NFJ#321 🍂 Como redefinir prioridades e trabalhar menos

Diretório de newsletters brasileiras | Brasil cai 4 posições em ranking de liberdade de imprensa | The Correspondent fecha as portas nos EUA | Uma crítica à cobertura do caso Henry

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Buenas, moçada!

Moreno aqui, meio atrasado. Por isso, vamos nessa.

Na NFJ#321, a Lívia fez a curadoria e redigiu o texto. Eu dei uma ajuda na redação e finalizei a edição. Lembrando que temos o apoio dos amigos da ServerDo.in.

Bora.


🍂 Começamos com três estudos fresquinhos. O primeiro, do American Press Institute, argumenta que, num contexto de enxugamento de pessoal e de recursos, as redações precisam definir prioridades. Isso significa trabalhar menos, mas com foco em mais impacto. Para tal, é preciso analisar (e aqui as métricas são muito importantes) quais tipos de matérias não estão sendo lidas, ou seja, não estão servindo ao público. Outra recomendação é não substituir o trabalho dispensado por outro. “As organizações subestimam rotineiramente o valor de não sobrecarregar suas equipes. É normal parar de fazer um trabalho que não estava contribuindo para as metas de negócios e não substituí-lo por nada. Confie, seu público não sofrerá”, afirma a autora Stephanie Castellano. Outro link do mesmo estudo oferece um guia para decidir o que parar de fazer. E outro sobre como reinvestir o nosso tempo de trabalho. O segundo estudo que selecionamos tem um dado que conversa com o que acabamos de dizer: mais da metade dos 2.482 jornalistas entrevistados publica pelo menos cinco matérias por semana. Dois em cada dez produzem mais de 10 por semana. O State of Journalism 2021, conduzido pela empresa Muck Rack, tem amostra majoritariamente norte-americana, mas com representatividade global. A pesquisa ainda identificou que a redução das equipes provocada pela pandemia fez com que os que permaneceram tivessem uma carga de trabalho maior, enquanto os que foram demitidos tiveram dificuldade de se reposicionar. O Media Talks repercutiu outros dados. Pra fechar o bloco, este novo relatório do Reuters Institute fez conversas online com 132 pessoas do Brasil, Índia, Reino Unido e EUA para entender, de maneira qualitativa, como indivíduos em diferentes ambientes políticos entendem o conceito de confiança, pensam sobre as notícias e tomam decisões sobre seus hábitos de consumo de mídia. Os pesquisadores descobriram que existe uma linha tênue e confusa entre pessoas mais e menos confiantes, sugerindo que a confiança nas notícias não é um conceito único, mas sim uma mistura de atitudes. Além disso, os participantes indicaram que detalhes sobre como as organizações de notícias relatam e confirmam informações costumam estar menos em suas mentes do que as intuições que elas têm sobre as marcas, o que inclui até a aparência das informações. Leiam mais.


🍂 Vamos falar um pouco sobre ética? Flavia Lima criticou a divulgação de uma imagem que mostrava a mãe carregando o corpo do menino Henry. O caso, vocês sabem, está sendo bastante explorado pela imprensa nacional e, segundo a ombudsman da Folha, de maneira sensacionalista. Leiam esta entrevista com Elisabeth Ribbans, editora de leitores do Guardian, cargo equivalente ao de ombudsman. Ela afirma que nada escapa da atenção do leitor; que eles querem, cada vez mais, falar diretamente com o jornal; e que sua contribuição, seja com raiva ou elogios, torna o Guardian melhor. Este texto de Danielle Kilgo no The Conversation afirma que ser cético em relação às fontes é trabalho do jornalista, mas isso nem sempre acontece quando essas fontes são a polícia. Assim, a versão inicial de um acontecimento acaba sendo moldada pela polícia, que leva sua versão da história à consciência pública antes das vítimas e familiares. “E muitas vezes o fazem de maneira incompleta, enganosa ou apresentada por razões estratégicas”. O ijnet traduziu o texto. Semana passada falamos sobre este estudo do The Media Insight Project, que repercutiu bastante por sugerir que o público não necessariamente concorda com os valores jornalísticos. Neste texto do Nieman Lab, Joshua Benton questiona a metodologia da pesquisa e crava: não, os norte-americanos não abandonaram valores do jornalismo como transparência e vigilância. Segundo ele, os pesquisadores escolheram um padrão arbitrário para determinar se alguém é um “apoiador” de um valor jornalístico, acabando por maximizar a distância entre mídia e público. Vale ler o texto, ele detalha as frases contidas em cada valor, com as quais os respondentes tinham que concordar ou discordar. Na CJR, Mathew Ingram entrevistou Tom Rosenstiel, um dos autores do estudo, que defendeu a metodologia utilizada. Benton acrescentou a resposta no texto do Nieman Lab, mas disse que não se convenceu.


