NFJ#314 ☀️ Especial: 2020, um ano sombrio para o exercício do jornalismo no Brasil

O que dizem os relatórios da Fenaj e da Repórteres sem Fronteiras sobre a violência sofrida pela profissão em 2020

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Buenas, moçada!

Moreno aqui. Que tal vai a coisa por aí?

Por aqui tudo bem. Depois de uma semana no mato, uns dias no litoral gaúcho. Tentando encontrar leveza de espírito nesses primeiros dias de 2021. Escutando uma playlist produzida para tal, cortesia de Bruna Vargas, colega nossa de Porto Alegre. Ouçam comigo. Tarefa difícil a de deixar 2020 para trás, no entanto. Não acham?

A NFJ também acaba refletindo a dificuldade de olharmos para o horizonte com esperança, sem sermos assombrados pelo ano que passou. Depois de três edições especiais em que olhamos para o futuro, a última edição antes da nossa pausa anual de fevereiro volta os olhos para o que de pior nos aconteceu, como jornalistas, em 2020: os ataques sofridos por jornalistas, organizações e pela imprensa em geral.

Ataques esses, vocês sabem, oriundos majoritariamente da maior autoridade da república, o que, a grosso modo, no mínimo abre precedentes para que o trabalho jornalístico seja colocado em xeque por parcela significativa da sociedade. Ataques esses que seguem firme nas primeiras semanas se 2021, como vocês também sabem.

Nos tópicos a seguir vocês vão ler um resumo de dois relatórios divulgados nesta semana. O primeiro, que ocupa os quatro primeiros “☀️s” da news, resume o relatório “Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil”, da Fenaj. Em seguida, dedicamos um “☀️” à consolidação do relatórios trimestrais da Repórteres sem Fronteiras sobre o mesmo tema. A NFJ termina com um “☀️” de links diversos.

O documento da Fenaj é elaborado anualmente a partir dos dados coletados pela própria Federação e pelos Sindicatos de Jornalistas existentes no país. A coleta dos dados se dá por meio de denúncias à Federação ou a um dos Sindicatos de Jornalistas, feitas pelas próprias vítimas da violência ou outros profissionais da mídia, além da compilação de notícias publicadas pelos variados veículos de comunicação.

Já o relatório da RSF “envolve a análise do discurso de autoridades públicas do alto escalão do governo, na perspectiva de produzir dados quantitativos sobre a postura do mesmo diante da imprensa”. Foram analisados especialmente o conteúdo produzido para as contas de redes sociais, lives, entrevistas e aparições públicas de Bolsonaro, seus filhos e ministros e ministras de governo. A metodologia pode ser lida aqui.

Os relatórios abordam a violência contra jornalistas de maneiras distintas. Embora existam episódios relatados em ambos os levantamentos, as iniciativas da Fenaj e da RSF podem ser consideradas complementares. O que ajuda a explicar os números diferentes: enquanto a Fenaj contou 428 ataques, a RSF totalizou 580.

Dito isso, vamos nessa?

Antes de começar, deixem em reforçar uma coisa com vocês: a Newsletter Farol Jornalismo vai tirar férias em fevereiro. Voltaremos no dia 5 de março.

A NFJ#313 foi redigida pela Lívia Vieira e por mim.

Beleza? Agora sim. Bora.


☀️ Na apresentação do relatório, a presidente da Fenaj, Maria José Braga (leiam o texto de Maria José n’O jornalismo no Brasil em 2021), lembra que 2020 teve particularidades para a categoria dos jornalistas. Por um lado, houve um efeito positivo da pandemia, com o jornalismo recuperando parte da sua credibilidade e mostrando-se essencial. Mas, por outro, 2020 foi o ano em que “jornalistas brasileiros arriscaram suas vidas (e muitos morreram), tiveram suas condições de trabalho mais precarizadas e sofreram ainda mais ataques violentos, por estarem cumprindo seu papel social”. E vejam como os ataques a veículos e profissionais têm crescido: em 2018, foram registradas 135 ocorrências; em 2019, 208; e em 2020, 428. Foi o ano mais violento para os jornalistas brasileiros desde o início dos registros feitos pela Fenaj, na década de 1990. A descredibilização da imprensa foi a violência mais frequente (152 casos) e o presidente Jair Bolsonaro foi o principal agressor. Sozinho foi responsável por 175 casos (40,89% do total): Também aumentaram os casos de ameaças/intimidações, agressões verbais, agressões físicas, impedimentos ao exercício profissional, cerceamento à liberdade de imprensa por ações judiciais e de violência contra a organização sindical da categoria. O relatório até criou três categorias novas para registrar seis episódios de ataques cibernéticos, um atentado e dois casos de sequestro/cárcere privado. Houve também 76 registros de censura na EBC e outros nove envolvendo outros veículos de comunicação, um aumento de 750% em relação a 2019. Dois jornalistas foram assassinados  em 2020 (Léo Veras e Edney Antunes), o que não representou um aumento - ainda bem! - com relação a 2019.


