O jornalismo local como infraestrutura da democracia nas cidades brasileiras
O jornalismo local nunca foi tão importante, mas também nunca foi tão frágil: em 2026 precisaremos de políticas públicas para garantir a sustentabilidade de uma prática que viabiliza a democracia
Na semana em que cheguei à Rocinha para co-realizar a 3ª Conferência de Jornalismo das Favelas e Periferias, no fim de outubro, meu telefone não parava de vibrar com as mesmas notificações que o país inteiro recebia: mais uma chacina no Rio de Janeiro. Mais de 120 corpos haviam sido encontrados, muitos deles pelos próprios moradores. Outro capítulo daquilo que insistem em chamar de “segurança pública”, mas que, para quem vive e trabalha nos territórios, representa outra coisa: ausência deliberada de direitos.
A ironia — ou talvez o símbolo — daquela semana é que, enquanto corpos eram silenciados na cidade, mais de 22 jornalistas vivos, inquietos e mobilizados atravessavam o Brasil para se encontrar dentro de uma favela. Para trocar, durante três dias, informações e experiências sobre as injustiças climáticas, raciais, de gênero, sociais e econômicas que atravessam nossos territórios.
Para afirmar, diante do luto, que as palavras e o aquilombamento continuam sendo atos de resistência.
Eu mediei conversas, acolhi jornalistas, ajudei a construir o espaço. Tudo isso acontecia no dia do meu aniversário – e não seria possível imaginar um presente maior. Porque ali, ao escutar cada jornalista, percebi que aquele encontro era um retrato do Brasil que realmente comunica. Do Brasil que insiste em sobreviver.
E, mais do que isso, era também um ensaio do que imagino que o jornalismo brasileiro pode ser em 2026, se o olharmos de onde o país realmente pulsa.
Cidades desinformadas, democracias frágeis
O jornalismo local e independente vive um paradoxo.
Nunca foi tão necessário. Nunca foi tão frágil.
A expansão da desinformação hiperlocal, a chegada desordenada da inteligência artificial ao ecossistema informacional e o crescimento das desigualdades urbanas criam um terreno onde boa parte dos brasileiros simplesmente não tem acesso a informações básicas sobre suas cidades. Quase metade dos municípios permanece como desertos de notícias.
E o que isso significa na prática?
Significa que pessoas como Geyssyane Delmontes, 26, e Josiane Rocha, 47 — moradoras de Pirapora do Bom Jesus, na Grande São Paulo, entrevistadas pela Mural durante as últimas eleições municipais — continuam vivendo sem saber como o dinheiro público de sua cidade é gasto, quem toma decisões sobre suas vidas ou quais direitos podem reivindicar.
O impacto é direto: onde não há informação confiável, há menos participação. Onde há menos participação, a democracia fica mais frágil.
O jornalismo local não é um serviço opcional na democracia brasileira, mas sim parte essencial da infraestrutura que permite que ela exista nos territórios. Mas essa infraestrutura continua sendo tratada como algo improvisado, eventual.
Pelos governos, pelo mercado e também pela filantropia, que ainda resiste a reconhecer a comunicação e o jornalismo como áreas nas quais seu investimento pode gerar impacto e transformação social.
O que ouvimos na Rocinha aponta caminhos para o futuro
Das rodas de conversa da Conferência surgiram recomendações que constituem projetos de país. Propostas que, se levadas a sério, redefinem o que poderá ser o jornalismo local (e brasileiro), não apenas em 2026, mas também na próxima década.
Sustentabilidade como ponto de partida. As organizações querem o óbvio: deixar de apenas sobreviver. Profissionalização, remuneração digna, estrutura de redação, estúdios, equipes estáveis, orçamento anual robusto. Precisamos de jornalismo como trabalho, não como sacrifício.
Políticas públicas permanentes. Não basta o apoio pontual de um edital. Precisamos de uma Lei de Incentivo à Comunicação Periférica, políticas nacionais obrigatórias, repasses estáveis, proteção legal aos comunicadores. Porque informação não pode depender da boa vontade de quem financia.
