NFJ#327 ūüćā N√£o dar espa√ßo para as manifesta√ß√Ķes √© ignorar os filtros objetivos do jornalismo

Naomi Osaka e as coletivas de imprensa | Jornalismo e arte contra desinformação | Redes sociais e a censura | A origem do coronavírus e o jornalismo | As "dores e as delícias" do texto | Twitter Blue

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Buenas, moçada!

Moreno aqui, bem atrasado. Mas vamos nessa.

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A NFJ#327 tem curadoria e texto da L√≠via, com contribui√ß√£o minha. A edi√ß√£o final √© minha. Sempre lembrando que temos o apoio dos parceiros da ServerDo.in.

Bora.


ūüćā Muito se falou essa semana sobre a cobertura das manifesta√ß√Ķes contra Bolsonaro no 29M. A aus√™ncia do acontecimento na capa dos grandes jornais do pa√≠s - com exce√ß√£o da Folha - suscitou cr√≠ticas e compara√ß√Ķes. Na Piau√≠, Allan de Abreu fez o levantamento: ‚Äúdos 25 jornais de maior circula√ß√£o sediados em capitais que t√™m edi√ß√Ķes impressas aos domingos, apenas dez publicaram foto e chamada das manifesta√ß√Ķes na primeira p√°gina; outros seis optaram por chamadas discretas e nove n√£o mencionaram a not√≠cia em suas capas‚ÄĚ. Em artigo na Folha, Mathias Alencastro diz que, muitas vezes, quem critica a cobertura dos meios de comunica√ß√£o desconhece a complexidade do notici√°rio de um grande jornal ou de um canal de televis√£o, ‚Äúmas √© dif√≠cil encontrar uma justificativa para omitir a dimens√£o cerimonial da manifesta√ß√£o pol√≠tica de s√°bado‚ÄĚ. Cecilia Oliveira destaca, no El Pa√≠s, que pouco se viu tamb√©m nas coberturas ao vivo dos grandes canais de TV. Lembrando o recrudescimento de ataques a jornalistas pelo pa√≠s, ela chama aten√ß√£o para o risco de n√£o haver elei√ß√Ķes minimamente livres em 2022. ‚ÄúDe que lado da hist√≥ria a imprensa estar√°?‚ÄĚ, questiona. No Twitter, Ge√≥rgia Santos comenta o assunto fazendo alus√£o √† sua pesquisa de doutorado e afirma que o jornalismo faz escolhas o tempo todo, a partir de um filtro objetivo (os crit√©rios de noticiabilidade) e um filtro subjetivo, que pode ser vi√©s pol√≠tico. ‚ÄúPortanto, foi uma escolha ignorar os valores-not√≠cia. Porque n√£o dar espa√ßo a uma manifesta√ß√£o que reuniu milhares de pessoas, em diversas capitais de diversos estados, √© uma escolha que ignora os filtros objetivos do jornalismo‚ÄĚ. A BBC Brasil mostrou que a imprensa internacional cobriu os protestos com destaque. Sobre a compara√ß√£o com a cobertura do Guardian, Andr√© Eler pondera, no Twitter, que o destaque do jornal ingl√™s est√° correto, mas ‚Äún√£o faz sentido comparar uma capa de jornal impresso com uma mat√©ria de site. Os sites da imprensa brasileira tamb√©m cobriram (at√© de forma mais extensa) as manifesta√ß√Ķes‚ÄĚ. Igor Natusch destaca outro aspecto da omiss√£o dos protestos nas capas: a precariedade das reda√ß√Ķes. ‚ÄúEssa acomoda√ß√£o (‚Äėn√£o mexe muito na capa n√£o, isso vai dar uma trabalheira‚Äô) √© tamb√©m reflexo de reda√ß√Ķes esvaziadas, que hoje t√™m um ter√ßo (talvez menos) das equipes que tinham h√° uma d√©cada. A Folha teve editores mais dispostos a bancar a not√≠cia, e isso fez a diferen√ßa‚ÄĚ, diz o jornalista, no Twitter. Houve tamb√©m muitos relatos nas redes sociais de cancelamento de assinaturas de jornais. Luiza Bodenmuller afirma que o caminho n√£o √© esse e que o melhor - e mais dif√≠cil tamb√©m - ‚Äú√© cobrar por mudan√ßas na cobertura: da inclus√£o das manifesta√ß√Ķes √† diversidade editorial (e de equipe)‚ÄĚ.


