NFJ#325 🍂 Como as plataformas rotulam jornalismo a partir do falso equilíbrio

Fact-checking na CPI? | Estudos sobre a infodemia brasileira | Nos EUA, como o jornalismo local vem se recuperando | Qual a melhor estrutura para uma newsletter? | Núcleo lança Monitor político

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Buenas, moçada!

Moreno aqui. De novo meio tarde, mas firme.

Antes de começar, queria lembrar vocês que, além da nossa campanha de financiamento coletivo recorrente, também estamos aceitando doações via Pix. Basta usar a chave 29382120000182. Considerem nos pagar um chopinho de vez em quando. Aliás, muito obrigado aos leitores que, nas últimas semanas, contribuíram com a NFJ.

Na NFJ#325, eu e a Lívia fizemos a curadoria e escrevemos o texto. A edição final é minha. Sempre lembrando que temos o apoio dos parceiros da ServerDo.in.

Bora.


🍂 Mais uma semana quente na CPI da Covid. Dada a quantidade de acusações de mentiras nas falas dos depoentes, o relator Renan Calheiros disse que estuda a possibilidade de contratar uma agência de fact-checking. Neste artigo para o UOL, Cristina Tardáguila comemora a intenção de Calheiros, mas pondera que o próprio senador também seria alvo de avaliação por parte dos checadores. Dois relatórios divulgados esta semana nos ajudam a entender a desinformação durante a pandemia no Brasil. O estudo de pesquisadores do Midiars (Laboratório de Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais), ligado à Ufpel, mostra que as disputas político-partidárias em torno da Covid-19 alimentam uma cadeia de desinformação cujo efeito é a redução na adesão da população a medidas de prevenção contra a doença. Ao final, os pesquisadores fazem uma recomendação importante: “ações dos veículos jornalísticos para evitar manchetes de baixa qualidade, de modo a impedir que sejam usados para dar credibilidade à desinformação”. O Nexo repercutiu a pesquisa. O estudo do Artigo 19 identificou que o governo é a principal origem de desinformação sobre Covid-19 no Brasil, num típico quadro de infodemia. A metodologia incluiu 20 pedidos via Lei de Acesso à Informação, e os autores relataram dificuldades e entraves nas respostas vindas dos órgãos públicos. O Poder 360 detalhou outros resultados. No ObjEthos, Vitória Ferreira reflete sobre os perigos da pós-verdade em tempos de pandemia. “Parte da sociedade tem deixado de lado pesquisas, estudos, depoimentos de profissionais da saúde e, sobretudo o jornalismo, para acreditarem naquilo que pensam ou então para acreditarem em pessoas que falam o que elas pensam”, afirma. Neste texto para o Nieman Lab, Tommy Shane dá uma orientação muito útil para que jornalistas não acabem amplificando a desinformação ao compartilharem imagens falsas: o uso de sobreposições (overlays), ou seja, um filtro visual colocado sobre uma imagem que contém informações incorretas. “Aplicar uma sobreposição a imagens de desinformação nos ajuda a fornecer contexto aos leitores. Isso também impede que eles as reutilizem em outros contextos”, diz.


🍂 Vocês viram. Israel e grupos palestinos anunciaram ontem um cessar-fogo mas, no último sábado, um prédio de 12 andares em Gaza, que abrigava escritórios da Associated Press e Al Jazeera, foi destruído por forças de Israel. A alegação foi que o prédio era também usado pelo Hamas. Mesmo com o alerta de evacuação, um jornalista palestino foi ferido no ataque. Leiam mais na agência Reuters e no CPJ.  No site da GIJN, orientações sobre o que fazer quando você ou suas fontes estão sendo seguidos. Entre elas, “não fale sobre seus planos nas redes sociais”. “Defensores de la democracia” é um site criado para contar as histórias de jornalistas assassinados no México. De acordo com a fundadora Alejandra Ibarra Chaoul, “ao preservar esses fragmentos da história, também estamos protegendo nossa memória e mudando o curso de nosso futuro”. O Reuters Institute fez uma matéria especial sobre a iniciativa. Aqui no Brasil, a mais recente pesquisa da Abraji mostra que praticamente metade dos 384 jornalistas entrevistados (48,44%) nunca fizeram pedidos de acesso à informação para apurar reportagens. Segundo este texto no site da Abraji, os jornalistas que não usam a LAI informaram que acham difícil usar a lei, que nunca precisaram dela e também que preferem fazer uso de outras fontes, como assessorias de imprensa. “Mesmo para aqueles que a utilizam, os problemas são frequentes: repórteres e produtores apontaram atrasos em respostas, sigilo indevido e respostas que não condizem com as solicitações”.


🍂 Vocês lembram da edição da Columbia Journalism Review que destacamos duas edições atrás. Aquela que tenta responder o que é jornalismo. Pois bem, queremos destacar mais um conteúdo interessante. Este artigo da Emily Bell sobre como o episódio da invasão do Capitólio pode ter sido um divisor de águas para as plataformas. "Essas empresas estão sendo chamadas à responsabilidade em relação à criação de um ecossistema de informação baseado em fatos. Não está claro o quanto elas estão preparadas para fazê-lo, e se elas algum dia vão investir em mecanismos pró-verdade em uma escala global. Mas depois da invasão do Capitólio as coisas nunca mais serão como eram antes", escreveu Bell. Em seguida, ela fala sobre a dificuldade que as plataformas têm de rotular o que é jornalismo (e que tipo de jornalismo) e o que não é. E como esses rótulos acabam tendo uma importância grande na definição de jornalismo para o público. "A relutância teimosa das empresas de tecnologia em se envolverem em questões editoriais culminou em uma definição aberta e confusa de jornalismo, uma definição que oferece um movimento hesitante em direção a um 'equilíbrio'", escreveu. Sem querer saber o que é jornalismo, Mark e seus amigos acabaram dando margem para iniciativas dominadas por opiniões e sem compromisso com os fatos serem alçadas ao patamar de jornalismo. Como sempre, vale a pena ler a reflexão de Bell. Também vale a pena dar uma boa olhada no ebook lançado pela Fenaj sobre o impacto das plataformas no jornalismo. A publicação traz análises sobre o modelo de negócios das plataformas, a evolução do mercado formal do jornalismo e a proposta da Fenaj de "taxar as grandes plataformas digitais, visando a constituição de um fundo para fortalecimento do jornalismo e pela valorização das e dos jornalistas".


