NFJ#330 ❄️ Especial Digital News Report

Relatório do Reuters Institute expõe um jornalismo global sob pressão financeira, com seu senso de justiça questionado e disputando credibilidade com celebridades e influenciadores nas redes sociais

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Buenas, moçada!

Moreno aqui.

Que tal vai a coisa por aí? Por aqui, o inverno no CHARCO SULAMERICANO começou. E começou daquele jeito: umidade a 460%, chuva e mais frio dentro de casa do que fora. No mais, semestre virando: agora é reta final rumo ao Natal.

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Vamos nessa.

Hoje a NFJ tá especial. É uma edição exclusiva para DESTRINCHARMOS o Digital News Report 2021, um dos relatórios mais importantes sobre o jornalismo global, produzido pelo Reuters Institute. Quem é da casa há mais tempo vai lembrar que fazemos isso desde 2015, e seguimos em 2016, 2017, 2018, 2019 e 2020.

Já é uma história, hein.

O relatório deste ano traz insights sobre o consumo de notícias digitais a partir de um questionário online, feito em parceria com o YouGov, com mais de 92 mil pessoas de 46 países - incluindo o Brasil. Este ano foi a primeira vez que Índia, Indonésia, Tailândia, Nigéria, Colômbia e Peru entraram na pesquisa.

Dividimos a nossa análise em seis partes: dados do Brasil + os cinco capítulos que compõem o report da Reuters: percepção de justiça das coberturas, imparcialidade, jornalismo local, financiamento do jornalismo e uso de mídias sociais para notícias.

Aqui vocês acham os key findings da pesquisa. E aqui tem um vídeo.

E na semana que vem vamos trazer uma entrevista com Rasmus Kleis Nielsen, diretor do Reuters Institute e professor da Universidade de Oxford. Aguardem!

A NFJ#330 foi redigida pela Lívia e por mim.

Bora.


❄️ Bora começar com os dados do Brasil. Rodrigo Carro, que assina o texto, contextualiza o cenário do nosso país com informações sobre o negacionismo de Bolsonaro na gestão da pandemia de Covid-19 e sobre os crescentes ataques à imprensa. Com relação à indústria jornalística, Carro destaca a queda na circulação dos jornais impressos, o crescimento dos leitores digitais, a força da TV aberta (e a perda de assinantes pela TV fechada), o investimento da Globo Play em podcasts e o lançamento da CNN Brasil. Agora, vamos aos dados. Em termos de alcance, a TV Globo lidera na categoria TV, rádio e impresso, com 46%. No online, G1/GloboNews aparecem em primeiro, com 48%. Os respondentes consomem notícias, prioritariamente, online (83%), seguido por redes sociais (63%), TV (61%) e impresso (12%). Por conta de uma mudança na metodologia, os pesquisadores recomendam que não se faça comparações com os resultados de 2020. De qualquer forma, o cenário se manteve bem parecido, com exceção do impresso - que caiu de 23% para 12%. Smartphone continua sendo o device mais utilizado para notícias (77%). O percentual de pessoas que pagam por notícias é de 17%. Pra vocês terem uma ideia comparativa, a Noruega lidera esse quesito (45%), enquanto os países que têm os piores índices são França (11%), Alemanha (9%) e Reino Unido (8%). 47% dos brasileiros compartilham notícias por redes sociais, mensagens ou e-mail. Facebook é a rede social mais utilizada para notícias (47%), seguido por WhatsApp (43%), YouTube (39%), Instagram (30%), Twitter (12%) e Facebook Messenger (11%). O Poder 360 destacou a queda do acesso às notícias por mídias sociais. A incerteza trazida pela crise da Covid-19 fortaleceu a busca por informações confiáveis. A confiança geral nas notícias é relativamente alta (54%), se comparada à média global (44%), com um índice menor nas notícias publicadas nas redes sociais (34%) e pelas buscas (48%). As organizações televisivas tendem a ser mais confiáveis (SBT aparece em primeiro, seguido por Record e Band), junto com os jornais locais e regionais. O Terra menciona esse aumento da confiança nas notícias e a LatAm Journalism Review faz a ressalva de que a confiança ficou abaixo da média mundial na América Latina (com exceção do Brasil).


