NFJ#333 ❄️ Pode o jornalismo abraçar a complexidade a partir da subjetividade?

A ameaça a Juliana Dal Piva | A interferência no CrowdTangle | Como melhorar produtos digitais | Quando o jornalismo deixa de noticiar mentirosos | Ferramentas para narrativas interativas

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Buenas, moçada!

Moreno aqui, ainda sozinho tocando o barco.

Para quem já está com saudade, semana que a Lívia volta das férias nos trópicos.

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Certo, vamos nessa.


❄️ O link é de 16 de junho, mas só agora consegui ler. Sugiro que vocês façam o mesmo. É uma edição da newsletter Diversa, da Énois, em que o psicólogo Vicente Góes fala sobre o mito da objetividade no jornalismo a partir do paradigma da complexidade. O jornalismo, diz Góes, é ação, e age enquanto comunica e como comunica, e nunca apenas a partir do conteúdo. Por isso, o jornalista tem de saber o grau de complexidade que sua narrativa expressa. Pois a "relevância do fato não tem nada a ver com sua objetividade, mas com seu sentido. E o sentido é construído na linguagem, no contexto, emerge das relações, ou seja, é complexo", escreveu. Lembrei deste texto ao ler este outro aqui, do The 19th*, em que o repórter Orion Rummler fala sobre a necessidade do jornalismo ser mais empático ao discutir casos recentes envolvendo esportistas (um deles é o da tenista Naomi Osaka, sobre o qual falamos na NFJ#327). "Estabelecer empatia com a fonte, mostrando que você leva em conta o que ela está passando, é chave para estabelecer uma relação de confiança - especialmente se você experiencia o mundo de maneira diferente dela", escreveu. Observamos, aos poucos, a emergência da subjetividade como fator transformador do jornalismo.


❄️ Vejam a mais recente edição da Estudos de Jornalismo e Mídia, publicação do Pós-Jor da UFSC. O ObjETHOS fez uma síntese de alguns artigos na sua newsletter mais recente. Mas sugiro separar o tempo para ler o paper da doutora em Comunicação da UFF Ana Claudia Peres. No texto, a pesquisadora, ao contextualizar as potencialidades e limitações do ato de testemunhar na contemporaneidade, sugere que o testemunho jornalístico deve ser assumido como uma "matriz de lacuna de verdade", ou seja, "uma orientação de que o testemunho, que sempre esteve ligado às noções de verdade e ao que pode capturar do acontecimento, ele é antes sobre o que lhe escapa". Percebam que Peres está interessada no que está além do teor de verdade do relato. Ela está interessada em como o relato afeta o leitor. E como afeta o próprio jornalismo. "Como me sinto ao ler este testemunho?”, “Que afetos me desperta?", "Como é possível afetar o Outro a partir de uma narrativa jornalística?", "E a capacidade do jornalismo de se deixar afetar, qual é?" são perguntas que a autora apresenta a seus leitores e leitoras. Leiam este trecho da conclusão: "[...] ao propor o entendimento de testemunho como matriz de lacuna de verdade, estamos subtraindo o prestígio que a objetividade ocupa nos relatos jornalísticos. Aqui, recorremos ao testemunho como aquilo que nos aproxima da experiência e do teor de verdade dos fatos sem necessariamente vinculá-los a uma medida objetiva mas, pelo contrário, relacionando-os a uma composição fragmentada e repleta de subjetividades." Não se trata, bom esclarecer, de deixar de lado o rigor da prática jornalística. Trata-se, sim, de valorizar a subjetividade e a complexidade. O que, como consequência, poderia contribuir para a ruptura do que a pesquisadora Márcia Veiga chama de “ideário moderno-positivista-masculinista prevalente". Ideário este que, segundo Veiga, embasa historicamente "noções de verdade, de correto, de normal" e, me arriscaria a acrescentar, a noção mais comum de objetividade. Faz sentido pra vocês?


