O jornalismo na era das bets, entre a ‘bolada’ de hoje e o ‘pão de amanhã’
Em 2026, a cobertura jornalística vai precisar ir além da ludopatia e não normalizar as apostas online, pautando o debate público sem esperar a Polícia Federal bater a porta das bets
Eu costumo mostrar um post de um indígena que conheci na região do Vale do Javari, na Amazônia, para ilustrar a complexidade do desafio do jornalismo e da sociedade diante da proliferação das bets no Brasil.
O jovem matis, de português claudicante, usou uma rede social certa vez para mostrar a sequência de apostas em resultados de partidas de futebol do exterior. Ele nem acompanhou os jogos, mas eles lhe renderam um retorno financeiro em uma famosa bet: “já está garantido o pão de amanhã”.
Em vigor de forma regulamentada desde 1º de janeiro de 2025, o mercado de apostas massifica a ideia de que não oferece nada além de uma opção de lazer. Mas uma parcela considerável de apostadores, muitos economicamente vulneráveis, arrisca dinheiro em busca de renda.
As bets bagunçaram finanças familiares, políticas públicas, investigações criminais e até a relação dos brasileiros com o esporte que é um dos pilares de nossa identidade. O impacto desse fenômeno no Brasil forçou a abertura de uma nova trincheira na cobertura jornalística, ainda bem pouco povoada.
Jornalismo engolido pelas bets
Para 2026, estamos diante do desafio de superar o interesse superficial no segmento que começou os trabalhos faturando mais de R$ 20 bilhões e que cresce com tendência de funcionar como força política em pleno ano de eleições gerais. Há, ainda, um conjunto de outros sinais amarelos na temática.
No primeiro ano de funcionamento dos sites regulamentados, o jornalismo tentou equilibrar-se entre a cobertura crítica da novidade e os efeitos da overdose de propaganda. A verba que, por um lado, desperta ressalvas morais, por outro, surge como uma nova fonte de receita para veículos de imprensa e jornalistas, individualmente.
Além da venda de espaços publicitários, alguns dos principais jornais e sites de notícias publicaram conteúdos pagos produzidos sob encomenda para casas de apostas. Profissionais renomados, dos mais experientes aos mais novos, trocaram os salários das empresas de jornalismo por “boladas” oferecidas pelas bets aos seus promotores. Repórteres e blogueiros especializados em times também entraram nas folhas de pagamentos para converter a paixão dos torcedores pelas camisas em vontade de arriscar.
Tudo isso como parte de uma estratégia de tornar o ato de apostar online algo tão normal quanto o evento esportivo em si e de se apresentar como um entretenimento tão banal quanto ir ao cinema. Segundo operadores do setor, após um ano de ações agressivas para consolidação de espaços, 2026 deve começar a registrar vendas, aquisições e fusões de marcas.
Nos casos de patrocínios individuais a jornalistas, quando eles se tornam embaixadores de marcas, vejo que as condutas flertam com as vedações do Código de Ética dos Jornalistas. Mas esse tem sido um não debate, até porque o jornalismo esportivo, sobretudo na TV e na internet, parece ter se fundido eternamente com o entretenimento e recalibrado princípios. As “publis” carregam alguma frase lacônica como “jogue com responsabilidade” e não se toca no assunto.
Em relação à publicidade em grandes empresas jornalísticas, não cabe aqui alimentar a teoria conspiratória de que a cobertura crítica de um segmento depende do aval dos financiadores. No jornalismo profissional e sério, essa máxima juvenil não procede.
Mas o fato é que tivemos que lidar, neste ano, com os efeitos da avalanche da propaganda dos sites de apostas. Além de gerar receita às empresas de comunicação, ela foi exitosa ao impor uma sensação de que o fenômeno das apostas é imparável e que não haveria problema algum nisso, pois o mercado está devidamente mapeado e limitado por regras modernas depois do limbo regulatório aberto em 2018.
O segmento das apostas, porém, continua com vários pontos de atenção descobertos, do tamanho ideal da contribuição tributária à pouca estrutura de fiscalização assertiva pelo governo federal – o que abre espaço para a cobertura jornalística em 2026.
O perigo da descentralização da regulação
Até um efeito rebote do mercado oficial tem sido desprezado. À medida que empresas se submetem a impostos e a controles oficiais, um flanco surge para sites fajutos irem ao ar com promessas de ganhos maiores e sem cumprir a legislação. Eles existem aos milhares e se aproveitam das dificuldades dos apostadores para entenderem o que é mais ou menos seguro. O problema é que as ilegais viraram uma carta na manga do corporativismo das autorizadas. A qualquer sugestão de endurecer as restrições, o setor invoca o argumento de que “as bets ilegais sairão fortalecidas”.
