NFJ#332 ❄️ Jornalismo de dados é, antes de tudo, jornalismo; e jornalismo também é discurso

A repercussão da matéria da Folha sobre as vacinas vencidas | Os primeiros resultados do State of The News Media | Uso da LAI por jornalistas | Como construir uma hipótese

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Buenas, moçada!

Moreno aqui, querendo pegar um voo pra Londres AGORA pra me dividir entre Wembley e o All England Club no próximo domingo. Sonha, infeliz.

Hoje tô sozinho. Lívia tá curtindo uns dias em algum lugar dos trópicos por aí.

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Certo, vamos nessa.

Lembram que na semana passada falei que esta seria uma edição especial sobre o State of the News Media? Pois é, mudei de ideia. O relatório do Pew ainda está nesta edição. Mas o destaque é a discussão sobre a matéria da Folha a respeito das vacinas vencidas. Achei que seria interessante fazer uma sistematização do que rolou. Pode ser que seja útil para pensarmos sobre o que aconteceu. E sobre como podemos ir adiante.

Os quatro primeiros blocos são sobre isso. Depois, falo sobre uma parte da State of the News Media. O último é um bloco misto. Tem coisas rápidas e outras nem tanto.

Bora?


❄️ Vocês certamente viram. No dia 2 de julho, a Folha de S.Paulo publicou esta matéria com o seguinte título: "Milhares no Brasil tomaram vacina vencida contra a Covid; veja se você é um deles". No mesmo dia, prefeituras emitiram comunicados negando a aplicação de doses vencidas. Entre elas, Maringá, que teria aplicado 3.536 doses de AstraZeneca fora da data de validade. Jornalistas, pesquisadores e cientistas foram verificar a apuração da Folha. Rodrigo Menegat foi um deles. Ele se debruçou nos dados da cidade paranaense para ver o que estava acontecendo e descobriu uma inconsistência clara: um lote que inicialmente havia sido aberto em fevereiro "reapareceu" em abril, quando mais de 3 mil doses teriam sido aplicadas no mesmo dia. A partir da análise de Menegat, chega-se à conclusão de que provavelmente ocorreu um atraso no input no sistema que alimenta do DataSUS, e não necessariamente que todas essas doses chegaram ao braço das pessoas fora do prazo de validade. Ou seja, há fortes indícios de ser um problema no banco de dados.


❄️ Uma das críticas feitas à reportagem é que a Folha poderia ter feito essa verificação - um dos pilares do jornalismo de dados - antes de publicar a matéria. Aliás, na versão brasileira do Data Journalism Handbook, de 2014, publicação referência da área, a jornalista Amanda Rossi já chamava a atenção para a inconsistência dos dados do SUS a partir de um projeto de jornalismo cidadão em Januária (MG). Essa derrapagem no método da Folha foi evidenciada pelo Observatório COVID 19 BR, entre outros atores que estão dentro do tema. "O que os jornalistas identificaram foram inconsistências, infelizmente corriqueiras, que podem estar associadas a eventuais falhas vacinais por aplicação de doses vencidas, mas que muito provavelmente se devem apenas a incongruências entre bancos, problemas de digitação, exportação e inserção de dados, bem como de disponibilização das informações", escreveram os integrantes do Observartório no artigo também replicado pela Folha. Além de não identificar a inconsistência, outra crítica oriunda de dentro do campo profissional, especialmente de uma parcela da comunidade que trabalha com jornalismo de dados, foi a abordagem jornalística que resultou de uma análise sem muita cautela. "Eu acho que o banco de dados nacional de vacinação ser uma bagunça é digno de notícia, sim. Mas não foi isso que noticiaram hoje: noticiaram que milhares de brasileiros haviam recebido vacinas vencidas. Não temos elementos suficientes para afirmar isso", escreveu Menegat.


❄️ A crítica, no entanto, não foi muito bem recebida por outra parcela de jornalistas e divulgadores científicos. O professor de Medicina da USP Paulo Lotufo, por exemplo, tuitou: "Os egos excitados dos 'gênios dos dados' não perceberam que o problema não está na imprensa, mas sim no sistema de saúde com um sistema de informação precarizado há décadas?" Um dia depois, a Folha publicou um artigo de Carlos Orsi e Natalia Pasternak com o título "Jornalistas apontam falhas do sistema de vacinas e viram alvos dos 'puros'". No texto, Orsi e Pasternak chamam de "negacionismo do bem" criticar o trabalho dos repórteres que, em meio à "urgência de levar vacinas a todos", evidenciaram, de maneira transparente, falhas e fragilidades nos dados do sistema de saúde federal. Pasternak também fez este fio em que condena os ataques recebidos pelo autor e autora da matéria original (postura adotada também pela RedeComCiência), especialmente Sabine Righetti, e afirma que a "maioria da população tem perfeita capacidade de entender e lidar com os fatos".


