NFJ#296 oferecida por Science Pulse ❄️ Jornalismo e a democracia são inseparáveis?

Diversidade: antes de consertar a redação, olhe para si, QAnon nas eleições municipais, jornalistas como "artistas performáticos", app para adicionar texto a vídeos, invista mais em newsletters

Share

Buenas, moçada!

Moreno aqui abrindo mais uma Newsletter Farol Jornalismo. Firmes aí?

Por aqui, caminhando, um dia de cada vez. E já estamos na metade de setembro.

Antes de começarmos, o que vocês acham de um “suquinho de realidade” oferecido pelo Science Pulse? O suco é azedo. Mas, né, tal qual a realidade. Sugestão: botem pra rodar um Fists of Fury, do Kamasi Washington. A música tem pouco menos de 10 minutos. Mais ou menos o tempo que leva pra ler essa edição da news.

1) Não tem saída mágica. 2) Coronavírus em atividade no cólon. 3) SARS-CoV-2 é um vírus sórdido e astuto. 4) Viramos piada em Portugal. 5) "Casa de tijolo vai ser um tiro no pé dos três porquinhos", diz Lobo Mau. 6) Tudo errado.

Todos esses tuítes estiveram em destaque no Science Pulse de ontem pra hoje.

O Pulse é um projeto do ICFJ Knight Fellow Sérgio Spagnuolo, em colaboração com Volt Data Lab e apoio do International Center for Journalists (ICFJ) e da Agência Bori. O social listening do Pulse nos ajuda a conhecer e conversar com cientistas e a melhorar o nosso entendimento sobre a ciência e, consequentemente, a nossa cobertura - especialmente sobre a Covid-19. Eventualmente ele também pode servir para conectarmos nossas angústias bem como nossa capacidade de rir dessa desgraça.

Deem uma olhada lá

O texto da news 295 é quase todo da Lívia Vieira. Nós dois fizemos a curadoria. E a edição final é minha. Agora vamos nessa.


❄️ Jornalismo e a democracia são inseparáveis? Neste texto para o Observatório da Imprensa, Carlos Castilho argumenta, citando Barbie Zelizer, que a ideia da democracia como componente vital para o exercício do jornalismo perdeu a relevância porque houve uma incorporação dos princípios democráticos à cultura política da maior parte dos povos do planeta. “Com a multiplicação de fontes de informação na internet, o suprimento de notícias tornou-se tão abundante e diversificado que o jornalismo deixou de ser a condição indispensável para a sobrevivência do regime democrático. Em compensação, a produção jornalística ganhou novas funções, como a da checagem da veracidade de notícias e o fornecimento de insumos informativos para a produção de inovações”. No contexto das eleições, esse assunto ganha ainda mais relevância. Em sua coluna no NYT, Ben Smith afirma que jornalistas não são “inimigos do povo” (como Trump gosta de dizer), mas também não são seus amigos. O argumento é interessante: em meio à polarização política, há um risco de os jornalistas que passaram quatro anos fiscalizando o governo Trump acabarem se tornando “artistas performáticos para leitores que já concordam com eles”. No Brasil, especialistas veem crescer a influência do QAnon, seita radical com origem nos EUA. Neste artigo no Aos Fatos, Tai Nalon afirma que alguns compartilhadores dessas teorias da conspiração consideram inclusive concorrer às eleições municipais deste ano. “É necessário entender como esses políticos vão se comportar à luz da crescente radicalização do discurso extremista nas redes e como as particularidades desse movimento serão úteis a eles”. A relação entre governos, mídia e plataformas é outro tema que ganha importância. Neste texto, Jeff Jarvis afirma que a guerra de Trump com o TikTok e o embate entre empresas de mídia (que ele personifica em Rupert Murdoch) e Facebook na Austrália não estão sendo vistos como realmente são: ataques do governo à imprensa, à liberdade de expressão e aos direitos humanos (falamos sobre isso na semana passada). “A legislação australiana é uma bagunça cínica. É um protecionismo de Murdoch e da velha imprensa corporativa. Facebook, Google e outros não roubaram um centavo da mídia tradicional. Eles são seus competidores”. Aqui no Brasil, uma coalizão de 27 entidades representativas do setor da comunicação protocolou na Câmara uma carta em que defendem a remuneração de conteúdos jornalísticos e maior transparência no financiamento de publicidade na internet.


❄️ A desinformação foi usada para deslegitimar o isolamento social durante a pandemia, aponta Chico Marés neste texto na Agência Lupa. Ao todo, 814 verificações foram feitas sobre o tema em 63 países, segundo as bases de dados do Coronavirus Facts Alliance e CoronaVerificado. No Brasil foram 59 checagens, atrás somente da Índia. E voltando às eleições nos EUA, mais dois links: Margaret Sullivan questiona, em sua coluna no WPost, se checar as mentiras de Trump realmente faz diferença num contexto em que crenças parecem sobrepor os fatos. “Nenhuma verificação de fatos resolverá esse problema opressor”, diz. No Poynter, o diretor da FactCheck.org, Eugene Kiely, adiciona sugestões à decisão do Facebook de reduzir anúncios políticos antes das eleições: inserir “notícias relacionadas” ao lado dos anúncios políticos e incluir artigos com checagem de fatos. Neste artigo para a MIT Technology Review, Raphael Garcia critica o projeto de lei das fake news e afirma que, para resolver a crise de desinformação, o Brasil deveria investir em educação e responsabilizar os financiadores das redes de notícias falsas. No Intercept, João Filho analisa o conteúdo “clickbait” de empresas como Taboola e Outbrain, que estão na home de veículos como O Globo e Folha. “O problema não são apenas as chamadas sensacionalistas, mas o conteúdo dos textos. Vários deles são falsos. Leitores de sites jornalísticos sérios estão a um clique de distância de fake news”, alerta.


