NFJ#326 🍂 Violência contra jornalistas recrudesce em semana de ataques e perseguições

Pandemia e o descongelamento do jornalismo | A repercussão da demissão de jornalista da AP | Guardian lança formato para cegos | Newsgames contra a desinformação | Google News Showcase chega ao Brasil

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Buenas, moçada!

Moreno aqui, correndo para almoçar cedo e seguir tarde adentro riscando itens da lista de tarefas.

Antes de começar, aquele lembrete: além da nossa campanha de financiamento coletivo recorrente, também estamos aceitando doações via Pix. Basta usar a chave 29382120000182. Considerem nos pagar um cafezinho de vez em quando. Aliás, muito obrigado aos leitores que, nas últimas semanas, contribuíram com a NFJ.

Na NFJ#326, eu e a Lívia fizemos a curadoria e escrevemos o texto. A edição final é minha. Sempre lembrando que temos o apoio dos parceiros da ServerDo.in.

Bora.


🍂 Foi uma semana difícil para a liberdade de imprensa e de expressão no Brasil. Pedro Duran, jornalista da CNN, foi hostilizado durante ato pró-Bolsonaro no Rio de Janeiro e precisou ser escoltado pela polícia. Desde que fez reportagens sobre o envolvimento de policiais em grupos de extermínio em Camaçari (BA), o repórter Bruno Wendel, do jornal Correio, está sofrendo ataques e intimidações. A Abraji pediu esclarecimentos à Secretaria de Segurança Pública da Bahia. O jornalista Rodrigo Menegat foi acusado pela secretária do Ministério da Saúde Mayra Pinheiro de ter hackeado o sistema TrateCov. Ele se defendeu nas redes sociais explicando que usou o inspetor de elementos para acessar o código fonte do aplicativo, que é acessível a todos pela ferramenta. Em nota, a Abraji disse que a acusação não tem fundamento e que “o apelo à calúnia e difamação contra jornalistas na tentativa de se defender da exposição de falhas na atuação do governo federal é uma tática frequente do presidente Jair Bolsonaro e de seu alto escalão”. A pedido dos deputados bolsonaristas da CPI da Covid, a polícia do Senado abriu investigação contra o sociólogo Celso Rocha de Barros, colunista da Folha, por causa do artigo “Consultório do Crime' tenta salvar Bolsonaro na CPI da Covid”. Barros disse que não irá participar da videoconferência marcada pelos investigadores. O procurador-geral da República, Augusto Aras, apresentou uma queixa-crime à Justiça contra Conrado Hübner Mendes, professor da USP e colunista da Folha. Aras pede condenação por calúnia, injúria e difamação devido ao artigo “Aras é a antessala de Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional”. Esta matéria do UOL informa que a Abraji vem registrando aumento da brutalidade de ataques virtuais a mulheres jornalistas, desde o início da CPI da Covid.


🍂 Olhando para outros países do mundo, seguimos assistindo a uma escalada de ataques à imprensa. Em Belarus, o presidente Aleksandr Lukashenko interceptou o avião que transportava o jornalista Roman Protasevich, crítico ao governo. Ele foi preso e pode enfrentar pena de morte. Saibam mais, no Nieman Lab e no Estado de Minas. Nesta matéria do Financial Times dá pra entender melhor como Protasevich se transformou em um dos alvos preferenciais de Lukashenko. "Dez anos atrás muitos ativistas bielorrussos perceberam que o ativismo não seria suficiente para vencer, e que o jornalismo poderia fazer muito mais. Ao mesmo tempo, o jornalismo não poderia vencer sozinho. Foi aí que surgiram os mídia ativistas, uma categoria híbrida a qual Roman pertence", disse ao FT Franak Viacorka, assessora da líder oposicionista Sviatlana Tsikhanouskaya. No Peru, partidários do candidato à presidência Pedro Castillo perseguiram, insultaram e ameaçaram jornalistas do Canal N, segundo noticia o Clases de Periodismo. Este texto da GIJN afirma que fazer jornalismo investigativo no Iraque nunca foi fácil, mas agora está quase impossível.


🍂 Este novo relatório do Reuters Institute buscou entender como argentinos, brasileiros, alemães, japoneses, coreanos, espanhóis, ingleses e norte-americanos acessaram notícias sobre a Covid-19 mais de um ano após o início da pandemia. A boa notícia é que o jornalismo tornou-se ainda mais importante para as pessoas se manterem informadas. A confiança nas organizações de notícias diminuiu menos (8 pontos) do que a confiança no governo (13 pontos). Mais detalhes neste fio. Olhando para o Brasil, alguns resultados chamam atenção, como este: 46% consideram que o governo explicou melhor do que a imprensa sobre como a população será vacinada. A jornalista Luiza Bodenmüller fez uma ponderação pertinente: “Embora no texto eles falem em governo federal, a pergunta só menciona ‘governo’. Então, se o entrevistador não salientou que era federal, pode ser que as respostas foram sobre governos estaduais/municipais. Aí faz sentido”. Mais uma pesquisa, agora do Pew Research Center. Um terço dos grandes jornais dos EUA teve demissões em 2020, mais do que em 2019, mostrando o impacto da pandemia no negócio do jornalismo. Este texto do Poynter reflete sobre a dificuldade de fazer fact-checking da pandemia, dada a natureza da incerteza nas investigações científicas. Angie Holan cita o exemplo do uso de máscaras, que no início não eram tidas como necessárias e depois viraram obrigatórias. “Isso significa que as autoridades de saúde pública não são confiáveis? De jeito nenhum. Enquanto os jornalistas e o público desejam respostas instantâneas, a ciência se desenvolve em um ritmo mais lento. O conhecimento aumenta com o tempo e as respostas iniciais estão sujeitas a revisão e mudança”, afirma.