☀️ Vamos agora mergulhar no relatório, destacando a violência por região e estado, por gênero e por tipo de mídia. O Centro-Oeste foi a região com maior número de atentados à liberdade de imprensa (48,55% do total) e o Distrito Federal foi a unidade federativa campeã em números de casos, com 120 ocorrências (43,48%). A região Sudeste passou a ser a segunda mais violenta para o exercício da profissão, com 78 ocorrências (28,26% do total). No Sul, o Paraná foi o estado com mais registros (15). Na região Nordeste, o Ceará continuou sendo o mais violento para a categoria, com sete casos. O menor número de episódios de violência ocorreu na região Norte (15). Com relação ao gênero, o relatório identificou que jornalistas do sexo masculino são maioria entre as vítimas de violência em decorrência do exercício prossional (65,34% do total). Cabe destacar que em 248 episódios (mais da metade do total) não coube a identificação de gênero, pois a violência objetivou atingir a imprensa de maneira mais geral. A classificação por tipo de mídia mostrou que jornalistas que trabalham em televisão foram os mais atingidos pelas agressões diretas aos profissionais da categoria, com 77 casos. A EBC ocupa a segunda posição e foi classificada separadamente por aglutinar vários veículos de comunicação. Em terceiro lugar estão os jornalistas que trabalham em portais, sites e blogs (mídia digital). Foram registrados 61 casos de agressão, representando 19,37% do total. Interessante observar que jornalistas que trabalham em jornais foram os mais agredidos até 2014, mas desde 2015 essa tendência foi interrompida, dando lugar aos profissionais de TV. O relatório destaca ainda dois casos inusitados: “um jornalista foi condenado a uma pena de prisão, em razão de um livro-reportagem; e um jornalista professor foi agredido durante uma colação de grau”.


☀️ Quem são os agressores? Como pontuamos no primeiro bloco, o presidente Jair Bolsonaro foi o principal autor de ataques a veículos de comunicação e jornalistas (40,89% do total), repetindo a mesma posição ocupada em 2019, quando assumiu a Presidência da República. Servidores públicos, incluindo dirigentes ocupantes de cargos de livre nomeação, ocuparam o segundo lugar, seguidos por políticos (e pessoas ligadas a eles). Os cidadãos comuns continuaram a figurar entre os agressores (53 ataques), divididos em três categorias: internautas (pessoas que cometeram agressões por meio de redes sociais), manifestantes (pessoas presentes em uma manifestação organizada) e populares (pessoas comuns, sem distinção especial). Também estão na lista de agressores juízes/procuradores/promotores, com 17 casos (3,97% do total); policiais militares e civis, com 14 casos (3,27%); dirigentes de times de futebol/torcedores, com sete casos (1,64%), e empresários da comunicação, com outras sete ocorrências (1,64%). Ainda atentaram contra a liberdade de imprensa hackers, com seis casos de ataques cibernéticos (1,40% do total); seguranças, com três casos (0,7%); profissional liberal/motorista, com dois casos (0,47%), e dois jornalistas (0,47%). Com uma agressão cada, figuram na lista dos que cometeram violência contra jornalistas um religioso, um traficante e a plataforma YouTube. Em nove ocorrências, incluindo um dos dois assassinatos, os agressores não foram identificados.