ūüćā Naomi Osaka abandonou Roland Garros por discordar da pol√≠tica de m√≠dia do evento, talvez voc√™s tenham visto. Ela disse que n√£o iria participar das coletivas de imprensa para preservar a sua sa√ļde mental. Ap√≥s sua primeira vit√≥ria no torneio, n√£o falou com os rep√≥rteres, o que rendeu √† tenista n√ļmero 2 do mundo uma multa de US$ 15 mil. Em seguida, ela abandonou o torneio. Esta mat√©ria do NYT traz mais detalhes a respeito da decis√£o de Osaka e do que significa, para ela, evitar di√°logos que possam faz√™-la duvidar da pr√≥pria capacidade. O Novo em Folha tamb√©m fez um resumo do caso. Na CJR, Jon Allsop observa a decis√£o de Osaka √† luz da liberdade de imprensa. Para Allsop, a rela√ß√£o entre imprensa e atletas profissionais n√£o pode ser nem limitado, nem for√ßado. O desafio √© encontrar um meio termo. No Guardian, o colunista Jonathan Liew reflete sobre o papel da coletiva de imprensa. "A confer√™ncia de imprensa moderna n√£o √© mais uma troca significativa, mas sim uma transa√ß√£o para chegar a mais baixo denominador comum: um jogo c√≠nico e √†s vezes predat√≥rio no qual o objeto √© extrair o m√°ximo poss√≠vel de conte√ļdo do objeto. Fofocas: bom. Raiva: bom. Controv√©rsia: bom. L√°grimas: bom. Trag√©dia pessoal: bom", escreveu. Para Liew, isso acontece especialmente quando as entrevistadas s√£o atletas mulheres. "N√≥s n√£o somos mocinhos", seguiu Liew. "Uma das melhores atletas do mundo preferiu desistir de um Grand Slam a ter de falar conosco. Ao inv√©s de analisar a postura de Osaka, seria melhor analisarmos o que essa decis√£o diz sobre o nosso trabalho". Emily Bell n√£o concorda. "√Č totalmente equivocado chamar uma coletiva de imprensa ap√≥s um jogo de t√™nis de 'escrut√≠nio da m√≠dia'. Guarde essa indigna√ß√£o para pol√≠ticos e empres√°rios que fogem de suas responsabilidades, tentam destruir o jornalismo e investem $$$ em t√°ticas de desinforma√ß√£o". No Poynter, Tom Jones critica o mundo do t√™nis, onde as r√≠gidas regras s√£o mais importantes que a sa√ļde mental de seus atletas.


