NFJ#334 ❄️ Número de alertas de violações ligadas ao trabalho jornalístico cresce 222%

É o que diz o relatório "Jornalismo em tempo Covid-19: autoritarismo, desinformação e precariedade na América Latina", produzido pela Voces del Sur, que compara dados de 2020 em relação a 2019

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Buenas, moçada!

Moreno aqui, finalizando uma semana de sol, temperatura baixa e tempo seco em Porto Alegre.

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Certo, vamos nessa! Hoje com a Lívia de volta à edição.


❄️ O número de alertas contra violações à liberdade de imprensa, à liberdade de expressão e ao acesso à informação no Brasil cresceu 222% em 2020, em comparação com 2019. O dado preocupante é da terceira edição do relatório Sombra, da rede Voces del Sur, em parceria com 12 organizações da América Latina. De acordo com este texto da Abraji, a maioria dos alertas nos países pesquisados identifica os governos como autores das violações. Citamos dois tristes exemplos de cerceamento à liberdade de imprensa. O jornalista paraense Jackson Silva, do Moju News, sofreu uma tentativa de assassinato no início do mês. De acordo com o Comitê de Proteção aos Jornalistas, “as autoridades brasileiras devem assegurar uma investigação rápida e determinar se o ataque estava relacionado ao seu trabalho”. E esta semana, trechos de uma reportagem da Amazônia Real, em parceria com a Repórter Brasil, foram censurados pela justiça de Roraima. Trata-se de uma denúncia de aquisição ilegal de ouro extraído da Terra Indígena Yanomami. Globalmente, o escândalo mais recente é sobre o Pegasus, sistema que espionou jornalistas, ativistas e advogados. Para mais informações confiram a repercussão na Abraji, Portal dos Jornalistas, Metrópoles e Revista Fórum.

Esta matéria da BBC Brasil destaca que a denúncia de espionagem em mais de 50 mil números de telefone foi feita por dezenas de organizações de mídia ao redor do mundo. Laurent Richard e Sandrine Rigaud, do Forbidden Stories, consórcio de jornalistas que esteve à frente das investigações, afirmaram, no Guardian, que

a vigilância invasiva de jornalistas e ativistas não é simplesmente um ataque a esses indivíduos; é uma forma de privar milhões de cidadãos de informações independentes sobre seus próprios governos.

A RSF afirma que as revelações “provocam choque e repulsa, dada a extensão da vigilância e a inclusão de dezenas de jornalistas como possíveis alvos (pelo menos 180 em 20 países, entre 2016 e junho de 2021)”. Para saber se seu celular foi alvo do monitoramento do Pegasus, utilize esta ferramenta indicada pelo TechCrunch.


❄️ Oito veículos jornalísticos brasileiros foram contemplados pelo Google News Initiative Innovation Challenge. Vale a pena dar uma olhada nas ideias que se tornarão realidade em breve na Folha de S. Paulo, Fiquem Sabendo, Estado de Minas, Rede Gazeta, Revista AzMina, Marco Zero Conteúdo, Projeto #Colabora e AppCívico. A LatAm Journalism Review lista as 21 organizações premiadas na América Latina.

Também na revista do Knight Center, repercussão sobre o lançamento da newsletter em inglês da Agência Pública “Investigating Brasil”, voltada para a mídia internacional e jornalistas que cobrem nosso país. Guilherme Amado informa, em sua coluna no Metrópoles, que o canal MyNews abriu um escritório em Portugal, com o objetivo de funcionar como um hub lusófono para o jornalismo. Também em expansão, o Alma Preta acaba de formar oficialmente uma equipe em Salvador.

Do Brasil para a terra da rainha: Emily Bell afirma, neste contundente artigo no Guardian, que intervenções conservadoras do governo em nomeações editoriais na BBC estão testando a autonomia da emissora pública ao limite. No Journalism.co.uk, duas iniciativas de veículos jornalísticos: com reuniões editoriais transmitidas ao vivo e treinamento de autogerenciamento, o Financial Times está ajudando seus jornalistas a ter resiliência durante a pandemia; a Newsquest lançou o Bytecast, app interno que permite que repórteres gravem, editem e carreguem arquivos em áudio diretamente para o CMS, “ajudando os leitores a mergulhar na paisagem sonora da história”.