Redes e poder narrativo. Precisamos construir uma rede nacional de comunicação periférica, disputar concessões públicas, formar as próximas juventudes de comunicadores, criar escolas de comunicação, combater a desinformação com estruturas próprias. É preciso que as favelas sejam o sujeito, não apenas a pauta.
Justiça climática como centro. A crise climática já é desigual e as periferias pagam essa conta. Por isso, o jornalismo local precisa traduzir, investigar e pressionar por políticas que garantam direitos mais básicos: água, saneamento, moradia, proteção contra enchentes. É jornalismo como infraestrutura de sobrevivência.
Em 2026, reconhecer o jornalismo local é assumir a democracia como prática, não discurso
Se há algo que aprendi naquela semana na Rocinha, é que o jornalismo local não está à espera de ser salvo. Ele já está fazendo, e fazendo muito, mesmo com quase nenhum recurso.
Penso na Raquel Rocha, do site Coreto, de Poções, no interior da Bahia. Ela contou, num misto de riso e cansaço, que está exausta de ser a primeira em tudo na cidade: a primeira a criar um site de jornalismo investigativo, a primeira a usar a Lei de Acesso à Informação, a primeira a receber uma negativa oficial. Em um ano, captou tão pouco recurso que pensou em fechar o veículo. Ainda assim, continua. Porque se ela parar, ninguém mais fará o trabalho que ela faz ali.
Lembro do Ugo Farias, do Coletivo Utopia Negra Amapaense, que muitas vezes não pode assinar suas próprias ilustrações. Os desenhos que ele produz para questionar o poder podem, em algum momento, ser usados contra ele. Mesmo assim, ele segue criando, narrando e denunciando o que insiste em ser silenciado.
A Gabriele Oliveira, em Florianópolis, decidiu criar o Desterro, um observatório de violência que desmonta a fantasia de “capital mais segura”. Embora apenas 22% da cidade se declare negra, quase 40% das pessoas mortas em operações policiais nos últimos oito anos são homens negros. Ela insiste em colocar esses números em circulação num lugar que prefere escondê-los.
E tem a Isabelle Maciel, do Tapajós de Fato, que veio de Santarém para contar como faz jornalismo para além dos algoritmos. Ela produz boletins para rádio web, envia áudios de WhatsApp para comunidades ribeirinhas e distribui impressos de mão em mão. Constrói, com criatividade e precisão, um sistema de informação que não depende de nenhuma plataforma para funcionar.
Quando penso neles e em tantos outros que encontrei, fica evidente que o jornalismo local não é apenas uma causa. É uma prática cotidiana de justiça, operada com o mínimo, nos lugares onde o máximo costuma falhar.
Por isso, 2026 exige mais do que reconhecer o valor do jornalismo e da comunicação periférica, considerando-os parte da infraestrutura democrática do país. As iniciativas citadas acima – bem como centenas de outras espalhadas pelo Brasil – fazem diagnósticos que os governos não produzem, expõem violações que grandes meios de comunicação não alcançam e criam narrativas que corrigem silenciamentos históricos.
O Brasil não corre o risco de perder o jornalismo local por falta de talento. Talento é o que mais existe. O risco está na ausência de condições mínimas para que esse trabalho continue existindo.
Em 2026, precisamos mudar a forma como costumamos abordar os desafios do jornalismo local, pois não se trata apenas de “salvar veículos”: um ecossistema de informação comprometido com os seus territórios permite que o país se perceba com mais nitidez.
O futuro do jornalismo local já está sendo imaginado nos territórios.
Falta o país decidir se quer acompanhá-lo.
Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2026. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.





Anderson, te parabenizo pela análise sobre jornalismo local que está em consonância com tudo que vim estudando sobre o tema no último ano para o meu TCC. Aproveito para deixar o link da reportagem que foi o produto do nosso trabalho, que trata em maior medida do deserto de notícias, mas que pincela a questão do jornalismo local: https://blogfca.pucminas.br/colab/capim-branco-cronica-de-um-deserto-de-noticias/