NFJ#323 O que é o jornalismo?

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa | Aumento da violência online | Os 200 anos do Guardian | Como trabalham os jornalistas na pandemia? | O lançamento da Ajor | Transforme seu Gmail em Google Reader

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Buenas, moçada!

Moreno aqui, abrindo a NFJ#323 e lembrando vocês que, além da nossa campanha de financiamento coletivo recorrente, também estamos aceitando doações via Pix. Basta usar a chave 29382120000182. Considerem nos pagar um chopinho de vez em quando.

Vamos nessa porque o tempo urge.

A NFJ#323 teve curadoria da Lívia. O texto é de ambos, mas mais da Lívia. A edição final é minha. Sempre lembrando que temos o apoio dos parceiros da ServerDo.in.

Bora.


🍂 A semana começou com o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Em parceria com a Unesco e outras sete organizações, a Abraji promoveu um seminário internacional, que debateu a informação como bem público e a polarização. Um alerta do ministro do STF Luís Barroso: “Há novas ameaças à liberdade de imprensa em 2021, como campanhas difamatórias propagadas e coordenadas por milícias digitais e a censura na esfera privada”. A Sociedade Interamericana de Imprensa divulgou 10 dados preocupantes sobre o tema nas Américas, que evidenciam violência contra jornalistas, falta de diversidade e censuras. Leiam mais no Clases de Periodismo. No mesmo dia em que se chamava atenção para a liberdade de imprensa, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse que parte da imprensa “não contribui com o Brasil” em meio à pandemia e sugeriu a empresários que repensem a publicidade nesses veículos [Folha de S. Paulo]. A ONG Repórteres Sem Fronteiras acaba de lançar um projeto de pesquisa sobre programas de proteção a jornalistas na América Latina (o Brasil está entre eles), que será realizado ao longo de 2021. Em entrevista ao Puroperiodismo, o diretor da Chile Transparente, Alberto Precht, afirmou que o país caiu nos rankings internacionais de liberdade de imprensa após centenas de agressões a jornalistas e deficiência no acesso à informação pública. Na Índia, conforme a Covid-19 avança, a liberdade de imprensa diminui. Este texto do Nieman Lab conta que um pequeno grupo de veículos independentes está se esforçando para noticiar o caos no país, mas o governo pressiona para silenciar os jornalistas. Nesse sentido, Damian Radcliffe argumenta, no Journalism.co.uk, que a Covid-19 acelerou a invasão à liberdade da mídia em todo o mundo, minando a confiança do público no jornalismo e na ciência. Este texto da GIJN lembra que, num cenário de ataques de governos à imprensa, os repórteres devem considerar cada vez mais a proteção de suas fontes.


🍂 Se a deterioração da liberdade de imprensa afeta diferentes países, ela pode ser vista também pela lente de gênero. A Unesco acaba de divulgar estudo que mostra um aumento acentuado na violência online contra jornalistas mulheres e revela como esses ataques estão ligados à desinformação, discriminação interseccional e política populista. A Fenaj fez um bom resumo, assim como o Poynter, que destaca que quase três quartos das jornalistas de 125 países já enfrentaram violência online. Este artigo do Guardian também repercutiu o estudo, chamando os casos de misoginia, intolerância e ameaças de "maré arrepiante de abuso". Falando ainda sobre diversidade, membros do NewsGuild, um sindicato internacional de jornalistas, analisou os salários em 14 redações do grupo Gannett e encontrou disparidades entre mulheres e negros, que ganham menos que homens e profissionais de cor branca. O relatório descobriu também que jornalistas em redações sindicalizadas são mais bem pagos do que aqueles em empresas sem assistência de sindicatos. O Nieman Lab destacou o depoimento de uma das entrevistadas: “não apenas meus colegas do sexo masculino com histórico e experiência semelhantes recebiam mais, como havia estagiários na redação que recebiam um salário mais alto do que eu”. Para fechar o bloco, o ijnet entrevistou jornalistas brasileiros de periferias, que relataram estresse e sobrecarga mental durante a pandemia. No final do texto, vale clicar nos links com dicas e recursos para saúde mental dos jornalistas.