A CNN anunciou o maior lançamento de sua história: um streaming de notícias. De acordo com este texto do Clases de Periodismo, a emissora está contratando centenas de pessoas e desenvolvendo dezenas de programas para o serviço de streaming por assinatura que será lançado no início do próximo ano. No The Wrap, destaque para o número de novas contratações: 450. O agregador de notícias indiano Inshorts arrecadou US$ 60 milhões em uma nova rodada de financiamento para seu aplicativo de mídia social Public, considerado um sucesso pelo TechCrunch.


❄️ Assunto que ganha cada vez mais força, a ofensiva mundial para regular plataformas está numa reflexão recente de Frederic Filloux, do Monday Note. Segundo ele, até agora, os inquéritos que buscam investigar a atuação das Big Techs têm focado muito – ao menos na Europa – no Google, deixando de lado dois dos players mais nefastos, segundo ele, para o mundo digital: Facebook e Amazon. Ele traz números de quantas investigações foram lançadas na Europa, nos Estados Unidos e no resto do mundo a cada uma das quatro grandes (Amazon, Apple, Google e Facebook), sublinhando o atraso das autoridades em deslocar seus esforços para o império de Bezos e de Mark. Por que tanta demora?, ele questiona, para depois afirmar que nenhuma das ações e multas impostas até agora gerou uma mudança na estrutura do mercado – objetivo principal de qualquer ação antitruste.

No texto, Filloux também fala que a administração Biden parece ter acordado para o perigo oferecido pelo Facebook. Há alguns dias, o presidente dos EUA disse que a firma de Mark está matando pessoas, por causa da desinformação relacionada à vacina que circula na rede azul. O Facebook respondeu que, pelo contrário, está salvando vidas. Neste texto, Casey Newton contextualiza a rinha “administração Biden vs Facebook” e conclui mais ou menos o seguinte: tanto críticas quanto defesas à plataforma refletem posturas empiristas, que não são baseadas em fatos, e os fatos não são conhecidos. Que fatos são esses? Fatos que poderiam vir dos dados do próprio Facebook. Mas o Facebook não os compartilha. E aí a gente volta para a discussão da semana passada sobre o CrowdTangle. Sobre isso, aliás, deem uma lida na edição da sexta passada do First Draft. O texto sublinha as limitações da ferramenta e diz que

[…] jornalistas e pesquisadores deveriam considerar ferramentas próprias de análise sobre as quais as plataformas tivessem o mínimo de influência, e que o poder público deveria encontrar formas de financiá-las.

Ainda sobre plataformas, a Fenaj e seus sindicatos filiados estão discutindo propostas de taxação das grandes plataformas digitais e a criação do Fundo de Apoio ao Jornalismo em uma série de seminários regionais. O primeiro foi o da região Norte, no dia 20. O próximo será o da região Sul, no dia 27.


❄️ Pesquisadores da Universidade de Cambridge estão testando uma “vacina” contra a desinformação. De acordo com esta reportagem da BBC Brasil, uma dessas vacinas é o jogo online “Go Viral!” (disponível em português), no qual o jogador assume o personagem de alguém que quer viralizar na internet a qualquer custo. Os usuários do jogo responderam questionários e, de modo geral, eles aumentaram a percepção a respeito do que é ou não manipulação no noticiário da pandemia.

A CNN conta bastidores de conversas que a Casa Branca mantém com a Fox News, para tentar resolver o problema de desaceleração da vacinação de Covid-19.

Leiam o que diz a emissora:

À medida que a pandemia continua e as vacinações diminuem, a resistência à vacina entre os republicanos – a base de audiência da Fox News – tem sido um tema recorrente, levando muitos observadores a escrutinar a cobertura da Fox.

Ainda na luta contra as fake news, Vivek Murthy, vice-almirante do Serviço de Saúde Pública dos EUA, publicou relatório pedindo às plataformas que invistam mais no combate à desinformação sobre o coronavírus. De acordo com o The Verge, o relatório inclui recomendações de políticas para empresas como Facebook, Twitter e YouTube. 


❄️ O Reuters Institute publicou um paper sobre o consumo de notícias no Reino Unido. Depois de analisar dados coletados pela empresa YouGov, Richard Fletcher e Rasmus Kleis Nielsen chegaram a uma conclusão que desafia aquele senso comum de que estamos todos presos em bolhas informativas. Segundo os autores, 

"[...] há uma maior probabilidade de que mídias sociais, mecanismos de busca e agregadores mostrem às pessoas notícias de veículos que elas normalmente não acessam, oferecendo uma dieta midiática mais equilibrada, com diferentes linhas editoriais". 

