NFJ#328 🍂 "Nós somos jornalistas. Essa é a nossa missão. É como a gente pode ajudar."

O nascimento da Ajor | A perseguição a Leandro Demori | Para que serve a liberdade de imprensa? | Covid matou 155 jornalistas no Brasil | Apple ameaça indústria das newsletters | Use o WayBack Machine

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Buenas, moçada!

Moreno aqui, em chamas com a semifinal de Roland Garros entre Djoko e Nadal, que acontece enquanto faço a edição final da news. Quem não queria estar agora em Paris, em um evento com regras mais flexíveis em relação à presença do público, hein. Faz tempo que não falo de tênis, aliás, né. Os mais assinantes mais antigos sabem que uns anos atrás a NFJ era praticamente a Tennis Mag. Mas só aqui na introdução.

Porque o lance aqui é jornalismo.

Jornalismo, aliás, que segue não tendo vida fácil, como vocês vão ler nesta edição. Antes de começarmos, gostaria de prestar, em nome do Farol Jornalismo, solidariedade ao colega Leandro Demori, intimado a depor pela polícia do Rio de Janeiro.

Convido vocês a assinarem esta carta em apoio a Demori, elaborada pelos professores de Jornalismo e Comunicação da Unisinos e que já conta com centenas de assinaturas.

Antes ainda de começar, me deixem dizer mais uma coisa. Faz um tempinho que estamos recebendo o apoio da ServerDo.in, vocês sabem. Este apoio agora vai RENDER FRUTOS pra vocês também. Se liguem:

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Mais uma coisa, sorry: além da nossa campanha de financiamento coletivo recorrente, também estamos aceitando doações via Pix. Basta usar a chave CNPJ 29382120000182. Considerem nos pagar um cafezinho de vez em quando. Aliás, muito obrigado aos leitores que, nas últimas semanas, contribuíram com a NFJ.

A NFJ#328 tem curadoria e texto da Lívia, com contribuições minhas.


🍂 No Dia Nacional da Liberdade de Imprensa, comemorado na última segunda, dia 7, nasceu a Associação de Jornalismo Digital (Ajor), formada por 30 organizações que desejam fortalecer o jornalismo digital brasileiro. Entre elas estão Agência Pública, Nexo, Congresso em Foco, Meio, Ponte Jornalismo, Amazônia Real, Catarinas, o Eco e Jota. A Ajor vai trabalhar em três eixos: profissionalização e fortalecimento das associadas, defesa do jornalismo e da democracia e promoção da diversidade. Na live de lançamento, Natalia Viana, presidente da entidade patronal, destacou que “a Ajor é uma construção como nunca vi igual. É uma associação de muitas empresas comprometidas com valores, de diferentes lugares do Brasil, com modelos de negócio e formatos distintos (agências, sites, podcasts, newsletters)”. Mais detalhes neste texto da LatAm Journalism Review. A Ajor nasce num momento muito difícil para a liberdade do jornalismo no Brasil, como temos mostrado constantemente aqui na NFJ. E essa semana não foi diferente, vocês devem ter visto. A Polícia Civil do Rio de Janeiro abriu um inquérito para investigar o editor-executivo do Intercept, Leandro Demori, por uma newsletter sobre a possível existência de um grupo de extermínio agindo na corporação. “Em uma inversão total de prioridades éticas e funcionais, a polícia decidiu agir contra o jornalista mensageiro em vez de investigar a grave denúncia feita pelo editor-executivo do Intercept”, diz este texto no site do TIB. A Abraji considerou a intimação a Leandro Demori uma tentativa de cercear o trabalho da imprensa. O Intercept decidiu que Demori não vai depor, lembrando que a Constituição garante a liberdade de imprensa e protege o sigilo de fonte. Pra vocês terem uma ideia, a Folha fez até uma thread no Twitter relembrando, cronologicamente, ofensivas do governo Bolsonaro contra jornalistas nos últimos dois anos e meio. Mas a semana também teve notícia boa. O STF decidiu que o Estado deve indenizar profissional de imprensa ferido em manifestação. Em sessão realizada ontem, foi acolhido recurso do fotojornalista Alex Silveira, que perdeu a visão após ser atingido por uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar quando cobria uma manifestação em São Paulo. O Jota traz mais detalhes sobre a decisão. Pra fechando o bloco, vejam esta thread do JN sobre uma campanha que o jornal iniciou na edição de ontem e que pretende dividir com o público momentos de intimidade dos jornalistas em um contexto tão delicado e difícil. O objetivo é mostrar que, como disse William Bonner, "nós, jornalistas, damos as notícias que nós próprios vivenciamos". Em seguida, Renata Vasconcellos, emocionada, completou: "Nós somos jornalistas. Essa é a nossa missão. É como a gente pode ajudar". E terminem com este texto fundamental do professor Eugênio Bucci em que ele nos ensina por que a liberdade de imprensa é fundamental. Leiam o texto, mas aqui vai um spoiler: "Resposta curta: para que, bem-informados, os comuns do povo se capacitem para delegar o poder."