🍂 Imagine-se como um futuro assinante do Twitter, com acesso a recursos premium que te permitem ler matérias de seu site de notícias favorito sem anúncios e newsletters escritas por especialistas em diferentes assuntos, com parte de sua assinatura indo para os publishers e para os criadores de conteúdo. Parece uma boa ideia, né? E está perto de se tornar realidade. O Twitter acaba de adquirir o Scroll, startup de notícias sem anúncios, e com isso decretou o fim do agregador de notícias Nuzzel. Tony Haile, CEO do Scroll, disse em seu blog: "Para todas as outras plataformas, o jornalismo é dispensável. Se o jornalismo desaparecesse amanhã, seus negócios continuariam como antes. O Twitter é a única grande plataforma cujo sucesso está profundamente entrelaçado com um ecossistema de jornalismo sustentável". A notícia, é claro, repercutiu bastante. Leiam este texto do Nieman Lab, esta análise de Adam Tinworth e esta matéria da Folha. Sigamos no mundo das plataformas. Como parte do Facebook Journalism Project, Mark anunciou que vai investir US$ 5 milhões para apoiar jornalistas locais dos EUA que utilizarem seu novo serviço de newsletters. De acordo com este texto do Nieman Lab, há um incentivo para que candidatos negros se inscrevam e prioridade para iniciativas que cobrem comunidades locais pouco representadas. Também esta semana, o Facebook Oversight Board entrou em ação e decidiu manter a suspensão de Donald Trump da plataforma. Segundo explica este texto do CanalTech, a recomendação é que a medida seja reexaminada em seis meses. Para Jeff Jarvis, Facebook e Conselho fazem “um jogo perigoso de batata quente” e o afastamento, na verdade, deveria ter sido permanente. João Brandt também criticou o fato de os especialistas devolverem a decisão para o Facebook, mas elencou também pontos positivos.


🍂 O Guardian está fazendo 200 anos e criou um especial em comemoração à data. Neste excelente artigo, Alan Rusbridger, que foi editor do jornal por 20 anos, relembra quando percebeu que as notícias haviam mudado para sempre. “Revoluções são coisas fascinantes para os historiadores estudarem. Viver uma é irritantemente interessante. Nunca há tempo suficiente para pensar e nunca há dados suficientes para ajudá-lo a fazer a escolha certa. Se você acertar metade das decisões, provavelmente está se saindo muito bem. E você só vai saber o que era ‘certo’ muitos anos depois”. Leiam também este artigo sobre como o Guardian sobreviveu dois séculos. E neste, que destaca os principais erros cometidos pelo jornal. Como destacado, em 1927, virtudes do amianto e, na década de 1970, ter anunciado que uma nova era do gelo poderia acontecer no século 21. | O Overstory Media Group, que abriga veículos do Canadá com foco em newsletters, anunciou planos para contratar 250 novos jornalistas e lançar 50 novos veículos até 2023. | No ijnet, Gabriela Hadid, representante de investimentos para a América Latina da Luminate, dá dicas sobre como construir uma relação de confiança com financiadores. | O NYT alertou para a circulação de uma versão manipulada da primeira página do jornal, “com matérias falsas e uma imagem de manifestações a favor do presidente Jair Bolsonaro”. No Aos Fatos, a checagem. | O grupo Globo decidiu acabar com a revista Época. A partir de 28 de maio, todo o conteúdo da revista vai migrar para as edições digitais e impressas do jornal O Globo. Segundo comunicado da empresa, divulgado no Poder 360, “a dinâmica de uma revista semanal de notícias impressa começou a perder relevância em um tempo em que os furos de reportagem são publicados em tempo real e alertados nas telas dos celulares“.


