NFJ#315 O jornalismo precisa repensar sua própria forma de narrar

Combate à desinformação apenas como slogan? | Como os brasileiros obtêm informações sobre a Covid-19? | Diversidade e inclusão no NYT | A repercussão do caso Facebook vs Austrália |

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Buenas, moçada!

Moreno aqui, abrindo mais uma temporada da Newsletter Farol Jornalismo depois de uma merecida folga em fevereiro. E vocês, como estão? Firmes? Ou desmoronando?

Por aqui, numa semana a gente fica firme, na outra, desmorona. E assim vamos indo. 

Mas vamos falar de coisa boa. Durante a nossa folga, a Folha de S. Paulo completou 100 anos. Vocês devem ter visto. Talvez tenham acompanhado também a série de conteúdos especiais publicados pelo jornal ao longo da semana de celebrações. Pois então, nós participamos das comemorações ajudando a pensar sobre o futuro do jornalismo! Primeiro, a Lívia foi entrevistada pela Magê Flores para o episódio do Café da Manhã sobre como vamos nos informar no futuro. Depois, eu conversei com Eduardo Sombini sobre o que vem por aí na profissão.

Massa, né? Nós ficamos muito honrados :)

Bom, acho que agora podemos ir para a news, né?

A NFJ#315 tem texto da Lívia e meu, curadoria dela e edição final minha. Bora que o ano tá recém começando.


☀️ Um ano após o início da pandemia de Covid-19, é possível refletir sobre como agiu o jornalismo diante de uma das maiores tragédias da história moderna. Muita coisa mudou. Esta imagem de João Caminoto, diretor de Jornalismo do Grupo Estado, é uma retrato deste tempo: “1 ano com 100% da redação do Estadão e da Agência Estado em trabalho remoto”, escreveu. Neste texto para o ObjETHOS, Vanessa Pedro afirma que a crise trouxe um novo vigor à narrativa jornalística, mas que agora o jornalismo precisa repensar sua própria forma de narrar, “chegando mais perto das pessoas, mexendo nas suas próprias estruturas enrijecidas pela tradição e pelo tempo”. Se por um lado o jornalismo mostrou como é relevante, este cenário instável economicamente expôs as contradições de um modelo de negócios que precisa ser repensado. No dia 23 de fevereiro, pelo menos oito jornais brasileiros publicaram um informe publicitário em que uma associação de médicos defende a adoção do chamado ‘tratamento precoce’ da Covid-19, que não tem comprovação científica. Em entrevista à LatAm Journalism Review, o professor Rogério Christofoletti afirma que “combater desinformação parece que é só um slogan para alguns desses jornais. Eles não se preocuparam em explicar aos seus leitores por que tomaram essa decisão. Somados, esses problemas tornam mais aguda a crise de credibilidade dos veículos”. Lupa e Aos Fatos publicaram editoriais em que também criticam duramente a decisão das empresas jornalísticas. A Folha publicou reportagem e checagem desmentindo o anúncio. À ombudsman, o diretor Comercial Marcelo Benez se limitou a dizer que “o jornal defende a liberdade de expressão comercial". O jornalista Ruben Berta tocou num ponto crucial: “Num mundo ideal, em que Comercial e Redação se comunicassem, o que seria o sonho de consumo? Que o anúncio não só fosse vetado como que soltassem os jornalistas para investigar a tal Associação que bancou o anúncio. No mundo real, o anúncio foi aceito e, após reações nas redes, os jornais não tiveram outro caminho a não ser publicarem matérias protocolares - vira "reco" - desmentindo os dizeres do informe publicitário”.


