NFJ#533 🐝 A cobertura da chacina no Rio de Janeiro
ChatGPT como sistema de recomendação de notícias | Criadores: um ecossistema baseado em indivíduos muda a produção de conhecimento | Maioria dos influenciadores de notícias é de homens
Buenas, gurizada. Moreno aqui.
Sexta-feira, trocentas coisas pra fazer, chuvarada, ciclone, umidade a 350%, aquela canseira acumulada do ano e prévia de um fim de ano que recém tá começando. Sábado passado fui no super e já visualizei aquela já tradicional ida ao mercado na véspera de Natal porque, né, sempre falta alguma coisa. Me lembra o Shrek de Natal.
Bom, por enquanto, essa loucura é só ansiedade. Voltando ao presente, final de semana tem show do Vitor Ramil, 25 anos do Tambong, cujo ponto alto, na minha humilde opinião, é Estrela, Estrela – embora ela não seja deste álbum. Essa música, que Vitor compôs quando tinha 18 anos (!!), dá nome ao seu primeiro disco.
Nesse momento de uma aceleração ainda maior rumo às Festas, Estrela, Estrela nos lembra da nossa insignificância, por um lado, e, paradoxalmente, da grandiosa tarefa que é “deixar ser o que se é”. Deixar ser o que se é também é encontrar o próprio ritmo. O que não significa necessariamente desacelerar, mas agir com intenção.
Perdão pelo devaneio.
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Outra oportunidade legal é a Comunidade Insider no WhatsApp. Entrem lá e aproveite promoções exclusivas ao longo de todo o mês de novembro. Vitor Ramil, em artigo sobre Estrela, Estrela para a revista Parêntese:
“Quando Milton Nascimento gravou a canção, repetiu ao final a frase: ‘Ser o que se é’. A seleção dele me fez pensar. É um pensamento simples e complexo ao mesmo tempo, o mais central e amplo da canção, que pode ocorrer nas mais altas mentes das mais altas poesia e filosofia ou na cabeça de um adolescente sentado na cama de baixo de um beliche. O adolescente que eu era a escreveu antecedendo o pensamento.”
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Agora vamos lá.
Nesta edição eu (MO), a Lívia (LV) e o Giuliander (GC) assinamos os tópicos.
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Nosso agradecimento de <3 vai para:
Adriana Martorano Vieira, Amaralina Machado Rodrigues Xavier, André Caramante, Andrei Rossetto, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Osório, Bruno Souza de Araujo, Diogo Rodrigues Pinheiro, Edimilson do Amaral Donini, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Filipe Techera, Gabriela Favre, Guilherme Nagamine, João Vicente Ribas, Marcela Duarte, Mateus Netzel, Monica de Sousa França, Nadia Leal, Pedro Luiz da Silveira Osório, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Paes Henriques, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Ghedin, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rosental C Alves, Sérgio Lüdtke, Silvio Sodré, Taís Seibt, Vinicius Luiz Tondolo, Vitor Necchi, Vitor Hugo Brandalise, Washington José de Souza Filho.
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🐝 A cobertura da chacina no Rio de Janeiro (I). A sucessão de acontecimentos em um ciclo de notícias cada vez mais acelerado dá a impressão de que já está “velha” a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, que deixou 121 mortos. Mas creio que vêm em boa hora algumas reflexões sobre essa cobertura jornalística tão complexa. A Ajor chegou a divulgar uma nota em solidariedade aos que trabalharam na linha de frente, em especial o Voz das Comunidades, “que está realizando uma cobertura ao vivo e corajosa do que acontece no território mais diretamente impactado pela operação”. Alexandra Moraes, ombudsman da Folha de S.Paulo, criticou os “vícios” do jornal ao relatar ações policiais “no varejo”, ou seja, sem o devido aprofundamento e contextualização. Ela destaca que as primeiras informações foram excessivamente vagas, praticamente replicando o que o governo fluminense divulgou, inclusive com problemas de linguagem. “Deslizes como ‘a operação prendeu 81 criminosos’. É sempre bom lembrar que jornal não é juiz”, afirma. Mas pondera que, no dia seguinte, o jornal mudou o tom e usou termos como “massacre”. Outra crítica foi a repetição de falas absurdas do governador Cláudio Castro, “como se não fossem nada demais”.