🍂 O Google News Showcase, programa de licenciamento que paga pelo conteúdo de determinados veículos jornalísticos, está agora disponível para usuários de desktop (news.google.com/showcase). O recurso está valendo em oito países, entre eles o Brasil. A nova atualização do sistema operacional da Apple marca o lançamento de assinaturas do Apple Podcasts. De acordo com esta matéria do The Verge, “os usuários de podcasts agora podem assinar o conteúdo do aplicativo para obter vantagens extras, como conteúdo bônus e sem anúncios, bem como acesso antecipado”. Coded Bias é um documentário da cineasta e ativista Shalini Kantayya (disponível na Netflix), que mostra as ameaças que a Inteligência Artificial representa para os direitos civis e a democracia. Além do filme, foi lançada a Declaração Universal do Direito aos Dados como Direitos Humanos. Este texto do Periodismo Ciudadano destaca que, entre os direitos expressos na declaração está o de “restringir a forma como nossos dados são usados ​​e limitar sua venda a terceiros intermediários de dados. Exigimos o direito de sermos informados sobre quem processa, armazena, divulga e recebe os nossos dados, por quanto tempo e para que fins”. É possível assinar a declaração.


🍂 Vamos às notícias da indústria? Talvez vocês tenham visto que a AP demitiu a jornalista Emily Wilder por violar o código de utilização de redes sociais da agência. Wilder, de 22 anos, recém havia sido contratada (ela começou no dia 3 de maio). Não ficou claro qual foi a sua violação, mas nesta matéria do Poynter Tom Jones escreve que provavelmente teve algo a ver com seus tuítes em favor do povo palestino e contra as ações do governo israelense. Não demorou muito para mais de 100 funcionários da AP assinarem uma carta aberta à direção da agência questionando a demissão de Wilder. No documento, também repercutido pelo Poynter, os funcionários dizem que a jornalista foi "desnecessariamente prejudicada" e que a "AP deveria estar do lado dos seus jornalistas contra "assédio online e campanhas que visam causar danos à reputação" dos seus profissionais. O Guardian lançou um formato experimental voltado para pessoas cegas ou com baixa visão. É o Auditorial, produzido em parceria com Google e Google and Royal National Institute of Blind People. A narrativa que inaugura o projeto é baseada em um episódio do Science Weekly Podcast sobre os efeitos devastadores causados pelas mudanças climáticas e por outras mudanças induzidas pelo homem nos sons da natureza. O resultado ficou muito interessante. Coloquem os fones e ouçam. Nesta matéria do Journalism.co.uk, Kevin Delaney, um dos fundadores do Quartz, reflete sobre o futuro do trabalho nas redações. "É muito comum que organizações jornalísticas fiquem congeladas às suas práticas e aos seus sistemas", ele disse. "Às vezes aparecem momentos excepcionais para apostar em um descongelamento. A pandemia tem se mostrado um fenômeno capaz de fazer isso, permitindo que as redações reavaliem suas práticas". Mais uma do Journalism.co.uk: por que o jornalismo deve estar atento às plataformas sociais emergentes.


🍂 Pra fechar, links rápidos. Leiam esta análise de Sylvia Moretzsohn sobre verdade, política e fascimo publicada no Objethos. | Seriam os newsgames uma vacina contra a desinformação? | Nove dicas para estreitar as relações entre jornalistas e pesquisadores. | Seis passos para as redações preservarem seus arquivos digitais. | Oito ideias para estudantes de jornalismo desenvolverem estratégias contra abusos virtuais. | Como responder a uma reclamação de leitor sem ficar na defensiva. | Como permanecer atento durante uma conferência virtual. | Natalia Viana foi selecionada como bolsista na Fundação Nieman. | A brasileira Natália Leal e a tcheca Pavla Holcová receberam o prêmio ICFJ Knight International Journalism Awards por suas atuações. Leal, pela luta contra a desinformação durante a pandemia; e Holcová, pela investigação do assassinato de um colega de profissão.


É isso, moçada.

Bom final de semana e até sexta que vem.

Moreno e Lívia


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Português, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Diogo Alcantara, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Dias, Felipe Seligman, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Caetano, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Nina Weingrill, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Renata Johnson, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Roogério Lauback, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Sylvio Romero Corrêa da Costa, Tai Nalon, Taís Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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