NFJ#313 ☀️ Como a pandemia impactou o jornalismo nas economias emergentes

Em mais uma edição especial de verão, trouxemos os principais resultados de um estudo da Thomson Reuters Foundation que ouviu 55 jornalistas de 26 países, incluindo o Brasil

Oi, gente!

Lívia por aqui hoje :)

Seguindo com nossas edições especiais de janeiro, hoje vamos resumir pra vocês o relatório “O impacto da Covid-19 no jornalismo nas economias emergentes e no sul global”, da Thomson Reuters Foundation. De acordo com o autor Damian Radcliffe, trata-se do primeiro estudo com insights de especialistas da indústria jornalística sobre o assunto, com enfoque regional. Foram entrevistados 55 jornalistas de 26 países, incluindo o Brasil. Todos são alunos ou ex-alunos da TRF, que “compartilharam suas próprias experiências para ilustrar a realidade do jornalismo fora da América do Norte e da Europa Ocidental”.

O relatório é dividido em 4 desafios, que estão em cada um dos blocos a seguir:

  1. Reportando da linha de frente: o impacto estrutural nas redações;

  2. Combatendo as fake news e a infodemia;

  3. Invasões da liberdade de imprensa;

  4. A ‘queda livre’ financeira do jornalismo.

O quinto bloco será dedicado a algumas soluções que o estudo propõe. No sexto, trazemos os já tradicionais links sortidos, com algumas notícias da semana.

Vamos lá?


☀️ O impacto da Covid-19 nas redações foi tão rápido quanto repentino. Por isso, Damian Radcliffe diz que não é de surpreender que a pandemia tenha deixado marcas nas práticas de trabalho dos jornalistas: distanciamento social durante as reportagens, trabalho remoto, uso de novos equipamentos e plataformas, etc. Houve impacto em todas as editorias, não só na de saúde ou ciência. Um jornalista do Sri Lanka lembrou que cada redação acabou deixando de cobrir assuntos de grande importância em suas localidades, para dar prioridade à pandemia global. O acesso aos dados tem sido crucial na cobertura jornalística, já que o entendimento da doença vem evoluindo ao longo dos meses. O estudo destaca que, em alguns países, os casos de Covid são subnotificados e há muita politização dessas informações. Outra grande mudança foi o fortalecimento das redações distribuídas, “que são descentralizadas, usam ferramentas digitais para se comunicar e exploram novas oportunidades para melhorar a viabilidade e o engajamento do público” (o estudo indica este manual sobre o assunto). Para jornalistas de países em desenvolvimento, uma consideração recorrente foi a confiabilidade das conexões domésticas de internet, bem como os custos imprevistos do trabalho remoto, aliados ao corte de salários e redução de oportunidades para freelancers. A saúde mental dos profissionais também preocupa. Em alguns casos, Radcliffe afirma que a crise resultou em uma bem-vinda discussão sobre o assunto. “No entanto, isso nem sempre é fácil, especialmente em algumas culturas onde há um permanente tabu ou em países que estão vivendo períodos obscuros de sua história”.


☀️ O estudo destaca que a crise do coronavírus desencadeou uma onda de desinformação, principalmente online. Acompanhar e neutralizar as fake news já era um grande desafio para jornalistas que, na era Covid, ficou ainda mais complexo. Falsos medicamentos e teorias de conspiração espalharam-se em escala global. Esta pesquisa, por exemplo, descobriu que mais de um quarto dos vídeos mais vistos do YouTube sobre Covid-19 continham informações enganosas e alcançaram milhões de telespectadores em todo o mundo. Damian Radcliffe cita o caso do Brasil, quando o presidente Jair Bolsonaro postou um vídeo no qual afirma que a hidroxicloroquina curou 78 de 80 pacientes com Covid-19. “Embora a eficácia deste medicamento não seja comprovada como uma cura para o coronavírus, em meados de agosto de 2020 o vídeo tinha sido visto 1,6 milhão de vezes no Facebook. Em meados de novembro ainda estava no site. O YouTube o removeu por violar as diretrizes da comunidade”. Isso mostra que as diferentes condutas das plataformas - geralmente para o mesmo conteúdo - aliada à natureza global das principais redes sociais, facilitam a proliferação de conselhos e discursos potencialmente perigosos. O estudo cita alguns esforços de redes sociais como TikTok, Snapchat, Facebook e Twitter contra a desinformação, mas salienta que ainda há muito a ser feito. Outra crise potencializada pela pandemia é a de confiança na mídia. Radcliffe destaca que, embora isso represente uma oportunidade para o jornalismo reconstruir a confiança por meio de suas reportagens, há a preocupação de que muitos leitores irão ignorar esses esforços - ou serão incapazes de discernir fato de ficção.