Ao relembrar coberturas de outras ações policiais trágicas (como a de Vigário Geral e a da Candelária), Chico Alves, no ICL, disse que foi uma novidade a “leniência da imprensa com as autoridades que perpetraram a chacina e a falta de assombro com o ocorrido”. No Foro de Teresina, Fernando Barros e Silva foi na mesma linha, ao recordar o tom crítico da imprensa na cobertura do Carandiru, comparando-o com a “contemporização com a barbárie” no caso do Alemão e da Penha. “A polícia não é uma fonte confiável nessas circunstâncias, muito menos a polícia do Cláudio Castro”, disse. E citou este editorial do jornal O Globo, que reproduziu fala do secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, em defesa da operação como uma questão de “soberania nacional”, acrescentando que se tratava de um argumento “que não pode ser desprezado”. Fernando questiona:
“Que história é essa de soberania nacional? De chamar aquelas pessoas que moram lá de terroristas? Se a gente não se opuser a isso, tiver o mínimo de decência e de racionalidade, onde é que a gente vai parar? Esse pessoal da extrema-direita que vai dar a tônica da compreensão desse problema? O Globo está endossando este imbecil da Polícia Civil. O meu desalento tem sido grande ao longo dos últimos dias”.
Ao analisar a cobertura do RJTV, da Rede Globo, Olívia Bandeira e Júlia Lanz afirmam, neste texto para o Le Monde Diplomatique, que o discurso oficial e as narrativas policiais foram intensamente reverberados. No entanto, “foram raros os momentos em que vozes dissonantes de especialistas foram ouvidas e, menos ainda, a fala dos que foram afetados diretamente e presenciaram, em tempo real, a operação: os moradores”, dizem. (LV)
🐝 A cobertura da chacina no Rio de Janeiro (II). Olhando para as imagens da chacina, Daniel Farad, no UOL, identificou excessos das emissoras de TV. “A Globo, por descuido, chegou a mostrar um carro chegando à Praça São Lucas, no Complexo da Penha, com corpos à mostra; a Record cometeu o mesmo erro e ainda pesou a mão em recursos, especialmente de trilha sonora, que deram um tom de espetáculo à parte de sua cobertura”, descreve. Neste texto para a revista Piauí, Lilia Moritz Schwarcz escreve sobre a foto daquela semana, que mostra 29 corpos enfileirados, praticamente nus. Para ela, “ao trazer consigo o passado recente e o trauma das comunidades, a foto virou uma resposta política, com os corpos comprovando que não há segurança pública para os pobres e pretos. Há apenas julgamento sumário e morte. Linchamento”. No entanto, Schwarcz afirma que “a mídia hegemônica – a imprensa, a televisão, o rádio – usou a mesma imagem, mas, em sua maioria, inverteu o sinal”. E prossegue:
“Legendas e comentários têm o poder de transformar fotos em ‘imagens morais’, e de estabilizar outros sentidos para os mesmos registros. E em uma só direção. Dessa maneira, as fotos não atuavam mais como ‘testemunhas’ da agência dos moradores. Eram agora ‘registros’ frios do anonimato. Ou seja, viraram ‘provas’ da ação e da justiça de um Estado que pensa ter a capacidade de transformar cidadãos em ‘indivíduos criminosos’, reconhecidos a partir desse tipo de indexação, e que devem, portanto, ser eliminados para fazer justiça e legitimar o próprio poder. Devem morrer duas vezes: na vida e na memória”.
