de um grupo de WhatsApp com a redação da Ponte, terão acesso a newsletters exclusivas e poderão participar de rodas de conversa com a equipe e convidados. | Falando em roda de conversas, o Meio anunciou conversas ao vivo com os editores para assinantes da edição premium da newsletter. | O Reuters Institute está selecionando, até 28 de setembro, jornalistas dos EUA, Reino Unido, Índia e Brasil para seu fellowship. Podem se inscrever profissionais com pelo menos cinco anos de experiência, que queiram criar algo para implementar em suas redações ou uma nova iniciativa a ser lançada. | O 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, que acontece nos próximos dias 11 e 12, tem 6 mil inscritos, um recorde. Serão 34 atividades ministradas por 91 painelistas, 17 deles internacionais. | No Journalism.co.uk, dicas sobre como entrevistar bem remotamente.


É isso, moçada.

Bom final de semana e até sexta que vem!
Moreno Osório e Lívia Vieira


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adri Brum, Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Alexandra Zanela, Ana Claudia Gruszynski, Ana Paula Rocha, Anderson Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Beatriz de Arruda, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carina Seles dos Santos, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Dias, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Noites Gregas, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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