🍂 O que é jornalismo? Esta é a pergunta que uma edição especial da CJR tenta responder. Coisa simples, hein? O editor Kyle Pope destaca, no editorial que abre a publicação, que o ano passado foi traumático, e que agora, com as vacinas sendo aplicadas, o mundo busca renovação e reconstrução. O mesmo acontece com a indústria jornalística. Pois se por um lado a pandemia mostrou o valor da nossa profissão, por outro, expôs problemas que jogam na nossa cara questões existenciais sobre as quais nunca chegamos a respostas definitivas. "Neste momento, nós enfrentamos uma escolha entre retornar de onde paramos ou pensar em uma transformação fundamental do que somos", escreveu Pope. A edição está dividida em cinco capítulos nomeados com as perguntas do lide: quem, onde, como, quando e por que importa. Interessante a maneira como o capítulo 4 (quando) foi construído. Ele traz "um dia da vida das notícias" a partir do relato de pessoas de diferentes idades, raças e regiões dos Estados Unidos. Já o último capítulo (por que importa) aborda algumas das questões que mais nos incomodam atualmente. "Como podemos seguir em frente diante de tudo que enfraquece o jornalismo, dos ataques de políticos eleitos à desinformação que circula nas redes sociais? Como trabalhar em meio a uma atmosfera de profundo ceticismo em relação à natureza da verdade? E como a gente pode ter certeza de que sabemos qual é a verdade? É leitura para dias. Deem uma olhada lá. Ainda sobre o que nos define, voltemos ao aniversário do Guardian: o Clases de Periodismo resumiu as reflexões da editora-chefe Katharine Viner sobre o papel da profissão em tempos de pandemia. "A necessidade de informação confiável nos lembra por que o jornalismo é necessário, mas também nos lembra que apenas registrar o que aconteceu não é o suficiente", escreveu Viner. Aliás, sobre pandemia e jornalismo, essencial o estudo "Como trabalham os comunicadores na pandemia da COVID-19?”, coordenado pela professora livre docente Roseli Figaro, da USP. Um trecho das considerações finais da pesquisa sobre o trabalho remoto e digital: "A qualidade de vida dos trabalhadores, nível salarial e de empregabilidade também estão afeitos às ondas das crises cíclicas do capitalismo e muito menos à implementação de novidades no campo tecnológico. Ao contrário, tais novidades têm sido submetidas à lógica da lucratividade e servido para fechar postos de emprego e precarizar ainda mais as relações entre capital e trabalho, com perdas de direitos trabalhistas, queda salarial, quebra de regulamentação de várias profissões etc. Mas os ideólogos da bonança do trabalho remoto digital não param de aumentar seus ganhos e dividendos políticos." Leiam mais sobre a pesquisa nesta matéria do ijnet.


🍂 Ao final do Colóquio Iberoamericano de Jornalismo Digital 2021 foi anunciada a formação da Ajor (Associação de Jornalismo Digital). A Natalia Viana será a primeira presidente da entidade, que vai reunir meios de comunicação digitais, diversos, independentes e inovadores. | Como transformar seu Gmail em tipo um Google Reader. | Ferramentas para organizar o espaço de trabalho e melhorar reportagens. | Novo curso do Knight Center: estratégia de segurança para jornalistas. | Na semana em que a LAI completa 10 anos, o pessoal do Fiquem Sabendo vai conversar com o ministro da CGU Wagner Rosário. Vai ser na segunda, dia 10. | Entre os dias 14 e 16 de maio vai acontecer o primeiro Congresso Nacional de Jornalistas Negras e Negros. Mais informações nesta matéria da Abraji. | Consulado dos EUA está aberto a propostas de projetos jornalísticos. | Conheçam o Quartz essentials.


É isso, moçada.

Bom final de semana e até sexta que vem.

Moreno e Lívia.



Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Português, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moares, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Seligman, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Caetano, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Nina Weingrill, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Renata Johnson, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Roogério Lauback, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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