Quando o comportamento dos leitores é ativo, dizem os pesquisadores, a tendência é, na maioria das vezes, voltar ao mesmo site. No caso britânico, o da BBC. Mas quando o consumo acontece a partir das plataformas e agregadores como o Google News, a dieta informativa é "uniformemente distribuída em veículos diferentes".

Cruzando o Atlântico, vamos ao Canadá para dar uma olhada neste link da Global Investigative Journalism Network sobre uma parceria entre prática jornalística e pesquisa acadêmica que deu muito certo. A autora do texto, Katarina Sabados, começa dizendo que, em geral, o jornalismo recorre a acadêmicos para contextualizar suas reportagens, mas em seguida lança a seguinte questão: e se um repórter e uma pesquisadora trabalhassem lado a lado, conduzindo uma investigação a partir de uma redação? Foi isso que fizeram Rob Cribb, do Toronto Star, e Genevieve LeBaron, da University of Sheffield, durante uma investigação de 10 meses sobre os impactos da Covid-19 em trabalhadores do setor têxtil ao redor do mundo. O resultado foi uma série de três reportagens de capa e um artigo acadêmico que mostraram como trabalhadores da Índia à Etiópia sofreram com as interrupções na cadeia de produção causadas pela pandemia. Um trecho do texto de Sabados:

Histórias de violência nos locais de trabalho, desemprego e assédio sexual contadas por Cribb vieram de 1.140 respostas de questionários conduzidos por LeBaron e pesquisadores associados em quatro diferentes países. A colaboração foi uma tentativa de não apenas revelar as condições de trabalho nessas fábricas, mas também sublinhar a relação entre empresas que receberam fundos de combate à Covid-19 e as condições de seus trabalhadores, que sofrem com a ausência de uma rede de suporte econômico. É o tipo de investigação que não teria sido possível sem a união de forças da academia e do jornalismo.

Voltamos ao Reino Unido para destacar o trabalho de um brasileiro. Luiz Fernando Toledo assina este texto no site do Reuters Institute sobre estratégias para alavancar o uso da Lei de Acesso à Informação na sua redação. É um resumo de um paper em que ele analisa uma pesquisa sobre uso da LAI no Brasil e traz experiências de jornalistas com este instrumento. Toledo divide as estratégias em cinco passos:

  1. Investir em treinamento;

  2. Compartilhar com a audiência seus pedidos, as respostas e os dados obtidos a partir das solicitações. Ou seja, privilegiar a transparência;

  3. Usar um advogado quando necessário. "Cada vez mais há exceções e interpretações criativas da lei sendo usadas para negar o acesso a dados públicos. Isso significa que muitas vezes não basta um jornalista para solicitar a informação. Às vezes é necessário brigar por ela", escreveu;

  4. Construir seus próprios bancos de dados;

  5. Usar pedidos negados como pauta de reportagens.


❄️ Tem treinamento para jovens jornalistas no Nexo. | Como postar no Instagram a partir do notebook ou do desktop. | Conselhos para criar uma base de dados para investigações. | Como manter um bom perfil no LinkedIn. | Como lidar com comportamentos tóxicos. | Curso de copyright para freelancers. | 99 jornalistas essenciais para seguir no Twitter no Brasil. | Fellowships para a COP26. | Inscrições abertas para o curso de jornalismo econômico do Estadão. | Folha está com inscrições abertas para o seu treinamento em jornalismo de ciência e saúde. | No Twitter, Rosental Alves conta que todos os prêmios Cabot deste ano foram para mulheres. O Insper lançou uma versão em português do guia prático e tático para orientar a adoção de programas de membros em veículos jornalísticos, do Membership Puzzle. | Luiza Bodenmüller tem uma boa dica para quem está procurando vagas de jornalismo. | Leandro Demori lançou a 3º edição do seu curso de jornalismo investigativo.


É isso, moçada. Bom final de semana e até sexta que vem.

Moreno e Lívia


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Barbara Nickel, Ben-Hur Demeneck, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Maia, Casemiro Alves, Cecília Seabra, Clube do Português, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Diogo Alcantara, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Filipe Speck, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Guilherme Caetano, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Rafael Paes Henriques, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Renata Johnson, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmont, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Roogério Lauback, Rose Angélica do Nascimento, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Sylvio Romero Corrêa da Costa, Tai Nalon, Tais Seibt, Tiago Oliveira, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.

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