NFJ#324 Estamos perdendo uma geração para o desespero, o trauma e a injúria moral

Jornalismo na CPI da Covid | Você conhece o jornalismo sustentável? | O "custo cognitivo" de acompanhar notícias | Perfil de jornalistas assassinados na América Latina | Amanpour, Rosen e a democracia

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Buenas, moçada!

Moreno aqui.

Hoje um pouco mais tarde. Tudo bem. Seguindo na nossa conexão Porto Alegre - Salvador. Enquanto aqui no sul tivemos dias gloriosos de clima ameno - mas com aquela variação de quase 15 graus em só um dia, no nordeste a Lívia segue com aquela brisa e uma temperatura que não desce de 24 e não sobe de 28. Coisa linda deve ser.

Antes de começar, queria lembrar vocês que, além da nossa campanha de financiamento coletivo recorrente, também estamos aceitando doações via Pix. Basta usar a chave 29382120000182. Considerem nos pagar um chopinho de vez em quando.

Outra coisa antes de começar. O Farol Jornalismo esteve no Braincast! A nossa editora Marcela Donini, atualmente editora-chefe do Matinal Jornalismo, participou da edição 405 do podcast, cujo assunto foi newsletters. Ouçam e prestigiem a Marcela e o Farol.

Agora vamos nessa.

Na NFJ#324, eu e a Lívia fizemos a curadoria e escrevemos o texto. A edição final é minha. Sempre lembrando que temos o apoio dos parceiros da ServerDo.in.

Bora.


🍂 O jornalismo tem sido destaque na CPI da Covid. Esta semana, no depoimento do ex-secretário de Comunicação do governo federal Fabio Wajngarten, o áudio de sua entrevista à Veja foi fundamental para provar o que ele estava negando até então: o fato de ter acusado o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello de incompetência nas negociações de compra de vacinas. Em outro momento, o senador Renan Calheiros perguntou se Wajngarten conhecia a Agência Pública, referindo-se à reportagem sobre a campanha “Cuidados Precoces Covid-19”. A agência Aos Fatos fez a checagem das falas do ex-secretário em tempo real. O Nós, Mulheres da Periferia bem observou: não há mulheres nem pessoas negras na CPI. Falando ainda sobre a pandemia, este texto de Olivia Messer no Study Hall alerta: os repórteres que cobrem a Covid não estão bem. Segundo ela, uma indústria despreparada está perdendo uma geração de jornalistas para o desespero, o trauma e a injúria moral enquanto cobrem um dos assuntos mais importantes de nossa história. No Journalism.co.uk, Jo Healey afirma que é preciso enfrentar a realidade de que os jornalistas não são treinados para entrevistar pessoas que viveram traumas. “Não são ensinados a como trabalhar com essas pessoas e nem a como cuidar de si mesmos enquanto o fazem”. E como será a volta à redação? Neste artigo publicado no WPost, Cathy Merrill, CEO da Washingtonian Media, manifestou medo de que os funcionários queiram continuar trabalhando em casa após a pandemia. Laura Owen escreveu sobre a repercussão, no Nieman Lab, destacando que a “cultura de escritório” que se desgastou durante a pandemia não beneficia a todos igualmente e, em muitos casos, é realmente prejudicial. No ijnet, Lucero Hernández dá dicas sobre como envolver o público para impedir desinformação sobre a Covid-19.