❄️ Este ano, o Digital News Report mediu a percepção de justiça na cobertura jornalística, entre diferentes grupos. O objetivo foi entender melhor a avaliação do público sobre como os veículos cobrem pessoas como eles. Olhando para uma amostra que inclui Brasil, Alemanha, Japão, Espanha, Reino Unido e EUA, o relatório identificou que pessoas com visões políticas definidas são mais propensas a pensar que a cobertura da imprensa é injusta. “Os dados do Japão, Brasil e Espanha se encaixam particularmente bem com o fenômeno da 'mídia hostil', uma longa tradição de pesquisa que mostra que partidários políticos opostos tendem a ver a cobertura da mídia como tendenciosa contra eles”, diz Richard Fletcher, que assina o texto. Ele acrescenta que, na maioria dos países, os da direita são mais propensos a pensar que a cobertura é injusta. Fletcher enfatiza que, embora os partidários pareçam mais sensíveis sobre a cobertura de seus pontos de vista, deve-se ter cuidado para não descartar totalmente essas percepções, “pois elas também podem estar destacando preocupações genuínas”, já que jornalistas e publishers muitas vezes reconhecem a falta de diversidade política dentro de suas organizações. Os resultados também evidenciam que a falta de cobertura de um assunto está fortemente relacionada às percepções de injustiça. No Brasil, a proporção que pensa que sua classe social e econômica está coberta de maneira insuficiente é de 70%.


❄️ Com relação à imparcialidade, o relatório mergulha nos dados de quatro países: Brasil, Reino Unido, Alemanha e EUA. A questão de investigação é: Quão importante é o jornalismo imparcial e objetivo para o público? Os resultados mostram que a ampla maioria das pessoas nesses países deseja que os veículos jornalísticos, ao fazerem reportagens sobre questões sociais e políticas, reflitam diferentes pontos de vista e deixem para elas decidirem. Poucos são a favor dos meios de comunicação “defendendo as opiniões que consideram melhores”. De acordo com Craig Robertson, autor do texto, há um pouco mais de apoio a essa posição minoritária entre os jovens (com menos de 35 anos) e os da esquerda política, mas continua sendo uma porcentagem menor. Em comparação com outras perguntas desse tópico, uma minoria maior de pessoas nesses quatro países acredita que há algumas questões em que a neutralidade não faz sentido. Também está claro quem tem mais probabilidade de fazer parte dessa minoria substancial: os mais jovens e os da esquerda política. O Brasil tem o maior percentual: 37%, contra 56% que acham que os veículos deveriam tentar ser neutros em todos os assuntos. “No Reino Unido, Estados Unidos e Brasil, o sentimento é de que há menos necessidade de ser neutro quando se trata de questões como racismo e violência doméstica”, diz Robertson. 


❄️ O assunto agora é jornalismo local. De acordo com Anne Schulz, “a mídia local e regional está sob imensa pressão financeira à medida que a atenção do público e os orçamentos de publicidade fluem cada vez mais para grandes plataformas e outros concorrentes”. Os resultados indicam, de maneira geral, que o valor que as pessoas dão à mídia local e regional está cada vez mais restrito a um pequeno número de assuntos, como política local e polícia. Já para se informar sobre questões locais como moradia, empregos e “coisas para fazer” - que costumam fazer parte da cobertura da mídia local - as pessoas preferem outros sites na internet ou mecanismos de busca. Especificamente sobre os assuntos locais mais acessados, em 38 países dois temas se destacaram: cerca de metade disse ter procurado informações locais sobre o coronavírus ou outras notícias de saúde (53%) e a mesma quantidade disse ter acessado as previsões meteorológicas locais (50%). Essa concorrência de plataformas e sites especializados com o mídia local, que Schulz chama de “grande separação”, revela “a importância de uma proposta de valor mais clara para a mídia local que deseja se destacar das muitas fontes alternativas de informação disponíveis”. A autora também pondera que, embora assuntos sobre política local tenham destaque nos veículos jornalísticos, apenas um terço dos respondentes afirma ter acessado essas informações na última semana. “Portanto, a mídia local tem pontos fortes claros, mas em um ambiente de mídia muito competitivo, a demanda efetiva pode ser limitada”, afirma.