❄️ Mudando de assunto. Vocês souberam. A repórter Juliana Dal Piva foi ameaçada pelo advogado de Jair Bolsonaro, Frederick Wassef. Nas redes, muitos colegas prestaram solidariedade à repórter. E entidades cobraram esclarecimentos e investigações. O CPJ publicou esta matéria em que repudia a declaração de Wassef. "É inaceitável que qualquer figura pública, muito menos o advogado do presidente, envie uma mensagem ameaçando uma jornalista pelo seu trabalho", disse a coordenadora da entidade para a América Central e Latina, ​​Natalie Southwick. Na mesma matéria o CPJ ouviu Wassef sobre o caso. Para o advogado, não houve ameaça, ele disse estar apenas fazendo perguntas e afirmou que suas palavras foram "retiradas de contexto". Quem quiser dar uma olhada no contexto, basta ver o tweet em que juliana reproduz a mensagem recebida pelo Wassef. E ouvir o relato da própria repórter. A Abraji soltou uma nota. "Exigimos que sejam tomadas as medidas legais cabíveis contra Wassef e todos os que vilipendiam o trabalho essencial da imprensa de levar à sociedade assuntos de interesse público", diz o texto, assinado pela diretoria da entidade. O Instituto Vladimir Herzog igualmente se manifestou. A Federação Internacional de Jornalistas também repercutiu, salientando os constantes ataques que mulheres jornalistas vem sofrendo. No Universa, Maria Espiridião, gerente executiva da Abraji, escreveu: "A hostilidade à colunista põe abaixo a ideia de que a estratégia de calar a imprensa por parte do governo e de seus apoiadores seria ampla, sem um 'alvo específico'. A misoginia e a intolerância à presença das mulheres nos espaços públicos se tornaram um elemento fundamental para entender a natureza desses ataques." Vale destacar que Wassef ameaçou e difamou, mas não contestou fatos de reportagens do UOL. Se vocês por acaso não sabem quais reportagens são essas, deem uma olhada aqui. Juliana Dal Piva está por trás da apuração da primeira temporada do podcast UOL Investiga, cujo tema é a "Vida secreta de Jair". A repórter conversou sobre a investigação com Rodrigo Alves, do podcast Vida de Jornalista. Vale a pena ouvir para entender como ela conectou os fatos durante anos de apuração.


❄️ Agora, links sobre perspectivas do presente e do futuro do jornalismo. Neste texto, Nick Petrie, diretor digital da Reuters, e Alan Hunter, ex-Head de Digital do The Times, dão a morta de como será o cenário midiático-jornalístico em 2050. Bom, uma coisa é certa, segundo eles: não haverá mais jornais impressos. Outra: as grandes plataformas (Facebook, Apple, Twitter, Amazon, Netflix) estarão por aí daqui a 30 anos. E ainda disputando a atenção dos usuários com os publishers. Mais duas: será muito mais comum consumir veículos estrangeiros e contar histórias com realidade aumentada nos libertará das telas. Uma última: cresce a importância potencial do jornalismo local. "Enquanto nós nos tornaremos mais globais enquanto consumidores midiáticos, estarmos engajados com nossas comunidades locais vai se tornar cada vez mais importante", escreveram. Falando em jornalismo local, sigam dando uma olhada nesta coluna do Ben Smith no NYT com exemplos jornalísticos bacanas que emergiram nos últimos tempos por lá. O colunista de mídia do jornal faz inclusive uma mea culpa dizendo que poucas vezes deu destaque "a pessoas e empresas que realmente estão fazendo coisas novas e interessantes". O primeiro exemplo é a Outlier Media que atua em Detroit fazendo o que as responsáveis pela iniciativa, Sarah Alvarez e Candice Fortman, chamam de "pre-news". O que nada mais é do que conversar com moradores da cidade para entender suas necessidades informacionais. Fechem o bloco com Frederic Filloux, do Monday Note, dando dicas de como veículos podem melhorar seus produtos digitais. Dentre as coisas que ele chama a atenção estão problemas no login, nos mecanismos de busca e na (inexistência) de personalização da experiência. No Nieman Lab, a história de um jornal de Cleveland, nos EUA, que parou de dar espaço para declarações mentirosas de políticos. A estratégia começou por causa do político republicano Josh Mandel, candidato ao Senado em 2022. Vejam o que Chris Quinn, editor do Cleveland.com, site do Cleveland Plain Dealer, escreveu em março deste ano: "Nós decidimos não escrever nada sobre os pedidos de Mandel a(o governador Mike) DeWine para retirar as restrições relacionadas ao coronavírus. Mandel não é ninguém neste momento, um ninguém tentando chamar a atenção das pessoas com seus tweets um ano antes das primárias para o Senado. Só porque ele faz declarações perigosas e ultrajantes não significa que seja notícia". Ao Nieman Lab, Quinn relata que a estratégia de não oferecer oxigênio a declarações mentirosas está repercutindo bem entre os leitores.