☀️ Como os brasileiros obtêm informações sobre a Covid-19 e o quanto acreditam em notícias falsas? Esta foi a pergunta do estudo conduzido pela brasileira Patrícia Rossini e por Antonis Kalogeropoulos, da Universidade de Liverpool. Ao relacionar os aspectos de comportamento ao alinhamento político-ideológico dos respondentes, os pesquisadores descobriram que um terço (34%) diz evitar notícias sobre a pandemia sempre ou quase sempre, e os mais propensos a isso se autoidentificam como politicamente alinhadas à direita no espectro político. “O principal motivo citado foi a percepção de que o noticiário sobre Covid-19 é muito repetitivo e provoca mau humor”, afirma o relatório. Apenas um terço dos brasileiros soube identificar informações falsas sobre a pandemia e os respondentes que são mais propensos a acreditar em desinformação tendem a se alinhar à direita no espectro político-ideológico. Leiam aqui o relatório completo, em português. Nos EUA, a CJR reflete se a imprensa está sendo muito pessimista na cobertura da pandemia. A ONG Repórteres sem Fronteiras acaba de lançar “A verdade nua”, campanha que reitera a importância do jornalismo para garantir o acesso a informações confiáveis sobre a pandemia. "Essa campanha propositalmente chocante visa despertar as consciências a reagirem aos ataques permanentes do sistema Bolsonaro contra a imprensa”, afirmou Christophe Deloire, Secretário-Geral da RSF. E vocês lembram de “No epicentro”, visualização de dados da Agência Lupa, em parceria com o Google News Initiative? Foi o único projeto brasileiro premiado na 42ª edição do Best of Digital News Design da Society for News Design (SND), considerado o Oscar do design de notícias no mundo. No Peru, uma parceria de rádios regionais, apoiada pela rede OjoPúblico, quer combater a desinformação em línguas indígenas para pessoas que vivem nas regiões andina e amazônica. Centenas de peças explicativas sobre a Covid-19 foram criadas em cinco línguas indígenas e transmitidas por 15 estações de rádio em oito regiões diferentes.


☀️ A Agência Pública completa dez anos neste mês de março. Para comemorar, estão realizando, ao longo do mês, uma série de seis conversas para debater o presente e o futuro do Brasil. Entre os convidados estão Ailton Krenak. Anielle Franco, Lilia Schwarcz e Gregório Duvivier. Nos EUA, a The Markup, startup que fiscaliza as Big Techs, completou um ano e divulgou um relatório que mostra os principais números, o impacto de suas reportagens e também presta contas de suas finanças aos apoiadores. Um bom exemplo a ser seguido por aqui, né? E vocês viram o relatório do New York Times sobre diversidade e inclusão? Baseado em entrevistas com mais de 400 profissionais ao longo de oito meses, os repórteres escalados para o projeto concluíram que “o Times é um ambiente difícil para muitos de nossos colegas, de uma ampla variedade de origens. Isso é verdade para diversos tipos de diferença: raça, identidade de gênero, orientação sexual, histórico socioeconômico, pontos de vista ideológicos. Mas é particularmente verdadeiro para pessoas negras, que descreveram experiências de trabalho cotidianas perturbadoras e às vezes dolorosas”. Os principais executivos do jornal disseram, em uma nota à redação, que estão comprometidos em trazer mudanças essenciais para a cultura da empresa. No próprio relatório já há um plano de ação, que inclui o estabelecimento de expectativas claras para o comportamento dos funcionários; fornecimento de novos programas de treinamento para gestores; criação de um novo setor de diversidade, equidade e inclusão; e expansão do programa de bolsas de jornalismo. O Nieman Lab destrinchou vários pontos do relatório. Pra fechar o bloco, indicações de estudos de caso: este texto super detalhado de Federica Cherubini para o The Membership Puzzle Project, que explica o case do Outride.rs, veículo jornalístico polonês que conseguiu construir uma audiência fiel por meio de uma estratégia “newsletter first”. E, no site do Reuters Institute, exemplos de organizações jornalísticas que estão criando conexões com a audiência pelo WhatsApp. Uma delas é o jornal Correio, da Bahia, que tem 10 grupos no app de mensagens que engajam cerca de 2.000 leitores.


