NFJ#329 🍂 Caso Lázaro mostra que imprensa precisa abandonar o jornalismo declaratório

Os ganhadores do Pulitzer | A necessidade de regular Google e Facebook | TIB completa 5 anos | Livros sobre transparência | Bot compartilha tweets de políticos | Carrossel de jornalistas no Google

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Buenas, moçada!

Moreno aqui, abrindo a última edição de outono.

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Vamos nessa.

A NFJ#329 é 99% da Lívia e tá muito especial. Recheada de links e discussões.


🍂 Começamos com uma boa olhada nos ganhadores do Prêmio Pulitzer, o Oscar do jornalismo. Este texto do Poynter destaca que reportagens sobre Covid-19, raça e polícia dominaram os prêmios, enquanto histórias relacionadas a Trump estiveram ausentes da lista de vencedores. O BuzzFeed ganhou pela primeira vez, pela série de reportagens que expôs a detenção em massa de muçulmanos na China. Vale prestar atenção na utilização de alguns recursos interessantes, como imagens de satélite e modelos arquitetônicos em 3D. Este outro texto do Poynter lembra que freelancers raramente ganham Pulitzers mas, este ano, dois levaram o prêmio: Nadja Drost escreveu para a California Sunday Magazine sobre os migrantes da Colômbia e Panamá tentando chegar nos EUA; e Mitchell S. Jackson combinou, no Runner’s World, suas experiências como um corredor negro com reportagens sobre a morte de Ahmaud Arbery. No Nieman Lab, destaque para Darnella Frazier, a adolescente que filmou o assassinato de George Floyd e ganhou o Pulitzer honorário. O G1 também registrou a menção especial. O NYT venceu na categoria serviço público com a cobertura da pandemia nos EUA, como mostra esta matéria do Público. NYT e Associated Press foram os maiores ganhadores do ano. O Clases de Periodismo conta a história por trás da série de fotos premiada do jornalista espanhol Emilio Morenatti, que mostra a vida de idosos na Espanha durante a pandemia. Saíram também oa vencedores do Sigma Awards. Entre os melhores projetos em jornalismo de dados do mundo estão a série do Nexo Jornal “A tragédia, calculada”; e “No epicentro”, da Agência Lupa. O trabalho da Lupa também ganhou medalha de bronze no Malofiej. Baita orgulho! Pra fechar o bloco, saíram os indicados ao Prêmio Comunique-se.


🍂 Vocês estão acompanhando a cobertura jornalística do caso Lázaro, que tem sido chamado pela imprensa de serial killer, maníaco, psicopata e satanista? Lázaro Barbosa, de 32 anos, é suspeito de matar uma família em Ceilândia, no Distrito Federal. Mais de 200 policiais estão à procura do suspeito há 10 dias, com uso de drones e helicópteros, mas até agora não o capturaram. A história - com ingredientes singulares, é verdade -, tem feito emissoras de TV “brigarem por público”. Daniel Castro informa que programas da Record ganharam da Globo em audiência em SP e no DF. Nas redes sociais, jornalistas e leitores têm apontado problemas éticos na cobertura. O G1 chegou a pedir desculpas depois de críticas sobre intolerância religiosa. Vejam como o texto de um perfil de Lázaro havia sido titulado: “Fotos mostram que a casa de Lázaro Barbosa tem itens que indicam bruxaria e rituais, de acordo com a polícia”. Depois das críticas, mudaram para “Polícia divulga fotos da casa de Lázaro em Goiás”. Segundo o veículo, “a crítica principal é que, embora seja possível identificar nas imagens elementos de algumas religiões, não é possível associá-los a nenhuma crença ou culto, muito menos aos crimes cometidos por Lázaro”. Conforme observou o Poder 360, o G1 também apagou os posts em suas redes sociais, tirou os destaques no site e atualizou a reportagem para modificar o título e o texto. Em entrevista ao Bahia Notícias, o professor Samuel Vida defende que a imprensa ouça fontes “do candomblé e das demais religiões de matrizes africana antes da divulgação de informações que podem atingir os praticantes da doutrina”. No Twitter, Fabiana Moraes critica esta matéria do Metrópoles e afirma: “Em um país coalhado de intolerância religiosa e que há anos vem dividindo a população entre ‘pessoas do bem’ em contraponto a um outro terrível que pode ser exterminado, pq não dar aquela forcinha para mais desinformação e preconceito? Metrópoles, feliz 1376!”. Cecília Oliveira acrescenta, também no Twitter: “Vendo ‘matérias’ esdrúxulas sobre a busca ao Lázaro, citando práticas religiosas, lembrei: No caso Flordelis veicularam imagens da Bíblia e versículos de matança - sem provas? E veja, estamos no auge da discussão do Caso Evandro e erros jornalísticos… É muito desanimador”. Um último comentário sobre o assunto, desta vez nosso: percebam que as classificações “psicopata”, “maníaco” e “satanista” foram feitas pela polícia e estão sendo simplesmente reproduzidas pela imprensa. Como lembrou Cecília, depois de casos como o de Evandro, Eloá e o da Escola Base, a imprensa precisa abandonar de vez o jornalismo declaratório e realizar uma cobertura mais responsável.