A antropóloga ainda destaca que, se vingar no futuro apenas a versão vitoriosa de “sucesso”, como disse o governador do Rio, “talvez estejamos vivendo um retumbante “fracasso”, pois perdemos a vontade e o desejo de estarmos afetados pela dor dos outros. Pela vida dos outros que é também a nossa”. (LV)
🐝 ChatGPT como sistema de recomendação de notícias. Pesquisadores alemães realizaram um estudo (artigo ainda em pré-print) sobre as notícias que a ferramenta de IA mais popular do planeta sugere a partir do prompt “mostre as notícias mais importantes do dia (na Alemanha)” tanto na versão web normal quanto na API. Eles realizaram 5.636 sessões (recursos de personalização e contexto persistente foram desativados) durante cinco semanas entre abril e maio deste ano. Procuraram analisar a diversidade de fontes de informações, levando em conta que alguns publishers como Axel Springer têm acordos de licenciamento com a OpenAI. Depois do primeiro prompt, os pesquisadores faziam outros pedidos ao ChatGPT: 1) uma explicação sobre por que as notícias relatadas foram selecionadas; 2) uma pergunta de acompanhamento solicitando notícias adicionais sobre o primeiro tópico de notícias fornecido e, por fim, 3) uma segunda explicação da justificativa da seleção.
Primeiro, os pesquisadores perceberam que as respostas na API e na interface normal para os usuários variavam consideravelmente, revelando variações estruturais significativas na forma como o modelo seleciona informações. Na primeira, havia mais referências a enciclopédias como a Wikipédia e outras fontes desconhecidas, enquanto na segunda verificaram mais ocorrências relacionadas a sites de notícias. Na interface web, notaram uma tendência maior de menção a veículos mainstream como os que fazem parte da Axel Springer. E quando os prompts pediam mais diversidade de fontes, observou-se uma tendência geral para uma maior inclusão de sites de notícias nativos digitais e hiperpartidários:
“Em conjunto, esses resultados sugerem que solicitar ao ChatGPT um conjunto diversificado de fontes pode, de fato, ampliar a exposição dos usuários a diferentes tipos de veículos de notícias, mas essa diversidade pode não melhorar uniformemente a qualidade ou a representatividade da informação. As descobertas ressaltam a necessidade de os usuários exercerem julgamento crítico ao interpretar notícias selecionadas por IA.”
Os pesquisadores pontuaram, no entanto, que a Alemanha é um país com baixa polarização e os resultados tendem a ser diferentes em outros países.
Para os publishers, uma das principais conclusões do estudo é que os contratos de licenciamento estruturam, sim, ao menos em parte, a visibilidade de seu conteúdo na plataforma. No entanto, os pesquisadores reconhecem que “ainda assim, não se pode presumir uma relação estável entre o fornecimento de conteúdo e o alcance do público, porque mesmo quando o conteúdo está formalmente disponível para sistemas de IA, se ele aparece e como aparece dependem de fatores complexos e muitas vezes opacos”, afirmam. “Isso prejudica a capacidade dos veículos de usar o licenciamento como alavanca para o crescimento do público, o reconhecimento da marca ou a geração de receita.” (GC)
🐝 Criadores: um ecossistema baseado em indivíduos modifica a forma como produzimos conhecimento. Logo abaixo, a Lívia vai analisar o relatório que a Reuters publicou na semana passada sobre news creators. Antes, gostaria de chamar a atenção para a leitura que Aline Sordili fez do mesmo documento em um artigo para o Observatório da Imprensa. A jornalista observa que estamos testemunhando uma mudança substancial no ecossistema de informação. Em vez de organizações com alguma uniformidade de práticas e posturas diante da informação, indivíduos “operando sem as mesmas estruturas de responsabilidade e incentivados não pela busca da verdade, mas pela necessidade de construir e manter audiências”. Embora algumas dessas pessoas possam ser comprometidas, “não há nenhum sistema confiável para distinguir” o joio do trigo. O resultado mais imediato (especialmente devido à velocidade