NFJ#312 oferecida por Science Pulse ☀️ Especial: as tendências do Reuters Institute para 2021

Na segunda edição de 2021, fizemos uma seleção das principais descobertas do estudo que ouviu 234 líderes de jornalismo e mídia em 43 países

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Buenas, moçada!

Moreno aqui. 

Tudo em ordem por aí? Por aqui, sobrevivendo ao calor do verão porto-alegrense e lidando com as incertezas do futuro à base de vinho verde e algumas corridas.

Começamos a news com uma correção enviada por uma de nossas leitoras: semana passada erramos o link do texto sobre transparência radical nas redações, de Celeste Headlee. Este aqui é o correto. Agradecemos sempre pela leitura atenta de vocês.

Antes ainda de irmos pra news, deixem eu dizer que hoje é o último dia que estará conosco o Science Pulse, projeto do ICFJ Knight Fellow Sérgio Spagnuolo, em colaboração com Volt Data Lab e apoio do International Center for Journalists (ICFJ) e da Agência Bori. Desde julho de 2020, o social listening do Pulse vem nos ajudando a conhecer e conversar com cientistas e a melhorar nossa cobertura de ciência. Mas isso é só o começo. Confiram esta mensagem do Sérgio sobre o que vem por aí:

Um dos motivos que estamos desenvolvendo o Science Pulse, além de acompanhar assuntos científicos, é desenvolver uma tecnologia de social listening que possa ser adotada por veículos de jornalismo e ONGs que queiram, por exemplo, monitorar discussões e cobrar transparência e accountability de autoridades.

Estamos bem avançados nesse objetivos. Nossa tecnologia vai amadurecendo à medida que aprendemos e ouvimos vocês, jornalistas e empreendedores.

Se você tiver interesse em fazer parcerias conosco ou adotar essa tecnologia para um projeto da sua organização, mande um email para sergio@voltdata.info.

O Farol Jornalismo só tem a agradecer pela parceria. E vamos seguir de olho no Science Pulse em 2021!

Bueno, agora vamos pra news. 

A exemplo da news passada, dedicaremos a NFJ#312 ao novo ano. O que vocês lerão a seguir é uma edição especial sobre o relatório de tendências para o jornalismo, mídia e tecnologia do Reuters Institute, publicado no dia 7 por Nic Newman. A Lívia leu todo o documento e selecionou os highlights pra contar pra vocês. Mas antes de iniciar a leitura, vale conferir o que Newman escreveu sobre a metodologia do trabalho:

234 pessoas responderam a um questionário fechado em dezembro de 2020. Os participantes, que estão em 43 países [inclusive o Brasil], foram selecionados porque possuem cargos sênior em veículos tradicionais ou nativos digitais. E também porque eram as pessoas responsáveis pela estratégia digital ou de um planejamento de mídia mais amplo nas empresas em que atuavam. Os resultados refletem as estratégias adotadodas por esses profissionais. Não podem ser vistos, portanto, como reflexo de uma amostra mais representativa.

Certo. Agora bora conferir as principais descobertas do relatório.


☀️ Para a grande maioria dos editores e líderes (76%), a pandemia de Covid-19 acelerou os planos de transformação digital, o que inclui mudanças nas práticas de trabalho, nos formatos, nos modelos de negócios e na forma como pensam inovação. O trabalho remoto passou a ser realidade e, apesar do aumento da eficiência, há uma preocupação com o cansaço e a perda de criatividade. 2021 será o ano em que publishers farão escolhas quanto ao modo de trabalho (remoto, físico ou híbrido) e, surpreendentemente, haverá um aumento da reportagem face-a-face - os editores perceberam o quanto o contato físico com as comunidades fez falta. O jornalismo estará focado na explicação de fatos, em narrativas visuais baseadas em dados e na utilização de fontes especializadas. Os entrevistados também esperam uma aceleração da mudança para conteúdos pagos (Nic Newman lembra que só o NYT ganhou mais de um milhão de assinantes digitais em 2020). Para diversificar as fontes de receita e diminuir a dependência da publicidade, uma tendência para este ano é o e-commerce. O aumento das compras online gerado pela pandemia despertou o interesse dos publishers, que estão atuando como varejistas, diz Newman. O BuzzFeed, por exemplo, criou sua própria linha de produtos de cozinha vinculados à sua popular marca Tasty. Os eventos online, que tiveram um boom na pandemia, continuarão a ser utilizados, com aumento no profissionalismo e na produção. Com relação à inovação, as empresas tendem a se concentrar em melhorias de produtos e marcas existentes (70% disseram que farão isso), principalmente em design e experiência do usuário.