O governo comemora a derrubada de mais de 21 mil sites ilegais. Mas eles voltam ao ar em pouquíssimo tempo, com uma mera adaptação das URLs. Outros milhares de “bets chinesas” rodam fora do radar das autoridades e circulam dinheiro com dados roubados de beneficiários de programas sociais. Funcionando sem cumprir exigências básicas, as ilegais são mais propensas a atividades como lavagem de dinheiro e sonegação fiscal, e algumas já começaram a aparecer em investigações sobre organizações criminosas.
Há camadas de alerta ainda mais profundas.
Um exemplo é o lobby de empresas de apostas, sobretudo as de menor porte, para que o cadastro de bets legais deixe de ser exclusivo do governo central. A ideia é que possam escolher se solicitam autorização no Ministério da Fazenda ou no balcão da prefeitura de qualquer cidadezinha que queira atraí-las, ainda que sem estrutura jurídica ou administrativa razoável. Os riscos de operações de lavagem de capitais, de enfraquecimento de controles e de prejuízos arrecadatórios são relevantes.
Além disso, a regulamentação das bets abriu a porta para outros segmentos da jogatina. O Senado volta e meia ameaça colocar em pauta o Projeto de Lei 2.234/2022, que libera jogo do bicho, bingos e cassinos.
Cobertura para além da ludopatia
A minha percepção é a de que, até aqui, a cobertura jornalística, em geral, comportou-se como uma onda no início da regulamentação, principalmente para o importante serviço de alerta sobre riscos da ludopatia. Mesmo assim, de forma limitada. Quero estar errado, mas só vislumbro o tema de volta ao centro das atenções em 2026 na hipótese de um novo escândalo. Ou quando a Polícia Federal pautar os jornais, e não o contrário.
O “jogo do tigrinho”, por exemplo, que está liberado pela legislação, foi tratado como o maior vilão dos apostadores vulneráveis. A discussão sobre os riscos à saúde e às finanças familiares das apostas de quota fixa em modalidades esportivas, com seus planos primários e secundários, pareceu ter ficado em segundo plano. Por isso, vejo como sintomático o caso do jovem indígena que usa apostas em futebol estrangeiro como “ganha pão”, na Amazônia.
Passada a onda da novidade do mercado regulado e surtido o efeito da avalanche da propaganda, marolas de interesse se sobrepuseram na imprensa, como um todo. Uma delas, por exemplo, foi quando a pauta da manipulação de resultados esportivos voltou à tona envolvendo estrelas do futebol brasileiro. Ou quando a influenciadora famosa foi chamada à responsabilidade em uma CPI no Senado que foi engolida pelo anabolizado lobby pró-bets.
Enquanto isso, lá fora…
Enquanto no Brasil as bets estão em processo de acomodação, no exterior acumulam-se iniciativas para o caminho oposto. A maior liga de beisebol dos Estados Unidos restringiu cenários apostáveis para tentar limitar fraudes praticadas por jogadores. Uma pesquisa recente apontou que 6 em cada 10 americanos são céticos em relação à integridade dos esportes, por causa das bets. O futebol inglês se prepara para tirar, na próxima temporada, as bets dos uniformes das equipes. Por aqui, as casas de apostas são as principais patrocinadoras de 90% dos clubes da principal competição de futebol.
Considerando esses cenários, muita coisa ainda precisa dar errado por aqui para que tudo comece a ser aprimorado. O jornalismo pode e deve continuar contribuindo para isso.
Para ficar de olho em 2026:
A relação das bets com candidaturas e eleições.
O novo painel de dados sobre apostas de quota fixa, em desenvolvimento pelo Laboratório de Qualidade em Serviços Públicos (LabQ), do Ministério da Gestão e da Inovação, em parceria com o Ministério da Fazenda.
A votação no Senado do PL 2.234/2022, que legaliza modalidades como bingo, cassino e jogo do bicho.
O universo de sites de apostas ilegais, que seguem no ar aos milhares.
A pressão das bets por autorizações regionais.
Efetividade das ações do governo para conter irregularidades nas operações das bets autorizadas e exigir o cumprimento das regras.
Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2026. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.