☀️ O relatório da Fenaj descreve cada um dos 428 casos de violência contra jornalistas. Selecionamos dois deles, pra vocês terem uma ideia de como os episódios acontecem. “Em Ponta Grossa (PR), a jornalista Mareli Martins foi demitida da Rádio T, após seis anos de atividades, por motivos políticos: seu trabalho desagradava o governo estadual. Sem nenhum pudor, foi dito à profissional no momento da demissão que, se ela continuasse na rádio, o governo estadual poderia retirar publicidade do veículo”. E na Bahia, “os jornalistas Hugo Marques e Cristiano Mariz, repórteres da revista Veja, foram detidos enquanto apuravam as circunstâncias da morte do ex-capitão Adriano da Nóbrega, acusado de ser chefe da Milícia Escritório do Crime, após alegado confronto com a Polícia Militar da Bahia, em Esplanada. Os dois jornalistas identicaram-se quando abordados pela viatura da PM-BA. Mesmo assim, foram conduzidos a uma delegacia, tiveram seus equipamentos retidos e inspecionados, antes de sua devolução”. Vale lembrar que se você, jornalista, sofrer algum tipo de ataque ou agressão no exercício da profissão, é muito importante denunciar à Fenaj.


☀️ Agora, alguns destaques do levantamento da Repórteres sem Fronteiras. O documento consolida uma série de relatórios trimestrais que "busca decifrar e analisar os ataques coordenados do 'sistema Bolsonaro' contra jornalistas" (acessem os três primeiros aqui: 1, 2 e 3). Com o quarto e último relatório, publicado nesta semana, a RSF registrou, em 2020, um número maior de ataques a veículos e profissionais da imprensa, quando comparado à contagem da Fenaj: 580. Em parceria com o Volt Data Lab, a RSF produziu visualizações que nos ajudam a entender melhor a distribuição dos ataques. Diferentemente do relatório da Fenaj, a RSF identificou os filhos do presidente como os principais autores de agressões a jornalistas, veículos e imprensa em geral: 66% dos ataques registrados em 2020 partiram de Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro. O presidente sozinho foi o responsável por 19% dos ataques. As visualizações que ilustram o relatório mostram, por exemplo, que os meses de agosto e setembro concentraram a maior parte dos ataques dos filhos de Bolsonaro a organizações jornalísticas. O presidente, por sua vez, aparece praticamente sozinho nos primeiros meses do ano (janeiro, fevereiro e março) como o autor de agressões a jornalistas, organizações e imprensa em geral. O lugar preferido pelo "sistema Bolsonaro" para hostilizar a imprensa é o Twitter. Somando postagens originais e RTs foram 489 agressões. Só pra ter uma ideia, foram 34 ataques em aparições públicas ou entrevistas. Após os números gerais, o relatório relata alguns dos ataques mais emblemáticos de 2020. O episódio envolvendo Patrícia Campos Mello, por exemplo, ajudou a ilustrar o número de ataques a jornalistas mulheres. Foram 31 ataques direcionados, uma ameaça judicial, um episódio de descredibilidade e um impedimento de realizar o trabalho jornalístico. O relatório ainda relembra os acontecimentos em frente ao Palácio da Alvorada, a dificuldade de obtenção de informações sobre a pandemia, os processos judiciais contra jornalistas e a politização de órgãos independentes e oficiais. Acessem o relatório completo aqui.


☀️ Pra fechar, aquele BLOCO DE DIVERSOS com alguns dos links que cruzaram por nós nesta semana. Mais um curso do Knight Center: Desinformação e fact-checking em tempos de Covid-19 na América Latina e no Caribe. | No Globo, Google vai remunerar jornais franceses por conteúdo. | Que tal transformar obituários em uma newsletter? Kristen Hare reflete sobre a newsletter How They Lived, do Tamba Bay Times. | No Axios, podcasts estão bombando, mas poucos estão ganhando dinheiro com eles. | Na Reuters Institute, dicas para usar TikTok. | No Journalism.co.uk, sete dicas para construir uma rede de contatos durante a pandemia. | Também no Journalism.co.uk, seis ingredientes para uma história em áudio perfeita. |  No Clases de Periodismo, cinco guias de verificação de conteúdo eleitorais. | Bolsas para cobrir desigualdade e Covid-19 no Brasil, Venezuela e Colômbia. | Na France24, uma matéria sobre diários latino-americanos estarem apostando em assinaturas digitais.


É isso, gurizada.

Fiquem bem por aí. Curtam o verão. Leiam, durmam, exercitem-se.

Nos vemos em março.

Moreno Osório e Lívia Vieira


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adri Brum, Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia GRuszynski, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Beatriz de Arruda, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Giulliana Bianconi, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luciana Kraemer, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Nina Weingrill, Noites Gregas, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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