❄️ Em relação à grana, pessoal, a coisa segue não muito boa. (Vale lembrar que o Brasil e outros países da América Latina, estão fora desta análise.) A abertura do capítulo sobre financiamento da indústria jornalística diz mais ou menos o seguinte. Até tem gente disposta a pagar por assinaturas, e alguns veículos têm conseguido bons resultados com essa estratégia. Mas a maioria ainda não tá muito afim de desembolsar nada pelo nosso trabalho, ainda mais quando há uma abundância de notícias gratuitas lá fora. O resultado? O cenário de negócios, para a maioria dos publishers, segue sendo desafiador, quando não precário. E o que fazer? Intervenção estatal é uma das alternativas, sublinham os autores, como temos visto recentemente, especialmente a partir das iniciativas de regulação das plataformas. Mas para que os governos ajudem o mercado de mídia, o público precisa pensar parecido. E o que o público acha dessa questão? Na verdade, acha muito pouco. A contar a quantidade de respostas "não sei" sobre o assunto, a verdade é que o pessoal não tá muito atento aos desafios de sustentabilidade enfrentados pelo jornalismo. Vejam só: quando perguntadas sobre se a mídia comercial está lucrando mais ou menos do que há dez anos, 36% das pessoas (de 33 mercados) disseram não saber. Chama a atenção também a proporção de gente que não está preocupada com a situação financeira das organizações jornalísticas. Em geral, é bem maior do que a proporção dos que estão preocupados. Na Europa Oriental, então. Se liguem: na Bulgária e na Hungria, 75% e 71%, respectivamente, dos respondentes dizem não estarem preocupados. Essa despreocupação (desinteresse?) acaba se refletindo na percepção de necessidade de intervenção estatal. Ou seja, o subsídio público não é uma ideia, em geral, bem vinda. "A maioria não possui um entendimento básico sobre a situação financeira atual da indústria, e apenas uma minoria apoia intervenção estatal. [...] Mesmo entre os que estão mais preocupados, poucos apoiam a intervenção governamental como solução", escreveram os autores.


❄️ E como está aquela nossa velha conhecida relação entre jornalismo e mídias sociais? Olha, segundo o Digital News Report, o consumo incidental de notícias aparece como um fator relevante. Mais em algumas plataformas do que em outras, como vocês já sabem. O Twitter é considerado um "destino primário" para obtenção de notícias - especialmente no mundo ocidental. No Reino Unido, por exemplo, 21% o consideram uma boa plataforma para "saber das últimas notícias", enquanto 56% dos usuários do Facebook consomem notícias incidentalmente enquanto fazem outras coisas. Mas a coisa muda um pouco de figura na Malásia. Vejam que interessante: lá, 25% acham o Twitter uma boa fonte de notícias recentes e 22% veem o Facebook da mesma forma. E que fontes chamam a atenção das pessoas? Simge Andı, a autora do capítulo, observa que o jornalismo vem, cada vez mais, disputando espaço com outras fontes de informação presentes nas redes, como políticos e celebridades. A mídia comercial ainda tem mais vez em plataformas como o Twitter e o Facebook, mas mesmo nessas duas grandes plataformas a concorrência vem se acirrando. Agora vejam a Índia: lá, nas quatro principais plataformas (FB, Twitter, Instagram e YouTube), as pessoas preferem se informar por celebridades da internet. Tal cenário se expande quando entram as plataformas mais populares entre os jovens abaixo dos 35 anos. Em todos os mercados, usuários de Instagram, Snapchat e TikTok preferem se informar a partir de influenciadores (36%, 37% e 40%, respectivamente). Os meios tradicionais estão atentos, claro. Simge Andı lembra de iniciativas do Guardian e do WP como exemplos do jornalismo tradicional tentando chegar às novas audiências (e adaptando os valores jornalísticos à lógica e à estética das redes), mas sublinha que esses movimentos dependem, no fim das contas, dos algoritmos para chegarem ao público alvo. "As mídias sociais são um espaço complexo para as organizações jornalísticas mainstream navegarem. [...] Mas dado o tempo que as pessoas despendem usando redes sociais - e os perigos da desinformação - parece importante que o jornalismo encontre formas de se adaptar a esses espaços informais, especialmente se as organizações de notícias quiserem chegar às pessoas não muito interessadas em jornalismo e aos jovens, e especialmente se as empresas convencerem os publishers de que as plataformas entregarão um retorno razoável do investimento", escreveu.


É isso, moçada!

bom final de semana e até sexta que vem.

Moreno Osório e Lívia Vieira


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Barbara Nickel, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliveira, Caio Maia, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Português, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Diogo Alcantara, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Dias, Felipe Seligman, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Caetano, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Rafael Paes Henriques, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Renata Johnson, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Roogério Lauback, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Sylvio Romero Corrêa da Costa, Tai Nalon, Tais Seibt, Tiago Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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