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NFJ#543 ☀️ Ninguém aguenta mais tanta notícia

IA, noticiário local e o pacto como diabo | Xadrez político se movimenta e ameaça jornalistas | Como será o futuro do Washington Post?

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Moreno Cruz Osório e Lívia Vieira
mar 06, 2026
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E aí, pessoal!

Moreno aqui, retornando depois de um veraneio daqueles. Entramos naquele período que separa o Carnaval (o verão todo, na real) da Copa do Mundo. Parece que temos que trabalhar durante esse período, então vamos lá.

Por aqui no ano começou a mil. Várias ideias, possibilidades, projetos. Na semana que vem vamos compartilhar com vocês um desses projetos. Acho que vocês vão curtir – e muitos de vocês poderão participar! Até, vamos para mais uma edição da news.

Mas antes deixem eu lembrar (e avisar quem chegou ao longo do verão) que os tópicos da edição de hoje são assinados por mim (MO) e pela Livia (LV).


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Na edição passada da NFJ…

NFJ#542 ☀️ "Só jornalistas apaixonados podem salvar o jornalismo”

NFJ#542 ☀️ "Só jornalistas apaixonados podem salvar o jornalismo”

Lívia Vieira
·
Jan 30
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Nosso agradecimento de <3 vai para:
Adriana Martorano Vieira, Amaralina Machado Rodrigues Xavier, André Caramante, Andrei Rossetto, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Osório, Diogo Rodrigues Pinheiro, Edimilson do Amaral Donini, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Filipe Techera, Gabriela Favre, Guilherme Nagamine, João Vicente Ribas, Marcela Duarte, Mateus Netzel, Monica de Sousa França, Nadia Leal, Paulo Rios, Pedro Luiz da Silveira Osório, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Paes Henriques, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Ghedin, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rosental C Alves, Silvio Sodré, Taís Seibt, Vinicius Luiz Tondolo, Vitor Necchi, Vitor Hugo Brandalise, Washington José de Souza Filho.

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☀️ Ninguém aguenta mais tanta notícia. Quando li o resumo executivo de uma pesquisa publicada pelo Pew Research Center em fevereiro sobre a relação dos norte-americanos com as notícias, imediatamente associei os resultados a uma relação abusiva. Depois de entrevistar 3,5 mil adultos em dezembro do ano passado, os pesquisadores do Pew descobriram que a grande maioria das pessoas compreende que manter-se informado é um dever cívico. O problema é que o grande volume de informação – muitas vezes consumida involuntariamente por causa dos algoritmos – e a desconfiança em relação à veracidade e à precisão dos conteúdos levam à fadiga de notícias e ao news avoiding. Escreveram os pesquisadores do Pew:

“Aproximadamente metade dos adultos nos EUA diz estar exaustos com a quantidade de notícias atualmente, e as pessoas são mais propensas a considerar que a maioria das notícias que encontram não é relevante para suas vidas do que a achá-las relevantes. Acompanhar as notícias muitas vezes parece uma obrigação, e apenas cerca de um em cada dez norte-americanos diz acompanhá-las simplesmente por prazer.”

UM em cada DEZ. Além disso, seis em cada dez disseram ter reduzido seu consumo de notícias. Nas respostas à pergunta “Qual a importância de acompanhar as notícias e como isso ajuda as pessoas a agirem?”, dois dados específicos me chamaram a atenção. Ok, as pessoas entendem que estar informadas é importante para “saber o que está acontecendo” (46% acham super importante), “votar” (40%) e “conversar sobre acontecimentos recentes com outras pessoas” (35%). Mas o que me salta aos olhos são os baixíssimos índices para “tomar decisões cotidianas” e “melhorar as coisas em sua comunidade”. Apenas 14% e 12%, respectivamente.