☀️ Global é também a deterioração da liberdade de imprensa, diz o relatório. Governos de todo o mundo tentaram “controlar a narrativa” em uma variedade de meios, incluindo novas legislações e esforços para reduzir a liberdade da mídia. “Como resultado, muitos jornalistas tiveram que lidar com acesso restrito às agências de saúde, coletivas de imprensa do governo e dados sobre a Covid-19”. Demissões nas redações intensificam ainda mais esses desafios, pois uma situação financeira pior pode tornar os meios de comunicação mais suscetíveis a pressões externas. Radcliffe questiona se essas questões atuais, como demora no fornecimento de informações e restrições diversas, vão permanecer depois que a crise estiver sob controle. E de novo cita o Brasil, mencionando o consórcio de veículos de imprensa para compilar e divulgar dados sobre a Covid-19 no país, diante da falta de informações do Ministério da Saúde. Alguns governos tomaram medidas para, em tese, combater as fake news, como EUA, México e Brasil. “Porém, ao fazer isso, os países frequentemente suspendem leis relacionadas à liberdade de mídia e liberdade de expressão, e frequentemente criam leis cibernéticas vagas”. Neste tópico o estudo traz um comentário do jornalista Peter Baker, que trabalhou no Brasil. Para ele, “a liberdade de imprensa no Brasil tem encolhido desde a eleição de Trump, em 2016, e a vitória de Jair Bolsonaro no final de 2018. Ambos os líderes criticam e atacam a imprensa quase diariamente. Eles tentam retratar a si próprios como vítimas da imprensa e os jornalistas como pessoas más, a serviço do mal”.


☀️ É um paradoxo: quanto mais as pessoas percebem que precisam de alta qualidade de informações para passar pela crise, mais o modelo de negócios que sustenta essas informações está colapsando. O relatório afirma que a redução das receitas de publicidade gerou demissões ou até o fechamento completo de redações no sul global. Radcliffe diz que insegurança no trabalho não é algo novo para os jornalistas, mas a pandemia acelerou antigas tendências. Diante deste contexto, organizações de notícias sem fins lucrativos e sites independentes que têm assinaturas, memberships ou recebem doações dos leitores viram suas receitas aumentarem. Trata-se de um alívio, mas ainda longe de uma solução definitiva para a indústria. Radcliffe lembra que os financiadores dessas iniciativas estão sobrecarregados e a necessidade de ajuda financeira é maior do que eles podem apoiar. “Seria um grande erro pensar que a indústria se salvou ou que será capaz no futuro próximo”. Se quiserem salvar o jornalismo, governos precisam se comprometer a apoiar a mídia independente e projetos de liberdade de imprensa para os próximos anos, diz o estudo.


☀️ Depois dos quatro desafios, Radcliffe traz exemplos que podem auxiliar veículos a encontrar soluções e enfrentar a segunda onda da Covid-19. Novos produtos como podcasts sobre o novo coronavírus, alertas e newsletters forneceram informações a um público sedento por elas. Algumas organizações abriram seus paywalls para conteúdos sobre a Covid-19, dando acesso a notícias que podem salvar vidas. Houve também inovação nos formatos de contar histórias, com destaque para vídeos explicativos e infográficos. Os jornalistas mencionaram também a importância de mídias tradicionais como o rádio, que alcançou grandes audiências. Construir parcerias é outra solução possível para enfrentar a crise, segundo aponta o relatório. Um dos exemplos é o Centinela Covid-19, projeto colaborativo de 12 organizações jornalísticas que investiga as respostas à pandemia na América Latina. A coordenação é do Centro Latinoamericano de Investigação Jornalística (CLIP). Desenvolver um trabalho de impacto é outra solução que o estudo aponta. Um dos exemplos é a reportagem do jornalista haitiano Milo Milfort sobre o impacto da pandemia e do uso de máscara na população surda do Haiti. O podcast “Em Quarentena”, da Agência Mural, com notícias da Covid-19 para a periferia de São Paulo, também foi mencionado no estudo como um bom exemplo de jornalismo de impacto.


☀️ Bolsonaro bloqueou o Aos Fatos no Twitter. | Uma entrevista com Rodrigo Menegat no blog de Paul Bradshaw sobre acesso a dados públicos no Brasil. | Felipe Cruz chama a atenção, no Twitter, para um infográfico no NYT com todas as manchetes do jornal sobre Trump nos quatro anos de governo. | InternetLab está com chamada aberta para pesquisas que ajudem a identificar formas de distorcer o discurso público na internet. | Bolsas da União Europeia para jornalistas recém formados | Curso no Knight Center sobre diversidade nas notícias e nas redações. | No Press Gazette, uma lista de desejos da indústria de notícias para a administração Biden. | O número final: Trump deu mais de 30 mil declarações falsas ou distorcidas em quatro anos de governo. | Coletânea do GJOL resgata a memória das pesquisas sobre jornalismo digital. | Os vencedores do Prêmio Gabo. Aos Fatos levou na categoria inovação.


Por hoje é isso, gente.

Bom final de semana e até sexta que vem!

Lívia Vieira


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adri Brum, Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Beatriz de Arruda, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Casemiro Alves, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Giulliana Bianconi, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luciana Kraemer, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Nina Weingrill, Noites Gregas, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

Apoiadores +R$10, informem aqui a URL para inserir um link ativo no seu nome.