🍂 “Neste exato momento, milhões de brasileiros estão obtendo grande parte de suas informações sobre a Covid-19 por meio do Facebook, Telegram, YouTube e WhatsApp. Eles estão aprendendo a curar e prevenir essa doença mortal com hidroxicloroquina, vitaminas e ivermectina, um medicamento que combate piolhos. Como a ciência mostrou, nada disso funciona”. Assim a jornalista brasileira Patrícia Campos Mello abriu a Reuters Memorial Lecture, conferência anual do instituto inglês. Nesta entrevista, Campos Mello afirma que, embora não se possa culpar somente as plataformas pela desinformação, “em um país com as condições certas elas podem minar a democracia e o debate público”. Esse ecossistema de desinformação está influenciando diretamente a CPI da Covid. Neste texto para o ObjEthos - que abre uma série especial sobre a CPI - o professor Álisson Coelho observa que “não há informação de outra CPI no Brasil, talvez no mundo, em que questionamentos às testemunhas tenham sido influenciados em tempo real pelo público na internet. Além de perguntas, esses atores fazem checagens, circulam vídeos e trechos de falas (...) Esse alargamento dos canais de interação tem impacto direto no jornalismo”. E vejam que interessante esse levantamento do NYT: antes de ser banido das redes sociais por espalhar desinformação, Trump gerava um engajamento médio de 272 mil curtidas e compartilhamentos. Após a exclusão, esse número caiu para 36 mil. Neste texto para o Nieman Lab, Joshua Benton analisa que a deplataformização funciona, pois não se trata apenas do alcance que uma plataforma oferece, mas de todo um pacote de recursos que permite que as fake news se espalhem com sucesso.


🍂 A Fenaj atualizou os dados do dossiê de jornalistas vitimados pela Covid-19. Em 2021, até 2 de junho, foram registradas 155 mortes de jornalistas pela doença, um aumento de 277% na média mensal de mortes no comparativo com o ano de 2020. A presidente Maria José Braga também anunciou que a entidade entrou com uma Ação Civil Pública na Justiça Federal, contra a União, pedindo a revisão do Plano Nacional de Imunização para incluir os profissionais jornalistas. Este outro levantamento da ONG Press Emblem Campaign, divulgado pelo Clases de Periodismo, registrou 1.500 jornalistas mortos por Covid em 77 países desde o início da pandemia. Depois da Índia, o Brasil foi o que mais registrou mortes. Seguimos no assunto pandemia. Este texto da equipe do First Draft publicado no Nieman Lab faz uma análise muito interessante das principais teorias da conspiração e fake news que estão circulando nos EUA. Eles concluem que, apesar do esforço das agências de fact-checking, poucas pessoas estão clicando nas verificações. Em sua fala no Newsrewired, evento promovido pelo Journalism.co.uk, o pesquisador Wolfgang Blau afirma que as questões relacionadas ao meio ambiente e mudanças climáticas estão despertando cada vez mais atenção da audiência e serão o próximo “hot topic” no jornalismo, depois da pandemia. Ele elenca algumas semelhanças com a cobertura da Covid: “é um assunto difícil de reportar de forma envolvente, é complexo, requer algum grau de conhecimento científico, afeta as pessoas localmente, mas só podem ser superadas em um esforço global conjunto”. No Digiday, matéria sobre o aumento do investimento das organizações jornalísticas em programas de educação online, a partir do interesse das pessoas por cursos digitais durante a pandemia.