🍂 Vamos às notícias da indústria jornalística? Vocês devem ter visto que Folha e O Globo estão disputando o posto de maior jornal do país. Esta matéria da LatAm Journalism Review explica os argumentos dos dois veículos e contou com análise da Lívia e também do professor Rogério Christofoletti. Para ele, “não basta chegar a todas as partes do país; um jornal nacional tem que trazer conteúdos de todos os estados, de todos os cantos. Nem Folha nem O Globo têm sucursais suficientes. Estou curioso para ver como vão oferecer conteúdo nacional que justifique todo esse marketing”. Este outro texto da LatAm mostra como jornalistas latino-americanos estão explorando o TikTok para atrair jovens leitores. Nesta entrevista para o ijnet, Ignacio Escolar, fundador do eldiario.es, conta como seu veículo tem atuado na crise de Covid-19 e afirma: o jornalismo digital foi fundamental neste ano pandêmico. Já falamos aqui que o Guardian está completando 200 anos, certo? Em comemoração, o jornal britânico lembrou seus melhores títulos no impresso e também fez um podcast com a editora-chefe Katharine Viner, sobre como a mídia pode ajudar a reconstruir um mundo melhor para além da Covid-19. O Quartz acaba de lançar Essentials, um recurso interativo que oferece uma seleção de histórias essenciais para contextualizar o que a audiência acabou de ler. Leiam mais sobre essa estratégia de engajamento no Journalism.co.uk. E vejam que ideia interessante vinda do New Naratif, veículo que cobre o sudeste asiático: quanto mais caro o plano de membership, mais conteúdos são liberados para quem não pode pagar. Mais detalhes no Nieman Lab.


🍂 O American Press Institute (API) publicou um relatório sobre como o jornalismo local dos Estados Unidos vem tentando se recuperar após um ano difícil. Apesar do foco ser no mercado norte-americano, a publicação traz alguns insights interessantes que podem ser pensados a partir do contexto brasileiro. Tais como as três prescrições sugeridas pela autora Jane Elizabeth: adaptar-se à realidade, reconhecer o valor da criatividade e apostar (mesmo) na diversidade, equidade e inclusão. Em seguida, Elizabeth lista sete desafios para fortalecer o jornalismo local nesses tempos difíceis: manter os leitores que chegaram com a pandemia, tornar a diversidade algo real nas redações, pluralizar as ações de combate à desinformação, repensar no ritmo noticioso, investir em jornalismo investigativo, explorar o potencial da colaboração e levar a sério a saúde mental dos jornalistas. Passem do API para o Nieman Lab. Deem uma olhada neste texto de Joshua Benton sobre a melhor "dieta informativa". Benton discute os principais resultados deste artigo, publicado pela The International Journal of Press/Politics, que analisou o consumo de notícias em 17 países europeus a partir das respostas de mais de 28 mil formulários, uma média de 1,7 mil por nação. Com as respostas em mãos, os autores criaram cinco categorias de usuários de notícias: "minimalistas noticiosos", "heavy users das mídias sociais", "tradicionalistas", "exploradores de notícias online" e "hiper consumidores de notícias". Querem saber os resultados? Um trecho: "aqueles com uma diante de notícias mais rica e seletiva ("exploradores de notícias online") são mais propensos a ter um nível maior de conhecimento e estarem mais vigilantes quando comparados a todos os outros grupos, com exceção daqueles que usam as mídias tradicionais e públicas, que são comparativamente mais bem informados do que todos os outros". Até aí tudo bem, escreveu Benton. Nenhuma surpresa, certo? Mas e os hiper consumidores? As respostas dos questionários não apontaram essa categoria como sendo uma categoria bem informada. "Isso foi o que me chocou", seguiu Benton. "Pra que servem aquelas 283 newsletters matinais na minha caixa de entrada se não for pra me fazer mais inteligente?" Pois é, meu caro Benton. Mesma coisa aqui.


🍂 No Laboratório de Periodismo, um texto sobre como Zoom Events pode ser uma boa oportunidade para os veículos pequenos e médios rentabilizem eventos digitais. | Seis fatores para considerar quando montar um estúdio em casa. | O Google está testando um botão de "seguir" no Chrome baseado em RSS. | O Núcleo lançou uma ferramenta que faz monitoramento político no Twitter. | Palavra Aberta oferece oficina de educação midiática em uma parceria com Abraji e Jeduca. Vai ser no dia 25 de maio. | Dicas para fazer a vida de freelancer sustentável, no Journalism.co.uk. | A jornalista Patrícia Campos Mello vai dar uma aula no Instituto Reuters sobre "como resgatar o jornalismo em uma era de mentiras". | Qual a melhor estrutura para uma newsletter?


É isso, moçada.

Bom final de semana e até sexta que vem.

Moreno e Lívia


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Schröder, Andrei Rosetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Português, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Seligman, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Caetano, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Nina Weingrill, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Renata Johnson, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Roogério Lauback, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Sylvio Romero Corrêa da Costa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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