❄️ O Tow Center publicou um mapa interativo dos cortes nas redações dos EUA desde a pandemia. O “Covid-19 Newsroom Cutback Tracker” mostra um cenário preocupante (que se repetiu em vários países) de empregos perdidos e jornais fechados “em um ano em que informações boas e claras podem fazer diferença entre a vida e a morte”. No Clases de Periodismo, vejam pesquisa que mapeou novos hábitos dos consumidores desde a pandemia (entre eles, ver TV em tempo real). O El País alcançou 64 mil assinantes digitais desde o lançamento de seu programa de assinaturas, em maio. De acordo com este texto do Nieman Lab, isso representa quase um quarto do total de assinaturas de notícias digitais na Espanha. Falando nisso, publishers ouvidos pelo WNIP afirmam que assinaturas e outras fontes de receita diversificadas só devem crescer. No site da WAN-IFRA, uma recomendação: publishers devem investir mais recursos no desenvolvimento de newsletters para interagir diretamente com seus leitores, construir fidelidade e impulsionar assinaturas e memberships. Nicolás Ríos, editor de Audiência do Documented, conta como tem usado os conhecimentos da comunidade para reportar o impacto do coronavírus nas comunidades latino-americanas nos EUA. Vale ler mais, neste texto do Reynolds Journalism Institute. Após um ano nos EUA, o The Correspondent faz um balanço de sua cobertura - que chamam de “unbreaking news” - e planejam as próximas ações, que incluem um relatório financeiro, novos correspondentes e programas em áudio. No IJNet, Cristina Serra, Conceição Freitas e Paulo José Cunha contam o que fizeram após deixar a redação e dão dicas sobre como empreender. Não deixem de ver este especial interativo do NYT que reconstrói a explosão em Beirute. Trabalho visual incrível.


❄️ “Antes de consertar sua redação para a diversidade, tenha um olhar crítico sobre si mesmo”, recomenda S. Mitra Kalita neste artigo para o Nieman Reports. “Não há respostas fáceis para diversidade, equidade e inclusão. Isso deve se tornar um modo de vida, para então se transformar em uma forma de trabalho”, diz. Entre as dicas estão: leia livros que põem as vozes negras no centro, diversifique suas redes de contato e responda quando se deparar com comentários racistas. Também no Nieman Reports, Kristen Chick destaca que a igualdade de remuneração é um ponto importante dentro da discussão sobre diversidade. Mulheres e negros, por exemplo, ainda ganham menos do que seus colegas brancos. No podcast Vida de Jornalista, Rodrigo Alves conversa com Dorothy Butler Gilliam, primeira repórter negra do WPost. Ela conta bastidores da cobertura do processo de integração racial no sul dos EUA nos anos 1960. De lá pra cá, muitos desafios permanecem: o Escritório das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR) expressou preocupação com a situação de ataques coordenados nas redes sociais contra mulheres jornalistas no Paquistão. Pesquisa da Universidade de Cardiff investigou mais de 21 mil matérias entre 2010 e 2016 em veículos especializados em economia e fez descobertas muito interessantes. Entre elas, a importância da posição social dos especialistas e seus status em rede, que às vezes supera os detalhes técnicos e econômicos.


❄️ Semana passada não teve, mas nessa tem: aquele giro nos destaques de algumas das principais newsletters sobre jornalismo. Primeiro, no Brasil. A edição 7 da De olho nos dados traz dicas para garimpar informações no LinkedIn. O boletim da IJNet destaca o lançamento do perfil da IJNet Português no Instagram. A Don't LAI to me traz uma investigação sobre irregularidades em currículos de servidores públicos. A última edição da newsletter do ObjETHOS reflete sobre como todos esses meses de teletrabalho estão afetando as redações. Agora, o que rolou nas news gringas. A Checklist traz uma análise de "mitos da Covid-19" que circulam no Twitter. A última Weekly Briefing do First Draft fala sobre os protestos anti-isolamento que vêm ocorrendo em alguns países. A Weekly Training Digest do Poynter traz um curso gratuito voltado para eleitores de primeira viagem nos EUA.


❄️ A Fundação Gabo abriu inscrições para o Prêmio Gabo 2020 e anunciou que o Festival Gabo deste ano será virtual. Detalhes neste fio. | No OI, um resumo da programação do 15 Congresso da Abraji, que acontece hoje e amanhã, pela primeira vez em formato virtual. | A RedeComCiência está com inscrições abertas, até o próximo dia 16, para seu programa de mentoria em jornalismo científico. | O UOL lançou Splash, sua nova plataforma de entretenimento, com layout e narrativa mais interativos, linguagem das redes sociais e novos conteúdos. | No Clases de Periodismo, um app gratuito para adicionar texto a vídeos. | E vocês viram este artigo do Guardian escrito por um robô? Vale ler a nota do editor sobre o processo.


Terminem com Kamasi.

I use hands
To help my fellow man
I use hands
To do just what I can
And when I face with unjust injury
Than I change my hand
To fist of fury

Um bom final de semana pra vocês.
Lívia Vieira e Moreno Osório


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adri Brum, Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Alexandra Zanela, Ana Claudia Gruszynski, Ana Paula Rocha, Anderson Coelho, Anderson Meneses, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Beatriz de Arruda, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carina Seles dos Santos, Carolina Oms, Carolina Silva de Assis, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Escosteguy, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jordana Fonseca, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Noites Gregas, Paula Bianchi, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila Bernardes, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

Apoiadores +R$10, informem aqui a URL para inserir um link ativo no seu nome.