❄️ E o Mark, hein? Voltou às manchetes (se é que algum dia ele saiu) com esta matéria do NYT sobre uma interferência no CrowdTangle, ferramenta de análise sobre o que acontece dentro da rede azul adquirida pelo Facebook em 2016, mas que até então trabalhava de forma independente de Menlo Park. A reportagem de Kevin Roose usa o caso para ilustrar a falta de transparência da empresa. De acordo com a apuração do repórter, a firma de Mark está muito mais preocupada com sua imagem do que sobre as informações que circulam em suas plataformas. Roose conta como ele usou a ferramenta como fonte de dados do perfil no Twitter @FacebooksTop10, que faz um ranking diário das publicações que geram mais engajamento dentro dos Estados Unidos. Dia após dia, conta Roose, o ranking é majoritariamente composto por perfis de extrema direita. Ele relata ter começado a receber ligações de executivos da empresa questionando os dados. Uma das fontes da reportagem é Brian Boland, ex-vice-presidente para parcerias estratégicas do Facebook. Leiam a frase dele que encerra a reportagem. "O Facebook adoraria uma transparência total se ela garantisse histórias e resultados positivos .[...] Mas quando a transparência cria momentos de desconforto, a reação é, em geral, acabar com a transparência". No Nieman Lab, Laura Hazard Owen repercutiu a reportagem. E no Washington Post, Margaret Sullivan sugere todo mundo saia do Facebook - mesmo que ele seja um lugar massa de vez em quando. Ela relata uma história pessoal que a deixou feliz, e que aconteceu no Facebook, para em seguida lembrar - citando as palavras da colega Susan Benkelman - que a empresa de Mark "colocou o lucro acima de tudo, mesmo quando ficou claro que há desinformação e discurso de ódio circulando na plataforma". "Quando se trata de Facebook, o bom e o mau são indivisíveis. Como Zuckerberg gosta de se gabar, é tudo sobre conectar as pessoas, o que, até certo ponto, é verdade [...] Mas essa conectividade - combinada com o esforço sem fim da empresa por dominar e gerar lucro - tem uma enorme desvantagem", escreveu Sullivan.


❄️ Vamos aos links rápidos. Ferramentas grátis para narrativas digitais interativas. | Treinamento para redações sobre Google Analytics 4, no API. | No Novo em Folha, 10 dicas para fazdr um bom podcast. | Como os repórteres do NYT se preparam para aparecer na TV. | O que o Quartz aprendeu depois de um mês operando com uma redação híbrida. | EUA tem recordes de sindicalizações no jornalismo. | IFCN lançou um grupo de trabalho para lutar contra o assédio a fact-checkers. | Na Escola de Dados, fonte de dados para investigações sobre o meio ambiente. | Sobre a principal discussão da NFJ#332, o erro da Folha na matéria sobre vacinas vencidas, leiam o texto do ombudsman: Jornalismo vencido. | Falando em Folha, o jornal registrou recorde de audiência pelo segundo mês seguido. | O Nexo está com inscrições abertas para uma atividade volta para jovens jornalistas sobre primeira infância. | O Centro Knight lançou um livro sobre diversidade no jornalismo latino-americano. | Aliás, estão abertas as inscrições para o ISOJ. | Jornalistas são detidos após protestos em Cuba.


É isso, moçada. Bom final de semana e até sexta que vem.

Moreno


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Barbara Nickel, Ben-Hur Demeneck, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Maia, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Português, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Diogo Alcantara, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Caetano, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Rafael Paes Henriques, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Renata Johnson, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Roogério Lauback, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Sylvio Romero Corrêa da Costa, Tai Nalon, Tais Seibt, Tiago Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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