🍂 “Há um problema real que o jornalismo enfrenta hoje: o ataque sem precedentes à verdade em nossas democracias”, disse a âncora da CNN Christiane Amanpour nesta entrevista a Neil Brown, presidente do Poynter Institute. O professor Jay Rosen também falou sobre democracia e cobertura política nesta entrevista a Ruth Ben-Ghiat. No Poynter, Hannah Storm argumenta que não pode haver imprensa livre a menos que os jornalistas sejam capazes de fazer seu trabalho com segurança. O Guardian escreve, em editorial, que o assédio online a jornalistas mulheres é um problema para todos, em referência ao relatório da Unesco sobre o qual falamos na semana passada. “O trolling anti-imprensa, especialmente o dirigido às mulheres, é uma forma de discurso de ódio, com o objetivo de silenciar e intimidar”, afirma o jornal. Este relatório do NCTJ sobre diversidade no jornalismo examinou características dos jornalistas no Reino Unido. Houve um aumento da proporção de mulheres empregadas no jornalismo e agora elas são a maioria (53% contra 47% de homens). Houve também uma ligeira diminuição na proporção de grupos étnicos brancos (de 94% para 92%, mas ainda uma maioria esmagadora) e um ligeiro aumento na proporção de profissionais com deficiência (de 15% para 16%). Este texto do Digiday conta que a Bloomberg está expandindo sua cobertura de negócios sob a ótica de raça e gênero com a criação da área de Igualdade. Sally Buzbee é a primeira mulher a dirigir a redação do Washington Post. O Poynter repercutiu o anúncio, lembrando que Busbee entra no lugar do lendário Marty Baron, que se aposentou no início deste ano.


🍂 Uma nova funcionalidade do Twitter está pedindo para usuários revisarem o texto de seus replies quando a linguagem usada não é lá das melhores. Nesta matéria do Nieman Lab, Hanaa' Tameez conta que 34% dos usuários que receberam o aviso revisaram o texto ou decidiram nem publicar o reply. Por ora, a funcionalidade só está disponível em inglês e em dispositivos iOS. Ah, e sabe aquela funcionalidade do Twitter que sugere ler o artigo antes de compartilhar? Pois é, agora a rede do Mark também tem uma igual. O The Verge diz que os testes vão começar com usuários Android. Falando em Mark, parece que ele está preocupado com um app disponível no iOS 14.5 chamado App Tracking Transparency, cuja função é perguntar para os usuários se eles permitem o rastreamento cruzado das suas atividades em apps e sites. Esta matéria do Nieman Lab traz dados de uma pesquisa da Flurry que está monitorando quantas pessoas estão dizendo "Ok, pode rastrear" e quantas estão dizendo "Hum, não". Apenas 4% dos usuários de iOS nos EUA e 11% no mundo inteiro estão dizendo sim. Agora, uma notícia sobre o YouTube, para completar o bloco com as Big 3. Segundo esta matéria do Axios, a rede de vídeos do Google está investindo US$ 7 milhões em dois programas voltados para o jornalismo nos EUA. É a primeira vez que rola uma grana para o YouTube independentemente dos US $300 milhões que o Google já dedicou à indústria jornalística por meio do Google News Initiative. O TikTok quer incentivar seus usuários a pensar criticamente. Este é o objetivo da campanha #FactCheckYourFeed. E no Reynolds Journalism Institute, uma história sobre a criação, nos EUA, de uma plataforma jornalística voltada para profissionais negros e que vai destacar assuntos e perspectivas relevantes para comunidades negras.


🍂 Um bloco com análises sobre jornalismo. Bora? No site da GIJN, Lars Tallert conceitua o jornalismo sustentável, que parte de duas crises contemporâneas de sustentabilidade: a da sociedade, relacionada às mudanças climáticas, democracia, desigualdade; e a da diminuição das receitas no jornalismo, desinformação e deterioração da confiança. “O jornalismo sustentável sugere que essas crises estão intrinsecamente interligadas. Uma sociedade sustentável - econômica, ecológica e socialmente - requer um jornalismo que enfrente esses desafios”, afirma. No Nieman Lab, repercussão do estudo de Stephanie Edgerly que mostra que adultos nos EUA evitam as notícias não só porque elas despertam emoções ruins. Há outros fatores determinantes como o impacto e a importância da notícia para suas vidas e os chamados “custos cognitivos”, já que muitas vezes acessar e navegar pelas informações pode ser complicado e confuso. Vocês sabiam que a origem das newsletters remonta ao século XV? Livia Gershon conta essa história, no JSTOR Daily. Selecionamos também três links do site Laboratorio de Periodismo: o caso de sucesso do jornal local The Mill, que tem o e-mail como sua principal plataforma; dois exemplos de crescimento de assinaturas digitais: Tribune Publishing (EUA) e O Povo, tradicional veículo jornalístico do Ceará; como monetizar com podcasts, a partir do caso da NPR. Fechamos o bloco com o estudo de caso do mixx.io, publicação sobre negócios e tecnologia: como fidelizar audiências por meio da curadoria de conteúdo.