O relatório ainda aponta que 52% dos participantes disseram estar desgastados pela quantidade de notícias e que 60% afirmaram ter reduzido o consumo de notícias. Os índices vão na contramão das recomendações para o jornalismo reverter os níveis de confiança – que seguem ladeira abaixo, ano a ano: aproximar-se das pessoas e oferecer a elas informações capazes de ajudá-las a tomar decisões cotidianas, estabelecendo, assim, uma relação de confiança. Ou seja, o jornalismo como um parceiro de travessia nesse oceano de informação cujas marés são comandadas por algoritmos que privilegiam a desinformação, e não como alguém que só quer nos enfiar conteúdo goela abaixo. Pra mim, é isso que os números do Pew indicam. (MO)


☀️ IA, noticiário local e o pacto como diabo. Primeira newsletter do ano e já estou sentindo falta do Giuliander, que até o final do ano passado era o nosso setorista de IA. Pensando bem, talvez tenha sido esse o motivo da saída dele. Mesmo que a vontade de todo mundo (?) seja mesmo desligar esse troço da tomada, não tem jeito: vamos ter que seguir observando o que anda acontecendo. O Nieman Lab repercutiu um post do blog da OpenAI sobre usuários usarem o ChatGPT 1 milhão de vezes por semana para buscar notícias locais. É um número baixo se o compararmos com os 800 milhões de usuários semanais do chatbot, mas não é um dado irrelevante para o jornalismo. Ainda mais depois do tópico acima. Para o CEO da OpenAI, Adam Cohen, é uma oportunidade de negócios. “Um setor de mídia independente e próspero não é apenas compatível com a IA; é essencial para ela”, escreveu ele, para em seguida acrescentar que a relação entre jornalismo e empresas de IA precisa entrar em um novo momento. Já vi esse filme, Mister Cohen. O tempo pode me provar errado, mas, pra mim, qualquer convite que as IAs façam ao jornalismo soa como o novo Instant Articles. Mas eu sei que nem tudo (nada, na real) é preto no branco.

Neste link o Nieman resumiu as falas de um seminário online sobre o uso de IA pelo jornalismo. Um dos participantes foi o jornalista Jaemark Tordecilla. Baseado nas Filipinas, Tordecilla lembrou que nenhum veículo do sul global assinou acordos para serem compensados pelo uso do seu conteúdo pelas LLMs dos agentes de IA. “Por outro lado, essas empresas de tecnologia são as únicas que investem em programas de treinamento para pequenas redações nessa região. Estamos falando de redações que já enfrentam assédio político, declínio da publicidade e falta de modelos de assinatura viáveis. Não há outra escolha, a não ser fazer um pacto com o diabo. [...] É o mesmo tipo de filme que vimos na era das mídias sociais, acontecendo novamente com a IA”.

Te dou toda a razão, Tordecilla. Adiante na conversa, agora sobre usar a IA para redigir textos, o colega filipino fez outra boa contribuição. Os outros participantes estavam dizendo que não era legal usar a IA para escrever, que ela não era uma boa redatora, aquela coisa. Aí Tordecilla veio com essa.

“Em lugares onde o inglês não é a primeira língua, a IA tem sido usada para escrever textos. Penso nisso como algo semelhante ao chocolate. A maior parte do chocolate que consumimos no mundo é produzida em massa. Haverá chocolate artesanal, especial, pelo qual as pessoas estarão dispostas a pagar. Suspeito que o mesmo acontecerá com a escrita.”

Boa metáfora. E me faz lembrar novamente a pesquisa do Pew citada no bloco anterior. Precisamos mesmo produzir textos massivamente? Desconfio, apenas desconfio, que a galera tá meio de saco cheia de tanto conteúdo. Mas quem sou pra dizer pra parar, né? Pra fechar o bloco com algum otimismo, sugiro dar uma olhada neste texto do Reuters Institute, agora sobre como a IA está moldando o jornalismo freelancer – depois de casos de artigos inteiramente fabricados por IA, assinados por “repórteres” inexistentes e publicados em veículos conceituados. A repórter Marina Adami ouviu 45 profissionais para saber como a IA está sendo usada por quem trabalha como frila. As respostas, segundo ela, foram animadoras. Muitos disseram que a IA ajuda a aumentar a eficiência do trabalho. “Agora faz parte do meu fluxo de trabalho diário [usar a IA para] pesquisar, estruturar ideias e elaborar rascunhos, o que me permite focar mais na análise, no julgamento editorial e nas decisões narrativas. A produtividade aumentou, assim como as expectativas em relação à velocidade”, compartilhou o jornalista argentino Alvaro Liuzzi. Tá certo. Segue o baile. (MO)