☀️ Uma das maiores mudanças na mídia este ano foi o aumento do investimento financeiro das plataformas no jornalismo. Em 2021, à medida que esses negócios se tornam claros, a expectativa é de tensão entre publishers e plataformas com relação aos critérios de seleção das organizações remuneradas. E há inúmeras solicitações. Alguns dos entrevistados gostariam que as plataformas adotassem uma abordagem mais proativa para priorizar notícias confiáveis e jornalismo original. Outros pedem mais dados sobre o desempenho de seu conteúdo e sobre os usuários que estariam dispostos a pagar. Outra tendência para este ano gira em torno da regulação das plataformas. A previsão é que muitos governos vão apresentar planos para legislar aspectos da atividade online. E os líderes estão otimistas quanto a isso. Mais de um terço (36%) acha que as mudanças nas políticas poderiam ajudar o jornalismo (ano passado eram apenas 18%). Para Newman, essa mudança de sentimento pode refletir a confiança de que os governos estão finalmente preparados para tomar medidas mais ousadas para ajudar os publishers.


☀️ Imparcialidade x busca por clareza moral é outro tópico em destaque no especial do Reuters Institute. O aumento do populismo, os protestos contra a injustiça social e a desigualdade, a queda da confiança nas instituições e o surgimento de teorias da conspiração criaram um novo conjunto de circunstâncias para os jornalistas. Newman pergunta: “Uma abordagem tradicional de expor desapaixonadamente todos os argumentos e deixar que as pessoas façam seu próprio julgamento ainda se mantém?”. A resposta dos editores e líderes revela resistência para essas mudanças. A grande maioria (88%) dizem que a imparcialidade é mais importante do que nunca, mas muitos também reconhecem (48%) que existem algumas questões (democracia, racismo) em que não é apropriado que jornalistas tomem uma posição neutra. Em 2021, as redações terão que definir o que entendem por imparcialidade. Newman lembra que o novo diretor-geral da BBC, por exemplo, colocou a imparcialidade no centro de sua visão e planeja reprimir os jornalistas que expressam opiniões nas redes sociais. Além disso, a tendência é de crescimento de canais online partidários (via YouTube e Facebook). O estudo já identifica uma migração dos conservadores para a rede social Parler, um aplicativo semelhante ao Twitter que se descreve como a "principal rede social de liberdade de expressão" do mundo.


☀️ 2020 foi o ano das newsletters como estratégia de engajamento. Diversos jornalistas experientes inclusive deixaram seus empregos tradicionais para abrir seus próprios negócios, principalmente baseados em newsletters. Newman destaca que essa tendência lembra a revolução dos blogs há mais de uma década, que deu aos autores liberdade para escrever sobre diversos assuntos, sem as restrições de uma redação tradicional. Mas ele salienta que a diferença agora é que essas novas plataformas, como o Substack, por exemplo, são voltadas para assinaturas e não para publicidade, o que incentiva uma abordagem baseada na qualidade do conteúdo que pode ser mais sustentável. Embora haja uma tendência de que publishers continuem investindo em newsletters, o estudo prevê uma dificuldade dos leitores de consumir tanto conteúdo por e-mail. Com relação aos podcasts, que tiveram grande sucesso em 2020, a tendência é de fortalecimento dos modelos pagos, com oportunidades de venda de assinaturas diretas por meio de aplicativos de podcast. Outra previsão é de maior uso dos podcasts em vídeo e de experimentação com formato longform.


☀️ Entre as tecnologias de última geração, a pesquisa mostra que os editores e líderes veem a inteligência artificial como o maior facilitador para o jornalismo nos próximos anos. Mais de dois terços (69%) a mencionaram, em comparação com cerca de 18% que votaram pelos benefícios de uma conectividade 5G mais rápida e 9% que disseram que novos dispositivos teriam maior impacto. Em 2021, uma das áreas mais interessantes de observar será a automação ou semiautomação de novos formatos de texto, diz Newman. Os avanços no aprendizado de máquina também vão melhorar as traduções automáticas, incluindo modelos neurais que possibilitaram traduções de alta qualidade em mais de 100 idiomas. Em contrapartida, o estudo prevê que as desvantagens da inteligência artificial vão se tornar mais aparentes, como o uso de deep fakes. Outra tecnologia emergente é a rede 5G que, para as redações, vai possibilitar reportagens móveis de alta definição, por exemplo. Espera-se também um aumento de dispositivos vestíveis (wearables) com foco em saúde e também de gadgets audíveis (hearables), como Apple AirPod. Apesar da queda de preços, os smart speakers ainda não emplacaram. Por fim, o estudo afirma que os óculos inteligentes (smart glasses) estão de volta, a partir da entrada da Apple neste mercado em 2021.


