NFJ#317 ☀️ Saiba quais são as principais características de veículos jornalísticos inovadores

As mortes de jornalistas por Covid-19 na América Latina | A saúde mental em meio à pandemia | O sistema de newsletters do Facebook | Salário vinculado à popularidade das matérias? |

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Buenas, moçada.

Moreno aqui.

Seguimos firmes rumo ao caos.

Por aqui, chegamos à última newsletter de verão. A partir da próxima sexta, o ☀️ do título dará lugar às 🍂, anunciando mais um outono em nossas vida.

No mais, vamos pra news porque não há muito mais o que dizer.

A NFJ#317 tem curadoria da Lívia, texto de ambos e edição final minha.


☀️ A Covid-19 mata mais de um jornalista por dia na América Latina, mostra este levantamento da Press Emblem Campaign. Três países lideram o ranking: Peru (135), Brasil (113) e México (89). Neste texto para a LatAm Journalism Review, Júlio Lubianco conta que, só nas últimas duas semanas, foram somadas 21 mortes. Neste um ano de pandemia, também houve restrições à liberdade de imprensa. Para Meera Selva, quando a Covid-19 começou a se espalhar, as pessoas recorreram à mídia e o consumo de notícias aumentou. Neste texto para o Reuters Institute, ela pondera que, com a propagação da pandemia, autoridades em todo o mundo começaram a reprimir os jornalistas e isso coincidiu com a perda de interesse pelas notícias. “A Covid-19 tornou mais fácil para os governos restringir a disseminação de informações desagradáveis ​​ou retê-las. Coletivas de imprensa foram substituídas por sessões de perguntas e respostas online, onde é mais fácil excluir jornalistas críticos e pré-selecionar perguntas amigáveis”. Repórteres freelancers também sentiram muito a crise. Em entrevista a Laura Oliver para o site do Reuters Institute, Diogo Rodriquez, repórter baseado em São Paulo, afirma que precisou diversificar a renda com outros trabalhos, por conta da queda nos pedidos de matérias. Outro aspecto agravado pela pandemia foi a saúde mental dos jornalistas, assunto em várias NFJs de março do ano passado pra cá (leiam, por exemplo, a NFJ#301 e o texto de Guilherme Valadares n'O jornalismo no Brasil em 2021). Burnout, estresse e ansiedade aumentaram diante de uma cobertura desafiadora, que isolou jornalistas em suas casas ou os expôs ao perigo do face a face em nome do interesse público. "A indústria de notícias está enfrentando uma tempestade perfeita: um modelo de negócio em dificuldades culmina em demissões, queda de confiança nas notícias e em múltiplos redirecionamentos estratégicos. Isso significa que o bem estar dos jornalistas é empurrado para baixo na lista de prioridades", afirmou John Crowley, autor do relatório Journalism in the Time of Covid, para o blog de jornalismo da London School of Economics. No Journalism.co.uk, uma alternativa para lidar com isso: a repórter freelancer April Reese criou um guia que auxilia editores a apoiar profissionais com problemas de saúde mental. Outro material útil vem do GIJN, que preparou dicas para entrevistar vítimas de tragédia, testemunhas e sobreviventes. Diante do que tratamos neste bloco, uma conclusão é inescapável: a pandemia nos deixou mais vulneráveis.


