O jornalismo precisará amadurecer sua relação com a IA para não criar uma nova dependência
Em 2026, a valorização da imprensa passa pela educação midiática e pela criação de uma narrativa não apenas para o jornalismo se financiar, mas para existir – e a inspiração vem do jornalismo local
Ao longo dos últimos 30 anos, o jornalismo correu atrás da tecnologia como um bicho tentando alcançar o próprio rabo. Pareceu que o movimento de gerar dinheiro por meio do clique era próspero e perene. Porém, os donos dos brinquedos mudaram as regras. A cada momento, o chocalho balança em uma direção, desnorteando até mesmo os bem-intencionados e os esforçados. Um rodopio inútil, que levou à fadiga crescente e à inanição do jornalismo. Apesar disso, os veículos de mídia continuam mordendo a isca das big techs. Para piorar, agora também estão iludidos pela possibilidade de reduzir custos com a inteligência artificial generativa.
Desafiar a crise financeira do jornalismo significa desafiar a lógica de mercado. Como abrir mão do modelo de financiamento imposto pelas big techs sem ter outro a seguir? A resposta é fácil, o que não quer dizer que seja simples: é preciso criar uma nova narrativa para o jornalismo, não apenas para se financiar, mas para existir, ser relevante, estar conectado à audiência e ser transformador para a sociedade. Ou seja, é preciso resgatar a função social e também os modelos que já foram suficientes para a sustentabilidade – todos baseados na audiência e em estratégias comerciais.
Em uma das mesas do 20º Congresso da Abraji, ouvi algo que fez muito sentido: dizer que ‘o jornalismo é essencial para a democracia’ é vago demais para a compreensão de uma população animada pela polarização e pelas fake news. Portanto, em 2026, a valorização da imprensa vai passar pela educação midiática e, sobretudo, pela construção de um relacionamento mais baseado em ações do que em discursos.
Educar crianças, levar os jornais para as escolas, incluir no currículo o fazer da imprensa é um dos caminhos. O Jornal Joca, por exemplo, primeiro e maior jornal infantojuvenil do Brasil, coloca o público leitor no centro da narrativa, mas também na autoria, conectando estudantes, famílias, escolas, comunidades.
Mídias locais, independentes e nativas digitais têm feito um esforço extremo para se aproximar e suprir o que falta às suas comunidades.
O jornal O Cidadão, do Complexo de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro, produz memória e sentido de pertencimento ao praticar jornalismo comunitário. A Agência Tatu, de Alagoas, usa o jornalismo de dados para desenvolver soluções como o Litrômetro, que coleta os preços das notas fiscais dos postos para alimentar um monitor de preços de combustíveis. A Agência Mural, em São Paulo, demonstra sua relevância ao explicar os impactos reais de suas reportagens na vida das pessoas.
Iniciativas assim, testadas e replicadas, vão criando um repertório de soluções, um aceno ao jornalismo que vai prosperar em 2026. Será bem-sucedido aquele que entender sua audiência e usar todas as ferramentas disponíveis para alcançá-la. Será preciso combinar a essência do jornalismo com o melhor da tecnologia, porém sem depender da infraestrutura oferecida por empresas que impõem regras limitantes e caras, como, por exemplo, gatilhos de cobrança baseados em pageviews.
As armadilhas de um ano eleitoral
Em 2026, também podemos contar com o avanço da IA generativa a uma velocidade muito maior do que a de um acordo entre plataformas e publishers. No Brasil, não parece viável a união dos grandes players da indústria do jornalismo em busca de uma solução jurídica para que as plataformas remunerem os publishers pelos conteúdos utilizados no treinamento de suas LLMs.
Um agravante: estaremos em um ano eleitoral.
O Congresso Nacional estará ainda mais propenso a aceitar de bom grado o lobby das big techs do que evoluir em qualquer tipo de regulamentação, especialmente durante uma campanha política num país visivelmente polarizado e conflagrado.
