NFJ#311 oferecida por Science Pulse ☀️ Especial: as projeções do Predictions for Journalism 2021

Na primeira edição de 2021, fizemos um apanhado das principais ideias apresentadas no especial do Nieman Lab

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Buenas, moçada!

Feliz 2021. Moreno aqui.

Como começou o novo ano pra vocês? Por aqui, devagarinho e sem muitas expectativas. Afinal, segue tudo mais ou menos igual. E pesado. Incluindo o noticiário.

Como no verão passado, faremos quatro edições em janeiro e depois faremos uma pausa mais prolongada em fevereiro, voltando em março. Também como no ano passado, a ideia é que essas quatro edições de verão sejam mais leves e menores.

Não conseguimos fazer esta edição muito menor, mas ao menos ela está mais contextual: fizemos um apanhado das principais projeções do Predictions for Journalism, do Nieman Lab. Quem acompanha o Predictions sabe que ele é gigante. São dezenas e dezenas de textos. Difícil ler tudo. Por isso essa edição tá interessante: a gente leu algumas coisas e trouxe o que mais nos chamou a atenção.

Legal dizer também que o Farol Jornalismo está no Predictions. O texto de apresentação d’O jornalismo no Brasil em 2021 foi publicado no especial do Nieman Lab, assim como aconteceu em todas as edições anteriores do anuário editado em parceria com a Abraji. Deem uma olhada lá. E quem ainda não leu as nossas projeções pode fazer isso lendo a news passada. Ou acessando direto o link do especial.

Antes de começar, deixem eu dizer uma coisa: vocês devem estar acompanhando a confusão envolvendo o noticiário das vacinas, né? Difícil de entender o que tá rolando? Vou dar uma dica, que não é nova, mas segue importante: de vez em quando deem uma olhada no Science Pulse, nosso grande apoiador em 2020, e que segue com a gente por mais duas edições em 2021. Ele pode ajudar vocês a encontrar vozes no mundo científico. Seja para ajudar no entendimento, seja pra qualificar o debate. Assim como no ano passado, em 2021, o papel da ciência continuará essencial para jornalistas. E o Science Pulse segue com a missão de conectar cientistas e profissionais da imprensa.

Vocês conhecem o Pulse. É um projeto do ICFJ Knight Fellow Sérgio Spagnuolo, em colaboração com Volt Data Lab e apoio do International Center for Journalists (ICFJ) e da Agência Bori. O social listening do Pulse nos ajuda a conhecer e conversar com cientistas e a melhorar o nosso entendimento sobre a ciência e, consequentemente, a nossa cobertura - especialmente sobre a Covid-19. Deem uma olhada lá.

Agora, vamos nessa.

A NFJ#311 tem texto da Lívia e meu, curadoria da Lívia e edição final minha.


☀️ Começamos com um bloco de projeções sobre o negócio do jornalismo. Rasmus Nielsen toca na ferida: “Podemos reconhecer que os publishers não concordam sobre como lidar com as plataformas? É hora de lembrar que eles competem uns com os outros e muitas vezes não têm os mesmos interesses? Estamos tentando restaurar o jornalismo que tínhamos ou construir os diferentes jornalismos que queremos?”. Nikki Usher chama para a realidade: “não esperem dividendos antitruste para a mídia”. Segundo ela, para além de questões como moderação de conteúdo, censura e notícias falsas, as organizações de notícias devem focar na opaca publicidade digital das plataformas. Renée Kaplan afirma que o futuro do jornalismo é aquele em que entregamos mais do que os assinantes pensam que pagaram. “Precisamos aprender como antecipar um tipo específico de necessidade de conteúdo e desenvolver um produto editorial adaptado a ele”. Cory Haik afirma que as organizações de notícias devem ter um propósito. “Aquele podcast que você lançou, a série de vídeos: para quem é? A que necessidade está servindo? O que a audiência fará com isso? Ela realmente quer, precisa? Ou estamos apenas tentando manter a atenção do público por tempo suficiente para que o anúncio seja veiculado?”. Transparência radical nas redações é o que pede M. Scott Havens. “Jornalistas perderam a paciência com a falta de transparência e responsabilidade de seus líderes. Muitos deles, especialmente os mais jovens, estão totalmente preparados para impulsionar mudanças, tornando públicas questões como desigualdade, assédio, racismo e sexismo nas redações”. Vale ler também os textos que abordam produtos e tendências: Juleyka Lantigua-Williams escreve sobre como medir sucesso de podcasts (e não é com o número de downloads); Nicholas Jackson afirma que os blogs estão de volta - e melhores; Janet Haven e Sam Hinds analisam a evolução da inteligência artificial nas redações; e Mark Stenberg explica o surgimento do jornalista - influenciador.