☀️ O que mais podemos fazer para evitar que os algoritmos das plataformas sociais sigam distribuindo desinformação (além de esperar que as Big Techs tomem alguma atitude)? Esta pergunta norteou uma conversa organizada pela CJR que reuniu pesquisadores do tema. Mathew Ingram resumiu o encontro. Joan Donovan, pesquisadora do Shorenstein Center, em Harvard, sublinhou a importância de legislação que regule a atuação das plataformas. "A maneira como Facebook e outras plataformas operam permite àqueles com mais dinheiro e poder exercer influência direta nas decisões de moderação de conteúdo", disse. Já Sam Woolley, professor de jornalismo da Universidade do Texas, chamou a atenção para a responsabilidade que essas empresas têm em relação a episódios de violência que vêm acontecendo offline em alguns lugares do mundo, como Índia e Myanmar. Enquanto isso, o Google anunciou os vencedores de um fundo que vai distribuir mais de US$ 3 milhões para iniciativas de conbate à desinformação envolvendo a Covid-19. A Lupa é a representante brasileira  dentre as iniciativas selecionadas. A agência de checagem vai fazer uma parceria com o Redes Cordiais para conscientizar as pessoas sobre a importância da vacinação, especialmente nos "desertos de notícias". Esta thread explica quais são as três frentes de trabalho do projeto. A iniciativa da Lupa encontra respaldo na observação de Carlos Castilho. Em texto no Observatório da Imprensa, ele relata a "angústia informativa" vivida nas pequenas cidades, onde é possível "sentir diretamente o efeito concreto da ausência de um sistema local de informação" sobre a Covid-19. Ainda aqui no Brasil, vale dar uma olhada na análise do Radar Aos Fatos que mostrou uma virada do discurso de lideranças bolsonaristas em relação à vacina, no Twitter. Tuítes a favor da vacinação, antes raros, viraram regra. "Não existe moderação no discurso nem estratégia coerente, apenas tentativa desesperada de redução dos danos que o negacionismo tem causado", escreveu Tai Nalon, diretora do Aos Fatos. Aliás, Aos Fatos vem sofrendo uma tentativa de censura. A Justiça do Rio de Janeiro aceitou um recurso do Jornal da Cidade Online em que acusa o Aos Fatos e Tai Nalon de crimes de difamação e concorrência desleal. Em abril de 2021, o Aos Fatos revelou que o "Jornal da Cidade Online faz parte de uma rede articulada de desinformação que compartilha estratégia de monetização por meio de anúncios com o site Verdade Sufocada, mantido pela viúva do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra". Aos Fatos vai recorrer da decisão e pedir a sua nulidade. Enquanto isso, a festa da desinformação segue rolando solta no YouTube. Segundo noticia O Globo, repercutindo levantamento do Novelo Data e do Monitor do Debate Político no Meio Digital, vídeos que pregam tratamento precoce sem eficácia contra a Covid-19 e lançam suspeitas sobre as vacinas continuam no ar em canais monetizados pela plataforma.


☀️ Em meio a pressões por regulação, as plataformas começam a fechar acordos com veículos jornalísticos. Um dos casos mais emblemáticos é o da Austrália, que aprovou recentemente uma lei que força empresas de tecnologia a pagar provedores de notícias pelo conteúdo que veiculam. No entanto, como explicamos na NFJ#315, a manobra de nosso amigo Mark que baniu temporariamente o compartilhamento de notícias no Facebook acabou esvaziando a lei. A possibilidade de oferecer aos publishers a quantia que quiser deu resultado: esta semana, a News Corp, do bilionário Rupert Murdoch, fechou acordo de três anos para fornecer notícias ao Facebook na Austrália. Como reporta a Folha, os valores não foram divulgados. O Google e a News Corp já haviam chegado a um acordo ainda durante o debate sobre o projeto de lei. Outra novidade é que o Facebook vai começar a testar uma ferramenta para jornalistas criarem sites e newsletters que podem hospedar texto, vídeo, atualizações de status e outros conteúdos. De acordo com Sara Fisher, do Axios, embora seja de uso gratuito, o plano é pagar um pequeno grupo de escritores para ajudar a lançar a ferramenta. Este movimento de nosso amigo Mark tem muita semelhança com plataformas como o Substack, que permitem que jornalistas independentes criem suas próprias plataformas de comunicação. Na CJR, Mathew Ingram avalia que o gerenciador de newsletters do Facebook já sai na frente do Substack porque não precisaria gerar lucro nenhum, ao contrário do seu competidor. No The Verge, Ashley Carman antecipa um possível revés a ser enfrentado pela firma de Mark dependendo do perfil de quem for usar a nova plataforma. Para Jacob Silverman, o Facebook encontrou uma nova maneira de arruinar a mídia. Na New Republic, ele argumenta: “Imagine o Facebook, com sua atitude amoral orientada por dados - onde tudo é apenas ‘conteúdo’, decidindo fechar negócios com algumas das personalidades mais populares da mídia. Se estão construindo uma operação de conteúdo, seria lógico fazer negócio com personalidades de direita, cujas postagens - repletas de desinformação - estão frequentemente entre as mais compartilhadas na plataforma”. Tenso, não?


