O jornalismo em meio aos complexos circuitos do extremismo político
Em 2026, o jornalismo precisará desenvolver uma consciência sobre sua participação na normalização do extremismo político em um ecossistema informacional acelerado e tomado por desinformação
A violência política sempre fez parte da paisagem político-eleitoral no Brasil. O próprio jornalismo, notadamente o local, não raro se via em meio aos seus jogos de pressão, ameaças e retaliações. Já o extremismo político propriamente dito é uma preocupação recente no nosso país, manifestação do recrudescimento de processos de radicalização por meios digitais. A polarização afetiva, a calcificação de identidades políticas, além de fenômenos novos, como a onda de ataques em escolas entre 2022 e 2023 e atos de terrorismo doméstico, como o do bolsonarista Tiu França contra o Supremo Tribunal Federal em 2024. Não por acaso, coincidiram com a tensão aumentada em torno das eleições de 2022 e com seu rescaldo golpista, também inédito no contexto da redemocratização. Tendências recentes no comportamento político-eleitoral brasileiro e parte de um circuito tecnopolítico complexo, esses fenômenos devem recrudescer em 2026, enredando o jornalismo de diversas formas.
Antes de nos voltarmos para esses enredamentos, cabe entender melhor o que são os circuitos do extremismo político. Embora nem sempre coincidam com a política eleitoral em seu conteúdo explícito, as trajetórias de radicalização têm exercido um efeito estrutural de ancoragem ou de atração do ecossistema político-midiático mais amplo, direcionando-o a padrões extremistas. Esse ecossistema se estrutura por circuitos recursivos em que radicalização e moderação, extremo e mainstream, atuam como dois lados de uma mesma moeda que leva, em última instância, a resultados comuns: dessensibilização para a violência, corrosão do pluralismo democrático, normalização de meios extralegais, explicações conspiratórias e escalamento de estereótipos fantasiosos de um inimigo que, culpado por todos os problemas, torna-se passível de eliminação para que as “pessoas de bem” possam enfim prosperar no Brasil.
O papel dos afetos nos funis de radicalização
Todos estes perfazem padrões observados nos chamados funis de radicalização e se manifestam em versões que vão desde as mais moderadas (expostas na imprensa e em redes sociais de superfície, como o Instagram ou YouTube) até as mais extremas (circunscritas a ambientes mais nichados, como aplicativos de mensagens, fóruns e redes sociais pouco moderadas). Em 2022, por exemplo, enquanto os públicos extremos no WhatsApp, X e outras plataformas avançavam posições cada vez mais radicais em favor de uma intervenção militar, os públicos “moderados” em redes sociais mainstream e na própria imprensa as normalizavam, ao canalizar de forma acrítica questionamentos sobre a lisura do sistema eleitoral e quem estaria apto a validá-la (por exemplo, as Forças Armadas).
Além de avançarem por meio dessa oscilação contínua entre radicalização e moderação, os atuais circuitos do extremismo político se opõem à esfera pública pensada nos moldes liberais que subjazem o jornalismo e demais instituições democráticas. O debate racional, programático e de boa-fé, por parte de uma opinião pública informada, vem sendo deslocado por outras lógicas de escolha e identificação políticas, graças à convergência crescente entre a política eleitoral e a economia da atenção. Essas lógicas passam por fatores afetivos, ambientais e processuais.
Muito tem-se falado, por exemplo, sobre a polarização afetiva e o apelo a emoções e à irracionalidade nas escolhas eleitorais. Contudo, afetos não são exatamente emoções, mas sim disposições anteriores à expressão tanto da racionalidade quanto da emoção. É, em poucas palavras, aquilo que nos move num nível subliminar e pré-consciente: precisamente, a camada em que os algoritmos nos interpelam enquanto usuários. Tanto a literatura científica quanto testemunhos de pessoas que se desradicalizaram apontam certos afetos como propiciadores da captura e do aprofundamento em funis extremistas, tais como ressentimento, indignação por ser injustamente prejudicado e, principalmente, medo de alguma ameaça existencial difusa.
Daí a centralidade de fatores ambientais como propiciadores do extremismo político. Nas mídias digitais, atmosferas de insegurança, ameaça e revolta contra o “sistema” são artificialmente infladas e se autorreforçam por meio de doomscrolling, narrativas conspiratórias, deslegitimação e ataques a instituições e seus representantes, além de imagens do inimigo cada vez mais exageradas, reducionistas e próximas da lógica fascista do bode expiatório. Na extrema direita global, apostas bem-sucedidas nesse sentido têm incluído tomar como alvo pessoas trans, bandidos e imigrantes – este último, ocupando conteúdos móveis no contexto brasileiro, como o recente higienismo contra pessoas em (potencial) situação de rua.