☀️ Quando o assunto é diversidade, o que dizem as projeções do Predictions? No geral, os autores e autoras dizem que jornalismo precisará fazer mais. Gabe Schneider, por exemplo, não vê com otimismo os movimentos recentes do jornalismo em relação a este tema. É preciso, segundo ele, reparar ações do passado para construir uma narrativa jornalística para além do homem branco cisgênero. "Mesmo com todas as promessas de 2020, se editores e líderes de redações não perceberem a magnitude do seu fracasso em anos recentes, 2021 não será diferente", escreveu. O texto de Imaeyen Ibanga tem uma pegada parecida. Para ela, "2021 será o ano em que a indústria e sua audiência perceberão se as organizações de notícias estão apenas fazendo discurso vazio ou se elas estão de fato comprometidas com mudanças estruturais". Christoph Mergerson segue o tom. Em 2021, para ele, os negros vão exigir mais do jornalismo. Os negros norte-americanos, escreveu, merecem um jornalismo que os informem a respeito de seus interesses, e que fale a verdade sobre as condições de vida da população negra. Para isso, será preciso mais negros nas redações. Hadjar Benmiloud é enfática: levar a diversidade a sério será fator decisivo para a sobrevivência das redações. Porque, até agora, diversidade, equidade e inclusão foram tratadas como um "ideal esotérico que está além do horizonte, algo que não é prioridade e que nunca se aproxima", escreveu. Aaron Foley, por sua vez, chama a atenção para a necessidade de as redações locais estarem mais atentas à importância de ter uma equipe diversa. Tonya Mosley vai além: para aumentar a diversidade, será preciso ver mais iniciativas fundadas e chefiadas por negros.


☀️ Outro tópico que apareceu bastante no Predictions foi jornalismo local. Ariel Zirulnick propôs um argumento interessante: em 2021, as iniciativas jornalísticas vão começar a questionar seus paywalls. Isso vai acontecer porque as pessoas vão se dar conta de que uma comunidade se desenvolve a partir de pequenos gestos, e o jornalismo pode se beneficiar dessa relação. Com o público mais envolvido, a tendência é que a fonte de receita se desloque para outros canais, como doações e assinaturas de naturezas diferentes da baseada em paywalls. A projeção de Zirulnick conversa com a de Victor Pickard. Segundo ele, a era comercial do jornalismo local já era. Mas ao invés de um envolvimento direto das comunidades, o professor da Annenberg School for Communication aposta na "expansão de infraestruturas públicas para fornecer acesso às notícias". Joni Deutsch, por sua vez, aposta no diálogo do jornalismo com a cena artística e cultural das comunidades. "Como podemos encorajar instituições midiáticas a usar suas plataformas de maneiras inovadoras para combinar histórias com música e sentimento artístico?", pergunta ela. Shaydanay Urbani e Nancy Watzman chamam a atenção para a responsabilidade que o jornalismo local tem na contenção da desinformação. Edward Roussel prevê uma aproximação das empresas de tecnologia com o jornalismo local.


☀️ É consenso que o futuro do jornalismo está intimamente ligado ao relacionamento com os leitores. “Publique menos, escute mais”, reivindica Catalina Albeanu. Para ela, facilitar conversas tem sido papel do jornalismo que quer se conectar com a audiência. Mandy Jenkins vai mais fundo e afirma que “você constrói confiança ajudando seus leitores”. O jornalismo de serviço é, para ela, uma forma de construir pontes e fornecer informações de que os leitores precisam para a vida diária. Rishad Patel afirma que a batalha por atenção exigirá que, em 2021, as redações aprofundem a construção de um relacionamento direto - não apenas com seus usuários ou públicos, mas com seus “believers” (pessoas que creem em algo). “Uso esse termo porque os leitores estão, cada vez mais, comprando uma missão em que acreditam, não apenas uma assinatura de um produto de mídia”. Megan McCarthy prevê que, após um ano de caos, muitas pessoas vão aderir a uma dieta de pouca informação. Segundo ela, isso pode favorecer os veículos que adotam uma divulgação proativa, com newsletters, mensagens de texto e notificações push. Pablo Boczkowski afirma que, para florescer na terceira década do século 21, o jornalismo precisa parar de conceber o público à sua própria imagem. “Significa parar de fingir que pode apenas falar e liderar e, em vez disso, concordar em ouvir e ser liderado”. Nico Gendron defende que leitores podem ajudar redações a construir seus produtos. Ela explica que esse é o trabalho de um gestor de comunidades: “facilitar a criação de conteúdo que resolva um problema que nossos leitores têm, e não apenas produzir relatórios sobre eles”. Para Sumi Aggarwal, ensinar as crianças (e outros consumidores de notícias) a serem receptores ativos em vez de passivos pode ajudar a furar as bolhas de informações em que vivemos. Ela defende que a educação midiática se torne parte central do jornalismo e que, em 2021, as redações assumam essa responsabilidade.