☀️ Deu o que falar este artigo do Guardian informando, a partir do vazamento de um e-mail interno, que o Daily Telegraph planeja vincular o salário dos jornalistas à popularidade de suas matérias. No comunicado, o editor Chris Evans teria dito à equipe: “Parece correto que aqueles que atraem e retêm mais assinantes sejam os mais bem pagos”, ponderando que não estão prontos para fazer isso ainda, por causa de “detalhes complicados”. Ao Press Gazette, Evans negou que isso levaria a um sensacionalismo por cliques, argumentando que se trata de 'satisfação do assinante' e não 'clickbait'. “Trabalhar por cliques é exatamente o que você não faz se está buscando uma estratégia de assinatura como a nossa. E a estratégia está indo bem”, afirmou. Adam Tinworth concorda com Evans e acrescenta: “observe que nada no e-mail fala sobre tráfego, trata-se apenas de reter e atrair assinantes”. Chris Moran, diretor de Inovação Editorial no Guardian, defende o artigo de seu jornal. Para ele, o ponto central não é realmente o clickbait, mas o link proposto para remunerar os repórteres. “Você poderia conectar qualquer métrica a essa ideia fundamentalmente terrível e continuaria sendo uma ideia fundamentalmente terrível”. Ainda sobre a indústria do jornalismo, leiam este texto que mostra como o NYTime faz testes A/B nos títulos das notícias. Com o lema "viver deixa uma marca", a revista digital Impronta quer mostrar como é ser LGBT na América Central. Segundo reporta a LatAm Journalism Review, o objetivo é sair da cobertura estereotipada, que aborda as questões LGBT apenas no contexto da violência transfóbica e homofóbica. E o NYT produziu uma matéria sobre Tashnuva Anan Shishir, a primeira âncora de telejornal transgênero de Bangladesh. "Eu tinha que provar minha existência", disse ela ao jornal.  E pra quem ainda não leu, vale a pena dar uma olhada em “Anatomia da Rachadinha” reportagem multimídia do UOL que descobriu indícios de esquema ilegal nos gabinetes da família Bolsonaro. Falando no presidente, deem uma olhada na newsletter da Pública de hoje, que traz trechos de alguns dos 74 pedidos de impeachment que estão na mesa do presidente da Câmara, Arthur Lira.


☀️ Prontos para análises e reflexões sobre jornalismo? O professor Jose García Aviléz lançou a série “Inovação jornalística na América Latina”, com análises de especialistas sobre o ecossistema inovador de cada país. Segundo Aviléz, veículos inovadores costumam ter características em comum: desenvolvem projetos de empreendedorismo com um modelo de negócio que permite sua viabilidade; incorporam uma atitude de mudança contínua; apostam no jornalismo investigativo; têm leitores e usuários comprometidos, com quem estabelecem diálogo; profissionalizam os departamentos de administração, marketing e vendas; e lançam produtos com serviços de informação, como podcasts e newsletters personalizadas. No ObjETHOS, a professora Sílvia Meirelles analisa as armadilhas do jornalismo declaratório e afirma que, além de ser mais rápido, pois a checagem resume-se a presenciar a declaração da figura pública, esse tipo de notícia repercute facilmente. Para ela, “Bolsonaro parece ter entendido como funciona o jornalismo declaratório e procura utilizá-lo na manutenção de sua imagem pública, sem preocupar-se com o teor e o conteúdo das declarações noticiadas”. Mas o jornalismo começa a aperfeiçoar sua abordagem. Vejam, por exemplo, este vídeo do UOL sobre "gripezinha" de Bolsonaro. Em entrevista à LatAm Journalism Review, os professores Pablo Boczkowski e Eugenia Mitchelstein afirmam que a Digital Journalism, uma das principais revistas acadêmicas da área, quer incluir mais pesquisas da América Latina. “Nós, que estudamos as práticas de comunicação na região, já recebemos uma resenha de um periódico que gentilmente nos convidava a 'contextualizar' os achados, algo que raramente se pede para pesquisas em países centrais, ou tivemos um manuscrito rejeitado porque 'uma pesquisa sobre um único país não é relevante', quando sabemos que centenas de pesquisas são publicadas em um único país - os Estados Unidos”. O dossiê atual, organizado pelos professores, é justamente sobre o jornalismo digital na América Latina.


☀️ Vamos ao nosso bloco de links rápidos. Saibam quais são as ferramentas favoritas de Gustavo Faleiros. | Falando em ferramenta, no Clases de Periodismo, um aplicativo para melhorar a presença no Instagram. | No Novo em Folha, informações sobre um prêmio de reportagens sobre saúde na infância e outro prêmio para reportagens e biografias. | A Abraji vai lançar uma pesquisa sobre o uso da LAI nas redações. | O Knight Center está com um curso sobre a cobertura das vacinas. | O Google News Initiative está com inscrições abertas para a América Latina. | Como o Boston Globe encorajou seus leitores a apoiarem restaurantes locais. | No Poynter, um curso para ganhar a confiança da audiência. | Conheçam a Tortoise Media, um site britânico focado em slow news que completou dois anos com 85 mil assinantes.


É isso, gente. Bom final de semana a todos e todas. Cuidem-se!

Moreno e Lívia


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adri Brum, Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Grusynski, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carina Seles dos Santos, Carolina Oms, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Português, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Seligman, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Giulliana Bianconi, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luciana Kraemer, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Nina Weingrill, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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