NFJ#316 ☀️ Velhos bastiões jornalísticos sustentam discurso de polarização e falsas simetrias

A aula de entrevista de Oprah | 8M: o perigo também está na redação | Facebook tem padrões diferentes de combate à desinformação? | dicas para cobrir vacinas | que conselho você daria a um estudante?

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Buenas, moçada!

Moreno aqui, abrindo mais uma NFJ de nossas vidas.

Mais uma semana pesada chega ao fim. Aqui no sul o céu começa mudar. Aos poucos, o azul de abril vai aparecendo de mansino, o ar fica mais fresco e os dias, mais curtos. Não tem como não lembrar abril de 2020, as primeiras semanas de isolamento. Quem diria que estaríamos na mesma. Pior, na verdade. Por quanto tempo ficaremos presos em 2020? É o que tenho me perguntado quando olho pela janela.

No mais, seguimos firmes. Antes de iniciar, queria dar as boas vidas a uma leva de novos assinantes que chegaram nas últimas semanas. Separem um lugarzinho na caixa de entrada de vocês. E muito obrigado pela confiança. Ah, e também se por ventura vocês acharem o nosso trabalho tão ESPLENDOROSO a ponto de desejarem contribuir financeiramente para a sua manutenção, convido a conhecerem o nosso financiamento coletivo. Qualquer valor já faz uma enorme diferença! ;)

Agora sim. Bora lá.

A edição 316 tem texto meu e da Lívia (mais dela do que meu). A curadoria é dela e a edição final é minha.


☀️ Na semana do 8 de março, selecionamos uma série de notícias e materiais sobre mulheres no jornalismo. E o cenário é preocupante. A ONG Repórteres sem Fronteiras lançou “O jornalismo frente ao sexismo”. A pesquisa revela que ser mulher e jornalista é um risco duplo. Dos 112 países estudados, 40 foram considerados perigosos ou muito perigosos para as mulheres na profissão (o Brasil está entre eles). E pior: o perigo não está apenas nos ambientes clássicos de reportagem ou na web, mas também nas redações. O ICFJ mergulhou no caso específico da jornalista Maria Ressa, que sofre perseguição do governo filipino por suas reportagens críticas e corre o risco de ser presa (os assinantes mais antigos da NFJ vão lembrar que acompanhamos há anos esse caso). As autoras do estudo analisaram cinco anos de ataques a Ressa nas mídias sociais, demonstrando como eles não apenas difamaram a jornalista, mas desacreditaram o próprio jornalismo e abalaram a confiança do público nos fatos. Este outro relatório da Federação de Jornalistas da Espanha (FAPE) mostra que o assédio a jornalistas mulheres nas redes sociais se tornou mais persistente e perigoso durante a pandemia. Mas por que a imprensa tem tanto medo de falar sobre assédio sexual nas redações? É o que pergunta Melanie Walker, neste texto na WAN-IFRA. Um dos motivos do silêncio é o fato de que o assédio sexual é ruim para os negócios, pois pode prejudicar a reputação da organização jornalística. “Gestores, está inteiramente em seu poder criar dinâmicas em suas equipes que estejam livres disso. Publishers, vocês definem a cultura organizacional em sua empresa”, diz. O Reuters Institute pesquisou 12 mercados em quatro continentes para encontrar mulheres em cargos de liderança. Em 11 deles, a maioria dos editores-chefe são homens, incluindo países como Brasil e Finlândia, onde mulheres são maioria entre os jornalistas profissionais. Estudo feito pela Abraji identificou que ataques contra mulheres jornalistas têm se mostrado cada vez mais frequentes e preocupantes. Ao longo de 2020, mulheres foram alvos diretos de 61 violações à liberdade de imprensa, ou 17% do total de ataques. Dentre os ocorridos no meio digital, 56,76% das vítimas eram jornalistas mulheres. Para chamar atenção para a luta das mulheres, as jornalistas do Congresso em Foco fizeram uma greve simbólica no #8M e lançaram um manual antimachismo para os colegas homens e empregadores. No site do FOPEA, uma série de guias ajudam os jornalistas a cobrirem temas como violência contra as mulheres. No GIJN, materiais úteis para mulheres jornalistas. Ainda na temática de gênero: o Science Pulse lançou ferramenta gratuita para facilitar a descoberta de mulheres pesquisadoras, cientistas e especialistas em Covid-19; e a Amazônia Real publicou o especial “Um vírus e duas guerras”, sobre violência contra a mulher na região amazônica.