dessa transição) é a fragmentação da sociedade, o avanço da desinformação, o drible ao escrutínio jornalístico e um desequilíbrio de gênero nos discursos predominantes na esfera pública – que são majoritariamente masculinos. Outro ponto interessante levantado por Sordili é a mudança do que entendemos como conhecimento. Quando as pessoas obtêm as informações a partir de uma conexão majoritariamente emocional, “a verdade torna-se cada vez mais personalizada, uma questão de em quem você confia em vez de o que pode ser verificado. E isso corrói a possibilidade de uma esfera pública compartilhada onde cidadãos podem deliberar juntos sobre questões comuns”. Não poderia concordar mais. Na mesma edição do Observatório da Imprensa, a Aline Sordili publicou outro artigo sobre influenciadores, agora sobre o estudo “Do Feed ao Plenário”. Produzida pelo Reglab – Centro de Estratégia & Regulação, a pesquisa analisou 88 Projetos de Lei (PLs) apresentados entre 2015 e 2025. Dentre os resultados destacados pelo trabalho (e por Sordili) está o foco no controle do conteúdo e na atribuição de responsabilidades (dos influenciadores), “em grande parte ignorando a dimensão socioeconômica de uma atividade que movimenta bilhões de reais”, nas palavras da jornalista. Nesse sentido, ela frisa uma tensão subjacente às propostas legislativas sobre os influenciadores, “que ora são vistos como profissionais legítimos e motores da economia digital, ora como uma ameaça social e cultural que necessita de contenção”. (MO)
🐝 Os dilemas da relação entre jornalismo e “influenciadores”. O assunto tá mesmo em alta. No Observatório da Imprensa de hoje, Carlos Castilho defende que a ascensão dos influenciadores – o que ele chama de “transformação estrutural na sociedade contemporânea” – e a sua relação de interdependência com o jornalismo impõem quatro dilemas à nossa profissão. Vou resumi-los rapidamente.
Pra começo de conversa, o termo “influenciador” já é um problema, sob o ponto de vista jornalístico. Porque “embute a ideia de que alguém está influenciando alguém, tentando induzir uma ideia ou visão da realidade, ou vender um produto ou um serviço”. Nada mais antijornalístico do que isso.
Interesse público vs interesse privado. Muitos influenciadores podem estar preocupados com o interesse público ao divulgar notícias. Mas também sabemos que tem muita gente apenas querendo surfar na onda dos acontecimentos. E isso nem precisa ser má-fé: são pessoas que não foram formadas sob a ética que guia o jornalismo aproveitando uma oportunidade para lucrar – socialmente ou financeiramente.
Isso nos leva ao terceiro dilema, a grana. “Como acontece sempre que uma inovação muda rotinas, regras e valores, surgem pessoas que aproveitam a nova situação para ganhar dinheiro”, escreveu Castilho. Aproveitadores que usam o ecossistema noticioso apenas para ganhar dinheiro: novamente, nada mais antijornalístico do que isso. Jornalismo não é marketing.
Os influenciadores não vão sumir e vão abocanhar cada vez mais o nosso campo de atuação. Diante dessa realidade, argumenta Castilho, caberá ao jornalismo “desempenhar a função de tutor dos amadores na produção e disseminação de notícias”. Que ótimo. Ser jornalista para ensinar influenciadores a, no final das contas, exercerem a nossa profissão. (MO)
💎 Em 24 países (incluindo o Brasil), a maioria dos influenciadores de notícias é de homens. Semana passada, saíram dois estudos importantes sobre o mundo dos criadores/ influenciadores de notícias: “Mapeando criadores de notícias e influenciadores nas redes sociais e de vídeo”, do Reuters Institute; e “O estado do jornalismo de criadores em 2025”, da empresa Muck Rack. Na análise de hoje, vamos nos concentrar no relatório do Reuters e, na semana que vem, nos aprofundaremos na pesquisa da Muck Rack. O título que abre esta análise destaca um dos achados do relatório do Reuters que mais chamou minha atenção. E ainda faço um adendo: no Brasil, essa maioria de homens é também de direita e/ou extrema-direita. Bora entender mais? Apoiadores da NFJ seguem conosco. (LV)