☀️ Como era de se esperar, o Predictions tem diversos textos com análises sobre a Covid-19 e seus impactos no jornalismo. Em uma abordagem mais ampla, Sonali Prasad afirma que o jornalismo de calamidades deve investir na contextualização, para além do “breaking news”. Na visão de Patrick Butler, a maior história de 2020 exigiu colaboração global entre jornalistas e organizações de notícias. “Em 2021, teremos a chance de aprender com uma crise que não estávamos preparados para cobrir. Isso significa garantir que tenhamos profissionais bem treinados em saúde e ciências, mas também que estamos conectando jornalistas em todo o mundo para compartilhar informações e reportagens”. Rachel Glickhouse acredita que jornalistas serão mais gentis uns com os outros - e consigo próprios em 2021. “Empregadores farão mais para criar culturas de trabalho saudáveis. As grandes redações irão expandir as funções de trabalho remoto, permitindo que encontrem talentos em todo o país e dando aos jornalistas mais liberdade sobre onde morar”. Falando em trabalho remoto, Ashton Lattimore também é otimista e avalia que “equipes de notícias nacionais com raízes em todos os cantos do país não apenas produzirá um jornalismo melhor, mas ajudará a diversificar e democratizar a indústria”. Sarah Stonbely espera que as entrevistas por videoconferência, muito utilizadas na pandemia, tragam mais diversidade geográfica e levem jornalistas a novas fontes e lugares. Também potencializados pela Covid-19, os eventos virtuais vieram para ficar. Esta é a análise de Rick Berke, que lembra que muitos veículos já vinham promovendo eventos como fonte de receita bem antes da pandemia. Segundo ele, encontros não-presenciais podem ser mais baratos, atrair mais participantes e nomes conhecidos - já que não há a necessidade de viagens.


☀️ Pra finalizar a primeira NFJ de 2021, links sortidos: 13ª edição das microbolsas da Agência Pública convoca repórteres a investigar as desigualdades no acesso à internet no Brasil. Em parceria com o Idec, serão distribuídas quatro bolsas de R$ 7 mil. Inscrições até 5 de fevereiro neste link. | Nexo publicou uma série em 20 capítulos, enviada por newsletter, sobre o ano de 2020. | Novidades no Voz das Comunidades em 2021 incluem expansão para São Paulo e a volta do jornal impresso. | Reuters Institute compilou 20 achados de pesquisa em 2020 que ainda serão relevantes em 2021. | Inscrições abertas até 18 de janeiro para uma bolsa de pós-doutorado em notícias digitais no Reuters Institute. | “Como gerenciar projetos pode te fazer um jornalista melhor” é o curso de Bárbara Lidório no IDP. Mais informações aqui. | A The Markup criou um browser para “auditar” o Facebook e abrir a caixa preta de seus algoritmos. Leiam, neste fio, os primeiros resultados do #CitizenBrowser. | Jornalismo e algoritmos é o tema de dossiê da Brazilian Journalism Research. | E na RQ1, uma reflexão sobre como entendemos impacto no jornalismo - e o que precisa mudar.


É isso, pessoal.

Bom final de semana e até sexta que vem.

Moreno Osório e Lívia Vieira


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adri Brum, Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Beatriz de Arruda, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Casemiro Alves, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Giulliana Bianconi, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luciana Kraemer, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Noites Gregas, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tai Nalon, Tais Seibt, Washington José de Souza Filho.

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