ūüćā O Aos Fatos acaba de lan√ßar o Artefato, ‚Äúmovimento que une o poder de mobiliza√ß√£o da arte e o rigor jornal√≠stico para combater a desinforma√ß√£o sobre a Covid-19‚ÄĚ. Nos pr√≥ximos cinco meses, 20 artistas de diferentes origens v√£o criar ilustra√ß√Ķes, pinturas e interven√ß√Ķes sobre a pandemia que ser√£o difundidas semanalmente nas redes sociais. Vejam os primeiros trabalhos, nesta galeria. Este texto do Nieman Lab toca num assunto delicado: a suposta origem do coronav√≠rus em um laborat√≥rio de Wuhan e a desinforma√ß√£o em torno disso. ‚ÄúO que acontecer√° se descobrirmos que uma ‚Äėteoria da conspira√ß√£o‚Äô, antes amplamente ridicularizada por fontes da grande m√≠dia e verificadores de fatos, pode realmente ser verdadeira?‚ÄĚ. Laura Owen cita este bom explainer no NYT e tamb√©m artigo de Jonathan Chait na New Yorker, no qual ele analisa que ‚Äúa cobertura da m√≠dia sobre a hip√≥tese do vazamento no laborat√≥rio foi um desastre. Enquanto alguns jornalistas levaram a quest√£o a s√©rio, muitos deles confundiram a hip√≥tese do vazamento no laborat√≥rio com diferentes afirma√ß√Ķes feitas por Trump e seus aliados: que o v√≠rus foi originalmente criado como uma arma biol√≥gica, ou mesmo que a China intencionalmente iniciou a pandemia‚ÄĚ. Mudando de assunto: vamos contar como foi o primeiro congresso de jornalistas negros e negras no Brasil. Gabriel Ara√ļjo fez um √≥timo resumo na newsletter da √Čnois e destacou 5 aprendizados a partir do evento: 1) N√£o basta uma pessoa negra para diversificar a cobertura e os agendamentos de determinado ve√≠culo: iniciativas de resist√™ncia e avan√ßo nas discuss√Ķes s√≥ s√£o bem-sucedidas quando o esfor√ßo √© coletivo. 2) A produ√ß√£o e veicula√ß√£o de pautas mais diversas colabora, mas n√£o resolve o problema: √© preciso capacitar profissionais para que as pr√≥prias abordagens da atividade jornal√≠stica sejam ancoradas em perspectivas plurais de compreens√£o de mundo. 3) Para al√©m das reportagens da m√≠dia de massa, existem experi√™ncias que t√™m dado certo: aos trancos e barrancos, portais de m√≠dia negra brasileiros v√™m contribuindo para evidenciar as especificidades desse pa√≠s continental, refor√ßando olhares pr√≥ximos para a cobertura do dia a dia. 4) Na mesma l√≥gica, mudan√ßas dessa ordem apenas ser√£o efetivas quando cargos estrat√©gicos de chefia e lideran√ßa forem ocupados por pessoas negras, mulheres, LGBT+ ou pertencentes a outros grupos marginalizados socialmente. 5) A luta antirracista deve ser protagonizada por pessoas negras. Mas isso n√£o invalida a participa√ß√£o ativa de pessoas brancas.


ūüćā O assunto agora √© plataformas. Come√ßamos com dois destaques de Casey Newton nas edi√ß√Ķes de sua newsletter: primeiro, ele explica como a censura se tornou a nova crise das redes sociais. ‚ÄúDa √ćndia √† Austr√°lia e √† Palestina, cada dia h√° um novo conjunto de hist√≥rias sobre indigna√ß√£o com a remo√ß√£o de conte√ļdo‚ÄĚ. Newton escreve tamb√©m sobre o fim de ‚ÄúFrom The Desk of Donald J. Trump", blog criado pelo ex-presidente dos EUA como alternativa √† sua exclus√£o das principais plataformas de redes sociais. Trump ordenou o encerramento do blog ap√≥s mat√©rias como essa do WPost noticiarem que ele n√£o era um sucesso de audi√™ncia. No Axios, Sara Fischer conta que o Twitter fez parceria com o veterano jornalista clim√°tico Eric Holthaus para lan√ßar um servi√ßo de not√≠cias sobre meteorologia nos EUA. A plataforma "Tomorrow" usar√° os novos servi√ßos do Twitter, como newsletters e salas de √°udio ao vivo. No Nieman Lab, Joshua Benton comenta o lan√ßamento do Twitter Blue, por enquanto dispon√≠vel somente no Canad√° e Austr√°lia, a US$ 3 por m√™s. Trata-se do primeiro servi√ßo de assinaturas da rede social, que d√° acesso a recursos exclusivos, como as op√ß√Ķes ‚Äúdesfazer tweet‚ÄĚ e ‚Äúmodo leitor‚ÄĚ. Benton afirma que esse conjunto de recursos √© ‚Äúbastante desanimador‚ÄĚ, embora seja √ļtil para jornalistas. O Guardian informa que a rede de TV ABC assinou cartas de inten√ß√Ķes com Google e Facebook para pagamento por seus conte√ļdos. Segundo o diretor David Anderson, a receita ser√° investida em servi√ßos regionais de not√≠cias. No Reynolds Journalism Institute, seis formas de incorporar o Clubhouse e o Twitter Spaces em sua estrat√©gia de audi√™ncia.