☀️ IA: organizações criam políticas e formam coalizão. Diante da realidade da IA no jornalismo, algumas movimentações recentes merecem destaque. Aqui no Brasil, o Projor acaba de incluir um 12º componente em seu Programa de Indicadores de Compromissos com o Público. Entre os critérios de transparência, passa a considerar agora a adoção, por parte dos sites de notícias, de uma Política de Uso de Inteligência Artificial. Para Sérgio Lüdtke, presidente do Projor, “o novo indicador exigirá que as organizações jornalísticas participantes do programa demonstrem ter uma política formal e clara sobre o uso de IA em seus processos, desde a coleta e a apuração de notícias até a distribuição e a gestão de conteúdo”. Dos 52 sites de notícias que integram o programa, 9 atingiram todos os indicadores, incluindo o da política de IA. Vale a pena citá-los, né? Agência Mural de Jornalismo das Periferias, Agência Pública, Eco Nordeste, Folha de S. Paulo, Mangue Jornalismo, Portal Catarinas, Revista AzMina, Tribuna de Jundiaí e Tribuna do Sertão [os links levam diretamente às políticas de IA dos veículos].

Lá fora, o Guardian também acaba de deixar claro como está usando a IA generativa, com uma atualização de seu código editorial e com a publicação de princípios de IA. De acordo com Chris Moran, chefe de Inovação Editorial, houve uma grande discussão interna sobre como o jornal pode se beneficiar dessa tecnologia protegendo, ao mesmo tempo, sua autenticidade e seus valores. Achei bem interessante ele mencionar, entre as frentes de atuação, a capacitação da equipe. “Implementamos um curso obrigatório para todos os nossos funcionários que vai além de regras básicas, explicando como a IA funciona e a ciência por trás dela, para que nossa equipe possa tomar decisões informadas”, diz Moran. A criação de ferramentas internas próprias e a necessidade de sinalização do uso significativo de IAGen nas reportagens (ver exemplo aqui) integram as ações do Guardian.

Do ponto de vista da colaboração, cinco grandes organizações do Reino Unido criaram o SPUR (Padrões para Direitos de Uso do Publisher). Nesta carta aberta publicada no fim de fevereiro, CEOs de BBC, Financial Times, Guardian, Sky News e Telegraph convidam líderes da mídia global a se juntarem à coalizão, que busca “proteger o jornalismo original e garantir a sustentabilidade a longo prazo do setor”, por meio do estabelecimento de padrões técnicos compartilhados e estruturas de licenciamento. Tomara que haja adesão. (LV)


☀️ Xadrez político se movimenta e ameaça jornalistas. O Caso Master tem dominado o noticiário brasileiro, com seus muitos tentáculos. Esta semana, a revelação de conversas de Daniel Vorcaro mostrou ameaças muito graves ao jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo. “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, diz uma das mensagens. Entre outras apurações, a coluna de Lauro Jardim revelou a viagem do ministro Dias Toffoli com um advogado ligado ao caso Master para ver a final da Libertadores no Peru. Foram apreendidas ainda mensagens de Vorcaro com ameaças ao site Diário do Centro do Mundo, após a publicação de reportagens consideradas negativas para sua imagem. De acordo com esta matéria do Poder 360, os diálogos indicam que a relação entre o grupo ligado ao Banco Master e o DCM era marcada por tensão. O site nega as acusações e afirma que faz cobertura crítica do caso. Esta matéria da Folha compilou as declarações de diversas entidades representativas que, obviamente, repudiaram as mensagens, afirmando atentarem contra a liberdade de imprensa e a integridade física de profissionais da comunicação.