A tendência é que os grandes grupos de mídia se empenhem em acordos ou ações individuais, enquanto os pequenos continuarão perdidos, tentando, a todo custo, um pedaço do bolo sem nutrientes que as prefeituras fatiam para distribuir conteúdo pronto, direcionado e parcial. Dinheiro este que, para chegar, segue regras: não mexer, não questionar, não abrir espaço para adversários políticos. Chamamos isso de chantagem.
Há ainda o vício sistêmico de governos e prefeituras de usar a métrica de volume de pageviews como critério para liberação de verbas, o que mina ainda mais o jornalismo local e regional, que dificilmente vai conseguir concorrer com os grandes.
Nova camada de dependência das plataformas
Sem alternativa a curto prazo, a avidez por substituir jornalistas pela IA generativa – o que, na teoria, reduz os custos de uma redação – é um risco predominante para 2026. Na prática, porém, isso apenas aumenta a dependência do jornalismo em relação às grandes empresas de tecnologia, não produz qualidade e nem traz dinheiro.
Dizer que não devemos ser dependentes de IA significa que não se deve usar a IA? Não! Significa que o jornalismo deve usá-la e não ser usado por ela. Que não se deve apenas deslocar ou associar mais uma dependência, caindo no conto de outro vigário. Que não devemos apenas aprender o SEO para a IA assim como consumimos anos aprendendo SEO para mecanismos de busca, que mudam o tempo todo o algoritmo.
A IA generativa é uma ferramenta para auxiliar nas demandas operacionais. Com elas, é possível analisar dados, decupar gravações, extrair insights de relatórios, entre outras tarefas. Mas a IA não substitui o humano e nem sua capacidade de criar repertório. Nós criamos contexto e entregamos à IA, e não o contrário.
No próximo ano, o maior desafio do jornalismo é não constituir, para seu negócio, outra relação de dependência, na qual nem as regras nem os benefícios estão claros.
Qualquer solução de financiamento passa por diversificação de receitas: assinaturas, anúncios, patrocínios, eventos, serviços adjacentes à comunicação, busca de verba da filantropia, participação em editais. E, para se conectar à audiência, o caminho são canais de distribuição que incluam redes sociais, mas também WhatsApp, por meio de comunidades, e canais próprios, como newsletter, por exemplo.
Tecnologia para fortalecer o jornalismo local
Outro desafio é buscar parceiros de tecnologia que garantam segurança cibernética. Idealizei o projeto Mais Pelo Jornalismo (MPJ), que oferece gratuitamente infraestrutura tecnológica para sites de notícias locais e regionais, visando proteger o jornalismo de ataques cibernéticos, por meio de tecnologia proprietária. A ideia é reunir até 1.000 publishers e trabalhar em rede, com soluções conjuntas, para fortalecer a produção de conteúdo autoral, com ferramentas próprias de licenciamento de reportagens, de publicidade programática e de publicidade legal.
Além disso, é preciso influenciar positivamente as mídias locais para o resgate do jornalismo de proximidade, aquele que não se faz a partir de uma tela de computador ou de um plugin de copia e cola de conteúdos pasteurizados ou virais. O publisher local precisa conhecer e contar as histórias da sua comunidade, apresentar e propor soluções para os seus problemas, cobrar e fiscalizar políticas públicas. Este é o jornalismo que as pessoas valorizam em 2025 e vão valorizar ainda mais em 2026.
Concorrer com grandes veículos, ter volume de publicações não autorais e garantir abertura por meio de clickbaits não vão trazer audiência consolidada nem dinheiro.
No ano que vem (e como vem acontecendo em anos recentes), a sustentabilidade do jornalismo no Brasil vai crescer das bordas, não do centro, e o futuro não está nos cliques, mas nas conexões. É preciso parar de olhar o jornalismo local como algo “menor”, pois ele é o campo de prova da democracia. É nele que o leitor confia, que o repórter conhece a fonte pelo nome, que a notícia ainda tem endereço e rosto.
Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2026. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.