☀️ Fechamos com o tradicional bloco SORTIDO. Na Folha, uma pesquisa dizendo que "disseminação do jornalismo profissional reduz influência de fake news". | Na sequência, leiam este artigo de Taís Seibt sobre o que é jornalismo profissional. | Ainda sobre jornalismo, vale ler também esta coluna da Folha. | Vocês devem ter visto que a Repórter Brasil foi vítima de ataques online e sua sede sofreu tentativa de arrombamento. A Abraji condenou a violência. | No Novo em Folha, informações sobre o livro que compara a cultura jornalística de 60 países. | Também no blog da Folha, informações sobre uma bolsa para jornalismo investigativo sobre crimes ambientais. | Vaga na BBC Brasil para trabalhar com redes sociais. | Saiba quem são os finalistas do Prêmio Gabo. | O Nexo está com um processo seletivo para estagiárias negras. | Na Latam Journalism Review, uma resenha sobre o documentário Confinado, que conta a história da perseguição da ditadura a Hélio Fernandes, proprietário do jornal Tribuna da Imprensa. | A Google News Initiative está destinando US$ 3 milhões para combater a desinformação relacionada às vacinas da Covid-19. | Nesta coluna, Pedro Doria reflete sobre as recentes ações de plataformas de redes sociais depois da invasão ao Capitólio. "Empresas de tecnologia têm o direito de calar alguém?, pergunta Doria. | No Axios, a lista de todas as plataformas que já baniram Trump.


É isso, moçada!

Bom final de semana e até sexta que vem!

Moreno Osório e Lívia Vieira


Nosso agradecimento de <3 vai para:

Adri Brum, Adriana Martorano Vieira, Alciane Baccin, Ana Claudia Gruszynski, André Caramante, André Roca, André Schröder, Andrei Rossetto, Ariane Camilo Pinheiro Alves, Bárbara Pereira Libório, Beatriz de Arruda, Bernardete Melo de Cruz, Bibiana Garcez, Bibiana Osório, Boanerges Balbino Lopes Filho, Caio Cesar Giannini Oliviera, Carolina Oms, Casemiro Alves, Cristiane Lindemann, Davi Souza Monteiro de Barros, Diego Freitas Furtado, Diego Queijo, Edimilson do Amaral Donini, Eliane Vieira, Emilene Lopes, Estelita Hass Carazzai, Fabiana Moraes, FêCris Vasconcellos, Felipe Branco Cruz, Felipe Seligman, Filipe Techera, Flavio Dutra, Gabriela Favre, Giuliander Carpes, Giulliana Bianconi, Guilherme Nagamine, Janaína Kalsing, João Vicente Ribas, Jonas Gonçalves da Silva, Jorge Eduardo Dantas de Oliveira, Leticia Monteiro, Lia Gabriela Pagoto, Lilian Venturini Gavaldão, Lucia Monteiro Mesquita, Luciana Kraemer, Luiza Bandeira, Marcela Duarte, Marcelo Crispim da Fontoura, Marco Túlio Pires, Margot Pavan, Maria Carolina Medeiros, Maria Elisa Maximo, Maria Inês Möllmann, Mateus Marcel Netzel, Mayara Penina, Michelle Raphaelli, Nadia Leal, Nara Leal, Natália Levien Leal, Nícolas Barbosa, Noites Gregas, Paula Bianchi, Paulo Talarico, Pedro Burgos, Pedro Luiz da Silveira Osório, Pedro Rocha Franco, Priscila dos Santos Pacheco, Rafael Grohmann, Raquel Ritter Longhi, Regina Maria Pozzobon, Roberto Nogueira Gerosa, Roberto Villar Belmonte, Rodrigo Muzell, Rogerio Christofoletti, Rosental C Alves, Samanta Dias do Carmo, Sérgio Lüdtke, Sérgio Spagnuolo, Silvio Sodré, Suzana Oliveira Barbosa, Tai Nalon, Tais Seibt, Vivian Augustin Eichler, Washington José de Souza Filho.