☀️ O Facebook tem padrões diferentes para combater a desinformação em suas plataformas conforme o país? Especialistas e pesquisadores dizem que sim e pedem que o Oversight Board, conselho independente criado por nosso amigo Mark, olhe para o que está acontecendo no Brasil. Esta matéria da Folha cita levantamento feito pela Agência Lupa, que identificou que o presidente Jair Bolsonaro violou a política do Facebook sobre Covid-19 ao menos 29 vezes neste ano. Mas, ao contrário do que fez em outros países, a plataforma não removeu nem marcou nenhum desses conteúdos. De acordo com este texto do Poynter, o Facebook rebateu as conclusões do relatório, dizendo que nenhum dos exemplos violou as políticas da empresa. Nos EUA, um ano após o início do rastreamento de cortes nas redações devido à pandemia, o Tow Center constata: a crise do jornalismo foi generalizada para a mídia digital, revistas, estações de rádio e TV, mas atingiu especialmente os jornais; demissões significativas aconteceram em todas as mídias; os cortes aceleraram o encerramento de edições impressas; e mais de 60 veículos fecharam. Estudo do Pew Research Center observou o comportamento de republicanos e democratas em 2020 e descobriu que, enquanto os primeiros mudaram sua visão sobre a cobertura da mídia ao longo do ano (ficando mais céticos e distantes com o passar do tempo), os democratas mantiveram-se acompanhando as notícias de perto. Na evolução da cobertura sobre a pandemia, Flavia Lima, ombudsman da Folha, diz que a vacina é a nova máscara: à medida que a vacinação avança, as explicações vão sendo destrinchadas pela imprensa, mas é preciso que os veículos mostrem que a vacinação é crucial para o controle da pandemia, sem meias palavras nem títulos dúbios. Na CJR, vale ler essas orientações sobre como cobrir a hesitação na vacinação. Entre o que NÃO se deve fazer: enfatizar demais os raros casos de reação adversa, que minam a confiança. No Journalism.co.uk, nove dicas para reportar a Covid-19. O Maré de Notícias, site que cobre o Complexo da Maré (RJ), publicou um especial sobre o ano de pandemia nas favelas do Brasil.


☀️ A semana foi quente na política do país, vocês viram. Após decisão do ministro do STF Edson Fachin, que anulou sentenças contra o ex-presidente Lula e o tornou novamente elegível, voltou a circular na imprensa o discurso de polarização e as falsas simetrias. Em sua coluna no The Intercept Brasil, Fabiana Moraes diz que “é mesquinha, pequena, irresponsável e atestado de certa canalhice a comparação entre qualquer um dos governos eleitos após a redemocratização com a gestão de Jair Bolsonaro. (...) Foi justamente atenuando sua toxicidade que nós da imprensa ajudamos a criar o vírus-presidente. A pílula foi dourada por meio de velhos bastiões jornalísticos, como as ilibadas ‘neutralidade’ e ‘imparcialidade’”. Kennedy Alencar analisa, no UOL, que o discurso de “polarização é a nova ‘uma escolha muito difícil’ enrustida”, referindo-se ao editorial do Estadão nas eleições de 2018. “Ora, se a imprensa tivesse feito o seu trabalho em 2018, Bolsonaro não teria sido eleito. (...) Tem uma turma que não aprendeu nada e continua fazendo o jogo do obscurantismo no Brasil”, analisa. No Twitter, Wilson Gomes listou três argumentos que os jornalistas deveriam evitar durante a cobertura política. Um deles: "o efeito Lula sobre os mercados". À parte as críticas legítimas, foi bonito ver o trabalho jornalístico ser citado nos votos de Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, no processo da suspeição do ex-juiz Sergio Moro. Esta matéria da Folha destaca que as mensagens vazadas da Lava Jato ao The Intercept Brasil “foram decisivas para formar convicção de ministros do Supremo”. Lewandowski também citou a jornalista Letícia Duarte que, em parceria com o TIB, lançou o livro "Vaza Jato - Os bastidores das reportagens que sacudiram o Brasil". Agência Lupa e Aos Fatos checaram o discurso de Lula após a decisão de Fachin. Aos Fatos também identificou que grupos no WhatsApp começaram a pedir golpe militar, voto impresso e impeachment do STF.


☀️ De newsletters a podcasts, de minicursos virtuais a documentários, as redações estão ficando criativas ao apresentar o jornalismo long form na internet, diz esta matéria do Axios. Ao invés de longos textos, que não costumam prender a atenção dos leitores em smartphones, a utilização de conteúdos multimídia tem sido cada vez maior. O Nieman Lab conta que o Yahoo News alcançou 1 milhão de seguidores no TikTok em um ano com uma combinação de filmagens de parceiros, reportagens originais e humor irônico. Falando em negócios, Cristian Marín analisa que os descontos têm cumprido um papel importante nos modelos de assinaturas dos veículos jornalísticos, e dá exemplos, como o do The Athletic. Lembram que semana passada falamos sobre o anúncio negacionista publicado em diversos jornais brasileiros? De acordo com Kalianny Bezerra, neste texto para o ObjETHOS, se na pandemia os veículos conseguiram encurtar um pouco do distanciamento que vinha sendo perdido com o público, “ações como essa permitem um retorno à desconfiança nos jornais e abre espaço para a desinformação”. No Observatório da Imprensa, Carlos Castilho afirma que o jornalismo não é mais um bom negócio - ainda bem. Para ele, “as pessoas terão que pagar pela notícia não mais como uma assinatura ou uma transação comercial, mas como uma adesão ao jornal, revista, site, programa radiofônico ou telejornal”. Sobre a relação leitor-mídia, Mark Deuze argumenta que temos um sentimento tão forte sobre a mídia porque, por meio dela, estamos em contato com outras pessoas. “É por meio da mídia que constituímos nossa sociabilidade - o que em parte explica por que nos sentimos tão ansiosos com a falta de comunicação”. Esse insight foi o pontapé inicial da readação de seu novo livro “Media Love”.