Feedback positivo e a irreversibilidade do extremismo
Em termos cibernéticos, essas tendências se associam a ambientes com excesso de feedback positivo. Diferentemente do feedback negativo, que impõe contrapontos e mantém os sistemas em equilíbrio metaestável, o feedback positivo reforça a trajetória (ideias, comportamento) em que o sujeito/sistema já se encontra, fazendo-a escalar e, como consequência, polarizar-se em identidades contrastantes cada vez mais calcificadas. Além de ser inerentemente “antipluralista”, feedback positivo em excesso pode levar ao desequilíbrio sistêmico, afastamento paulatino da realidade e “escape” suicidário (runaway) – precisamente, o que ocorre em fases avançadas de funis extremistas, quando atos de violência contra outros e contra si são executados.
Além das dimensões afetiva e ambiental, o feedback positivo em excesso aponta para uma terceira característica das trajetórias extremistas: seu caráter progressivamente irreversível. A literatura científica sobre radicalização é praticamente consensual quanto a esse tipo de “termodinâmica”: quanto mais se avança por um funil de radicalização, mais difícil é sair dele ou retroceder. Nesses contextos, “furar bolha” torna-se altamente improvável, devido a proteções mentais variavelmente nomeadas como dissonância cognitiva, fatos afetivos e outros.
Antropologicamente falando, essas e outras dinâmicas mentais se associam a estados de crise. Elas são totalmente diferentes, e até opostas, àquelas que predominam nas conjunturas de estabilidade que subjazem às premissas da esfera pública liberal. Embora concentradas e cultivadas nos ambientes digitais, elas eventualmente transbordam para o offline, muitas vezes acompanhadas de atos violentos: por exemplo, nos bloqueios e acampamentos insurgentes de 2022, no 8 de janeiro de 2023 e na recente chacina no Rio de Janeiro. Neste último caso, as reações viscerais de apoio da população sacramentam, ao que tudo indica, a pauta da segurança pública como grande aposta eleitoral da extrema direita em 2026.
O “social de crise” e a ascensão do extremismo em 2026
Outros padrões comuns do social de crise são a prevalência do comportamento heteronômico (delegação de decisão, por exemplo, a uma liderança ou a uma multidão, seja ela digital ou física), persuasão carismática e estética, imitação contagiosa e desindividuação (e, no caso, reindividuação em novas identidades antissistema e extremistas). Como meu livro discute em mais detalhes, os atuais ambientes plataformizados se organizam com base em vieses técnicos que fazem proliferar precisamente estes e outros efeitos de rede que aumentam a probabilidade de entrada em trajetórias extremas. Este tem sido, na minha visão, o principal fator impulsionador da ascensão da extrema direita em todas as regiões do globo após a crise de 2008. E considerando que essa infraestrutura não mudou – pelo contrário, tem se acelerado com a corrida pelas IAs –, o extremismo político seguirá em ascensão em 2026.
Assim, reconhecer o extremismo político como um circuito cibernético que oscila entre moderação e radicalização, entre feedback negativo e positivo, lança uma luz diferente sobre os processos político-eleitorais no Brasil e alhures. A extrema direita não pode ser separada da direita contemporânea, pois elas se retroalimentam em um mesmo circuito. Ambas as possibilidades foram cultivadas durante o governo de Jair Bolsonaro, que só escalou o plano golpista (radicalização) quando as alternativas no campo político (resultado eleitoral e sua contestação por meios institucionais) se esgotaram.
No mesmo sentido, os recentes conflitos e fragmentações dentro da extrema direita podem ser vistos como uma bifurcação entre tendências de “purificação” extremista (direcionadas a salvar os perpetradores da trama golpista e, preventivamente, quaisquer outros que tenham cometido crimes impunemente) e tendências de hibridização entre extremismo e mainstream (notadamente, com a política fisiológica que caracteriza o Centrão). Em 2026, veremos o quanto aqueles eleitos no passado, com o apoio de Bolsonaro, já o consideram fraco o suficiente para arriscarem voos autônomos na política institucional sem serem abatidos pela máquina digital de destruição de reputações dos segmentos mais radicalizados.