ūüćā Not√≠cias da ind√ļstria jornal√≠stica: The Economist lan√ßa seu primeiro curso sobre pol√≠tica, finan√ßas e tecnologia [Clases de Periodismo]. A Reuters adiou o lan√ßamento de seu paywall ap√≥s uma disputa com o provedor de dados financeiros Refinitiv. A mudan√ßa violaria um acordo de fornecimento de not√≠cias entre as duas empresas [Reuters]. Os tabloides ingleses Mirror e Sun afirmam que s√£o os jornais online mais lidos do Reino Unido. Disputa parecida com a de O Globo e Folha, como repercutimos na NFJ #325, lembram? [PressGazette]. O ve√≠culo colombiano Cerosetenta se juntou ao coletivo internacional de jornalistas Bellingcat e √† ag√™ncia de pesquisa Forensic Architecture para mapear a viol√™ncia policial durante os protestos em curso no pa√≠s [GIJN]. Duplica√ß√£o de sites, em que o conte√ļdo de um site √© hospedado em outro sem permiss√£o, pode custar milh√Ķes aos publishers e representam uma amea√ßa ao jornalismo [PressGazette]. Rashida Jones, primeira mulher negra a dirigir um grande canal de not√≠cias a cabo, o MSNBC, quer atrair telespectadores jovens por meio de conte√ļdos em outras plataformas e formatos, n√£o apenas no canal de TV [WPost]. Jornalistas do Daily Star, Times, Economist e South China Morning Post falam sobre como encontrar e atrair leitores mais jovens e diversificados [Journalism.co.uk].


ūüćā No Novo em Folha, informa√ß√Ķes sobre o semin√°rio produzido pelo jornal a respeito dos impactos da pandemia na popula√ß√£o. | Tamb√©m no Novo em Folha, informa√ß√Ķes sobre uma ferramenta que transcreve √°udios automaticamente em v√°rias l√≠nguas. | Nove formas para reda√ß√Ķes incorporarem mais o √°udio em suas produ√ß√Ķes. | Congresso da Abraji acontecer√° de 23 a 29 de agosto. | Est√£o abertas as inscri√ß√Ķes para o Semin√°rio de Pesquisa que acontece paralelamente ao Congresso da Abraji. | Edi√ß√£o do Vida de Jornalista sobre as "dores e as del√≠cias" do texto. | Comprova inicia a quarta fase com 33 ve√≠culos de imprensa. | Covid-19 mata um jornalista por dia no Brasil. | Como identificar oportunidades de crescimento de audi√™ncia. | Dia da Imprensa: Bolsonaro atacou ve√≠culos e jornalistas em 17 das suas 21 lives em 2021.


√Č isso, mo√ßada.

Bom final de semana e até sexta que vem.

Moreno e Lívia


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, Andr√© Caramante, Andr√© Schr√∂der, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Os√≥rio, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Casemiro Alves, Cec√≠lia Seabra, Clube do Portugu√™s, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Diogo Alcantara, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, F√™Cris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Dias, Felipe Seligman, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Caetano, Guilherme Nagamine, Jana√≠na Kalsing, Jo√£o Vicente Ribas, Jonas Gon√ßalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavald√£o, Lucia Monteiro Mesquita, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco T√ļlio Pires, Margot Pavan, Maria Elisa Maximo, Maria In√™s M√∂llmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Nat√°lia Levien Leal, N√≠colas Barbosa, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Os√≥rio, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Renata Johnson, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Roog√©rio Lauback, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, S√©rgio L√ľdtke, Silvio Sodr√©, Suzana Oliveira Barbosa, Sylvio Romero Corr√™a da Costa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington Jos√© de Souza Filho.

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