Para além do Brasil, a geopolítica está em tensionamento máximo com o novo conflito entre EUA, Israel e Irã. Após os primeiros ataques, o Irã cortou o acesso à internet, dificultando muito o trabalho dos jornalistas. De acordo com a Wired, os profissionais estão utilizando conexões via satélite, aplicativos criptografados e imagens contrabandeadas para fazer reportagens do interior do país. Esta matéria do Poynter destaca a importância de separar fatos de manipulação em contexto de guerra. Por exemplo: com relação ao ataque dos EUA ter sido uma ação preventiva dos EUA, a Associated Press noticiou que dois funcionários da Casa Branca disseram a congressistas que o Irã não estava se preparando para atacar. Por enquanto, ainda não há informações sobre jornalistas mortos nesta guerra. Mas o contexto é preocupante. De acordo com o Committee to Protect Journalists, dos 129 profissionais da mídia mortos em 2025 – um recorde –, pelo menos 104 estavam em meio a conflitos. E Israel foi responsável por dois terços deste total. (LV)


☀️ Como será o futuro do Washington Post? Vocês viram. No início de fevereiro, o Washington Post demitiu um terço de seus funcionários, afetando praticamente todos os departamentos. Só na redação, o passaralho atingiu 300 dos 800 jornalistas. Os cortes incluíram a eliminação da editoria de Esportes e de Livros como existem atualmente, o encolhimento da editoria de Notícias Locais e o fechamento de diversas sucursais internacionais – dispensando, inclusive, correspondentes que cobriam guerras em andamento. “Estamos testemunhando um assassinato”, disse a ex-repórter do Post, Ashley Parker. Marty Baron, ex-editor executivo, escreveu: "Este é um dos dias mais sombrios da história de uma das maiores organizações de notícias do mundo”. A justificativa foi aquele blablablá de sempre. Matt Murray, editor-executivo do Post, afirmou que a empresa estava enraizada na era do impresso e que a reestruturação vai ajudar a “garantir o futuro a serviço de nossa missão jornalística e nos proporcionará estabilidade daqui para frente”. Esta matéria do Nieman Lab mostra, com base em levantamento da organização sindical The Washington Post Guild, que “as demissões afetaram principalmente membros sindicalizados de minorias étnicas”. No Poynter, Tom Jones destaca que ninguém poderia ter previsto isso quando Jeff Bezos comprou o Post em 2013. “Ele parecia o dono perfeito: um bilionário disposto a investir dinheiro no produto e a se afastar, enquanto os jornalistas faziam seu trabalho”. Para investigar como será o futuro, Jones entrevistou Paul Farhi, ex-repórter de mídia do Post. Ele espera que o jornal ainda exista daqui a cinco anos, mas afirma que uma era se encerrou, “e essa é a tristeza”. No Poder 360, Mateus Netzel destaca que, até o momento, “Jeff Bezos não deu sinais de que pretende abandonar o barco. Mas é crescente a pressão, interna e externa, para que ele assuma uma posição mais clara de apoio ao futuro do jornal ou então que coloque o veículo à venda. A escolha do diretor financeiro Jeff D’Onofrio para assumir interinamente a função de CEO indica que o plano de ajustar as finanças e reduzir os prejuízos continua como prioridade imediata”. (LV)


💎 Quando um software se torna a redação. “Eu não consigo pensar em outra profissão que confie tanto na osmose e no simples fato de estar com outras pessoas do que o jornalismo”, escreveu Maureen Dowd no artigo Requiem for the Newsroom, publicado no NYT em abril de 2023. Repercutimos esse texto na época, na edição 415. Pois bem, quase dois anos depois, Patrick Ferrucci publicou um paper sobre o tema na Digital Journalism. O pesquisador da Universidade de Colorado-Boulder investigou a popularização do Slack em redações dos Estados Unidos para descobrir como a virtualização das redações está afetando a cultura organizacional do jornalismo, bem como a sensação de pertencimento e de socialização que as redações físicas sempre proporcionaram aos seus profissionais. Para isso, Ferrucci entrevistou 42 jornalistas norte-americanos de 11 diferentes organizações que não possuem uma redação física. Esta será nossa primeira análise do ano. Apoiadores seguem conosco. (MO)

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