☀️ Quase metade dos assinantes digitais dos veículos de notícias locais nos EUA são leitores "zumbis", que visitam o site menos de uma vez por mês. Esta é a conclusão de estudo feito com 45 jornais pelo Medill Spiegel Research Center da Universidade Northwestern. Segundo explica este texto de Mark Jacob, ”embora os mortos-vivos ainda paguem pelas notícias locais, eles parecem uma base fraca para construir um futuro”. Newsletters (de novo elas) e sistemas de recomendação aparecem como saídas para construir a lealdade desses leitores. Neste texto sobre seu novo livro “Imagined Audiences: How Journalists Perceive and Pursue the Public” (“Audiência imaginada: como jornalistas percebem e perseguem o público”), Jacob Nelson mostra como hoje, apesar da enorme quantidade de ferramentas de métricas, os jornalistas continuam tendo dificuldade para entender os leitores. Segundo ele, “as métricas de audiência mostram aos jornalistas como as pessoas se comportam, mas não o motivo do comportamento. Os jornalistas, portanto, usam esses dados, que refletem o que o público faz, para fazer suposições fundamentadas sobre o que desejam. Essas suposições refletem como os jornalistas imaginam o público mais do que o público real”. Ainda dentro das reflexões sobre jornalismo, Heather Bryant argumenta que as pessoas pagam por outras mídias, mas não pagam pelo jornalismo, porque o jornalismo não é como outras mídias e nem deveria ser. Segundo ela, a inspiração em serviços como Netflix deveriam servir para melhoria de usabilidade, experiência e tecnologia dentro da indústria jornalística. Mas as semelhanças parariam por aí. Acompanhem o raciocínio dela: “A natureza do jornalismo - uma das coisas que o torna tão importante para uma sociedade - deve ser tal que o motivo para gerar receita seja o meio pelo qual realiza a criação e distribuição de informações precisas para as pessoas, ao invés de o motivo para gerar receita ser a distribuição de informações”.


☀️ Entramos em 2021 com a relação entre jornalismo e plataformas esquentando. Vocês viram, claro, que o Facebook baniu o compartilhamento de notícias na Austrália. Depois, Mark voltou atrás - ao menos por ora. No Nieman Lab, Joshua Benton reflete sobre encrenca na Oceania. Para ele, o Facebook conseguiu tudo o que queria. "A arbitragem obrigatória (processo em que um órgão independente decidiria o valor do conteúdo noticioso que aparece no News Feed nos resultados das buscas quando não houvesse acordo entre a plataforma e os publishers), chave para a nova lei proposta pela Austrália, foi completamente esvaziada. O Facebook agora pode decidir oferecer aos editores a quantia que quiser, incluindo nada, sem risco de multa", escreveu Benton. Enquanto isso, nos EUA, o Google diz que os publishers não querem negociar possíveis parcerias com o Google coletivamente, preferindo relações bilaterais individuais. Mas nem todos os veículos concordam com essa visão, segundo o Digiday. Na Europa, Alan Rusbridger, ex-editor-chefe do Guardian, defendeu a abordagem da firma de Mark. "Deem uma folga ao Facebook (e às outras plataformas). Eu não os vejo como o mal encarnado", disse o atual membro do Facebook Oversight Board durante um debate sobre ética jornalística. No Journalism.co.uk, uma importante discussão: o Facebook precisa ser regulado, ok. Mas como fazer isso? Sobre isso, Rusbridger pede um voto de confiança para o Oversight Board. Ele projeta uma postura cada vez mais independente do conselho, funcionando, no futuro, mais como um órgão de regulação independente do que como um setor interno de autorregulação. Será que em 2021 jornalismo e big techs serão amigos? A gente não apostaria nisso.


☀️ Vamos aos links rápidos. A Folha atualizou seu manual de práticas jornalísticas. E lançou um programa de treinamento voltado a profissionais negros. | No Novo em Folha, informações sobre uma bolsa para jornalistas indígenas. | Outra bolsa: na Alemanha, para jovens jornalistas. | No ObjETHOS, 200 livros sobre ética jornalística. | Vem aí uma atualização da pesquisa sobre o perfil do jornalista brasileiro. | Inscrições abertas para o ISOJ 2021. | Jeff Bezos publica autobiografia em que conta como comprou o Washington Post. | Falando em WP, 10 frases de Martin Baron para refletir sobre o jornalismo. | Tirem uns minutos do final de semana para dar uma olhada no Bemdito. | Dicas para usar o Tik Tok para obter novas audiências. | Uma página de tendências do Google sobre vacinas. | 10 tendências para o Instagram em 2021. | Twitter Super Follow. E o jornalismo? | No Nieman Lab, uma reflexão sobre o componente que vem fazendo do Club House um sucesso: a voz humana. Aqui, Miquel Pellicer sugere como o Club House pode ajudar meios de comunicação.


É isso, pessoal.

Bom final de semana, cuidem-se.

Até sexta que vem.

Moreno e Lívia


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adri Brum, Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Portugues, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Seligman, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Giulliana Bianconi, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luciana Kraemer , Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Nina Weingrill, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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