🍂 O Brasil caiu 4 posições no Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa, publicado anualmente pela ONG Repórteres sem Fronteiras. Pela primeira vez em 20 anos, o país saiu da “zona laranja” e entrou na “zona vermelha”, na qual a situação para o trabalho da imprensa é considerada mais difícil. O Poder 360 fez um bom resumo do levantamento. Esse ambiente hostil para exercer a profissão tem consequências. Neste texto para o ObjEthos, Janara Nicoletti analisa que, em um acontecimento com as proporções da pandemia de Covid-19, o produtor da notícia atua como espectador ao mesmo tempo que é também vítima dos fatos reportados. Por isso, a chefia precisa se envolvimer para resguardar a saúde mental do jornalista e também uma rotina de autocuidado. Irving Washington, CEO da Online News Association (ONA), lembra que o burnout tem sido um tópico quente, mas as redações pioraram as coisas durante a pandemia. Não houve ajuste nas cargas de trabalho, flexibilidade ou reconhecimento de que há reuniões demais e níveis prejudiciais de tempo de tela. Para tentar evitar isso, o Clases de Periodismo dá cinco conselhos para diminuir o esgotamento pelo abuso das videochamadas. E no Journalism.co.uk, dicas para entrevistas por Zoom.


🍂 Um esquema de pagamento secreto de milhões de dólares para os veículos de notícias mais influentes dos EUA, como NYT, Washington Post, The Wall Street Journal, entre outros. Assim Dan Froomklin, editor do Press Whatchers, descreve o Facebook News. Neste texto para o Washington Monthly, Froomklin argumenta que o recurso é difícil de encontrar, não está integrado ao feed de notícias individuais e por isso não entrega uma audiência expressiva aos veículos. “O que o Facebook News oferece são grandes quantias de dinheiro. Os termos exatos desses acordos permanecem secretos, porque o Facebook insistiu na não divulgação e as organizações de notícias concordaram”, diz. Nosso amigo Mark anunciou uma nova ferramenta que pode ser útil para o jornalismo: agora é possível exportar os posts do Facebook para uso em outras plataformas como Google Docs, Wordpress ou Blogger. De acordo com este texto do Nieman Lab, o recurso faz parte do Data Transfer Project, iniciativa de compartilhamento de dados entre empresas lançada em 2018. Apple, Google, Microsoft e Twitter também estão envolvidos no projeto. The Verge repercutiu o lançamento. Outro anúncio desta semana: o Facebook planeja lançar nos próximos meses um conjunto de novas ferramentas e recursos de áudio, como soundbites (clipes curtos), podcasts e áudios ao vivo. Zuckerberg disse que o foco está mais nos criadores do que no consumo de áudios. Leiam mais no Axios e no Vox.


🍂 Algumas notícias da indústria. O The Correspondent, braço norte-americano do holandês De Correspondent, vai fechar as portas no fim do ano. Segundo Ernst-Jan Pfauth, fundador da iniciativa, a operação se tornou financeiramente inviável em função das circunstâncias causadas pela pandemia. Lembram que a empreitada holandesa nas Américas levantou US$ 2,6 milhões em um financiamento coletivo? O The Correspondent apareceu na NFJ#131 e na NFJ#230. Ainda nos EUA, a redação do Book Club Chicago decidiu publicar duas versões de uma mesma história. Trata-se de uma notícia sobre o assassinato de um menino de 13 anos por um policial da cidade. Quando o vídeo da morte foi divulgado, repórteres e editores decidiram publicar uma versão com as imagens e outra sem. A escolha repercutiu bem entre os leitores e apoiadores da iniciativa - apesar do caso em si ser horrível. O que a inteligência artificial pode fazer pelo jornalismo local. Este texto do Journalism.co.uk tem alguns insights a partir da experiência do jornal noruguês Bergens Tidende. O que o veículo fez? Criou um robô para automatizar a redação de textos sobre o mercado imobiliário em Oslo. Falando em inovação, este texto do What's New in Publishing traz lições de grandes como Guardian, BBC, FT, NYT e WSJ. Uma das ideias é esta aqui do Guardian: um aplicativo que alerta os seus jornalistas quando eles não estão seguindo o guia de estilo da redação. O Laboratorio de Periodismo explica como o Typerighter funciona. O Poynter conta a história do STAT, site que cobre a área médica e a indústria da biotecnologia a partir de Boston e que foi um dos primeiros a chamar a atenção para a existência da Covid-19. Aqui no Brasil, dois links do Novo em Folha. O primeiro é sobre a primeira presidente negra da ABC News. O segundo é sobre uma marca alcançada pelo próprio jornal: em março, a Folha de S.Paulo registrou 352.459 exemplares diários pagos. O segundo lugar é do Globo, com 348.461 exemplares.


🍂 Pra ir duma vez pro final de semana, links rápidos. O Reuters Institute divulgou as datas de seus seminários sobre o jornalismo global. | O Manual do Usuário lançou um diretório de newsletters brasileiras gratuitas. Estamos lá, claro. | A BBC News Brasil está com vaga aberta. | A Global Investigative Journalism Network organizou um material com várias ferramentas digitais para organizar a vida e facilitar o trabalho. | A doutoranda em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro Carla Serqueira está atrás de histórias de jornalistas negras para a sua pesquisa de tese. O objetivo dela é "desvendar como o racismo estrutural afeta a formação e a carreira de jornalistas negras no Brasil e apontar caminhos para uma maior diversidade racial na mídia brasileira". | A ICFJ está organizando workshops de jornalismo em português voltado para jornalistas de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe. | Nesta matéria do ijnet tem informações sobre a iniciativa da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência de lançar vídeos para ajudar na cobertura da área.


É isso, moçada.

Cuidem-se. E bom final de semana a todos e todas.

Moreno Osório e Lívia Vieira


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adri Brum, Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carina Seles dos Santos, Carolina Oms, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Português, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Seligman, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Caetano, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Nina Weingrill, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Renata Johnson, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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