Diferente de comunidades extremistas que se acomodam em nichos, como grupos neonazistas, jihadistas e niilistas, o extremismo político opera em prol da sua inserção contraditória no mainstream da política eleitoral. Essa inserção é gradual e sutil, porém resoluta e, depois de um certo limiar, irreversível. Seu objetivo meta-político é ocupar, corroer por dentro e, eventualmente, subverter a própria natureza da democracia liberal, substituindo-a por um sistema não pluralista, transacional e autocrático. O espaço de exceção e soberania paralela oferecido pelas plataformas digitais torna-se, nesse sentido, uma espécie de incubadora a partir da qual as oscilações corrosivas entre extremismo e mainstream podem se dar livremente.
O papel do jornalismo
Como o jornalismo tem se enredado nesses circuitos e o que fazer para não alimentá-lo? Um primeiro ponto de atenção diz respeito à aceleração temporal e à recursividade característica dos ambientes digitais. Embora o jornalismo nunca tenha de fato mantido uma distância objetiva em relação aos eventos que reporta, com a digitalização, os feedback loops (circuitos de “afetações” recursivas) entre a imprensa, os eventos e o público tornam-se bem mais intensos, acelerados e potencialmente não controláveis.
Alguns desses loops já são reconhecidos em eventos com alto potencial de contágio, como suicídios e ataques em escolas. Mas também podem ser visualizados em um nível mais geral, por exemplo, no modo como a lógica da economia da atenção passa a influenciar a própria lógica do jornalismo. Assim como pesquisas de opinião e trekkings se tornaram insumos diretos para táticas de comunicação política em tempo real, o jornalismo tem sido enredado em “guerras de narrativa” de múltiplas maneiras: como inimigo, alvo de ataques e narrativas conspiratórias; como fonte de informação sobre eventos (ou, inversamente, de “fake news”); como canal de recados de certos agentes políticos; como plataforma para ataques e “cancelamentos” de indivíduos; ou como meio para gestão do “clima político”.
Um segundo ponto é que, hoje, o jornalismo precisa conviver, e competir, com mídias alternativas e influenciadores digitais que operam segundo uma lógica mais próxima à do senso comum, da economia da atenção e de seu social de crise. Não obstante, a imprensa continua sendo um importante gatekeeper no caminho entre as diferentes camadas do atual ecossistema de mídia. Em especial, pode atuar como ponte – ou, pelo contrário, como barreira – entre os dois pólos do espectro que vai do moderado/mainstream ao extremista/de nicho. É nessa passagem que se dá um processo crucial para a sobrevivência de longo prazo do extremismo político: sua normalização, ou, em inglês, mainstreaming.
No próximo ano, além de desenvolver uma consciência estratégica sobre sua participação – direta ou indireta, deliberada ou inadvertida – nos circuitos de normalização do extremismo político, o jornalismo pode atuar de modo proativo na defesa e no avanço de princípios e territórios democráticos nesses ecossistemas. Embora, pelas razões que elencamos, seja muito difícil ganhar terreno entre os públicos extremos, é possível competir por adesão e confiança na “camada de recrutamento” entre estes e os públicos do mainstream, onde (ainda) se situa boa parte da população.
Isso envolveria refletir – e experimentar – sobre como as premissas e práticas do jornalismo poderiam se adaptar à atual conjuntura de perenização do social de crise e de suas dinâmicas características, em que fatores processuais, ambientais e afetivos predominam sobre a deliberação racional e programática da esfera pública liberal. Além do potencial de prevenir processos de radicalização em estágios incipientes, a imprensa se encontra em posição privilegiada para asfixiar a dialética de normalização do extremismo político da qual ela tem sido protagonista, de forma não necessariamente consciente.
Finalmente, há outra frente possível, com potencial até mesmo para “furar bolhas” em estágios mais avançados de trajetórias de radicalização: interceptar a desinformação, a estereotipação do inimigo, a insegurança e outros fatores que alimentam o extremismo atuando mais próximo dos territórios offline. Caberia, aqui, retomar uma prática de jornalismo local adaptada aos fatores de confiança social característicos do senso comum e do social de crise. Para se tornar confiável, o jornalismo precisa se tornar redundante. Essa redundância tem, por um lado, um sentido cognitivo, de trabalhar com enquadramentos de realidade e expectativas que já estão dados na mentalidade do senso comum, de entregar previsões que se mostrem acertadas e de se tornar parte dos rituais que pontuam o quotidiano das pessoas. Por outro, a redundância tem também um sentido social, de tornar-se confiável “estando lá” pelas pessoas, prestando um serviço, tornando-se parte do seu território existencial e fazendo dele um ambiente menos movediço e ameaçador. Se a insegurança, o medo e o ressentimento continuarão sendo a base do extremismo, o compromisso, a confiança e o acolhimento serão o antídoto para que o jornalismo cumpria sua função social no ano que se avizinha.
Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2026. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.