🍂 O Núcleo Jornalismo lançou o bot Weber, que compartilha os tweets mais populares de políticos brasileiros a cada três horas. No Valor Econômico, dados sigilosos enviados pelo Google à CPI da Covid mostraram que canais no YouTube, entre eles de apoiadores de Bolsonaro, ganharam dinheiro disseminando notícias falsas sobre a pandemia antes que seus vídeos fossem apagados da rede social. Outra onda de desinformação se espalhou esta semana após o colapso em campo do jogador de futebol dinamarquês Christian Eriksen. De acordo com o First Draft, houve insinuações de que o incidente seria fruto de uma miocardite provocada pela vacina contra a Covid-19. O jogador sequer foi vacinado ainda. Segundo o Media Talks, o blogueiro brasileiro Allan dos Santos também foi citado pelo First Draft por ter compartilhado a desinformação. Leiam este relato sobre o Squash, primeira plataforma automatizada de verificação de fatos. Bill Aidar conta, no Poynter, os erros e acertos do projeto ao longo de quatro anos. Um dos principais desafios está na conversão de áudio em texto, que ainda tem muitos erros. O Journalism.co.uk traz uma discussão bem interessante sobre deepfakes, uma preocupação crescente nas redações. Sam Gregory, da empresa Witness, falou sobre o Content Authenticity, iniciativa liderada pela Adobe, NYT e Twitter para "rastrear a atribuição, proveniência e manipulação de mídia audiovisual para fins de jornalismo, ativismo ou criatividade”. Vale ficar de olho.


🍂 Continua agitadíssimo o mundo das plataformas. No Gizmodo, Caio Maia defende que a sociedade precisa entender a necessidade de regular Google e Facebook. Ele cita carta aberta da News Media Canada ao primeiro-ministro Justin Trudeau, que “ambos têm um histórico de mudanças nos algoritmos para tirar tráfego dos produtores de conteúdo original e manter nos próprios sites”. (Aproveitamos pra agradecer ao Caio pela indicação da NFJ no final do artigo). O Globo noticia revés para as Big Techs na União Europeia, que decidiu que órgãos nacionais têm autoridade para regular as gigantes. Neste artigo, Mary Snapp, vice-presidente de Iniciativas Estratégicas da Microsoft, compartilha alguns progressos do Journalism Initiative, que apoia redações locais dos EUA. Treinamento com veículos de comunidades rurais e assistência jurídica a jornalistas estão entre as ações. Falando em jornalismo local, este texto do Local News Initiative mostra como organizações jornalísticas estão investindo em aplicativos de notícias próprios, uma alternativa às plataformas. O Google está testando um carrossel para apresentar textos de jornalistas. Mathew Ingram conta como foi o painel da CJR com especialistas sobre moderação de conteúdo online. E dois lançamentos: podcasts chegam ao Facebook na próxima semana e o Spotify divulga seu aplicativo de áudio ao vivo - e rival do Clubhouse -, Spotify Greenroom.


🍂 Peguem fôlego porque hoje tem muitas notícias sobre a indústria jornalística. Bora? Pela primeira vez, o BuzzFeed vai pagar pelo conteúdo de contribuição do usuário - até US$10.000 por postagem [Variety]. Com o lema “distribuição é algo que computadores podem fazer melhor”, Sophi, startup de inteligência artificial do The Globe and Mail, vem se expandindo e ganhando prêmios [Digiday]. Por que as estrelas da New Yorker não aderiram ao sindicato? Ben Smith conta os bastidores da disputa trabalhista na revista [NYT]. A BBC quer buscar novas maneiras de lucrar com sua presença crescente no exterior [Journalism.co.uk]. Joshua Benton critica a intenção do Wall Street Journal de fazer com que seus repórteres paguem para usar suas próprias reportagens em livros [Nieman Lab]. Reuters, La Repubblica e The Sunday Times decidiram encontrar novas maneiras de monetizar seu conteúdo [Journalism.co.uk]. Tom Jones discute a treta da semana nos EUA: O Departamento de Justiça teve acesso, em segredo, a registros de telefone e e-mails de jornalistas do NYT, WPost e CNN durante o governo Trump. Aparentemente, a prática continuou durante os primeiros meses de Biden como presidente [Poynter]. O jornalismo sem fins lucrativos cresceu em 2020 nos EUA, e doadores individuais são cada vez mais importante [Nieman Lab]. Desertos e semidesertos de notícias ocupam três quartos da Argentina e atingem um terço da população [LatAm Journalism Review]. Abril renegocia R$ 830 mi em dívidas com o governo e oferece Veja como garantia [Folha]. Como a falta de correspondentes brasileiros na China afeta a percepção dos dois países [LatAm Journalism Review]. The Intercept Brasil completa 5 anos e busca 5 mil novos apoiadores [TIB].


🍂 O WPost está procurando um jornalista para trabalhar no Rio de Janeiro. Nada mal essa vaga, hein? | Jornalistas compartilham dicas para quem deseja ser correspondente internacional. | O professor Rogério Christofoletti indica dois livros recentes sobre transparência no jornalismo. | A Unesco vai lançar um ebook sobre práticas inovadoras para fortalecer o jornalismo. | Prêmio Adelmo Genro Filho está com inscrições abertas. | No Twitter do Vida de Jornalista, um chamado para ouvir o episódio sobre a denúncia de assédio sexual e moral na CBF. | No Novo em Folha, informações sobre um curso de verificação de conteúdo digital da Abraji. | No Guardian, histórias de imigrantes contadas pelos próprios. | Dicas para lidar com a síndrome do impostor. | Como a pandemia agravou nossa saúde mental. | O Sul21, de Porto Alegre, lançou sua nova identidade visual e um novo site. O Digital News Report 2021 sai na semana que vem. Vocês já sabem qual será o tema da NFJ#230 ;)


É isso, moçada!

Bom final de semana e até sexta que vem.

Moreno e Lívia


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Barbara Nickel, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliveira, Caio Maia, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Português, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Diogo Alcantara, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Dias, Felipe Seligman, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Caetano, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Rafael Paes Henriques, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Renata Johnson, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Roogério Lauback, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Sylvio Romero Corrêa da Costa, Tai Nalon, Tais Seibt, Tiago Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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