🍂 Vamos falar de jornalismo de dados? Selecionamos alguns textos sobre o assunto. No blog do professor Paul Bradshaw, a jornalista brasileira Beatriz Farrugia analisa os ângulos mais usados por jornalistas para contar histórias com dados. Mark Coddington e Seth Lewis comentam, na newsletter RQ1, este artigo de B.T. Lawson sobre como os jornalistas decidem quando confiar nos números. Lawson investigou o uso de dados por repórteres em cobertura de sete crises humanitárias em 2017. Ele descobriu que “esses profissionais dependem muito de números, geralmente fornecidos por ONGs ou pela ONU, mas raramente verificam, principalmente porque ‘se escondem atrás’ da credibilidade percebida de suas fontes”. Outro achado da pesquisa é que esses profissionais percebem que seu papel se limita à avaliação de fontes confiáveis, e não ao interrogatório direto do próprio número. No Poynter, Barbara Gray defende que professores o ensinem alunos a irem além da pesquisa básica do Google, utilizando outras bases de dados. Leiam este texto sobre como um jornalista de dados deve construir uma hipótese. No Twitter, Bruno Fonseca diz que há muita discussão sobre abordagens DDJ. “O caminho que temos traçado busca, sim, aprimorar técnicas de tratamento de dados, mas também manter como centrais o trabalho investigativo, a narrativa jornalística e a defesa dos direitos humanos”.


🍂 O mundo das newsletters tá em chamas, hein. Vejam só. Casey Newton, da newsletter Platformer, analisa como a Mail Privacy Protection, anunciada pela Apple nesta semana, pode afetar a distribuição de conteúdo jornalístico por correio eletrônico. Uma das principais características desse pacote de privacidade é limitar a quantidade de informação que remetentes de emails podem coletar de seus usuários. Entre elas, se o destinatário abriu ou não a mensagem. Aí fica difícil. Enquanto as plataformas não acabam com a nossa festa, dá pra ler este artigo do Laboratorio de Periodismo sobre como transformar os assinantes de uma newsletter em participantes de um programa de membros. Ainda sobre nossos queridos boletins por email, vocês viram que o Twitter vai adicionar um botão de assinaturas de newsletters na página de perfil. Mas só para quem tem conta na Revue. Enquanto isso, o Face segue na gestação de seu serviço de newsletters. Neste momento, Mark está selecionando que vai escrever para o Bulletin - e tentando evitar polêmicas à lá Substack.


🍂 Vamos ao nosso bloco final. Vocês devem ter visto, mas nesta semana rolou um apagão na internet que tirou vários veículos de comunicação do ar. | Na Global Journalism Investigative Network, um guia para investigar feminicídio. | Professores, participem de uma pesquisa sobre liberdade de expressão de docentes. | No Novo em Folha, informações sobre um prêmio para reportagens sobre sistema tributário. | Abraji lançou um curso para monitoramento e investigação de conteúdos digitais. | Estão abertas as inscrições para a nona edição do Prêmio Gabo. | O Sensacionalista tá indo pr'O Globo. | Edição especial da Cajueira sobre veículos jornalísticos da região Norte que valorizam "as vozes dos territórios e a diversidade regional". | Google lança no Brasil a plataforma Grasshopper, que ensina programação de graça. | 10 dicas para usar o WayBack Machine em suas investigações. | Seis passos para as redações preservarem seus arquivos digitais. | Jornalista lança livro sobre racismo nas relações inter-raciais. | No Journalism.co.uk, como manter o seu trabalho investigativo organizado. | O núcleo de Jornalismo do Insper lançou o Master em Jornalismo de Dados, Automação e Storytelling. | Vocês vão sentir saudade de trabalhar de casa.


Era isso. Vou ali ver Djoko e Nadal ;)

Bom final de semana e até sexta que vem.

Moreno e Lívia


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Claudia Gruszynski, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Barbara Nickel, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliveira, Caio Maia, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Português, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Diogo Alcantara, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Dias, Felipe Seligman, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Caetano, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Rafael Paes Henriques, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Renata Johnson, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Roogério Lauback, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Sylvio Romero Corrêa da Costa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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