☀️ Vocês certamente souberam que o príncipe Harry e Meghan, Duquesa de Sussex, concederam uma entrevista à Oprah Winfrey no domingo passado. Pois bem, além da manchete que escandalizou o mundo de que uma das grandes preocupações da família real era o quão escura seria a cor da pele de Archie, o filho do casal, o grande destaque foi a atuação de Oprah. Uma aula de entrevista. "A melhor que eu já assisti", tuitou Jay Rosen.  "Todos os jornalistas podem aprender com ela", escreveu Margaret Sullivan. "Com implacáveis perguntas formuladas imediatamente a partir das respostas fornecidas pelos entrevistados, postura compassiva e uma habilidade em permanecer focada para provocar declarações bombásticas em sequência, Oprah provou ser a melhor entrevistadora de celebridades de todos os tempos", seguiu Sullivan. No Poynter, Tom Jones salientou aquilo que Cremilda Medina nos ensina há décadas: "O estilo coloquial e não agressivo de Winfrey faz o encontro parecer menos com uma entrevista e mais com uma simples conversa entre duas pessoas". A colunista de mídia do Washington Post destacou a capacidade da entrevistadora de voltar incansavelmente a comentários "emotivos ou noticiáveis". "Ela não cometeu o erro clássico de interromper no momento errado", observou Sullivan, acrescentando que Oprah soube usar o silêncio a seu favor. Em outro texto no Poynter, Tom Jones escreveu sobre por que a entrevista importa: "Era uma questão de raça. Era sobre a cobertura racial da mídia. Era sobre como uma nação lida com questões raciais". No Politico, por outro lado, Jack Shafer chama a atenção para os acordos que o casal Harry e Meghan vem fazendo com Netflix e Spotify. Por fim, a CNN publicou sete lições que a mídia pode aprender com a conversa conduzida por Oprah. Aqui tem um vídeo do WP com alguns momentos da entrevista. O canal GNT transmitiu a entrevista na íntegra ontem, e há uma reprise marcada para o domingo, 20h. Ainda no assunto entrevista, deem uma olhada neste material do Journalism.co.uk: 10 passos para se tornar um entrevistador mestre. E que tal uma entrevista coletiva sem perguntas? Usando a pandemia como argumento, alguns líderes latino-americanos e caribenhos têm restringido a atuação de profissionais da imprensa em seus pronunciamentos.


☀️ Agora, aquele bloco rápido com links diversos. No Twitter, Luiza Bodenmüller perguntou a jornalistas em quais aspectos da profissão um estudante deveria concentrar seus esforços de formação. As respostas são bem interessantes. | Falando em jovens, a Latam Journalism Review destacou um estudo sobre o consumo de notícias em redes sociais por pessoas de 18 e 35 anos em países em desenvolvimento. | Saiu a lista de conferencistas do ISOJ 2021. | Como jornalistas podem usar o Clubhouse. | O Nexo está com um programa de diversidade racial aberto. Inscreva-se. | E a Folha está contratando repórter. | Na Escola de Dados, informações sobre um curso de jornalismo de dados ambientais e bolsas de investigação na área. | No Centro Knight, inscrições abertas para a primeira conferência latino-americana sobre diversidade no jornalismo. | Artigo 19 lançou uma revista semestral sobre liberdade de expressão. | A Agência Pública segue com as comemorações de seus 10 anos. Deem uma olhada no que ainda vem por aí. As inscrições são gratuitas. | A iniciativa Lição de Casa lançou uma nova campanha de financiamento coletivo. | Promovido pela Afonte, o Open Data Day POA 2021 vai acontecer amanhã. | Pra fechar, vale dar uma olhada neste especial do NYT sobre os 10 anos do desastre nuclear em Fukushima.


É isso, gente.

Bom final de semana e até sexta que vem.

Moreno Osório e Lívia Vieira


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adri Brum, Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, , Bárbara Pereira Libório, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carina Seles dos Santos, Carolina Oms, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Português, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Seligman, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Giulliana Bianconi, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luciana Kraemer, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Nina Weingrill, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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