🍂 No Clases de Periodismo, uma matéria sobre Everdeen Mason, a primeira editora de jogos do NYT. Um de seus primeiros projetos editoriais vai ser desenvolver palavras cruzadas em homenagem aos operários negros dos Estados Unidos. O NYT também anunciou Amanda Morris como sua primeira fellow voltada para assuntos relacionados a pessoas com deficiência. A atuação de Morris, que é deficiente auditiva, faz parte do esforço da redação do Times de dar mais atenção a cerca de 20% da população dos EUA que possui algum tipo de deficiência. Ainda nos EUA, o Vox está entrando uma nova era com a saída de seus principais fundadores e a entrada de Swati Sharma como editora-chefe. Nesta entrevista para o Nieman Lab, ela conta quais são seus planos para o veículo que inaugurou o jornalismo explicativo em ambiente digital. Dentre seus principais desafios estão manter o Vox como referência, evitar o burnout de seus jornalistas e construir uma redação diversa e inclusiva. Esta reportagem da Slate faz uma pergunta: o jornalismo (dos EUA) usou Trump para vender assinaturas. E agora? No texto, Elena Debré relata que os "alertas de notícias se aquietaram, assim como a própria indústria". E enumera estagnação e perda de audiência e assinantes de alguns dos principais veículos do país. No Novo em Folha, uma matéria sobre como o jornal Minneapolis Star Tribune envolveu a população da cidade em uma cobertura sobre os esforços para impedir o recrutamento de jovens da comunidade somali na região por radicais islâmicos. Duas matérias sobre a onda de sindicalizações em redações norte-americanas, ambas do Nieman Lab: como a equipe do Seattle Times criou um sindicato e uma história sobre demissões no The Appeal cinco minutos após seus jornalistas terem anunciado a formação de um sindicato. Aqui no Brasil, uma matéria do Comunique-se sobre a aposta do Metrópoles em ampliar a redação. Pra ir fechando o bloco, uma história interessante: um projeto na Nigéria quer digitalizar jornais publicados de 1960 a 2010. E no Reuters Institute, uma entrevista com Gustavo Faleiros, criador do InfoAmazônia, sobre o projeto de investigação que pretende contar histórias sobre florestas tropicais no Congo, sudeste asiático e Amazônia.


🍂 Aquele bloco de links rápidos. Usando Wayback Machine para a sua próxima investigação. | No Journalism.co.uk, como tirar o máximo de uma entrevista com especialistas. | Quatro links do Novo em Folha: residência em edição no NYT, bolsa para cinegrafistas, oficina de educação midiática com Jeduca e Abraji e lives da Agência Mural sobre sobre coberturas nas periferias. | Na Abraji, seminário discute leis de acesso à informação em quatro países. | A Lupa lançou uma newsletter gratuita que vai dar dicas sobre como não ser vítima de desinformação. Dá pra se inscrever aqui. | Um fio da RSF sobre o perfil dos jornalistas assassinados na última década na América Latina. "Quase metade dos jornalistas assassinados no Brasil, Colômbia, Honduras e México na última década relataram ter recebido algum tipo de ameaça antes de morrerem." | Os melhores podcasts para ouvir correndo, no Mashable. | Como lidar com a rejeição de suas propostas de pauta. | A bela homenagem feita pelo jornal britânico The Gazette a um menino morto por um raio enquanto jogava futebol.


É isso, moçada.

Cuidem-se aí. E bom final de semana.

Moreno e Lívia


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Português, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Seligman, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Caetano, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Nina Weingrill, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Renata Johnson, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Roogério Lauback, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Sylvio Romero Corrêa da Costa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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