❄️ Mas como disseram Menegat e Judite Cypreste, jornalismo de dados é, antes de tudo, jornalismo. E jornalismo também é discurso. A forma como o jornalismo diz as coisas também deve ser levada em consideração, às vezes tanto quanto o que é dito. A matéria da Folha, especialmente com o seu título original, pode até ter jogado luz nas inconsistências nos dados da saúde do país. Mas, como disse Pedro Burgos neste texto, a matéria teve pouca preocupação com as possíveis consequências daquela leitura da realidade (a análise dos dados e sua posterior comunicação). Tanto é que a Folha admitiu o erro e publicou uma correção, ainda que quatro dias depois. "A diferença entre as versões é que, na primeira, estava embutida a suposição de que os dados do DataSUS constituem retrato fiel da realidade, ao passo que, na segunda, não há essa suposição", diz o texto. No Estadão, Pedro Fernando Nery chamou a atenção para o papel do viés de confirmação. "Em um momento em que não faltam escândalos de vacinas, a história parecia possível, a cereja do bolo para autores, editores e todos nós ávidos em compartilhar o conteúdo". No Twitter, Luiza Bodenmüller lembrou o que pode representar a demora da Folha em admitir o erro. "Quando a gente fala em 'crise de confiança' no jornalismo, é preciso levar em conta que boa parte dela está na demora em reconhecer e reparar erros." Pra fechar esse tema, vale ouvir o episódio mais recente do podcast Jogando Dados, que repercutiu o caso.


❄️ Agora vamos falar do State of the News Media. Vocês sabem, o State of the News Media é um importante relatório anual sobre a indústria jornalística norte-americana produzido pelo Pew Research Center. Já faz um tempinho que ele vem sendo publicado aos poucos. Até agora, três análises estão disponíveis: jornais, áudio e podcast e TVs e rádios locais. Hoje vamos dar uma olhadinha no primeiro, jornais. Sobre este tópico, vale começar dizendo que os autores do relatório destacam um imbróglio metodológico: de uns anos pra cá, The New York Times, The Wall Street Journal e The Washington Post deixaram de publicar a íntegra dos números de sua circulação digital. NYT e WSJ até divulgam algumas coisas, mas não sob os mesmos critérios do restante dos dados, compilados pela Alliance for Audited Media (AAM). Dito isto, se levarmos em conta apenas os dados da AAM, a circulação (impresso e digital) dos jornais nos Estados Unidos caiu 6% em 2020, em relação a 2019. Dentro deste número, se pegarmos apenas a circulação de impressos, a queda é maior: 19% nos dias de semana e 14% aos domingos. A boa notícia é que a circulação digital cresceu: 27% nos dias de semana e 26% aos domingos, também de 2019 pra 2020 - e de novo, se levarmos em conta os dados da AAM. Se colocarmos na jogada os dados disponíveis do grandes, o crescimento da circulação digital vai a 38%. Aliás, a inclusão dos números do NYT e WSJ muda o panorama da circulação geral (impressa e digital). Ao invés de cair 6%, ela sobe 10% de 2019 para 2020. É a primeira vez que os números dos grandes revertem a curva descendente de circulação. E como está a audiência digital dos colegas norte-americanos? Levando em conta os 50 maiores jornais diários em termos de circulação, o número médio mensal foi de 13,9 milhões, um crescimento de 14% em relação a 2019. O tempo de permanência, no entanto, vem caindo ao longo dos anos. Em média, o visitante dos sites desses jornais fica 45 segundos a menos do que ficava em 2014. Pra fechar, o número de jornalistas empregados vem caindo. Atualmente são 30.820 profissionais trabalhando na indústria, 12% menos do que em 2019.


❄️ Vamos fechar com um bloco MEZZO notícias da indústria, MEZZO diversos. Vocês viram que a Folha voltou a Facebook, né? Aqui o jornal explica os motivos. O principal deles seria a ação da firma de Mark em conter a desinformação. Aproveitem para (re)ler o texto que a jornalista e professora FêCris Vasconcellos publicou no Medium do Farol Jornalismo há três anos sobre como não foi uma decisão acertada a Folha ter abandonado o Face. Só da Folha na edição de hoje, hein. Mas vale saber também que o jornal criou uma editoria de Interação. Agora vamos pra outros assuntos. O Aos Fatos comemorou seis anos nesta semana lançando um site novo e selando um compromisso de dar transparência às suas limitações. Também rolou a estreia do Aos Fatos no ar, um programa quinzenal de lives no YouTube. O primeiro episódio foi sobre infodemia e teve Tai Nalon conversando com Natália Leal, da Lupa, Daniel Bramatti, do Estadão Verifica, e Sérgio Lüdtke, do Comprova. Ah, falando em Aos Fatos, lembrei da Folha quando vi esta checagem sobre desinformação a respeito do sistema eleitoral brasileiro na rede do Mark. E falando em Facebook, aqui tem uma repercussão de Mathew Ingram sobre o lançamento do Bulletin, o serviço de newsletters do Face. Já escutaram os quatro episódios da primeira temporada do UOL Investiga? A T1 do podcast é baseada em apurações de Juliana Dal Piva sobre o envolvimento do então deputado Jair Bolsonaro em esquema de rachadinhas. O podcast Vida de Jornalista da próxima quarta vai trazer uma entrevista com a repórter. Indo adiante. A Abraji publicou a 4ª edição do relatório que analisa o uso da LAI por jornalistas. E também este texto, que saiu originalmente no DataJournalism.com, sobre como um jornalista de dados pode construir uma hipótese. Falando em jornalismo investigativo, concorram a bolsas para a Conferência Global de Jornalismo Investigativo Global 2021. O Núcleo lançou a newsletter Termômetro com análises sobre o debate político nas redes sociais.


É isso, moçada!

Bom final de semana e até sexta que vem.

Moreno Osório


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Barbara Nickel, Ben-Hur Demeneck, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliveira, Caio Maia, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Português, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Diogo Alcantara, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Dias, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Caetano, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Rafael Paes Henriques, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Renata Johnson, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Roogério Lauback, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Sylvio Romero Corrêa da Costa, Tai Nalon, Tais Seibt, Tiago Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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